Ultrassom transvaginal: pode fazer menstruada? Dói? Pode confundir mioma com gravidez?

Sala de ultrassom ginecológico com aparelho mostrando imagem do útero

Sim, em geral é possível fazer ultrassom transvaginal menstruada. O sangramento não atrapalha a imagem na maioria dos casos, não é contraindicação e não traz risco para a paciente. O que muda é o conforto e, para algumas indicações, o melhor momento do ciclo: a avaliação de pólipos e do endométrio costuma ser mais precisa logo após o fim da menstruação, enquanto a contagem de folículos antrais é feita justamente nos primeiros dias do ciclo. Quanto à outra dúvida comum, o ultrassom raramente confunde mioma com gravidez quando o exame é bem feito e interpretado junto com o beta-hCG, mas há situações específicas, como mioma degenerado ou gestação muito inicial, em que a dúvida pode surgir.

Este guia responde às perguntas mais buscadas por pacientes (se dói, como é feito, qual o preparo) e traz, para estudantes e profissionais, a técnica, a melhor fase do ciclo para cada indicação, o que descrever no laudo e como diferenciar leiomioma de saco gestacional.

O que é o ultrassom transvaginal

É o ultrassom feito com um transdutor fino, colocado no canal vaginal. Como ele fica mais perto do útero e dos ovários, usa frequências mais altas que o transdutor abdominal e mostra mais detalhes do endométrio, do miométrio, dos ovários e do início da gestação.

É o exame de escolha para investigar sangramento uterino anormal, dor pélvica, miomas, pólipos, cistos ovarianos, endometriose, acompanhamento de ovulação e gestação inicial. Em muitos serviços, o exame pélvico combina as duas vias: começa pela via abdominal para uma visão geral e completa pela transvaginal.

Dói? Como o exame é feito

Na maioria das pacientes, o ultrassom transvaginal não dói. A sensação mais comum é de pressão leve, parecida com a de um exame ginecológico de rotina. O passo a passo costuma ser assim:

  1. A paciente esvazia a bexiga e fica deitada de costas, com os joelhos dobrados.
  2. O transdutor é coberto com uma capa protetora descartável e gel.
  3. O médico introduz o transdutor com cuidado, apenas alguns centímetros, e faz movimentos suaves para ver útero e ovários.
  4. O exame dura, em geral, de 10 a 20 minutos.

Pode haver desconforto maior quando existe endometriose, inflamação pélvica, cisto grande ou quando o médico pressiona um ponto dolorido de propósito, para saber se aquela região corresponde à dor da paciente. Avise se sentir dor: o exame pode ser feito com mais calma ou interrompido.

Alguns pontos importantes:

  • Quem nunca teve relação sexual em geral não faz a via transvaginal. As alternativas são o ultrassom pélvico por via abdominal ou, em casos selecionados, a via transretal ou transperineal.
  • Alergia a látex deve ser informada antes, porque algumas capas protetoras contêm látex.
  • Na gravidez, o transvaginal é seguro e é o melhor método no primeiro trimestre.

Preparo: bexiga vazia

Ao contrário do ultrassom pélvico abdominal, que pede bexiga cheia, o transvaginal é feito com bexiga vazia. A bexiga cheia empurra o útero para longe do transdutor e piora a imagem. Não é preciso jejum. Alguns serviços pedem preparo intestinal quando o objetivo é mapear endometriose profunda, mas isso varia entre as clínicas. Veja mais detalhes no nosso guia sobre preparo para ultrassom: jejum e bexiga cheia.

Pode fazer ultrassom transvaginal menstruada?

Pode. O fluxo menstrual não impede o exame nem contamina o equipamento, porque o transdutor usa capa descartável e passa por desinfecção entre as pacientes. Se o pedido for urgente, como dor pélvica aguda, suspeita de gravidez ectópica ou sangramento intenso, o exame deve ser feito no dia, independentemente da menstruação.

Quando o exame é eletivo, a paciente pode remarcar por conforto, e às vezes o próprio médico prefere outra fase do ciclo. Durante a menstruação, pode haver sangue e coágulos dentro da cavidade uterina, o que às vezes dificulta a avaliação de pequenos pólipos ou miomas submucosos. Por outro lado, para a contagem de folículos antrais, os primeiros dias do ciclo são justamente a janela recomendada.

Melhor fase do ciclo para cada indicação

Indicação Fase do ciclo mais usada Por quê
Avaliação de rotina, dor pélvica, miomas Qualquer fase Miomas e anatomia uterina são bem vistos em todo o ciclo
Endométrio, pólipos e sangramento uterino anormal (pré-menopausa) Fase proliferativa inicial, logo após o fim da menstruação Endométrio mais fino e homogêneo, o que facilita ver lesões focais
Histerossonografia (infusão de soro na cavidade) Após o fim do sangramento e antes da ovulação Cavidade sem coágulos e menor chance de gestação inicial não suspeitada
Contagem de folículos antrais (reserva ovariana) Fase folicular precoce, em geral entre o 2º e o 4º dia Recomendação de padronização para a contagem
Monitorização da ovulação Exame basal no início do ciclo e exames seriados até a ovulação Acompanhar o crescimento do folículo dominante e a resposta ao tratamento
Mapeamento de endometriose Em geral, qualquer fase O consenso IDEA não exige fase específica; alguns serviços preferem evitar a menstruação
Cisto ovariano funcional duvidoso Repetir em outra fase do ciclo, quando indicado Cistos foliculares e de corpo lúteo costumam desaparecer ou mudar

Na pós-menopausa, a fase do ciclo não se aplica. Em mulheres em uso de terapia hormonal com sangramento cíclico, em geral se prefere examinar logo após o sangramento de privação.

O ultrassom pode confundir mioma com gravidez?

Na prática, é incomum. Mioma e saco gestacional têm aspectos bem diferentes:

  • Mioma (leiomioma) é um nódulo sólido, em geral bem delimitado, de ecogenicidade variável, com sombras acústicas em leque e vascularização predominantemente na periferia.
  • Saco gestacional é uma estrutura cística, com anel ecogênico ao redor (a reação do trofoblasto), localizada de forma excêntrica dentro do endométrio. Com o avanço das semanas, aparecem a vesícula vitelínica e depois o embrião com batimentos.

A confusão pode acontecer em situações específicas:

  • Gestação muito inicial, antes de o saco ser visível. Nesse momento o ultrassom pode ser normal e só o beta-hCG mostra a gravidez. Saiba mais em com quantas semanas o bebê aparece no ultrassom.
  • Mioma com degeneração cística, que pode ter área líquida central e lembrar um saco.
  • Mioma submucoso que deforma a cavidade, ou líquido dentro da cavidade, que pode lembrar uma estrutura gestacional.
  • Pseudossaco da gravidez ectópica: líquido na cavidade, sem anel trofoblástico, que pode ser confundido com gestação intrauterina.
  • Útero aumentado ao exame físico, que leva a suspeita de gravidez quando, na verdade, é um útero miomatoso.

Também é possível ter mioma e gravidez ao mesmo tempo, o que é relativamente comum. Por isso, diante de qualquer dúvida, a conduta é correlacionar com o beta-hCG e, quando necessário, repetir o ultrassom em alguns dias.

Para profissionais: como diferenciar leiomioma de saco gestacional

Característica Leiomioma Saco gestacional inicial
Conteúdo Sólido (pode ter áreas císticas se degenerado) Líquido anecoico
Parede Contorno do nódulo, às vezes com pseudocápsula Anel ecogênico de reação decidual e trofoblástica
Localização Miométrio, podendo projetar-se na cavidade (submucoso) ou para fora (subseroso) Dentro da decídua, excêntrico em relação à linha endometrial
Estruturas internas Ausentes Vesícula vitelínica e, depois, embrião
Doppler Vascularização periférica, circunferencial Fluxo trofoblástico de baixa resistência ao redor do saco
Sombra acústica Frequente, em leque Ausente
Evolução em poucos dias Estável Cresce, com estruturas aparecendo em sequência

Alguns sinais ajudam a confirmar a gestação intrauterina, como o sinal intradecidual (saco implantado dentro da decídua, ao lado da linha endometrial) e o sinal do duplo saco decidual. A ausência desses sinais, com beta-hCG positivo, não descarta gravidez inicial nem confirma ectópica: pede seguimento.

Quando a gestação é identificada mas o embrião não aparece, os critérios de Doubilet e colaboradores (Society of Radiologists in Ultrasound, 2013) para gestação não viável são: diâmetro médio do saco de 25 mm ou mais sem embrião, ou embrião com comprimento cabeça-nádega de 7 mm ou mais sem batimentos cardíacos. Abaixo disso, a recomendação é repetir o exame em vez de concluir pela perda.

Técnica para profissionais

  • Bexiga vazia e paciente em posição de litotomia, idealmente com a pelve elevada para permitir angular o transdutor.
  • Varredura sistemática do útero nos planos sagital e transversal, de um corno ao outro e do fundo ao colo.
  • Endométrio medido no plano sagital médio, na maior espessura, incluindo as duas camadas, de interface a interface. Se houver líquido na cavidade, mede-se cada camada e o líquido fica de fora, como propõe o consenso IETA.
  • Ovários medidos em três diâmetros, com descrição dos folículos e de qualquer lesão.
  • Exame dinâmico: pressão com o transdutor e com a mão no abdome para avaliar mobilidade dos órgãos, pontos dolorosos e o sinal de deslizamento entre útero e reto, útil na endometriose profunda.
  • Doppler colorido em lesões, com ajustes para fluxo lento.
  • Ultrassom 3D, quando disponível, para o plano coronal do útero, útil em malformações uterinas e na localização de miomas e DIU.

A limpeza do transdutor endocavitário inclui capa descartável e desinfecção de alto nível entre pacientes, conforme as recomendações das sociedades de ultrassonografia.

O que descrever no laudo

Um laudo de ultrassom transvaginal útil traz:

  • Dados clínicos: data da última menstruação ou dia do ciclo, menopausa, uso de terapia hormonal, tamoxifeno ou DIU, e a indicação do exame.
  • Útero: posição, contornos, dimensões nos três eixos e aspecto do miométrio.
  • Miomas: número, localização, medidas nos três eixos e relação com a cavidade, usando a classificação da FIGO (tipos 0 a 8) e os termos do consenso MUSA. Quando são muitos, descrever os maiores e os que tocam a cavidade.
  • Endométrio: espessura, ecogenicidade, contorno da linha média e lesões focais, com a terminologia IETA.
  • Ovários: dimensões, folículos (e contagem de folículos antrais quando pedida) e lesões descritas com os termos IOTA e categoria O-RADS. Veja nosso guia de O-RADS US para lesões ovarianas.
  • Gestação inicial, se houver: localização do saco, diâmetro médio, vesícula vitelínica, embrião, comprimento cabeça-nádega e batimentos cardíacos.
  • Fundo de saco: presença e quantidade de líquido livre.
  • Achados dinâmicos: sinal de deslizamento, mobilidade dos ovários e pontos de dor, quando avaliados.
  • Limitações: menstruação com coágulos na cavidade, útero muito volumoso, obesidade, gases ou exame interrompido por desconforto.

Na conclusão, descreva os achados de forma objetiva e, quando houver dúvida entre mioma degenerado e gestação, recomende correlação com beta-hCG e controle evolutivo, sem afirmar o que a imagem não sustenta.

Erros comuns

Medir o endométrio com líquido incluído

O líquido na cavidade não faz parte da espessura endometrial. Incluí-lo superestima a medida e pode gerar investigação desnecessária, principalmente na pós-menopausa.

Ignorar a fase do ciclo

Um endométrio espesso e heterogêneo na fase secretora pode ser normal. Sem o dia do ciclo no laudo, o achado perde contexto. Pólipos pequenos também podem passar despercebidos nessa fase.

Chamar de saco gestacional qualquer líquido na cavidade

Com beta-hCG positivo, líquido central e sem anel trofoblástico pode ser pseudossaco de ectópica. Avalie sempre os anexos e o fundo de saco.

Concluir perda gestacional antes dos critérios

Saco pequeno sem embrião, abaixo dos limites de Doubilet, pede repetição do exame, não diagnóstico de gestação não viável.

Descrever mioma sem relação com a cavidade

Para o ginecologista, saber se o mioma é submucoso e quanto dele está dentro da cavidade muda a escolha do tratamento. Use a classificação FIGO.

Não avaliar o ovário contralateral e os anexos

Em dor pélvica e suspeita de ectópica, focar só no útero é um erro frequente. A varredura deve ser completa.

Perguntas frequentes

O ultrassom transvaginal dói?

Em geral, não. A maioria sente apenas pressão leve. Pode haver mais desconforto em casos de endometriose ou inflamação. Avise o médico se doer.

Pode fazer ultrassom transvaginal menstruada?

Sim. O exame pode ser feito durante a menstruação. Para algumas indicações, como avaliação de pólipos, o médico pode preferir remarcar para logo após o fim do sangramento.

Precisa estar de bexiga cheia?

Não. O transvaginal é feito com a bexiga vazia. A bexiga cheia é pedida no ultrassom pélvico pela via abdominal.

Virgem pode fazer ultrassom transvaginal?

Em geral, não se faz a via transvaginal em quem nunca teve relação sexual. O ultrassom pélvico abdominal costuma ser a alternativa.

O ultrassom pode confundir mioma com gravidez?

É incomum. Pode haver dúvida em gestação muito inicial ou em mioma com degeneração cística. O beta-hCG e um exame de controle esclarecem.

O transvaginal faz mal na gravidez?

Não. É seguro e é o melhor método para avaliar a gestação no primeiro trimestre.

Quanto tempo dura o exame?

Em geral, de 10 a 20 minutos, podendo ser mais longo no mapeamento de endometriose.

Conclusão

O ultrassom transvaginal é um exame rápido, seguro e, em geral, pouco desconfortável. Pode ser feito durante a menstruação, com bexiga vazia e sem jejum. Para quem faz o exame, escolher a fase certa do ciclo, medir o endométrio com técnica padronizada e usar as terminologias MUSA, IETA, IOTA e FIGO tornam o laudo mais claro e comparável. Diante de dúvida entre mioma e gestação, o caminho é sempre correlacionar com o beta-hCG e com a evolução.

Se você quer que dia do ciclo, classificação FIGO dos miomas, espessura endometrial e categoria O-RADS tenham campo próprio no seu laudo de ultrassom transvaginal, conheça o UltraLaudo, plataforma de laudos estruturados de ultrassonografia.


Referências

  • Van den Bosch T, Dueholm M, Leone FPG, et al. Terms, definitions and measurements to describe sonographic features of myometrium and uterine masses: a consensus opinion from the Morphological Uterus Sonographic Assessment (MUSA) group. Ultrasound in Obstetrics & Gynecology, 2015.
  • Leone FPG, Timmerman D, Bourne T, et al. Terms, definitions and measurements to describe the sonographic features of the endometrium and intrauterine lesions: a consensus opinion from the International Endometrial Tumor Analysis (IETA) group. Ultrasound in Obstetrics & Gynecology, 2010.
  • Guerriero S, Condous G, van den Bosch T, et al. Systematic approach to sonographic evaluation of the pelvis in women with suspected endometriosis, including terms, definitions and measurements: a consensus opinion from the International Deep Endometriosis Analysis (IDEA) group. Ultrasound in Obstetrics & Gynecology, 2016.
  • Doubilet PM, Benson CB, Bourne T, et al. Diagnostic criteria for nonviable pregnancy early in the first trimester. New England Journal of Medicine, 2013.
  • Munro MG, Critchley HOD, Fraser IS; FIGO Menstrual Disorders Committee. The two FIGO systems for normal and abnormal uterine bleeding symptoms and classification of causes of abnormal uterine bleeding in the reproductive years: 2018 revisions. International Journal of Gynecology & Obstetrics, 2018.
  • Broekmans FJ, de Ziegler D, Howles CM, et al. The antral follicle count: practical recommendations for better standardization. Fertility and Sterility, 2010.
  • Andreotti RF, Timmerman D, Strachowski LM, et al. O-RADS US risk stratification and management system: a consensus guideline from the ACR Ovarian-Adnexal Reporting and Data System Committee. Radiology, 2020.
  • AIUM, ACR, ACOG, SPR, SRU. Practice Parameter for the Performance of an Ultrasound Examination of the Female Pelvis. Journal of Ultrasound in Medicine, 2020.

Este conteúdo tem finalidade educacional e não substitui a avaliação médica. A indicação do ultrassom transvaginal e a interpretação do resultado cabem ao médico que acompanha a paciente.

Respostas

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