A espessura endometrial normal depende do contexto. Na menacme, o endométrio varia com o ciclo, de cerca de 1 a 4 mm na menstruação até 7 a 16 mm na fase secretora, e não existe um corte único. Na pós-menopausa com sangramento, um endométrio de até 4 mm (ACOG) ou até 5 mm (consenso SRU), bem visualizado ao transvaginal, praticamente exclui câncer; acima disso, ou se a medida não for confiável, segue-se para histerossonografia, histeroscopia ou biópsia. Na pós-menopausa assintomática, esses cortes não se aplicam: a diretriz canadense (SOGC, 2024) usa 11 mm, e há quem defenda limites menores, a partir de 8 mm.
Resumo rápido
- Medida no corte sagital mediano, na maior espessura, em dupla camada, de interface endométrio-miométrio a interface; com líquido na cavidade, somam-se as duas camadas simples.
- Pós-menopausa com sangramento: ≤ 4 mm (ACOG) ou ≤ 5 mm (SRU) com endométrio bem visto tem alto valor preditivo negativo para câncer.
- Sangramento persistente ou recorrente indica avaliação histológica mesmo com endométrio fino.
- Pós-menopausa sem sangramento: não extrapolar o corte de 4 a 5 mm. Referências entre 8 e 11 mm, sempre com fatores de risco e morfologia.
- Terapia hormonal com sangramento não programado: ≤ 4 mm no esquema combinado contínuo e ≤ 7 mm no sequencial são tranquilizadores (BMS).
- Tamoxifeno: ultrassom de rastreamento em assintomática não é recomendado; a medida é pouco confiável por alterações subendometriais.
Este texto aprofunda a espessura endometrial e a terminologia IETA. Mioma, adenomiose e pólipo estão no nosso guia de ultrassom do útero: mioma, adenomiose e pólipo endometrial.
Como medir a espessura endometrial no ultrassom
A técnica foi padronizada pelo grupo IETA (International Endometrial Tumor Analysis) em 2010 e reforçada pelo consenso da ISUOG sobre avaliação ultrassonográfica do endométrio, publicado em 2026. A via de escolha é a transvaginal, com bexiga vazia.
- Plano: corte sagital mediano do útero, com o eco endometrial visto do fundo ao canal cervical.
- Ponto de medida: onde o endométrio é mais espesso, com os calipers perpendiculares à linha média.
- Limites: de uma interface endométrio-miométrio à outra, incluindo as duas camadas (dupla camada). O halo hipoecoico subendometrial pertence ao miométrio e fica fora.
- Líquido intracavitário: não entra na medida. Medem-se as duas camadas simples e somam-se os valores.
- Lesão focal: pelo IETA, a espessura total inclui a lesão (por exemplo, um pólipo), que também é descrita à parte. Um mioma submucoso bem delimitado é excluído.
- Endométrio não visualizado por inteiro: registrar como “não mensurável”, em vez de forçar um número.
- Unidade: milímetros, com uma casa decimal quando o aparelho permitir.

Amplie a imagem até o útero ocupar a maior parte da tela: diferenças de 1 a 2 mm mudam a conduta justamente na faixa de 4 a 5 mm.
Valores de referência da espessura endometrial normal
Menacme: valores por fase do ciclo
Na mulher que menstrua, a espessura acompanha o ciclo e não há um corte de normalidade isolado. Os valores abaixo são aproximados, vêm de revisões de imagem (Nalaboff e colaboradores, RadioGraphics, 2001) e variam entre as fontes e entre mulheres.
| Fase do ciclo | Aspecto ao ultrassom | Espessura aproximada (dupla camada) |
|---|---|---|
| Menstrual | Linha fina ecogênica, pode haver sangue ou líquido | cerca de 1 a 4 mm |
| Proliferativa inicial | Fino, discretamente ecogênico | cerca de 5 a 7 mm |
| Proliferativa tardia / periovulatória | Trilaminar (padrão “em três linhas”) | até cerca de 11 mm |
| Secretora | Hiperecogênico e homogêneo, mais espesso | cerca de 7 a 16 mm |
Por isso, o laudo da paciente na menacme deve trazer a data da última menstruação ou a fase presumida do ciclo. Um endométrio de 14 mm hiperecogênico na fase secretora é esperado; o mesmo valor no início da fase proliferativa merece atenção. Contraceptivos hormonais costumam afinar o endométrio. Para procurar pólipo ou lesão focal, o melhor momento em geral é a fase proliferativa inicial, logo após a menstruação. Se o objetivo é acompanhar o padrão trilaminar na ovulação, veja o post sobre foliculometria.
No sangramento uterino anormal da menacme, a espessura isolada tem pouco valor. O que pesa é a morfologia: lesão focal, ecotextura heterogênea, junção endométrio-miométrio irregular e padrão vascular.
Pós-menopausa com sangramento: 4 mm ou 5 mm
É o cenário em que a espessura tem melhor desempenho.
- ACOG (Committee Opinion 734, 2018): endométrio ≤ 4 mm ao transvaginal tem valor preditivo negativo acima de 99% para câncer de endométrio, e a amostragem não é obrigatória. Acima de 4 mm, recomenda-se avaliação adicional: histerossonografia, histeroscopia ambulatorial ou biópsia.
- Consenso da Society of Radiologists in Ultrasound (Goldstein e colaboradores, 2001): considera anormal a espessura acima de 5 mm, com sensibilidade comparável à da biópsia endometrial.
- Meta-análise de Smith-Bindman (JAMA, 1998): com corte de 5 mm, sensibilidade de 96% para câncer. Nas usuárias de terapia hormonal, a especificidade para doença endometrial caiu de 92% para 77%.
- Meta-análise de Timmermans (Obstet Gynecol, 2010): propôs 3 mm para aumentar a sensibilidade, à custa de mais procedimentos. Na prática, 4 mm segue como o corte mais usado.
Três ressalvas do ACOG mudam a conduta:
- Endométrio mal visualizado (útero retrovertido, miomas, adenomiose, obesidade, cirurgia prévia) não permite tranquilizar. Indica-se outro método.
- Sangramento persistente ou recorrente exige avaliação histológica, mesmo com endométrio fino.
- O corte foi validado em mulheres com sangramento. Não serve de regra para a assintomática.
Pós-menopausa assintomática: o debate de 8 a 11 mm
Aplicar 4 ou 5 mm ao achado incidental em mulher sem sangramento gera muitas biópsias e histeroscopias desnecessárias.
- SOGC, Guideline n.º 451 (2024): sem sangramento, sem fatores de risco e com espessamento difuso abaixo de 11 mm, não há indicação de investigação invasiva. Acima de 11 mm, e/ou com outros achados (vascularização aumentada, heterogeneidade, líquido com partículas), indica-se amostragem ou encaminhamento ao ginecologista. A diretriz também afirma que o ultrassom transvaginal não deve ser usado como rastreamento de câncer de endométrio e que os critérios da mulher com sangramento não devem ser extrapolados.
- Smith-Bindman e colaboradores (Ultrasound Obstet Gynecol, 2004): modelo de decisão que estimou risco de câncer de cerca de 6,7% quando o endométrio passa de 11 mm na assintomática, semelhante ao da mulher com sangramento e endométrio acima de 5 mm.
- Zhang e colaboradores (BMC Women’s Health, 2022): em 968 assintomáticas com endométrio ≥ 5 mm submetidas a histeroscopia, o melhor corte para hiperplasia atípica ou câncer foi 8 mm (sensibilidade 84,6%, especificidade 60,9%), mas com apenas 13 casos de doença.
Em resumo, 11 mm é o corte com respaldo de diretriz, e 8 mm é uma proposta mais sensível com evidência menor. Entre 4 e 11 mm, a decisão é individual: obesidade, diabetes, hipertensão, menopausa tardia, estrogênio sem oposição e síndrome de Lynch pesam a favor de investigar, assim como qualquer achado morfológico suspeito.
Terapia hormonal e tamoxifeno
Terapia hormonal da menopausa
A terapia hormonal aumenta a espessura média e reduz a especificidade dos cortes clássicos. Para mulheres com sangramento não programado em terapia hormonal, a diretriz da British Menopause Society (2024, revisada em 2026) considera de baixo risco um endométrio uniforme, totalmente visualizado e:
- ≤ 4 mm no esquema combinado contínuo;
- ≤ 7 mm no esquema sequencial.
Acima desses valores, a recomendação é encaminhar para biópsia e/ou histeroscopia. No esquema sequencial, o exame deve ser feito logo após o sangramento de privação, quando o endométrio está mais fino. Por isso, o laudo precisa informar o tipo de terapia e o momento do ciclo de progestagênio.
Tamoxifeno
O tamoxifeno tem efeito estrogênico no útero da mulher pós-menopáusica e causa alterações subendometriais císticas e edema estromal, que fazem o endométrio parecer espesso e heterogêneo mesmo quando a histologia mostra atrofia. Pontos práticos:
- O ACOG (Committee Opinion 601, 2014) não recomenda vigilância endometrial de rotina em usuárias assintomáticas, salvo alto risco. A SOGC (2024) também não indica ultrassom de rastreamento nessas pacientes.
- Na pré-menopausa, o tamoxifeno não aumenta de forma conhecida o risco de câncer de endométrio, segundo o ACOG.
- Qualquer sangramento em usuária pós-menopáusica deve ser investigado.
- Os cortes de 4 e 5 mm não se aplicam bem. A histerossonografia ajuda a separar cistos subendometriais de pólipos, que são frequentes e costumam ser maiores nessas pacientes.
| Cenário | Referência de espessura | Fonte |
|---|---|---|
| Menacme | Variável conforme a fase (cerca de 1 a 16 mm) | Nalaboff, RadioGraphics 2001 |
| Pós-menopausa com sangramento | ≤ 4 mm tranquilizador | ACOG CO 734 |
| Pós-menopausa com sangramento | > 5 mm anormal | Consenso SRU 2001 |
| Pós-menopausa sem sangramento | < 11 mm sem risco: sem investigação invasiva | SOGC n.º 451 (2024) |
| Pós-menopausa sem sangramento | 8 mm como corte mais sensível (proposta) | Zhang, BMC Womens Health 2022 |
| TH combinada contínua com sangramento | ≤ 4 mm tranquilizador | BMS 2024 |
| TH sequencial com sangramento | ≤ 7 mm tranquilizador | BMS 2024 |
| Tamoxifeno assintomática | Sem rastreamento; investigar se sangrar | ACOG CO 601 |
Terminologia IETA: o que descrever além da espessura
O consenso IETA criou um vocabulário comum para o endométrio. Usar esses termos torna o laudo comparável entre exames e examinadores.
- Ecogenicidade: uniforme (hiperecogênica, isoecogênica, hipoecogênica ou trilaminar) ou não uniforme (heterogênea, com ou sem áreas císticas).
- Linha média: linear, não linear, irregular ou não definida.
- Junção endométrio-miométrio: regular, irregular, interrompida ou não definida.
- Líquido intracavitário: presença, quantidade e aspecto (anecoico, com partículas ou “vidro fosco”).
- Escore de cor (Doppler colorido ou de amplitude): 1, sem fluxo; 2, fluxo mínimo; 3, moderado; 4, abundante.
- Padrão vascular: vaso dominante único (com ou sem ramificação), múltiplos vasos de origem focal ou multifocal, vasos dispersos ou padrão circular.
O consenso da ISUOG de 2026 recomenda incluir o Doppler colorido ou de amplitude no exame de rotina do endométrio. Um vaso dominante único sugere pólipo; múltiplos vasos de origem multifocal e junção interrompida aumentam a suspeita de malignidade.
Armadilhas e erros de medida
- Incluir o halo subendometrial, que é miométrio, e superestimar a espessura.
- Medir fora do plano sagital mediano ou em corte oblíquo, o que aumenta artificialmente o valor.
- Somar o líquido à medida, em vez de somar só as camadas.
- Dar um número quando o endométrio não foi visto por inteiro. O correto é “não mensurável” e sugerir outro método.
- Aplicar 4 mm na assintomática ou na menacme.
- Omitir a fase do ciclo, a terapia hormonal ou o tamoxifeno, que mudam a leitura do valor.
- Valorizar só a espessura e não descrever lesão focal, heterogeneidade ou padrão vascular.
O que descrever no laudo
Itens mínimos
- Via do exame e qualidade da visualização do endométrio.
- Contexto clínico: DUM ou fase do ciclo, status menopausal, sangramento, terapia hormonal (tipo e esquema), tamoxifeno.
- Espessura em mm, ou “não mensurável” com o motivo.
- Ecogenicidade, linha média, junção endométrio-miométrio e líquido intracavitário (IETA).
- Escore de cor e padrão vascular.
- Lesão focal, se houver, com medidas e descrição à parte.
Frases-modelo
- “Endométrio linear, homogêneo, com espessura de 3,2 mm (dupla camada), junção endométrio-miométrio regular. Escore de cor 1.”
- “Endométrio com espessura de 9,0 mm, heterogêneo, com junção endométrio-miométrio irregular e escore de cor 3, em paciente pós-menopáusica com sangramento. Achado acima do limite de 4 mm (ACOG); sugere-se avaliação histológica.”
- “Endométrio não mensurável por visualização incompleta (útero retrovertido e miomatoso). Sugere-se histerossonografia ou histeroscopia, conforme contexto clínico.”
- “Líquido anecoico intracavitário; espessura endometrial obtida pela soma das camadas: 1,5 mm + 1,8 mm = 3,3 mm.”
Quando indicar histeroscopia ou biópsia
- Pós-menopausa com sangramento e endométrio > 4 mm, mal visualizado ou com sangramento persistente.
- Pós-menopausa sem sangramento com endométrio ≥ 11 mm, ou entre 4 e 11 mm com fatores de risco ou achados morfológicos suspeitos.
- Terapia hormonal com sangramento não programado e endométrio > 4 mm (contínua) ou > 7 mm (sequencial), ou mal visualizado.
- Usuária de tamoxifeno com qualquer sangramento.
- Lesão focal em qualquer idade: a biópsia às cegas pode não amostrá-la. A histeroscopia com biópsia dirigida é preferível, e a histerossonografia ajuda a separar lesão focal de espessamento difuso.
Perguntas frequentes
Qual a espessura endometrial normal na pós-menopausa?
Sem terapia hormonal e com sangramento, até 4 mm (ACOG) ou até 5 mm (SRU), com endométrio bem visualizado. Sem sangramento, não há corte universal; a SOGC usa 11 mm para indicar investigação na mulher sem fatores de risco.
Endométrio de 6 mm na pós-menopausa sem sangramento precisa de biópsia?
Em geral, não. Pela SOGC, abaixo de 11 mm, sem fatores de risco e sem outros achados ao ultrassom, não há indicação de procedimento invasivo. Fatores de risco ou morfologia suspeita mudam essa conduta.
Como medir o endométrio quando há líquido na cavidade?
Mede-se cada camada endometrial separadamente, no corte sagital, e somam-se os dois valores. O líquido não entra na medida.
O corte de 4 mm vale para quem usa terapia hormonal?
Vale para o esquema combinado contínuo com sangramento não programado. No sequencial, a BMS aceita até 7 mm, com exame logo após o sangramento de privação.
Conclusão
A espessura endometrial só tem significado com contexto: fase do ciclo na menacme, 4 mm (ou 5 mm) na pós-menopausa com sangramento, 8 a 11 mm na assintomática, leitura própria na terapia hormonal e no tamoxifeno. Em todos os cenários, a técnica IETA e a descrição morfológica valem tanto quanto o número.
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Referências
- American College of Obstetricians and Gynecologists. ACOG Committee Opinion No. 734: The role of transvaginal ultrasonography in evaluating the endometrium of women with postmenopausal bleeding. Obstetrics & Gynecology, 2018.
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- Smith-Bindman R, Kerlikowske K, Feldstein VA, et al. Endovaginal ultrasound to exclude endometrial cancer and other endometrial abnormalities. JAMA, 1998;280(17):1510-1517.
- Timmermans A, Opmeer BC, Khan KS, et al. Endometrial thickness measurement for detecting endometrial cancer in women with postmenopausal bleeding: a systematic review and meta-analysis. Obstetrics & Gynecology, 2010.
- Smith-Bindman R, Weiss E, Feldstein V. How thick is too thick? When endometrial thickness should prompt biopsy in postmenopausal women without vaginal bleeding. Ultrasound in Obstetrics & Gynecology, 2004;24(5):558-565.
- Wolfman W, Bouteaud J, et al. Guideline No. 451: Asymptomatic Endometrial Thickening in Postmenopausal Women. Journal of Obstetrics and Gynaecology Canada, 2024.
- Zhang L, Guo Y, Qian G, Su T, Xu H. Value of endometrial thickness for the detection of endometrial cancer and atypical hyperplasia in asymptomatic postmenopausal women. BMC Women’s Health, 2022;22:517.
- British Menopause Society. Management of unscheduled bleeding on hormone replacement therapy (HRT). BMS, 2024 (revisão 2026).
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- Leone FPG, Timmerman D, Bourne T, et al. Terms, definitions and measurements to describe the sonographic features of the endometrium and intrauterine lesions: a consensus opinion from the International Endometrial Tumor Analysis (IETA) group. Ultrasound in Obstetrics & Gynecology, 2010;35(1):103-112.
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- Nalaboff KM, Pellerito JS, Ben-Levi E. Imaging the endometrium: disease and normal variants. RadioGraphics, 2001;21(6):1409-1424.
Conteúdo educativo destinado a profissionais de saúde. Não substitui o julgamento clínico nem as diretrizes institucionais; a indicação de procedimentos deve considerar o quadro clínico e os fatores de risco de cada paciente.

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