Medida do colo uterino na gestação: técnica, corte de 25 mm, funil e laudo

Ilustração da medida do colo uterino por ultrassom transvaginal na gestação

A medida do colo uterino na gestação (cervicometria) deve ser feita por via transvaginal, com bexiga vazia, sem pressão excessiva do transdutor, registrando o menor de pelo menos três valores tecnicamente corretos, em geral entre 18 e 24 semanas. Em gestação única, colo ≤ 25 mm no segundo trimestre define colo curto. Para a progesterona vaginal, a SMFM recomenda tratar com ≤ 20 mm antes de 24 semanas e considerar entre 21 e 25 mm, enquanto a FIGO indica progesterona com ≤ 25 mm. Funil e sludge entram no laudo, mas a conduta é guiada pelo comprimento do segmento fechado.

Resumo rápido

  • Via: sempre transvaginal para decisão clínica; a via abdominal com bexiga cheia tende a alongar o colo.
  • Técnica (ISUOG 2022): bexiga vazia, corte sagital com o colo ocupando 50% a 75% da tela, pressão mínima, pelo menos três medidas, registrar a menor tecnicamente correta.
  • Janela: 18 a 24 semanas no rastreamento universal; a partir de 16 semanas, com medidas seriadas, em quem tem parto prematuro espontâneo prévio.
  • Corte: ≤ 25 mm é colo curto em gestação única; progesterona vaginal com ≤ 20 mm (SMFM, grau 1A) e opcional entre 21 e 25 mm.
  • Cerclagem por ultrassom: indicada em gestação única com parto prematuro espontâneo prévio e colo abaixo de 25 mm antes de 24 semanas; sem esse antecedente, a SMFM recomenda contra cerclagem com colo de 10 a 25 mm e sem dilatação.
  • Pessário: os grandes ensaios em gestação única não mostraram benefício; FIGO e SMFM não recomendam uso rotineiro.

Por que medir o colo uterino no segundo trimestre

O comprimento cervical transvaginal no meio da gestação é um dos melhores preditores isolados de parto prematuro espontâneo, e a relação é contínua: quanto mais curto o colo, maior o risco. A maior parte dos partos antes de 34 semanas acontece em mulheres sem parto prematuro prévio, o que fundamenta o rastreamento universal defendido pela FIGO e o diagnóstico de colo curto pela medida isolada, independentemente da história. Há intervenção eficaz para o grupo identificado: a progesterona vaginal reduziu o parto antes de 33 semanas em gestações únicas com colo ≤ 25 mm (RR 0,62; IC 95% 0,47 a 0,81) na metanálise de dados individuais de Romero e colaboradores (2018).

Na prática brasileira, a medida costuma ser feita junto ao ultrassom morfológico do segundo trimestre, aproveitando a janela de 20 a 24 semanas. O fluxograma de trabalho de parto prematuro da FEBRASGO também posiciona a medida transvaginal entre 18 e 24 semanas.

Técnica padronizada da medida do colo uterino

A padronização importa porque a variação entre medidas bem feitas é pequena: segundo a Fetal Medicine Foundation (FMF), em 95% das vezes a diferença entre duas medidas, do mesmo examinador ou de examinadores diferentes, fica em torno de 4 mm ou menos. Erros de técnica facilmente superam essa margem. O passo a passo abaixo segue as diretrizes da ISUOG (2022) e o protocolo da FMF.

  1. Bexiga vazia. Peça para a paciente esvaziar a bexiga imediatamente antes. A bexiga cheia comprime o segmento inferior e alonga artificialmente o colo.
  2. Posição e introdução. Litotomia, transdutor introduzido em direção ao fórnice anterior.
  3. Corte sagital mediano. Identifique o canal endocervical inteiro, guiado pela mucosa endocervical (ecogênica ou hipoecoica), do orifício interno ao externo.
  4. Ampliação. O colo deve ocupar entre 50% e 75% da tela (ISUOG).
  5. Pressão mínima. Recue o transdutor até a imagem começar a perder definição e reaplique só a pressão necessária. Lábios anterior e posterior com espessuras muito diferentes sugerem compressão excessiva, que alonga o colo.
  6. Calipers. Do orifício externo (área ecodensa) ao orifício interno (entalhe em V), em linha reta.
  7. Três medidas, a menor. Obtenha pelo menos três medidas tecnicamente corretas e registre a menor. A FMF recomenda observar o colo por 2 a 3 minutos, porque contrações e alterações dinâmicas podem encurtá-lo durante o exame.
Parâmetro Recomendação Por quê
Via Transvaginal A via abdominal superestima, sobretudo com bexiga cheia
Bexiga Vazia Bexiga cheia alonga o colo
Corte Sagital mediano, canal inteiro visível Cortes oblíquos encurtam ou alongam o canal
Ampliação Colo em 50% a 75% da tela (ISUOG) Reduz erro de posicionamento do caliper
Pressão Mínima, lábios simétricos Pressão excessiva alonga artificialmente
Medidas Pelo menos 3, linha reta, orifício interno ao externo Captura alterações dinâmicas
Valor registrado O menor tecnicamente correto É o que guia a conduta (ISUOG, SMFM)
Tempo Cerca de 2 a 3 minutos de observação (FMF) Contrações podem encurtar o colo durante o exame
Quatro imagens transvaginais do colo uterino em corte sagital na mesma gestante: colo longo medido com calipers, abertura do orifício interno com protrusão das membranas sob pressão suprapúbica e colo progressivamente encurtado com funil
Figura 1. Colo uterino ao ultrassom transvaginal, corte sagital, na mesma gestante. Superior esquerda: 19+5 semanas, sem pressão, comprimento cervical de 33,5 mm medido do orifício interno ao externo. Superior direita: sob pressão suprapúbica, abertura do orifício interno com protrusão das membranas (funil). Inferior esquerda: 22+6 semanas, comprimento de 10,1 mm com funil importante. Inferior direita: 23+5 semanas, 6,7 mm. Nas imagens inferiores, os calipers medem só o segmento fechado do canal, sem incluir o funil. Fonte: Efthymiou A et al., Eur J Obstet Gynecol Reprod Biol X 2025, CC BY 4.0.

Valores de referência e cortes por diretriz

O limiar de 25 mm é o usado pelas principais sociedades para definir colo curto. A divergência está no limiar para tratar.

Situação Critério Conduta proposta Fonte
Gestação única, sem parto prematuro prévio ≤ 20 mm antes de 24 semanas Progesterona vaginal (grau 1A) SMFM Consult #70 (2024)
Gestação única, sem parto prematuro prévio 21 a 25 mm Considerar progesterona por decisão compartilhada (grau 1B) SMFM Consult #70 (2024)
Gestação única, colo curto no meio da gestação ≤ 25 mm Oferecer progesterona vaginal diária FIGO (2015)
Gestação única, sem parto prematuro prévio 10 a 25 mm, sem dilatação Não fazer cerclagem (grau 1B) SMFM Consult #70 (2024)
Gestação única, com parto prematuro espontâneo prévio Medidas seriadas entre 16 e 24 semanas Rastrear; se < 25 mm antes de 24 semanas, cerclagem pode ser oferecida ACOG PB 234 (2021)
Gestação gemelar ≤ 25 mm entre 18 e 24 semanas Corte pragmático; conduta controversa (ver adiante) ISUOG gemelar (2025)
Trabalho de parto prematuro (sintomática) < 15 mm Alto risco de parto em 7 dias; ≥ 15 mm torna o parto em 7 dias pouco provável Tsoi et al. (2005)

A SMFM reserva a indicação mais forte para ≤ 20 mm, enquanto a FIGO e a metanálise de Romero usam ≤ 25 mm como critério de inclusão. No laudo, o mais útil é informar o número exato e a idade gestacional, sem rotular a conduta. A FIGO (2021) também deixa claro que, sem parto prematuro prévio, sem perda no meio da gestação e sem colo curto, a progesterona não é recomendada.

Funil: como medir e o que significa

Funil é a protrusão das membranas para dentro do orifício interno, que assume a forma de V ou U. A terminologia em letras descreve a progressão: T (orifício interno fechado), Y, V e U (funil amplo). O que importa para a conduta é o comprimento funcional, ou seja, o segmento fechado do colo, do vértice do funil até o orifício externo.

Pontos práticos:

  • Não some o funil ao comprimento cervical. Meça o segmento fechado e descreva o funil à parte (presente ou ausente, formato e, se o serviço adotar, profundidade).
  • O funil acompanha o colo curto. Em uma coorte de 6.334 gestações (To et al., 2001), o funil esteve presente em 98% dos colos ≤ 15 mm e em cerca de 25% dos colos de 16 a 30 mm, e não acrescentou valor preditivo relevante ao comprimento cervical.
  • Diferencial. Contração do segmento inferior e segmento espessado podem simular funil ou alongar o colo. Se houver dúvida, aguarde alguns minutos e repita.

Sludge (debris no líquido amniótico)

Sludge é um agregado de material ecogênico em suspensão no líquido amniótico, junto ao orifício interno. Não define conduta isoladamente, mas deve ser descrito. Está associado a inflamação e infecção intra-amnióticas (Kusanovic et al., 2007) e a maior risco de parto prematuro. A revisão sistemática com metanálise publicada na RBGO em 2023 encontrou associação com parto prematuro, rotura prematura de membranas e corioamnionite clínica e histológica. Em gemelares, sludge e colo curto se associaram de forma independente ao parto prematuro, enquanto o funil não.

Gestação gemelar

Em gemelares, 25 mm entre 18 e 24 semanas é o corte pragmático mais usado. A conduta é onde a literatura mais diverge:

  • SMFM (2024): recomenda contra o uso rotineiro de progesterona, pessário ou cerclagem para colo curto em gemelares sem parto prematuro prévio.
  • Metanálise de dados individuais (Romero et al., 2017): progesterona vaginal reduziu o parto prematuro e a morbimortalidade neonatal em gemelares com colo ≤ 25 mm.
  • Consenso Delphi internacional (2025): a maioria dos especialistas rastreia o colo entre 18 e 23 semanas, usa ≤ 25 mm como colo curto e oferece progesterona vaginal no colo curto não dilatado. Com colo dilatado, houve concordância para cerclagem até 24 semanas.
  • Pessário em gemelares: a FIGO (2021) não recomenda uso rotineiro, independentemente do comprimento cervical.

Cerclagem e pessário: quando são discutidos

Cerclagem indicada por ultrassom. É discutida principalmente em gestação única com parto prematuro espontâneo prévio e colo < 25 mm antes de 24 semanas (ACOG). Sem esse antecedente, a SMFM recomenda contra cerclagem quando o colo mede de 10 a 25 mm e não há dilatação; com colo dilatado ao exame físico, a cerclagem pode ser considerada independentemente da história. A FIGO (2021) reconhece que ainda há incerteza sobre quem mais se beneficia.

Pessário. O ensaio de Nicolaides e colaboradores (NEJM, 2016), com gestações únicas e colo ≤ 25 mm entre 20 e 24 semanas, não reduziu o parto espontâneo antes de 34 semanas. O ensaio TOPS (JAMA, 2023), com colo ≤ 20 mm, foi interrompido por futilidade e por maior mortalidade fetal ou neonatal no grupo pessário (13,3% contra 6,8%). FIGO e SMFM não recomendam o pessário na rotina.

Para quem lauda, a consequência é simples: um colo < 25 mm em paciente com parto prematuro prévio, ou um colo muito curto (< 10 mm) em qualquer paciente, deve chegar rapidamente ao obstetra, porque a janela para cerclagem se fecha por volta de 24 semanas.

Armadilhas e erros de medida

  • Medir por via abdominal e encerrar o exame. A via abdominal serve como triagem; o valor que guia conduta é o transvaginal.
  • Bexiga cheia ou pressão excessiva. As duas alongam o colo e geram falso-negativo.
  • Registrar a melhor medida, e não a menor. A diretriz pede a menor tecnicamente correta.
  • Incluir o segmento inferior. O orifício interno é o entalhe em V no fim do canal endocervical, não a borda do segmento uterino.
  • Somar o funil. O comprimento é só do segmento fechado.
  • Colo muito curvo. A linha reta pode subestimar um colo longo e curvo, mas o colo curto costuma ser retilíneo, então isso raramente muda a classificação.
  • Ignorar o contexto. Sempre informe a idade gestacional, porque o mesmo número tem significado diferente com 18 e com 30 semanas.

Se tiver dúvida sobre como orientar o exame e a paciente, vale rever o preparo e as perguntas comuns sobre o ultrassom transvaginal. A mesma via também esclarece a posição da placenta em relação ao orifício interno, assunto do post sobre placenta prévia e placenta baixa.

O que descrever no laudo

  • Via (transvaginal) e idade gestacional.
  • Menor comprimento cervical tecnicamente correto, em mm.
  • Orifício interno fechado ou com funil; se funil, formato e comprimento do segmento fechado.
  • Presença ou ausência de sludge.
  • Alteração dinâmica durante o exame, se observada.
  • Em gemelares, deixe claro que se trata de gestação gemelar.

Frases-modelo

  • “Colo uterino avaliado por via transvaginal, com bexiga vazia, medindo 34 mm (menor de três medidas), com orifício interno fechado. Ausência de sludge.”
  • “Colo uterino medindo 18 mm (menor de três medidas), por via transvaginal, com 22 semanas. Orifício interno fechado. Achado compatível com colo curto (≤ 25 mm).”
  • “Colo uterino com afunilamento do orifício interno em formato de V, com comprimento funcional (segmento fechado) de 15 mm. Presença de material ecogênico em suspensão no líquido amniótico junto ao orifício interno (sludge).”
  • “Durante a observação, o comprimento cervical variou de 29 mm a 21 mm, sugerindo encurtamento dinâmico. Registrado o menor valor.”
  • “Conclusão: colo uterino curto para a idade gestacional (18 mm com 22 semanas). Sugere-se correlação obstétrica.”

Quando escalonar

  • Colo ≤ 25 mm antes de 24 semanas: comunicar o obstetra no mesmo dia; é o grupo em que progesterona e, com história prévia, cerclagem entram em discussão.
  • Colo < 10 mm, funil em U ou membranas no canal: contato imediato; avaliar exame especular para dilatação.
  • Sludge com colo curto ou após cerclagem: sinalizar, pela associação com inflamação intra-amniótica.
  • Paciente com contrações: colo < 15 mm indica alto risco de parto em poucos dias e pede avaliação em pronto atendimento obstétrico.

Perguntas frequentes

Qual a medida normal do colo uterino na gestação?

Não há um “normal” único, porque o colo encurta ao longo da gestação. Para decisão clínica, o que importa é o corte: no segundo trimestre, em gestação única, colo ≤ 25 mm é considerado curto. Acima disso, o risco é menor, mas não nulo.

Com quantas semanas se mede o colo uterino?

No rastreamento universal, entre 18 e 24 semanas, em geral junto ao morfológico. Em quem teve parto prematuro espontâneo, medidas seriadas a partir de 16 semanas até 24 semanas.

Qual a medida do colo para usar progesterona?

A SMFM recomenda progesterona vaginal com colo ≤ 20 mm antes de 24 semanas e permite considerar entre 21 e 25 mm. A FIGO indica progesterona com ≤ 25 mm. O laudo deve trazer o valor exato para o obstetra decidir.

O funil entra na medida do colo?

Não. Mede-se só o segmento fechado (comprimento funcional). O funil é descrito à parte, com seu formato.

Colo curto em gêmeos tem tratamento?

É controverso. A SMFM não recomenda progesterona, pessário ou cerclagem de rotina; uma metanálise de dados individuais e um consenso Delphi internacional favorecem a progesterona vaginal com colo ≤ 25 mm.

Conclusão

A medida do colo uterino é simples, reprodutível e muda conduta, desde que feita por via transvaginal, com bexiga vazia, pressão mínima e registro da menor de três medidas. O corte de 25 mm define colo curto; 20 mm é o limiar mais forte para progesterona segundo a SMFM. Funil, sludge e encurtamento dinâmico entram no laudo como descrição, e a conduta (progesterona, cerclagem, vigilância) fica com o obstetra, que precisa receber esse número rápido.

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Referências

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Conteúdo educativo destinado a profissionais de saúde. Não substitui o julgamento clínico, as diretrizes institucionais nem a avaliação individualizada de cada gestante.

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