Ultrassom pélvico: via abdominal ou transvaginal? Preparo e o que avalia

Ilustração de ultrassom pélvico com transdutor no abdome inferior e desenho do útero, ovários e bexiga

O ultrassom pélvico pode ser feito por duas vias. Na via abdominal (suprapúbica), o transdutor é passado sobre o pé da barriga e o exame exige bexiga cheia, que funciona como uma janela para enxergar o útero e os ovários. Na via transvaginal, o transdutor é introduzido na vagina, a bexiga deve estar vazia e a imagem tem muito mais detalhe. Em geral, a via transvaginal é a preferida para avaliar endométrio e ovários em mulheres com vida sexual ativa, enquanto a via abdominal é usada em virgens, crianças e adolescentes, em quem recusa ou não tolera o exame interno e quando há massas grandes que saem da pelve. Muitas vezes as duas vias são combinadas no mesmo exame.

Para quem realiza o exame, saber escolher a via, medir de forma padronizada e registrar as limitações faz diferença na comparação entre exames e na conduta. Este guia explica as diferenças, o preparo de cada via, o que o exame avalia, as medidas principais e os erros mais comuns.

Via abdominal e via transvaginal: qual a diferença

As duas vias olham para os mesmos órgãos, mas de lugares diferentes. Na via abdominal, o som atravessa a parede do abdome e a bexiga cheia antes de chegar ao útero. Isso permite um campo de visão amplo, porém com menos resolução. Na via transvaginal, o transdutor fica a poucos centímetros do útero e dos ovários, o que permite usar frequências mais altas e ver detalhes finos, mas com alcance menor.

Característica Via abdominal (suprapúbica) Via transvaginal
Preparo Bexiga cheia Bexiga vazia
Frequência do transdutor Mais baixa (convexo, em geral entre 2 e 5 MHz) Mais alta (endocavitário, em geral entre 5 e 9 MHz)
Resolução Menor Maior
Campo de visão Amplo, mostra a pelve inteira e o abdome inferior Restrito à pelve verdadeira
Melhor para Visão geral, úteros e massas grandes, crianças, virgens Endométrio, ovários, lesões pequenas, gestação inicial
Limitações Obesidade, gases, bexiga pouco cheia, útero retrovertido Massas acima da pelve, útero muito volumoso, pacientes que não podem ou não querem o exame interno
Desconforto Vontade de urinar Pressão leve, em geral bem tolerada

Nenhuma das vias é “melhor” em todas as situações. As diretrizes de ultrassom pélvico feminino, como a do American Institute of Ultrasound in Medicine (AIUM) com o American College of Radiology e outras sociedades, recomendam usar a via ou a combinação de vias que melhor responda à pergunta clínica.

Quando cada via é usada

Via abdominal

  • Mulheres que nunca tiveram relação sexual, por respeito e conforto.
  • Crianças e adolescentes, na investigação de puberdade precoce, dor pélvica, sangramento ou malformações.
  • Idosas com atrofia vaginal importante, estenose do canal ou desconforto que impede o exame interno.
  • Massas grandes e úteros muito aumentados, por exemplo com miomas volumosos, que ultrapassam o alcance do transdutor vaginal.
  • Recusa ou intolerância ao exame transvaginal, sempre respeitando a decisão da paciente.
  • Como primeira etapa, antes do transvaginal, para ter uma visão geral da pelve e checar os rins quando há suspeita de alteração das vias urinárias.

Via transvaginal

  • Avaliação do endométrio, especialmente no sangramento uterino anormal e na pós-menopausa.
  • Ovários e anexos: cistos, folículos, contagem de folículos antrais, suspeita de torção e caracterização de massas.
  • Gestação inicial e suspeita de gravidez ectópica.
  • Endometriose e dor pélvica, com exame dinâmico.
  • Pacientes com obesidade, em quem a via abdominal perde muita qualidade.

Os detalhes do exame interno, como se pode fazer menstruada e a melhor fase do ciclo, estão no nosso guia de ultrassom transvaginal.

Quando combinar as duas

Combinar é comum e, muitas vezes, o mais correto. Um exemplo típico é o útero miomatoso grande: o transvaginal mostra o endométrio e os miomas próximos à cavidade, e a via abdominal mostra o fundo uterino e os miomas mais altos. Outro exemplo é a massa anexial volumosa, em que a via abdominal mede a lesão inteira e a vaginal estuda as paredes e as projeções sólidas.

Preparo do ultrassom pélvico

Via abdominal: bexiga cheia

Em geral, pede-se para beber água cerca de uma hora antes e não urinar até o exame. Muitos serviços orientam algo em torno de um litro, mas a quantidade e o horário variam conforme o serviço, então vale seguir a orientação recebida no agendamento. A bexiga está adequada quando cobre o fundo do útero. Bexiga cheia demais também atrapalha, porque empurra e comprime os órgãos e deixa a paciente muito desconfortável. Nesses casos, esvaziar parcialmente costuma resolver.

Não é necessário jejum para o pélvico isolado. Se o pedido incluir abdome superior ou abdome total, o preparo muda. Veja nosso guia sobre preparo para ultrassom, jejum e bexiga cheia.

Via transvaginal: bexiga vazia

A paciente urina pouco antes do exame. Não há jejum. Se o exame começar pela via abdominal, ela esvazia a bexiga entre uma etapa e outra.

Crianças

Na criança, a bexiga cheia é ainda mais importante, porque o exame é só abdominal. Oferecer líquidos com antecedência e evitar que urine antes ajuda bastante.

O que o ultrassom pélvico avalia

Útero

Posição (anteversão ou retroversão, flexão), contornos, dimensões, aspecto do miométrio e presença de miomas, adenomiose ou malformações. Na criança, o útero tem forma tubular e o colo é proporcionalmente grande; com a puberdade, o corpo cresce e passa a ser maior que o colo.

Endométrio

Espessura, aspecto (que muda ao longo do ciclo), contorno da linha média e lesões focais, como pólipos. A medida é bem mais confiável pela via transvaginal.

Ovários e anexos

Tamanho, folículos, cistos e massas. As trompas normais em geral não são vistas; ficam visíveis quando há líquido dentro delas, como na hidrossalpinge. Massas são descritas com a terminologia IOTA e classificadas pelo O-RADS US.

Bexiga e fundo de saco

A bexiga cheia permite avaliar parede, conteúdo e eventuais lesões. No fundo de saco, registra-se a presença e a quantidade de líquido livre.

Ultrassom pélvico masculino

No homem, o ultrassom pélvico é feito por via abdominal, com bexiga cheia, e avalia bexiga, próstata e vesículas seminais. Costuma incluir o volume da próstata e o resíduo pós-miccional, medido logo depois de urinar. Quando é preciso mais detalhe na próstata, usa-se a via transretal. Explicamos tudo no guia de ultrassom de próstata, via abdominal e transretal.

Técnica e medidas para profissionais

Via abdominal

  • Transdutor convexo, paciente em decúbito dorsal, bexiga adequadamente cheia.
  • Varredura sagital de um lado ao outro e transversal do colo ao fundo, angulando o transdutor para os anexos usando a bexiga como janela.
  • Avaliar também a região acima da pelve quando houver massa, e os rins se houver suspeita de obstrução ou malformação associada.
  • Se a bexiga estiver pouco cheia, aguardar ou complementar com o transvaginal, e registrar a limitação.

Medidas do útero

  • Comprimento: no plano sagital, do fundo até o orifício externo do colo.
  • Diâmetro anteroposterior: no mesmo plano, perpendicular ao comprimento, na maior espessura do corpo.
  • Largura (transverso): no plano transversal, na maior largura do corpo.
  • Volume: estimado pela fórmula do elipsoide (comprimento × anteroposterior × transverso × 0,523).

Os valores normais variam bastante com idade, paridade e estado hormonal, por isso a comparação deve levar em conta a fase da vida da paciente. Em úteros em anteflexão ou retroflexão acentuada, o comprimento pode ser medido em dois segmentos (corpo e colo) e somado, o que deve ficar claro no laudo.

Espessura endometrial

  • Medida no plano sagital médio, na maior espessura, incluindo as duas camadas, de uma interface endométrio-miométrio à outra.
  • Líquido na cavidade fica de fora: medem-se as duas camadas separadamente e somam-se, como propõe o consenso do grupo IETA.
  • A via abdominal serve para uma estimativa grosseira; para decisão clínica, em geral se usa a medida transvaginal.
  • Na pós-menopausa com sangramento, o American College of Obstetricians and Gynecologists considera que um endométrio de até 4 mm pelo transvaginal tem baixa probabilidade de câncer, desde que a linha endometrial seja bem vista. Quando o endométrio não é bem visualizado, a medida não deve tranquilizar e outra investigação é indicada.

Volume ovariano

  • Medir os três maiores diâmetros perpendiculares (longitudinal e anteroposterior no mesmo plano, transverso no plano ortogonal) e calcular pela fórmula do elipsoide.
  • Descrever os folículos e as lesões. O maior folículo ou cisto funcional aumenta o volume e deve ser considerado na interpretação.
  • Na suspeita de síndrome dos ovários policísticos, a diretriz internacional de 2023 considera morfologia policística a contagem de 20 ou mais folículos por ovário com transdutor vaginal de alta frequência, ou volume ovariano de 10 mL ou mais, desde que não haja corpo lúteo, cisto ou folículo dominante. A mesma diretriz não recomenda usar o ultrassom para esse diagnóstico em adolescentes com menos de oito anos desde a primeira menstruação.

Doppler

O Doppler colorido ajuda a avaliar a vascularização de massas, miomas e do endométrio, e é parte da avaliação na suspeita de torção ovariana. Lembre que a presença de fluxo não exclui torção.

O que descrever no laudo

Um laudo de ultrassom pélvico útil traz:

  • Via utilizada (abdominal, transvaginal ou ambas) e, se só abdominal, o motivo (virgem, criança, recusa, massa volumosa).
  • Dados clínicos: data da última menstruação ou dia do ciclo, menopausa, terapia hormonal, DIU, gestação e indicação.
  • Qualidade da janela: grau de repleção da bexiga e limitações como obesidade e gases.
  • Útero: posição, contornos, três medidas e volume, aspecto do miométrio, miomas com localização pela classificação FIGO e termos do consenso MUSA.
  • Endométrio: espessura, aspecto e lesões, com terminologia IETA, e se a linha endometrial foi bem vista.
  • Ovários: medidas, volume, folículos e lesões, com descritores IOTA e categoria O-RADS.
  • Anexos e fundo de saco: massas, hidrossalpinge, líquido livre e sua quantidade.
  • Bexiga: parede e conteúdo; no homem, também próstata, volume e resíduo pós-miccional.
  • Conclusão objetiva, respondendo à pergunta clínica e, quando a via abdominal for insuficiente, sugerindo complementação transvaginal se a paciente puder e quiser.

Erros comuns

Bexiga vazia ou cheia demais na via abdominal

Com pouca urina, o útero e os ovários ficam escondidos atrás das alças intestinais. Com urina demais, os órgãos são comprimidos e deslocados, o útero pode parecer mais fino e a paciente não tolera a pressão do transdutor.

Dar peso à espessura endometrial medida pela via abdominal

A resolução é menor e a borda do endométrio fica menos nítida. Usar essa medida para decidir investigação na pós-menopausa pode levar a erro em qualquer direção.

Concluir “ovários não visualizados” como normal

Ovário não visto não é ovário normal. Registre a limitação e, se houver indicação, sugira complementar com outra via ou outro método.

Não informar a via no laudo

Medidas feitas por vias diferentes não são totalmente comparáveis. Sem essa informação, o próximo examinador não sabe se a mudança é real ou técnica.

Ficar só no transvaginal diante de massa grande

O transdutor vaginal pode cortar a lesão e subestimar o tamanho, ou deixar de ver o polo superior e componentes sólidos fora do campo. Complemente pela via abdominal.

Medir o útero fora do eixo

Medidas oblíquas encurtam ou alongam o útero. Alinhe o plano sagital com o canal endocervical e a linha endometrial antes de medir.

Perguntas frequentes

Qual a diferença entre ultrassom pélvico e transvaginal?

O transvaginal é uma das vias do ultrassom pélvico. Quando o pedido diz só “pélvico”, em geral significa via abdominal, com bexiga cheia. O transvaginal é feito por dentro, com bexiga vazia, e mostra mais detalhes.

Virgem pode fazer ultrassom pélvico?

Sim. Nesses casos o exame é feito pela via abdominal, com bexiga cheia, e permite avaliar útero, ovários e bexiga.

Quanta água preciso beber para o ultrassom pélvico?

Em geral, algo em torno de um litro cerca de uma hora antes, sem urinar até o exame. Siga a orientação do serviço onde vai fazer o exame, porque ela pode variar.

Precisa de jejum para ultrassom pélvico?

Não, quando o exame é só pélvico. Se for junto com abdome total ou abdome superior, o jejum é necessário.

O ultrassom pélvico pela barriga mostra o endométrio?

Mostra, mas com menos detalhe. Para medir o endométrio com precisão, especialmente na menopausa, em geral se prefere o transvaginal.

Homem faz ultrassom pélvico?

Sim. No homem, o exame avalia bexiga, próstata e vesículas seminais, e costuma medir o resíduo de urina após urinar.

Conclusão

O ultrassom pélvico não é um exame único, e sim um conjunto de escolhas. A via abdominal oferece visão ampla e é a opção para virgens, crianças e massas grandes; a transvaginal traz detalhe para endométrio e ovários. Combinar as vias quando necessário, medir de forma padronizada e informar a via e as limitações no laudo torna o exame comparável e útil para quem vai decidir a conduta.

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Referências

  • American Institute of Ultrasound in Medicine. AIUM-ACR-ACOG-SMFM-SRU Practice Parameter for the Performance of Ultrasound of the Female Pelvis. Journal of Ultrasound in Medicine, 2020.
  • Leone FPG, Timmerman D, Bourne T, et al. Terms, definitions and measurements to describe the sonographic features of the endometrium and intrauterine lesions: a consensus opinion from the International Endometrial Tumor Analysis (IETA) group. Ultrasound in Obstetrics & Gynecology, 2010.
  • American College of Obstetricians and Gynecologists. Committee Opinion No. 734: The Role of Transvaginal Ultrasonography in Evaluating the Endometrium of Women With Postmenopausal Bleeding. Obstetrics & Gynecology, 2018.
  • Van den Bosch T, Dueholm M, Leone FPG, et al. Terms, definitions and measurements to describe sonographic features of myometrium and uterine masses: a consensus opinion from the Morphological Uterus Sonographic Assessment (MUSA) group. Ultrasound in Obstetrics & Gynecology, 2015.
  • Teede HJ, Tay CT, Laven JJE, et al. Recommendations from the 2023 International Evidence-based Guideline for the Assessment and Management of Polycystic Ovary Syndrome. Human Reproduction / Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism, 2023.
  • Andreotti RF, Timmerman D, Strachowski LM, et al. O-RADS US Risk Stratification and Management System: a consensus guideline from the ACR Ovarian-Adnexal Reporting and Data System Committee. Radiology, 2020.

Este conteúdo tem finalidade educacional e não substitui a avaliação médica. A escolha da via do exame e a interpretação do resultado cabem ao médico que acompanha a paciente ou o paciente.

Respostas

  1. Avatar de Ultrassom do útero: mioma, adenomiose e pólipo endometrial – UltraLaudo Blog

    […] A via transvaginal mostra o miométrio e o endométrio com muito mais detalhe, porque o transdutor fica perto do útero. A via abdominal é útil para úteros grandes, miomas volumosos que sobem para o abdome e pacientes que não fazem o exame interno. Muitas vezes as duas se completam. Explicamos a diferença entre elas no guia de ultrassom pélvico, via abdominal ou transvaginal. […]

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  2. Avatar de Ultrassom para ver a posição do DIU: quando fazer e o que significa DIU baixo ou deslocado – UltraLaudo Blog

    […] Quando o transvaginal não é possível, o exame pode ser feito pela barriga, com a bexiga cheia, mas a imagem costuma ser menos detalhada. Veja as diferenças no texto sobre ultrassom pélvico: via abdominal ou transvaginal. […]

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