Em 2012, a revista Intensive Care Medicine publicou as recomendações internacionais baseadas em evidência para o ultrassom pulmonar à beira do leito, assinadas por Volpicelli, Elbarbary, Blaivas e outros 25 especialistas. Foi o primeiro consenso internacional sobre ultrassom pulmonar e é até hoje o texto que padroniza a linguagem do método: o que é deslizamento pleural, o que é linha B, quando uma região é “positiva” para síndrome intersticial e quais sinais definem pneumotórax, consolidação e derrame pleural. A mensagem prática cabe em uma frase: no pulmão, o ultrassom lê sobretudo artefatos, e esses artefatos só têm valor quando são definidos, procurados de forma sistemática e interpretados junto com a clínica.
Ficha do artigo
Referência: Volpicelli G, Elbarbary M, Blaivas M, Lichtenstein DA, Mathis G, Kirkpatrick AW, et al. International evidence-based recommendations for point-of-care lung ultrasound. Intensive Care Med. 2012;38:577-591.
DOI: 10.1007/s00134-012-2513-4
Tipo de estudo: consenso de especialistas com revisão da literatura e graduação das recomendações (não é estudo original com coleta de pacientes).
Painel: 28 especialistas de 8 países (International Liaison Committee on Lung Ultrasound, ILC-LUS), de áreas como emergência, terapia intensiva, anestesiologia, pneumologia, cardiologia, pediatria e neonatologia; o documento foi endossado pela WINFOCUS.
Contexto: ultrassom pulmonar point-of-care (POCUS), isto é, feito e interpretado à beira do leito por quem cuida do paciente, com foco em emergência e terapia intensiva.
Por que este artigo importa
Durante décadas, o pulmão foi território proibido para o ultrassom: o ar reflete quase todo o feixe. A virada veio quando grupos de terapia intensiva e emergência mostraram que os artefatos da interface pleura/pulmão mudam de forma previsível conforme a quantidade de ar, água e tecido no pulmão periférico. Mas cada grupo usava seus próprios nomes: “caudas de cometa”, “B+”, “lung rockets”. Sem definição comum, não dá para comparar estudos, ensinar ou laudar de forma reprodutível.
O consenso de 2012 resolve exatamente isso. Ele define os sinais, diz como procurá-los e gradua a força da evidência para quatro grandes perguntas clínicas: pneumotórax, síndrome intersticial, consolidação e derrame pleural.
Para o radiologista e o ultrassonografista, a dor é dupla: muitos aprenderam que “pulmão não se avalia ao ultrassom” e hoje recebem pedidos vindos de emergência e UTI, e ao laudar falta um vocabulário que o clínico reconheça. O artigo oferece esse vocabulário.
O que os autores fizeram
O objetivo declarado foi fornecer recomendações baseadas em evidência e em consenso de especialistas para o ultrassom pulmonar, com foco em emergência e terapia intensiva.
O método combinou duas etapas:
- Revisão da literatura e graduação da evidência: cada afirmação foi associada a um nível de qualidade da evidência (A alto, B moderado, C baixo), adaptado do sistema GRADE (sistema de graduação da qualidade da evidência e da força das recomendações).
- Painel com o método de adequação RAND/UCLA: 28 especialistas de 8 países discutiram as propostas em três conferências, com duas rodadas presenciais de técnica Delphi modificada (votações sucessivas, com discussão entre elas, até medir o grau de concordância). O resultado de cada votação definiu se a recomendação seria forte, condicional ou se não houve consenso.
Ao todo, 73 afirmações foram examinadas. Segundo o resumo do artigo, foram feitas recomendações fortes para 65 delas; nas demais, o painel não chegou a consenso ou emitiu recomendação condicional (fraca).
Olhar crítico: um consenso RAND/UCLA mede concordância entre especialistas, não acurácia. Uma recomendação pode ser forte com evidência moderada, e o painel era formado por pioneiros do método.
Principais resultados
A tabela resume os principais sinais e recomendações, nos termos usados pelo consenso:
| Tema | Sinal ou definição | O que o consenso diz |
|---|---|---|
| Pneumotórax | Deslizamento pleural (lung sliding) | Movimento rítmico, sincronizado com a respiração, entre pleura parietal e visceral. Sua ausência é um dos sinais de pneumotórax |
| Pneumotórax | Pulso pulmonar (lung pulse) | Oscilação sutil da pleura visceral sobre a parietal, transmitida pelos batimentos cardíacos. Sua presença indica pleuras em contato |
| Pneumotórax | Linhas B | Nascem da pleura visceral. Sua presença indica que a pleura visceral está encostada na parietal naquele ponto, afastando pneumotórax ali |
| Pneumotórax | Ponto pulmonar (lung point) | Transição, em um mesmo ponto, entre padrão de pneumotórax e área com deslizamento. Descrito como específico de pneumotórax |
| Pneumotórax | Técnica | Começar pelas áreas menos dependentes da gravidade e progredir lateralmente; modo M e Doppler colorido podem ajudar |
| Pneumotórax | Comparação | O ultrassom confirma e afasta pneumotórax com mais acurácia que a radiografia anterior em supino |
| Síndrome intersticial | Linha B | Artefato de reverberação vertical, hiperecogênico, “em feixe de laser”, que nasce da linha pleural, vai até o fundo da tela sem enfraquecer e se move com o deslizamento |
| Síndrome intersticial | Região positiva | Três ou mais linhas B em um plano longitudinal entre duas costelas |
| Síndrome intersticial | Varredura | Idealmente oito regiões, quatro por hemitórax (anterior superior e inferior, lateral superior e basal); alternativas: varredura anterior de duas regiões ou dos 28 espaços intercostais |
| Síndrome intersticial | Exame positivo | Duas ou mais regiões positivas em cada hemitórax, com distribuição difusa |
| Consolidação | Sinal básico | Região subpleural hipoecoica ou com ecotextura semelhante a tecido |
| Consolidação | Características adicionais | Margens profundas, artefatos em cauda de cometa na margem profunda, broncograma aéreo, broncograma líquido e padrão vascular |
| Consolidação | Causas | Infecção, embolia pulmonar, câncer de pulmão e metástase, atelectasia compressiva ou obstrutiva e contusão |
| Derrame pleural | Sinais | Espaço, em geral anecoico, entre pleura parietal e visceral; movimento do pulmão dentro do derrame com a respiração (sinal do sinusoide ao modo M) |
| Derrame pleural | Onde procurar | Derrame livre: linha axilar posterior, acima do diafragma |
| Derrame pleural | Natureza | Ecos internos sugerem exsudato ou hemorragia; a maioria dos transudatos é anecoica, mas alguns exsudatos também são |
| Derrame pleural | Comparação | Mais acurado que a radiografia em supino e tão acurado quanto a tomografia |
Três pontos merecem destaque:
- Pneumotórax depende de sinais ausentes e de um presente. Os quatro sinais são presença de ponto pulmonar e ausência de deslizamento, de linhas B e de pulso pulmonar. O consenso também recomenda o termo “padrão B” (B-pattern) em vez de “lung rockets” ou “B+”.
- Linha B isolada não é doença. O consenso reconhece que linhas B focais podem aparecer em pulmão normal, e que um padrão focal ocorre em pneumonia, atelectasia, contusão, infarto pulmonar, doença pleural e neoplasia.
- Distribuição e linha pleural diferenciam causas. Na doença parenquimatosa difusa (como a fibrose), as linhas B tendem a ser difusas e não homogêneas, com linha pleural irregular e fragmentada e pequenas áreas hipoecoicas subpleurais. No edema cardiogênico, o padrão B é difuso e bilateral, e o número de linhas B serve para semiquantificar a gravidade e acompanhar a resposta ao tratamento. Na síndrome do desconforto respiratório agudo (SDRA), o consenso descreve consolidações subpleurais anteriores, deslizamento reduzido ou ausente, áreas poupadas de parênquima normal, alterações da linha pleural e distribuição não homogênea das linhas B.
Contexto: o protocolo BLUE
O consenso cita o protocolo BLUE (Bedside Lung Ultrasound in Emergency), de Lichtenstein e Mezière (Chest, 2008), que organiza esses sinais em perfis para a insuficiência respiratória aguda. Em 260 pacientes com diagnóstico definido, o protocolo acertou o diagnóstico em 90,5% dos casos; linhas B anteriores difusas com deslizamento preservado indicaram edema pulmonar com sensibilidade de 97% e especificidade de 95%. É um estudo de centro único, feito pelo criador do método, e serve como contexto, não como regra universal.
O que muda na prática do ultrassonografista
1. Escolha do transdutor depende da pergunta. O consenso prefere o microconvexo para pneumotórax e para derrame pleural, mas aceita outros transdutores. Na prática, em geral:
- linear (alta frequência): melhor para a linha pleural, deslizamento, pulso pulmonar e pequenas consolidações subpleurais; ruim para profundidade;
- convexo (abdominal): bom para derrame, consolidações maiores e bases pulmonares; mostra bem as linhas B até o fundo da tela;
- setorial (phased array, cardíaco): pequena área de contato entre as costelas, útil no paciente acamado e quando o mesmo exame inclui o coração.
O consenso também lembra que frequências mais baixas permitem avaliar melhor a extensão de uma consolidação.
2. Ajuste o aparelho para ver artefatos. Presets cardíacos e abdominais costumam usar filtros e imagem harmônica que “limpam” os artefatos de que você precisa. Em geral, vale usar preset de pulmão quando existir, foco na linha pleural e profundidade suficiente para ver se a linha B chega ao fundo da tela.
3. Artefato não é anatomia. Abaixo da linha pleural, no pulmão aerado, nada do que se vê é estrutura real: as linhas A são repetições da própria pleura, e as linhas B são reverberações. Isso explica por que medir ou “descrever” o que está abaixo da pleura no pulmão normal não faz sentido. Já na consolidação e no derrame, o ar foi substituído por tecido ou líquido e voltamos a ver anatomia: parênquima, brônquios com ar ou líquido, vasos, diafragma.
4. Seja sistemático. Oito regiões para síndrome intersticial, áreas não dependentes para pneumotórax e bases posterolaterais para derrame e consolidação. Exame em uma só janela tende a perder achados.
5. Linha B pede contexto. Edema cardiogênico, fibrose, pneumonia, contusão e SDRA produzem linhas B. O que ajuda a separar é: distribuição (difusa e homogênea ou focal e “em mosaico”), aspecto da linha pleural (lisa ou irregular e espessada), presença de consolidações subpleurais, derrame associado e, sobretudo, o quadro clínico.
6. Ultrassom pulmonar é seguro. Sem radiação ionizante, pode ser repetido para acompanhar o paciente, inclusive na gestante. Explicamos os princípios de segurança do método no post ultrassom faz mal?.
Como levar para o laudo
O laudo de ultrassom pulmonar deve dizer onde se olhou, com o quê e o que foi encontrado em cada região, usando a terminologia do consenso. Sugestão de estrutura para um laudo estruturado:
- Técnica: transdutor(es) usados, posição do paciente (supino, sentado, decúbito lateral), protocolo de varredura (8 regiões, 6 regiões, 28 espaços ou exame dirigido).
- Por região e por hemitórax: deslizamento pleural (presente, reduzido, ausente), aspecto da linha pleural, padrão predominante (linhas A, padrão B com número aproximado de linhas B, linhas B confluentes), consolidação, derrame.
- Pneumotórax: presença ou ausência de ponto pulmonar e sua localização.
- Consolidação: região, dimensões, broncograma aéreo ou líquido, margens e padrão vascular ao Doppler.
- Derrame: lado, aspecto (anecoico, com ecos, septado), espessura máxima e presença de pulmão atelectasiado flutuando.
- Comparação com exame anterior, quando houver.
- Conclusão descritiva, sem fechar etiologia que o ultrassom não define.
Exemplos de frases:
Exame sem alterações
- “Deslizamento pleural presente bilateralmente, com padrão de linhas A nas oito regiões avaliadas. Ausência de padrão B, consolidações ou derrame pleural.”
Síndrome intersticial
- “Padrão B bilateral (três ou mais linhas B por região) em seis das oito regiões avaliadas, com linha pleural fina e regular e distribuição homogênea. Achado compatível com síndrome intersticial difusa; correlacionar com dados clínicos (edema pulmonar cardiogênico como hipótese a considerar).”
Pneumotórax
- “Ausência de deslizamento pleural, de linhas B e de pulso pulmonar na parede anterior do hemitórax direito, com ponto pulmonar identificado na linha axilar anterior. Achados diagnósticos de pneumotórax à direita.”
- “Ausência de deslizamento pleural na parede anterior direita, sem ponto pulmonar identificado. Achado suspeito, porém não específico, de pneumotórax; correlacionar com contexto clínico e outros métodos.”
Consolidação e derrame
- “Consolidação subpleural no lobo inferior esquerdo, com ecotextura semelhante a tecido e broncograma aéreo. Pequeno derrame pleural anecoico associado. Achados compatíveis com consolidação pulmonar; correlacionar com quadro clínico.”
Limitações e críticas
- Consenso não é estudo de acurácia. Muitas recomendações fortes se apoiam em evidência moderada, em geral de estudos de centro único com examinadores experientes.
- O ultrassom só vê o que toca a pleura. O próprio consenso afirma que o ultrassom é útil para confirmar pneumonia, mas não afasta consolidações que não chegam à pleura. Também não houve consenso sobre usar o ultrassom para diferenciar pneumotórax pequeno de grande.
- Linhas B são sensíveis, mas pouco específicas. Contar linhas B não diz a causa. A diferenciação entre edema, fibrose, pneumonia e SDRA depende de padrão, linha pleural e clínica, e há sobreposição.
- Ausência de deslizamento não é sinônimo de pneumotórax. Na prática, situações como intubação seletiva, apneia e aderências pleurais também podem abolir o deslizamento. Por isso o ponto pulmonar, descrito pelo consenso como específico, é o sinal que confirma.
- Atualizações posteriores. Em 2020, Soldati e colaboradores propuseram, no Journal of Ultrasound in Medicine, uma padronização para COVID-19 com 14 áreas de varredura e escore de 0 a 3 por área. Em 2023, Demi e colaboradores publicaram, no mesmo periódico, um novo consenso internacional que revisou a orientação de 2012, com 20 afirmações (técnicas, clínicas, educacionais e de segurança). Em 2025, a European Society of Intensive Care Medicine (ESICM) e a European Society for Paediatric and Neonatal Intensive Care (ESPNIC) publicaram, na Intensive Care Medicine, um consenso de 20 especialistas com 46 afirmações sobre o ultrassom pulmonar quantitativo na terapia intensiva, baseado no escore de aeração de 0 a 3 por região, em adultos, crianças e recém-nascidos.
Dúvidas frequentes de quem lauda
Qual transdutor devo usar?
O consenso prefere o microconvexo para pneumotórax e derrame, mas aceita linear, convexo e setorial. Em geral, o linear é melhor para estudar a linha pleural e o convexo ou setorial para profundidade, derrame e consolidações. Registre no laudo qual foi usado.
Quantas linhas B tornam uma região “positiva”?
Três ou mais linhas B em um plano longitudinal entre duas costelas. Uma ou duas linhas B isoladas, especialmente nas bases, podem ser encontradas em pulmão normal.
Padrão B difuso é edema pulmonar?
Não necessariamente. É síndrome intersticial. Edema cardiogênico, fibrose, pneumonia viral e SDRA podem dar padrão B. Linha pleural regular e distribuição homogênea e bilateral favorecem edema; linha pleural irregular, consolidações subpleurais e áreas poupadas favorecem causas inflamatórias ou fibróticas.
Não vi deslizamento. Posso laudar pneumotórax?
O sinal que confirma é o ponto pulmonar, descrito pelo consenso como específico. Sem ele, descreva a ausência de deslizamento como achado suspeito e correlacione com a clínica.
Devo documentar com vídeo?
Sempre que possível. Deslizamento, pulso pulmonar e o movimento das linhas B são achados dinâmicos, que uma imagem estática não comprova. Clipes curtos por região ou o modo M na linha pleural tornam o exame auditável e comparável.
Um radiologista deve laudar POCUS?
O consenso trata do exame feito à beira do leito por quem cuida do paciente, mas as definições valem para qualquer ultrassom de tórax. O laudo ganha clareza ao usar essa terminologia, descrever a técnica e separar achado (padrão B, consolidação) de interpretação clínica.
Conclusão
O consenso de Volpicelli e colaboradores deu ao ultrassom pulmonar uma linguagem comum: definiu deslizamento, pulso pulmonar, ponto pulmonar e linha B, fixou em três linhas B o limiar de região positiva, propôs a varredura de oito regiões e mostrou que, para pneumotórax, síndrome intersticial, consolidação e derrame, o ultrassom é em geral mais acurado que a radiografia à beira do leito. Para quem lauda, a lição é escolher o transdutor pela pergunta, lembrar que boa parte do que se vê é artefato, varrer de forma sistemática, documentar em vídeo e descrever o padrão por região sem atribuir uma etiologia que o método sozinho não define.
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Referências
- Volpicelli G, Elbarbary M, Blaivas M, et al. International evidence-based recommendations for point-of-care lung ultrasound. Intensive Care Medicine, 2012;38:577-591. DOI: 10.1007/s00134-012-2513-4.
- Lichtenstein DA, Mezière GA. Relevance of lung ultrasound in the diagnosis of acute respiratory failure: the BLUE protocol. Chest, 2008;134(1):117-125. DOI: 10.1378/chest.07-2800.
- Soldati G, Smargiassi A, Inchingolo R, et al. Proposal for international standardization of the use of lung ultrasound for patients with COVID-19. Journal of Ultrasound in Medicine, 2020;39(7):1413-1419. DOI: 10.1002/jum.15285.
- Demi L, Wolfram F, Klersy C, et al. New international guidelines and consensus on the use of lung ultrasound. Journal of Ultrasound in Medicine, 2023. DOI: 10.1002/jum.16088.
- Mongodi S, Cortegiani A, Alonso-Ojembarrena A, et al. ESICM-ESPNIC international expert consensus on quantitative lung ultrasound in intensive care. Intensive Care Medicine, 2025. DOI: 10.1007/s00134-025-07932-y.
Este conteúdo tem finalidade educacional e é voltado a profissionais e estudantes de ultrassonografia. Não substitui a avaliação médica individual. A interpretação do ultrassom pulmonar deve sempre considerar o quadro clínico e, quando indicado, outros métodos de imagem.

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