Ultrassom para endometriose com preparo intestinal: como é feito e o que mostra

Ilustração da pelve feminina com útero, ovários e reto ao lado de um aparelho de ultrassom transvaginal

O ultrassom para endometriose com preparo intestinal é um ultrassom transvaginal feito com um protocolo específico para procurar a endometriose profunda: além do útero e dos ovários, o examinador avalia a região atrás do colo do útero, os ligamentos uterossacros, a parede do reto e do sigmoide, a bexiga e os ureteres. O preparo intestinal, em geral com laxativo e/ou lavagem retal (enema) antes do exame, deixa o intestino vazio e facilita ver nódulos na parede intestinal. O exame costuma causar algum desconforto, principalmente em quem tem dor na relação, mas pode ser interrompido a qualquer momento. Um ultrassom transvaginal “comum” mostra bem o endometrioma (cisto de endometriose no ovário), mas frequentemente não detecta a doença profunda, que exige técnica dirigida e experiência.

Para quem faz o exame, este é um dos ultrassons ginecológicos que mais dependem de método. O consenso do grupo IDEA (International Deep Endometriosis Analysis), publicado em 2016, organizou a avaliação em quatro etapas e padronizou termos e medidas. Este guia resume essa abordagem, o que descrever no laudo e os erros mais comuns.

Dúvidas comuns das pacientes

Por que fazer um ultrassom específico para endometriose?

A endometriose é a presença de tecido semelhante ao endométrio fora do útero. Ela pode aparecer como cistos nos ovários, como pequenos implantes superficiais no peritônio ou como nódulos profundos que infiltram ligamentos, intestino e bexiga. Os implantes superficiais, em geral, não são vistos em nenhum exame de imagem. Já os nódulos profundos podem ser identificados no ultrassom quando o examinador procura ativamente por eles, seguindo um protocolo. Por isso o pedido costuma vir escrito como “ultrassom transvaginal com preparo intestinal” ou “ultrassom para pesquisa de endometriose profunda”.

Precisa de preparo intestinal? Qual?

Na maioria dos serviços, sim. O objetivo é tirar fezes e gases do reto e do sigmoide, que atrapalham a imagem. O preparo varia entre serviços, e a paciente deve seguir exatamente a orientação do local onde vai fazer o exame. Os esquemas mais usados incluem:

  • dieta leve e com poucas fibras na véspera;
  • laxativo oral na véspera, em alguns protocolos;
  • lavagem retal (enema) algumas horas antes do exame;
  • em alguns serviços, apenas o enema, sem laxativo.

Quem tem doença intestinal, está grávida ou usa medicamentos contínuos deve avisar o serviço antes, porque o preparo pode precisar de ajuste. Para orientações gerais sobre jejum e bexiga cheia em outros exames, veja o guia de preparo para ultrassom.

Dói?

O exame é transvaginal, como o ultrassom ginecológico de rotina, mas é mais longo e inclui manobras de pressão leve com o transdutor e com a mão sobre a barriga. Mulheres com endometriose costumam ter pontos dolorosos, e o próprio exame usa essa dor como informação: o examinador pergunta onde dói ao tocar cada região. O desconforto, em geral, é tolerável e passageiro. Se a dor for forte, a paciente pode pedir para pausar. Mais detalhes sobre o exame por via vaginal estão no artigo sobre ultrassom transvaginal.

Um ultrassom comum vê endometriose?

Vê parte dela. O endometrioma de ovário tem aspecto característico e costuma ser identificado em qualquer ultrassom transvaginal bem feito. A endometriose profunda, porém, fica fora do campo de atenção do exame de rotina, que não avalia sistematicamente o reto, os ligamentos e o compartimento posterior. Um exame de rotina normal não exclui endometriose. A diretriz da ESHRE de 2022 reforça esse ponto: um exame de imagem negativo não descarta a doença.

Precisa estar menstruada ou não?

Não há regra única. Muitos serviços preferem fazer o exame fora do período menstrual, por conforto. Siga a orientação do local.

Para profissionais: a abordagem IDEA em quatro etapas

O consenso IDEA (Guerriero et al., 2016) propõe uma sequência sistemática para o exame transvaginal de mulheres com suspeita de endometriose. A ordem não é obrigatória, mas as quatro etapas devem estar presentes.

Etapa O que avaliar Achados relevantes
1. Útero e anexos Útero (sinais de adenomiose), ovários, tubas Endometrioma, adenomiose, hidrossalpinge
2. Marcadores indiretos (“soft markers”) Mobilidade dos ovários, dor localizada à pressão Ovários fixos, ovários “se beijando” atrás do útero, dor em ponto específico
3. Fundo de saco posterior Sinal de deslizamento (sliding sign) Sinal negativo sugere obliteração do fundo de saco de Douglas
4. Nódulos profundos Compartimentos anterior e posterior Nódulos de bexiga, retrocervicais, uterossacros, vaginais, retossigmoide

Etapa 1: útero e ovários

Avalie o útero em busca de sinais de adenomiose (veja abaixo) e os ovários em busca de endometriomas. O endometrioma típico é um cisto, em geral unilocular, com conteúdo homogêneo de ecos finos e baixos, no padrão chamado de “vidro fosco”, sem vascularização interna, em mulher na menacme. Pode haver focos ecogênicos na parede. Alguns endometriomas têm septos ou mais de uma loja, e na gestação podem sofrer decidualização, com projeções vascularizadas que imitam lesão neoplásica. Em casos atípicos, a classificação O-RADS US ajuda a padronizar o risco.

Descreva número, lado e as três medidas de cada endometrioma. A presença de endometrioma aumenta a chance de doença profunda associada, por isso é motivo para completar o exame dirigido, e não para encerrá-lo.

Etapa 2: marcadores indiretos

Com a mão livre sobre o abdome e o transdutor, verifique se o ovário se move em relação ao útero e à parede pélvica. Ovário fixo sugere aderências. Ovários aderidos entre si atrás do útero (“kissing ovaries”) são sinal de aderências importantes. Também se pesquisa a dor localizada à pressão do transdutor em cada estrutura, que orienta onde procurar nódulos.

Etapa 3: sinal de deslizamento

Com pressão suave no colo, observe se a parede anterior do reto desliza livremente sobre a face posterior do colo e do útero. Faça o mesmo com a mão no abdome, avaliando o deslizamento do intestino sobre o fundo uterino. Se o deslizamento ocorre nas duas posições, o sinal é positivo (normal). Se não ocorre, o sinal é negativo e sugere obliteração do fundo de saco de Douglas. Alguns serviços registram o resultado separadamente para cada lado.

Etapa 4: nódulos nos compartimentos anterior e posterior

Compartimento anterior:

  • Bexiga: nódulo hipoecoico na parede, mais comum na base e no domo. Bexiga com algum volume de urina facilita a avaliação.
  • Espaço vesicouterino: obliteração e deslizamento entre bexiga e útero.
  • Ureteres: avalie a porção distal e procure dilatação. Na suspeita de endometriose profunda, vale examinar os rins por via abdominal para afastar hidronefrose.

Compartimento posterior:

  • Região retrocervical (tórus uterino): espessamento ou nódulo hipoecoico, de contornos irregulares, atrás do colo.
  • Ligamentos uterossacros: espessamento hipoecoico ou nódulo, uni ou bilateral. Ligamentos normais muitas vezes não são individualizados; quando visíveis e espessados, devem ser descritos.
  • Fórnice vaginal posterior e septo retovaginal: nódulos nessas regiões mudam o planejamento cirúrgico.
  • Reto, junção retossigmoide e sigmoide: a lesão típica é um espessamento hipoecoico da muscular própria, às vezes com aspecto de “cometa” ou “chifre de alce” (moose antler), com bordas irregulares.

Como medir e descrever nódulos intestinais

O nódulo intestinal é o achado que mais influencia a decisão cirúrgica. O consenso IDEA recomenda:

  • Medir em três dimensões ortogonais, incluindo a espessura e o comprimento ao longo do eixo do intestino.
  • Estimar a distância entre a borda inferior do nódulo e a borda anal, ciente de que a medida transvaginal é aproximada.
  • Indicar as camadas acometidas: muscular própria apenas, ou suspeita de extensão para submucosa e mucosa.
  • Contar os nódulos e indicar se há lesões multifocais (mais de um nódulo no mesmo segmento) ou multicêntricas (em segmentos diferentes).
  • Quando possível, estimar quanto da circunferência do intestino está envolvida.

Lesões acima do alcance do transdutor vaginal, como no sigmoide alto, podem não ser vistas. Isso deve constar como limitação do exame.

Adenomiose em poucas palavras: critérios MUSA

O grupo MUSA (Morphological Uterus Sonographic Assessment) padronizou os termos para descrever o miométrio. Os achados mais associados à adenomiose são:

  • espessamento assimétrico das paredes uterinas;
  • cistos miometriais;
  • ilhas hiperecogênicas;
  • sombras em leque;
  • linhas e brotos ecogênicos subendometriais;
  • vascularização que atravessa a lesão;
  • zona juncional irregular ou interrompida.

Descreva se o acometimento é difuso ou focal e quais paredes estão envolvidas. Endometriose e adenomiose coexistem com frequência, então o útero merece a mesma atenção que a pelve posterior.

Classificação e mapeamento

Além da descrição, muitos serviços usam sistemas de classificação para mapear a doença. A classificação #Enzian (Keckstein et al., 2021) foi adaptada para uso com ultrassom e ressonância, descrevendo peritônio, ovários, aderências e compartimentos profundos. O uso varia entre serviços e equipes cirúrgicas. Mais importante do que o sistema escolhido é que o laudo seja reprodutível e sirva ao planejamento.

O que descrever no laudo

Um laudo de ultrassom para endometriose deve permitir que o cirurgião visualize a pelve sem estar no exame. Inclua:

  • Técnica: via transvaginal, preparo intestinal realizado (e qual, se conhecido), complementação abdominal dos rins.
  • Útero: dimensões, sinais MUSA de adenomiose, miomas.
  • Ovários: endometriomas com lado, número e medidas; mobilidade de cada ovário.
  • Dor localizada: pontos de dor à pressão.
  • Sinal de deslizamento: positivo ou negativo, anterior e posterior, por lado quando possível.
  • Compartimento anterior: bexiga, espaço vesicouterino, ureteres distais.
  • Compartimento posterior: região retrocervical, uterossacros (cada lado), fórnice vaginal posterior, septo retovaginal.
  • Intestino: número de nódulos, localização, três medidas, distância estimada da borda anal, camadas acometidas.
  • Rins: presença ou ausência de hidronefrose.
  • Limitações: gases, dor que impediu manobras, segmentos fora do alcance.
  • Conclusão: síntese objetiva da doença encontrada, sem repetir toda a descrição.

Um laudo com campos fixos para cada compartimento reduz a chance de esquecer uma região.

Erros comuns

Parar no endometrioma

Encontrar um cisto típico e encerrar o exame é o erro clássico. A doença profunda costuma coexistir e é ela que mais muda a cirurgia.

Não fazer o sinal de deslizamento

Sem testar o deslizamento, a obliteração do fundo de saco passa despercebida, mesmo quando é a pista principal.

Medir o nódulo intestinal em um só plano

Uma medida única subestima o tamanho e não informa a extensão longitudinal, que é o que mais interessa ao cirurgião.

Esquecer os rins

O acometimento ureteral pode ser silencioso. Uma hidronefrose não diagnosticada pode comprometer a função renal.

Não registrar limitações

Escrever “sem nódulos intestinais” quando o sigmoide alto não foi visto dá falsa segurança. Escreva o que foi e o que não foi avaliado.

Confundir alças com nódulos

Uma alça contraída ou com fezes pode imitar espessamento. O preparo adequado e a observação da peristalse ajudam a diferenciar.

Usar termos vagos

“Espessamento pélvico” ou “aspecto sugestivo de aderências” sem localização exata não ajudam no planejamento. Use a nomenclatura do consenso IDEA.

Perguntas frequentes

O ultrassom com preparo intestinal substitui a ressonância?

Em mãos experientes, o ultrassom transvaginal com protocolo dirigido tem bom desempenho para endometriose profunda, e a escolha entre ultrassom e ressonância depende da disponibilidade e da experiência local. Muitas vezes os dois exames se complementam. A decisão é do médico assistente.

Quanto tempo dura o exame?

Costuma ser mais longo do que um transvaginal de rotina, porque avalia muitas estruturas. O tempo varia conforme o serviço e os achados.

Posso fazer o preparo em casa?

Em geral, sim. O laxativo e o enema costumam ser feitos em casa, seguindo a receita do serviço. Alguns locais fazem o enema na própria clínica.

Virgem pode fazer o exame?

A via transvaginal não é usada em quem nunca teve relação sexual. Nesses casos, o médico pode indicar via abdominal, transretal ou ressonância, conforme o caso.

O exame confirma o diagnóstico de endometriose?

O ultrassom pode identificar endometriomas e nódulos profundos com boa confiança. Mas um exame normal não exclui a doença, especialmente as lesões superficiais. O diagnóstico é feito pelo conjunto de sintomas, exame físico e imagem, e em alguns casos confirmado em cirurgia.

O exame é seguro?

Sim. O ultrassom não usa radiação. O preparo intestinal pode causar cólica leve ou idas frequentes ao banheiro, que passam em pouco tempo.

Conclusão

O ultrassom para endometriose com preparo intestinal é um exame transvaginal dirigido, que vai além do útero e dos ovários para procurar nódulos profundos em ligamentos, intestino e bexiga. Para a paciente, o preparo simples e um desconforto em geral tolerável trazem informação importante para o tratamento. Para quem faz o exame, seguir as quatro etapas do consenso IDEA, medir nódulos intestinais em três planos, olhar os rins e registrar as limitações faz a diferença entre um laudo genérico e um mapa útil para a cirurgia.

Se você quer um laudo de endometriose com campos próprios para cada compartimento, sinal de deslizamento, medidas dos nódulos e distância da borda anal, conheça o UltraLaudo, plataforma de laudos estruturados de ultrassonografia.


Referências

  • Guerriero S, Condous G, Van den Bosch T, et al. Systematic approach to sonographic evaluation of the pelvis in women with suspected endometriosis, including terms, definitions and measurements: a consensus opinion from the International Deep Endometriosis Analysis (IDEA) group. Ultrasound in Obstetrics & Gynecology, 2016.
  • Van den Bosch T, Dueholm M, Leone FPG, et al. Terms, definitions and measurements to describe sonographic features of myometrium and uterine masses: a consensus opinion from the Morphological Uterus Sonographic Assessment (MUSA) group. Ultrasound in Obstetrics & Gynecology, 2015.
  • Becker CM, Bokor A, Heikinheimo O, et al. ESHRE guideline: endometriosis. Human Reproduction Open, 2022.
  • Keckstein J, Saridogan E, Ulrich UA, et al. The #Enzian classification: a comprehensive non-invasive and surgical description system for endometriosis. Acta Obstetricia et Gynecologica Scandinavica, 2021.
  • Abrão MS, Gonçalves MO, Dias JA Jr, et al. Comparison between clinical examination, transvaginal sonography and magnetic resonance imaging for the diagnosis of deep endometriosis. Human Reproduction, 2007.

Este conteúdo tem finalidade educacional e não substitui a avaliação médica. O preparo deve seguir a orientação do serviço onde o exame será feito, e a interpretação do resultado cabe ao médico que acompanha a paciente.

Respostas

  1. Avatar de Consenso IDEA para endometriose profunda no ultrassom (Guerriero, UOG 2016): artigo comentado – UltraLaudo Blog

    […] guia de ultrassom para endometriose com preparo intestinal tem a parte voltada à paciente, com preparo, desconforto e o que o exame […]

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  2. Avatar de Ultrassom do útero: mioma, adenomiose e pólipo endometrial – UltraLaudo Blog

    […] Sim, as duas costumam aparecer juntas. Quando há suspeita de endometriose profunda, pode ser indicado um exame específico, como o ultrassom para endometriose com preparo intestinal. […]

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