No ultrassom do diafragma, a excursão medida no modo M em respiração tranquila tem limite inferior da normalidade próximo de 1,0 cm em homens e 0,9 cm em mulheres, segundo Boussuges et al. (Chest, 2009), o estudo de referência com 210 voluntários saudáveis; no sniff os limites foram 1,8 e 1,6 cm, e na inspiração profunda 4,7 e 3,7 cm. Movimento ausente ou paradoxal (cranial) sugere paralisia. Na zona de aposição, a fração de espessamento (FE) normal costuma passar de 20%, e no desmame uma FE ≥ 30% previu sucesso da extubação com sensibilidade de 88% e especificidade de 71% no estudo de DiNino et al. (Thorax, 2014).
Resumo rápido
- Excursão (modo M, transdutor convexo ou setorial subcostal): em respiração tranquila, abaixo de cerca de 1 cm é anormal no adulto; compare sempre com o lado contralateral e com a manobra de sniff.
- Paralisia: excursão ausente ou paradoxal na respiração tranquila e, sobretudo, deslocamento paradoxal no sniff; o hemidiafragma paralisado não espessa (FE < 20%).
- Espessura (transdutor linear, zona de aposição): os limites inferiores publicados para a espessura expiratória variam de 1,2 a 2 mm, então espessura isolada não define doença.
- Fração de espessamento: FE = (espessura inspiratória − espessura expiratória) / espessura expiratória × 100.
- Desmame: excursão < 1 cm na UTI define disfunção (Kim et al., 2011); FE ≥ 30% (DiNino, 2014) e excursão > 1 cm se associam a sucesso, mas os estudos são heterogêneos e alguns são negativos.
- Paciente ventilado: só interprete excursão com o paciente respirando de forma espontânea (TRE em tubo T ou suporte mínimo), porque a pressão positiva desloca o diafragma passivamente.
Como fazer o ultrassom do diafragma: técnica
O protocolo abaixo segue o consenso EXODUS (Haaksma et al., Critical Care 2022), um Delphi com 14 especialistas em ultrassom diafragmático na UTI.
Excursão diafragmática (modo M)
- Transdutor: convexo ou setorial, 2 a 5 MHz.
- Janela: à direita, subcostal entre as linhas hemiclavicular e axilar média, pelo fígado, com o feixe na porção posterior da cúpula; à esquerda, pelo baço, com o transdutor mais posterior. O lado esquerdo é mais difícil: em 2009, Boussuges só mediu a inspiração profunda à esquerda em 45 dos 210 voluntários.
- Modo M: cursor perpendicular ao deslocamento; na inspiração a curva sobe em direção ao transdutor. Meça do pé da rampa inspiratória ao ápice, em três ciclos.
- Manobras: respiração tranquila, sniff voluntário e inspiração profunda.
- Modo M anatômico: alinha o cursor ao eixo real do movimento quando a cúpula fica oblíqua e aumentou muito a taxa de registro da inspiração profunda no estudo de 2021.
Espessura e fração de espessamento
- Transdutor: linear, 7 a 12 MHz.
- Local: zona de aposição, linha axilar média ou um pouco anterior, entre o 8º e o 11º arco costal.
- Imagem: camada hipoecoica entre duas linhas ecogênicas (pleura e peritônio).
- Caliper: entre as bordas internas da pleura e do peritônio, sem incluir as membranas. Modo B ou M (sem consenso; o M facilita marcar o fim da expiração e da inspiração).
- Cálculo: FE (%) = (Tdi insp − Tdi exp) / Tdi exp × 100, média de três ciclos.

O EXODUS aceita medir só o lado direito, exceto na suspeita de doença unilateral (cirurgia torácica, lesão do frênico ou medular), quando os dois lados são obrigatórios. O consenso sugere pelo menos 40 exames, 20 supervisionados, antes do uso independente.
Valores normais do ultrassom do diafragma
| Parâmetro | Homens | Mulheres | Fonte e condição |
|---|---|---|---|
| Excursão, respiração tranquila (limite inferior) | 1,0 cm | 0,9 cm | Boussuges 2009, em pé, n = 210 |
| Excursão, sniff (limite inferior) | 1,8 cm | 1,6 cm | Boussuges 2009 |
| Excursão, inspiração profunda (limite inferior) | 4,7 cm | 3,7 cm | Boussuges 2009 |
| Excursão, respiração tranquila, média (limites) | 1,9 ± 0,5 cm (0,9 a 2,8) | 1,7 ± 0,4 cm (0,9 a 2,5) | Boussuges 2021, sentado, n = 410, lado direito |
| Excursão, sniff, média (limites) | 2,9 ± 0,7 cm (1,5 a 4,3) | 2,6 ± 0,6 cm (1,3 a 3,9) | Boussuges 2021, lado direito |
| Excursão, inspiração profunda (limite inferior D / E) | 4,1 / 4,2 cm | 3,3 / 3,2 cm | Boussuges 2021, modo M anatômico |
| Espessura expiratória (limite inferior) | 1,2 a 2 mm, conforme o estudo | Revisão de Boussuges 2020 | |
| Fração de espessamento | > 20% em geral; o lado sadio de pacientes com paralisia variou de 28% a 96% | Gottesman e McCool 1997 |
Pontos práticos da tabela:
- Sexo importa. Os dois estudos de Boussuges mostraram excursões maiores em homens, e os autores recomendam limites separados.
- Posição importa. Para o mesmo volume inspirado, a excursão é maior em supino do que sentado ou em pé. Os limites de inspiração profunda de 2021 (sentado) ficaram menores que os de 2009 (em pé), e os autores consideram os de 2021 mais acurados pelo uso do modo M anatômico.
- Espessura isolada engana. Pessoas pequenas, mulheres muito magras e pacientes com perda muscular podem ter diafragma fino e funcionante (até 1,2 mm, segundo Santana et al., 2023). Para paralisia, a FE é melhor que a espessura.
Disfunção e paralisia diafragmática no ultrassom
Paralisia unilateral. No modo M, em respiração tranquila, o hemidiafragma paralisado mostra excursão nula ou paradoxal. Boussuges et al. (Clin Physiol Funct Imaging, 2019), em 26 pacientes, a maioria após cirurgia torácica, encontraram:
- Respiração tranquila: movimento ausente ou deslocamento paradoxal discreto, menor que 0,5 cm.
- Sniff: movimento paradoxal em todos os pacientes, em torno de −1 cm.
- Inspiração profunda: movimento paradoxal no início da inspiração, seguido de deslocamento craniocaudal.
- Lado sadio: excursões maiores que as de voluntários saudáveis, por compensação.
Como na inspiração profunda o movimento paradoxal pode durar só o início do ciclo, o sniff é a manobra mais discriminativa, como no teste do sniff à fluoroscopia.
Espessamento na paralisia. Gottesman e McCool (AJRCCM, 1997) mostraram que o hemidiafragma com paralisia crônica é atrófico e não espessa. Na paralisia unilateral, a espessura foi 1,7 ± 0,2 mm contra 2,7 ± 0,5 mm no lado sadio, e o espessamento foi de −8,5 ± 13% contra 65 ± 26%. Na revisão de Boussuges (2020), os valores do lado paralisado variaram de −35% a +5%, e o corte de 20% é o mais aceito para diagnóstico de paralisia. Na paralisia aguda, por exemplo logo após bloqueio interescalênico, a espessura de repouso ainda é normal, e só a ausência de espessamento denuncia o problema.
O ultrassom seriado também acompanha a recuperação: na série de Summerhill et al. (Chest, 2008), ela levou em média 15 meses.

Disfunção na UTI. Em pacientes ventilados, o critério mais usado é excursão < 1 cm ou movimento paradoxal durante respiração espontânea. Kim et al. (Crit Care Med, 2011) encontraram disfunção por esse critério em 29% de 82 pacientes de UTI clínica que iniciavam teste de respiração espontânea (TRE), com desmame mais longo e mais falhas. Por espessamento, o critério de FE < 20% também é usado (Lu et al., Respir Care 2016). No estudo de Dubé et al. (Thorax, 2017), com a estimulação do nervo frênico como referência, FE < 29% identificou disfunção com sensibilidade de 85% e especificidade de 88% no momento da troca para pressão de suporte.
Atenção à divergência: o EXODUS registrou consenso de que excursão < 2 cm em respiração tranquila indica disfunção, corte mais alto que o limite inferior dos voluntários de Boussuges (cerca de 1 cm) e que o critério dos estudos de desmame. Valores entre 1 e 2 cm pedem interpretação com sexo, posição, esforço e o outro lado.
Ultrassom do diafragma no desmame da ventilação mecânica
O que mede cada parâmetro. Sob pressão positiva, parte da excursão é passiva, e a PEEP baixa a posição de repouso e reduz a excursão. A FE reflete melhor a contração ativa, porque o músculo deslocado passivamente não espessa; ainda assim, suporte alto reduz o esforço e a FE.

Os estudos principais.
| Estudo | Parâmetro e corte | Desempenho | Observação |
|---|---|---|---|
| DiNino et al., Thorax 2014 (n = 63) | FE ≥ 30% durante TRE ou PSV | Sens. 88%, esp. 71%, VPP 91%, VPN 63%, AUC 0,79 | Sucesso = sem ventilação por > 48 h após extubação |
| Kim et al., Crit Care Med 2011 (n = 82) | Excursão < 1 cm ou paradoxal | Disfunção em 29%; mais falha e desmame mais longo | Critério mais citado de disfunção na UTI |
| Dubé et al., Thorax 2017 | FE < 29% | Sens. 85%, esp. 88% para disfunção (vs. estimulação do frênico) | Disfunção associada a pior desfecho |
| Parada-Gereda et al., Crit Care 2023 (metanálise, 19 estudos, 1.204 pacientes) | Excursão (em geral > 1 cm) | Sens. 80%, esp. 80%, AUSROC 0,87 | Alta heterogeneidade |
| Parada-Gereda et al., 2023 | FE (em geral cerca de 29% a 30%) | Sens. 85%, esp. 75%, AUSROC 0,87 | Posição do paciente foi a principal fonte de heterogeneidade |
| Vivier et al., Chest 2019 (n = 191) | Excursão < 10 mm ou FE < 30%, em tubo T | Disfunção não se associou a maior risco de falha | Multicêntrico; falha = reintubação ou morte em 7 dias |
Como interpretar. Na metanálise de Parada-Gereda, com probabilidade pré-teste de sucesso em torno de 67%, um resultado acima do corte elevou a probabilidade pós-teste de sucesso para 87% (excursão) e 90% (FE), e um resultado abaixo do corte a reduziu para 26% e 30%. O exame reforça a decisão de extubar melhor do que a veta sozinho. Estudos negativos, como os de Vivier (2019) e Mariani (2016), lembram que a falha também depende de secreção, tosse, via aérea alta, coração e delirium.
Protocolo prático, em geral:
- Meça durante o TRE (tubo T, CPAP ou pressão de suporte baixa), depois de alguns minutos de adaptação, com cabeceira elevada padronizada.
- Registre o modo ventilatório, a pressão de suporte e a PEEP no laudo, porque mudam os números.
- Meça excursão e FE à direita; faça bilateral se houver risco de lesão unilateral.
- Interprete junto com índice de respiração rápida e superficial, ultrassom pulmonar, função cardíaca e avaliação clínica. Para o pulmão, veja nosso artigo comentado sobre as recomendações internacionais de ultrassom pulmonar.
Atrofia. O EXODUS considera relevante uma queda ≥ 10% da espessura em relação à basal em medidas seriadas.
Armadilhas e erros de medida
- Medir excursão sob ventilação controlada ou suporte alto. O deslocamento é passivo e superestima a função. Interrompa o suporte por instantes ou meça durante o TRE.
- Feixe oblíquo no modo M. Superestima a excursão por erro de orientação e de translação. Busque a porção posterior da cúpula, perpendicular, ou use modo M anatômico.
- Incluir pleura e peritônio na espessura. Infla a espessura e muda a FE. Caliper entre as bordas internas.
- Mudar de ponto entre inspiração e expiração. Décimos de milímetro pesam num músculo de 2 mm; marque a pele.
- Confundir derrame pleural ou consolidação basal com alteração do diafragma. Descreva o achado associado; veja nosso texto sobre derrame pleural no ultrassom.
O que descrever no laudo
- Indicação (suspeita de paralisia, desmame, monitorização) e posição do paciente.
- Condição ventilatória: respiração espontânea, TRE, modo, pressão de suporte e PEEP.
- Excursão de cada hemidiafragma, por manobra (tranquila, sniff, profunda), em cm, e o sentido do movimento (caudal, ausente, paradoxal).
- Espessura expiratória e inspiratória em mm e FE em %, com o lado.
- Comparação com o lado contralateral, achados associados (derrame, consolidação) e limitações da janela.
Frases-modelo de laudo estruturado:
- “Hemidiafragmas com movimentação caudal simétrica. Excursão em respiração tranquila de 1,8 cm à direita e 1,7 cm à esquerda; no sniff, 2,9 e 2,8 cm. Valores dentro dos limites de referência para o sexo.”
- “Hemidiafragma esquerdo sem excursão em respiração tranquila e com deslocamento paradoxal (cranial) de 0,9 cm no sniff. Espessura de 1,6 mm, com fração de espessamento de 3%. Hemidiafragma direito com excursão aumentada (3,1 cm). Achados compatíveis com paralisia do hemidiafragma esquerdo.”
- “Avaliação durante teste de respiração espontânea em PSV 5 cmH2O e PEEP 5 cmH2O. Excursão do hemidiafragma direito de 1,4 cm. Espessura de 2,1 mm na expiração e 2,9 mm na inspiração, com fração de espessamento de 38%.”
- “Excursão do hemidiafragma direito de 0,7 cm em respiração espontânea e fração de espessamento de 15%, abaixo dos valores usualmente associados a sucesso de extubação. Correlacionar com demais parâmetros de desmame.”
Quando escalonar
- Paralisia unilateral nova sem causa evidente: investigar o trajeto do frênico (tomografia de tórax e pescoço) e encaminhar à pneumologia ou neurologia.
- Disfunção bilateral, ortopneia ou hipoventilação: espirometria em pé e deitado, pressões respiratórias máximas, gasometria e avaliação neuromuscular.
- Paciente de UTI com disfunção e falhas repetidas de desmame: discutir com a equipe a investigação de fraqueza adquirida na UTI e a estratégia de desmame prolongado.
Perguntas frequentes
Qual a excursão diafragmática normal no ultrassom?
Em respiração tranquila, em geral entre 1 e 2,5 cm. O limite inferior em voluntários saudáveis é de cerca de 1,0 cm em homens e 0,9 cm em mulheres (Boussuges, 2009 e 2021). No sniff, o limite inferior é de cerca de 1,8 e 1,6 cm.
Como diferenciar paralisia de fraqueza do diafragma no ultrassom?
Na paralisia, a excursão é ausente ou paradoxal, com movimento cranial no sniff, e a FE fica abaixo de 20%. Na fraqueza, o movimento é caudal, mas abaixo do limite inferior para sexo e posição.
Qual fração de espessamento prevê sucesso na extubação?
O corte mais citado é FE ≥ 30% (DiNino et al., Thorax 2014: sensibilidade 88%, especificidade 71%). Na metanálise de Parada-Gereda (2023), os cortes ficaram em torno de 29% a 30%. Valores baixos não contraindicam a extubação sozinhos.
Conclusão
O ultrassom do diafragma responde a duas perguntas à beira do leito. Para função, a excursão no modo M em respiração tranquila tem limite inferior perto de 1 cm, e o sniff paradoxal com FE < 20% fecha o diagnóstico de paralisia. Para desmame, FE ≥ 30% e excursão > 1 cm durante o TRE reforçam a chance de extubação bem-sucedida, com acurácia moderada e estudos heterogêneos. O laudo só é útil se registrar lado, manobra, posição e condição ventilatória.
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Referências
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- Boussuges A, Finance J, Chaumet G, Brégeon F. Diaphragmatic motion recorded by M-mode ultrasonography: limits of normality. ERJ Open Res. 2021;7:00714-2020. DOI: 10.1183/23120541.00714-2020.
- DiNino E, Gartman EJ, Sethi JM, McCool FD. Diaphragm ultrasound as a predictor of successful extubation from mechanical ventilation. Thorax. 2014;69:431-435. DOI: 10.1136/thoraxjnl-2013-204111.
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Conteúdo educativo destinado a profissionais de saúde. Não substitui o julgamento clínico nem as diretrizes locais. Valores de referência e pontos de corte dependem de sexo, posição, manobra e condição ventilatória, e devem ser interpretados no contexto de cada paciente e do método usado em cada estudo.

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