Contagem de folículos antrais (CFA) no ultrassom: técnica, valores e reserva ovariana

Ilustração de dois ovários com pequenos folículos antrais, em tons de verde-azulado e branco

A contagem de folículos antrais (CFA) é a soma, nos dois ovários, de todos os folículos de 2 a 10 mm vistos ao ultrassom transvaginal na fase folicular precoce (em geral do 2º ao 4º dia do ciclo), conforme as recomendações de Broekmans e colaboradores (2010). Uma CFA abaixo de 5 a 7 folículos é o critério ultrassonográfico de baixa reserva ovariana dos critérios de Bologna (ESHRE, 2011), e a classificação POSEIDON usa CFA < 5. Já 20 ou mais folículos de 2 a 9 mm em um ovário definem a morfologia ovariana policística na diretriz internacional de SOP de 2023, que conta por ovário, e não pela soma.

Resumo rápido

  • CFA = folículos de 2 a 10 mm no ovário direito + ovário esquerdo, varrendo cada ovário inteiro, de margem a margem.
  • Exame transvaginal, sonda de 7 MHz ou mais, idealmente entre o 2º e o 4º dia do ciclo.
  • CFA < 5 a 7: reserva reduzida pelos critérios de Bologna; CFA < 5: grupos 3 e 4 da POSEIDON.
  • CFA e AMH têm desempenho semelhante para prever a resposta à estimulação ovariana, mas nenhum dos dois prevê bem a gestação nem a fertilidade natural.
  • Na SOP, o critério é outro: ≥ 20 folículos de 2 a 9 mm por ovário (diretriz 2023), não a CFA total.
  • Anticoncepcional hormonal reduz a CFA; o laudo deve registrar o uso.

Este texto trata da CFA como marcador de reserva ovariana. A morfologia policística e a SOP estão no nosso post sobre ovário policístico e cistos ovarianos no ultrassom, e o acompanhamento do folículo dominante está no de foliculometria.

O que é a contagem de folículos antrais

Folículos antrais são folículos com cavidade (antro) já visível ao ultrassom, recrutáveis no ciclo. O número deles reflete, de forma indireta, o tamanho do pool de folículos primordiais, que não pode ser medido diretamente. Por isso a CFA é usada, com o hormônio antimülleriano (AMH), como marcador de reserva ovariana: para prever a resposta à estimulação ovariana, ajustar a dose de gonadotrofina e aconselhar quem pensa em adiar a gestação ou preservar a fertilidade.

O que a CFA não faz é prever, sozinha, a chance de engravidar. A meta-análise com dados individuais de Broer e colaboradores (Hum Reprod Update, 2013), com 5.705 mulheres em fertilização in vitro, mostrou que CFA e AMH melhoram a previsão de baixa resposta além da idade (AUC de 0,76 e 0,78), mas não acrescentam nada à idade na previsão de gestação evolutiva. O comitê da ASRM (2020) chega à mesma conclusão: os marcadores de reserva preveem o número de oócitos obtidos, mas são maus preditores do potencial reprodutivo independentemente da idade.

Como fazer a contagem de folículos antrais no ultrassom

A técnica foi padronizada por Broekmans e colaboradores (Fertil Steril, 2010) e revisada no guia prático de Coelho Neto e colaboradores (Ultrasound Obstet Gynecol, 2018). Os pontos essenciais:

  1. Via e equipamento: transvaginal, bexiga vazia, sonda de 7 MHz ou mais. A via abdominal não serve para contar folículos de 2 mm.
  2. Momento do ciclo: fase folicular precoce, em geral entre o 2º e o 4º dia de um ciclo espontâneo (ou na pausa do anticoncepcional), antes da seleção do folículo dominante. Alguns protocolos aceitam até o 5º dia.
  3. Tamanho: contar folículos de 2 a 10 mm de diâmetro. Folículos maiores, corpo lúteo, cistos e endometriomas ficam fora.
  4. Varredura completa: localizar o ovário, ampliar a imagem até ele ocupar a maior parte da tela e varrer de uma margem à outra, contando cada folículo uma única vez. Contar em um corte isolado subestima o número.
  5. Soma: registrar o número de cada ovário e a soma dos dois, que é a CFA.
  6. 2D em tempo real é suficiente. O 3D com contagem automática (por exemplo, SonoAVC) e a contagem em volume armazenado são alternativas; o guia de 2018 não encontrou evidência forte de superioridade de um método sobre outro.
  7. Treinamento: o mesmo guia sugere de 20 a 40 exames supervisionados antes de laudar CFA de forma independente.
Ultrassom transvaginal 2D de ovário com vários folículos antrais anecoicos arredondados distribuídos no estroma
Figura 1. Ovário ao ultrassom transvaginal 2D com vários folículos antrais anecoicos, imagem usada pelos autores para a contagem de folículos antrais e a medida de cada folículo. Na CFA entram só os de 2 a 10 mm, somando os dois ovários. Fonte: Peres Fagundes PA et al., Reproductive Biology and Endocrinology 2017, CC BY 4.0.

Valores de referência e interpretação da CFA

Baixa reserva: critérios de Bologna e POSEIDON

Não existe um “valor normal” único de CFA. O número cai com a idade, e a queda fica mais evidente depois dos 35 anos, como mostrou o nomograma de Bozdag e colaboradores (2016), sem diferença significativa entre as faixas de 20 a 34 anos. O que as diretrizes definem são cortes para baixa reserva:

  • Critérios de Bologna (Ferraretti e colaboradores, ESHRE, 2011): a baixa resposta é definida por pelo menos dois de três itens: (1) idade materna avançada (40 anos ou mais) ou outro fator de risco, como cirurgia ovariana prévia; (2) baixa resposta prévia, com 3 oócitos ou menos em estimulação convencional; (3) teste de reserva alterado, com CFA < 5 a 7 ou AMH < 0,5 a 1,1 ng/mL. O intervalo nos cortes reflete a variação entre estudos e entre ensaios de AMH.
  • POSEIDON (Alviggi, Humaidan e colaboradores, 2016): classifica a paciente de “baixo prognóstico” em quatro grupos, pela idade (abaixo ou a partir de 35 anos) e pela reserva. Os grupos 1 e 2 têm reserva adequada (CFA ≥ 5 e AMH ≥ 1,2 ng/mL) e resposta inesperadamente baixa ou subótima em estimulação prévia; os grupos 3 e 4 têm reserva reduzida (CFA < 5 e/ou AMH < 1,2 ng/mL).

Reserva alta e risco de hiper-resposta

CFA elevada prevê resposta excessiva à estimulação e risco de síndrome de hiperestímulo ovariano. A diretriz de estimulação ovariana da ESHRE (2020) recomenda usar CFA ou AMH, em vez de outros testes de reserva, para prever tanto a baixa quanto a alta resposta. O corte para hiper-resposta, porém, varia entre estudos, em geral na faixa de 15 a 20 folículos no total, conforme a definição de resposta excessiva adotada. Na dúvida, o laudo informa o número e deixa a interpretação para o especialista em reprodução.

Tabela de referência

Contexto Critério Fonte
Definição de CFA Folículos de 2 a 10 mm, soma dos dois ovários, fase folicular precoce Broekmans, Fertil Steril 2010
Equipamento Transvaginal, sonda ≥ 7 MHz Coelho Neto, UOG 2018
Baixa reserva (Bologna) CFA < 5 a 7 ou AMH < 0,5 a 1,1 ng/mL (1 de 3 critérios) Ferraretti, Hum Reprod 2011
Reserva reduzida (POSEIDON 3 e 4) CFA < 5 e/ou AMH < 1,2 ng/mL Alviggi, Fertil Steril 2016
Hiper-resposta CFA alta prevê resposta excessiva; corte varia entre estudos ESHRE, estimulação ovariana 2020
Morfologia ovariana policística ≥ 20 folículos de 2 a 9 mm em pelo menos um ovário (sonda ≥ 8 MHz) Diretriz internacional de SOP 2023
Morfologia policística sem contagem confiável Volume ovariano ≥ 10 mL Diretriz internacional de SOP 2023

CFA e AMH: qual usar?

Os dois marcadores se correlacionam bem:

  • Desempenho: na meta-análise de Broer (2013), CFA e AMH tiveram acurácia semelhante para baixa resposta, e combiná-los não melhorou significativamente a previsão.
  • Vantagens da CFA: resultado imediato, custo baixo e informação anatômica no mesmo exame (endometrioma, cisto, mioma, hidrossalpinge).
  • Desvantagens da CFA: depende do operador, do equipamento e do dia do ciclo.
  • Vantagens do AMH: pode ser colhido em qualquer fase do ciclo e não depende do examinador. Os valores, porém, variam conforme o ensaio laboratorial.
  • Fertilidade natural: nenhum dos dois serve como “teste de fertilidade”. No estudo de Steiner e colaboradores (JAMA, 2017), mulheres de 30 a 44 anos tentando engravidar com AMH baixo não tiveram menor chance de conceber espontaneamente em 6 e 12 meses.

Quando CFA e AMH são discordantes, vale revisar a técnica da contagem (dia do ciclo, uso de anticoncepcional, ovário mal visto) antes de concluir.

CFA na SOP: não confundir com a contagem por ovário

A diretriz internacional de SOP de 2023 (Teede e colaboradores) define a morfologia ovariana policística por 20 ou mais folículos de 2 a 9 mm em pelo menos um ovário, com sonda transvaginal de 8 MHz ou mais, e/ou volume ovariano de 10 mL ou mais. O AMH passou a ser aceito como alternativa ao ultrassom em adultas, e nenhum dos dois é recomendado para diagnóstico nos primeiros 8 anos após a menarca. Os detalhes estão no post sobre ovário policístico.

As diferenças práticas em relação à CFA de reserva:

  • Unidade: a SOP usa a contagem por ovário (FNPO); a CFA de reserva usa a soma dos dois.
  • Faixa de tamanho: 2 a 9 mm na SOP; 2 a 10 mm na CFA.
  • Interpretação: uma CFA total de 30 não significa SOP, e uma contagem de 20 em um só ovário não basta para o diagnóstico, que exige os critérios clínicos de Rotterdam.

Por isso, o laudo deve trazer a contagem de cada ovário e a soma, o que atende aos dois usos sem ambiguidade.

Armadilhas e erros de medida

  • Dia errado do ciclo: na fase lútea ou com folículo dominante, a contagem de pequenos folículos muda. Se o exame for fora da janela, registre o dia.
  • Anticoncepcional hormonal: reduz a CFA, o AMH e o volume ovariano. Petersen e colaboradores (Hum Reprod, 2015) encontraram CFA 18% menor e volume 50% menor em usuárias de pílula; Bentzen e colaboradores (2012) relataram redução de cerca de 30% na CFA com contracepção hormonal. A contagem deve ser lida com cautela, e o laudo precisa informar o uso.
  • Contar em um corte só: subestima o número. A varredura deve cobrir o ovário inteiro.
  • Contar o mesmo folículo duas vezes em ovários com muitos folículos. Varredura lenta em uma direção e contagem por regiões ajudam.
  • Incluir estruturas que não são folículos antrais: folículo dominante, corpo lúteo, cisto, endometrioma, vasos do hilo vistos em corte transversal (confirme com Doppler colorido) e hidrossalpinge.
  • Ovário mal visualizado (alto, atrás do útero, obesidade, aderências): dar um número baixo como se fosse real gera diagnóstico falso de baixa reserva. Registre a limitação.
  • Endometrioma ou cirurgia ovariana prévia: o tecido ovariano útil fica reduzido e a contagem perde precisão; os próprios critérios de Bologna citam cirurgia ovariana como fator de risco.

O que descrever no laudo

Itens mínimos

  • Via (transvaginal) e qualidade da visualização de cada ovário.
  • Dia do ciclo e uso de anticoncepcional hormonal ou outra medicação.
  • Volume de cada ovário (fórmula do elipsoide).
  • Número de folículos de 2 a 10 mm em cada ovário e a CFA total.
  • Presença de folículo dominante, corpo lúteo, cisto ou endometrioma, com medidas.
  • Limitações técnicas, quando houver.

Frases-modelo

  • “Exame realizado no 3º dia do ciclo, sem uso de contracepção hormonal. Ovário direito com volume de 6,2 cm³ e 8 folículos antrais de 2 a 10 mm. Ovário esquerdo com volume de 5,8 cm³ e 7 folículos antrais. Contagem de folículos antrais (CFA) total: 15.”
  • “CFA total de 4 (ovário direito: 2; ovário esquerdo: 2), abaixo do limiar de 5 a 7 folículos utilizado nos critérios de Bologna para reserva ovariana reduzida. Correlacionar com idade e AMH.”
  • “Ovário esquerdo de visualização limitada (posição alta e interposição de alças), o que pode subestimar a contagem. CFA total possivelmente subestimada.”
  • “Ovário direito com 22 folículos de 2 a 9 mm e volume de 11,4 cm³; ovário esquerdo com 18 folículos e volume de 9,1 cm³. O ovário direito preenche o critério ultrassonográfico de morfologia ovariana policística (diretriz internacional 2023), a correlacionar com dados clínicos e laboratoriais.”

Quando escalonar

  • CFA baixa (abaixo de 5 a 7) em mulher que deseja gestar ou adiar a gestação: encaminhar para avaliação em reprodução humana, com AMH e avaliação clínica.
  • CFA baixa em mulher jovem, sobretudo abaixo de 35 anos ou com ciclos irregulares: considerar investigação de insuficiência ovariana prematura (FSH, estradiol), conforme quadro clínico.
  • Antes de quimioterapia, radioterapia pélvica ou cirurgia ovariana: a CFA ajuda a discutir preservação de fertilidade.
  • Discordância entre CFA e AMH: repetir a contagem no início do ciclo seguinte, de preferência sem contracepção hormonal e com o mesmo examinador.

Perguntas frequentes

Qual a contagem de folículos antrais normal?

Não há um valor normal único, porque a CFA cai com a idade. Os cortes com respaldo de consenso são para baixa reserva: menos de 5 a 7 folículos no total (Bologna) ou menos de 5 (POSEIDON). Valores muito altos sugerem risco de hiper-resposta à estimulação, com cortes variáveis entre estudos.

Em que dia do ciclo fazer a contagem de folículos antrais?

Na fase folicular precoce, em geral entre o 2º e o 4º dia do ciclo, antes do surgimento do folículo dominante. Alguns protocolos aceitam até o 5º dia.

CFA baixa significa que a mulher não vai engravidar?

Não. CFA e AMH preveem a quantidade de oócitos obtidos na estimulação, não a chance de gestação natural. A idade continua sendo o principal fator prognóstico.

Posso fazer a contagem de folículos antrais usando anticoncepcional?

Pode, mas a contagem tende a ficar menor, e o laudo deve informar o uso. Para uma avaliação mais fiel, em geral se repete o exame após a suspensão do método, conforme orientação do especialista.

Conclusão

A contagem de folículos antrais é simples, barata e reprodutível quando feita com técnica padronizada: transvaginal, fase folicular precoce, folículos de 2 a 10 mm, ovário inteiro e soma dos dois lados. Abaixo de 5 a 7 folículos, ela sinaliza reserva reduzida (Bologna e POSEIDON), sem prever sozinha a fertilidade. E, como a SOP usa outra régua (20 ou mais por ovário), o laudo ideal traz a contagem de cada ovário e a soma.

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Referências

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  • Coelho Neto MA, Ludwin A, Borrell A, et al. Counting ovarian antral follicles by ultrasound: a practical guide. Ultrasound in Obstetrics & Gynecology, 2018;51(1):10-20.
  • Ferraretti AP, La Marca A, Fauser BCJM, Tarlatzis B, Nargund G, Gianaroli L; ESHRE working group on Poor Ovarian Response Definition. ESHRE consensus on the definition of “poor response” to ovarian stimulation for in vitro fertilization: the Bologna criteria. Human Reproduction, 2011;26(7):1616-1624.
  • Alviggi C, Andersen CY, Buehler K, et al. (Poseidon Group). A new more detailed stratification of low responders to ovarian stimulation: from a poor ovarian response to a low prognosis concept. Fertility and Sterility, 2016;105(6):1452-1453.
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  • Bozdag G, Calis P, Zengin D, Tanacan A, Karahan S. Age related normogram for antral follicle count in general population and comparison with previous studies. European Journal of Obstetrics & Gynecology and Reproductive Biology, 2016;206.

Conteúdo educativo destinado a profissionais de saúde. Não substitui o julgamento clínico nem as diretrizes institucionais; a interpretação da reserva ovariana deve considerar idade, AMH, história reprodutiva e o quadro clínico de cada paciente.

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