O diagnóstico de pneumotórax no ultrassom se apoia em três sinais negativos e um positivo: ausência de deslizamento pleural, ausência de linhas B e ausência de pulso pulmonar, com o ponto pulmonar (lung point) como sinal que confirma. No modo M, o pulmão normal dá o sinal da praia e o pneumotórax dá o código de barras (sinal da estratosfera). Segundo a metanálise de Alrajhi, Woo e Vaillancourt (Chest, 2012), o ultrassom teve sensibilidade de 90,9% e especificidade de 98,2%, contra 50,2% e 99,4% da radiografia de tórax, quase sempre feita em supino.
Resumo rápido
- Deslizamento pleural, linhas B ou pulso pulmonar presentes afastam pneumotórax no ponto examinado.
- Deslizamento ausente é sensível, mas pouco específico: o valor preditivo positivo caiu para 56% no paciente crítico na série de Lichtenstein.
- O ponto pulmonar confirma pneumotórax (especificidade descrita de 100%), mas tem sensibilidade de cerca de 66% e não aparece no colapso pulmonar completo.
- Comece pela parede anterior, que é a região não dependente no paciente em supino, e só procure o ponto pulmonar depois de achar o padrão sem deslizamento e sem linhas B.
- Contra a radiografia em supino, o ultrassom detecta quase o dobro de pneumotórax, com especificidade semelhante (Alrajhi 2012; Cochrane 2020).
- Bolhas enfisematosas, aderências, intubação seletiva e apneia imitam o pneumotórax; o bleb point pode ser indistinguível do ponto pulmonar.
Como avaliar pneumotórax no ultrassom
O consenso internacional de ultrassom pulmonar (Volpicelli et al., Intensive Care Med 2012) recomenda começar pelas áreas menos dependentes da gravidade e progredir lateralmente. No paciente em supino, o ar livre sobe para a parede anterior, então o primeiro alvo são os espaços intercostais anteriores e só depois as regiões laterais. Detalhamos o consenso no nosso artigo comentado sobre as recomendações internacionais de ultrassom pulmonar.
Rotina prática, em geral:
- Transdutor: o consenso prefere o microconvexo e aceita linear, convexo e setorial; o linear dá a melhor resolução da linha pleural.
- Posição: corte longitudinal sobre duas costelas, linha pleural no centro, transdutor parado por alguns ciclos respiratórios.
- Modo B, em tempo real: procure deslizamento, linhas B e pulso pulmonar.
- Modo M: cursor sobre a linha pleural, entre as sombras das costelas, para documentar praia ou código de barras.
- Se não houver deslizamento nem linhas B (perfil A’ do protocolo BLUE): desloque o transdutor lateralmente, depois para a região posterior, em busca do ponto pulmonar (Moreno-Aguilar e Lichtenstein, Crit Care 2015).
- Documente em clipe de vídeo.
Esse mesmo raciocínio é o das janelas torácicas do eFAST no trauma, que revisamos no post sobre o protocolo FAST e eFAST.
Sinais de pneumotórax no ultrassom
| Sinal | Modo | Pulmão normal | Pneumotórax | Valor diagnóstico |
|---|---|---|---|---|
| Deslizamento pleural (lung sliding) | B | Presente: “vai e vem” da linha pleural sincronizado com a respiração | Ausente | Presente afasta pneumotórax no ponto examinado; ausente é sensível (95% na série de Lichtenstein), pouco específico |
| Linhas B | B | Podem existir (poucas, ou muitas se houver síndrome intersticial) | Ausentes (só linhas A) | Uma única linha B afasta pneumotórax naquele ponto; a ausência não confirma |
| Pulso pulmonar (lung pulse) | B ou M | Pode haver: a pleura oscila com o batimento cardíaco | Ausente | Presente afasta pneumotórax no ponto examinado |
| Padrão no modo M | M | Sinal da praia (seashore): linhas horizontais acima da pleura e padrão granular abaixo | Código de barras (sinal da estratosfera): linhas horizontais em todo o traçado | Documenta a ausência de movimento; tem as mesmas limitações da ausência de deslizamento |
| Ponto pulmonar (lung point) | B ou M | Ausente | Presente no pneumotórax parcial: transição, no mesmo ponto, entre área sem deslizamento e área com deslizamento ou linhas B a cada inspiração | Confirma pneumotórax (especificidade descrita de 100%); sensibilidade em torno de 66% |
Fontes da tabela: Volpicelli et al. (2012), Lichtenstein (Ann Intensive Care 2014) e Hew e Tay (Eur Respir Rev 2016).
Deslizamento, linhas B e pulso pulmonar só existem com a pleura visceral encostada na parietal. Com ar no espaço pleural, o feixe vê só a pleura parietal parada e linhas A. Por isso, qualquer um dos três sinais presentes exclui pneumotórax naquele espaço intercostal; a ausência dos três é compatível, mas não diagnóstica.

Ponto pulmonar (lung point): o sinal que confirma
O ponto pulmonar é o limite do pneumotórax projetado na parede torácica: com o transdutor parado, deslizamento ou linhas B entram de forma súbita, a cada inspiração, numa área antes parada. No modo M, há alternância entre praia e código de barras.
Pontos práticos, segundo Lichtenstein (2014) e o estudo original do ponto pulmonar (Intensive Care Med, 2000):
- Especificidade: descrita como 100% nos estudos originais, quando procurado da forma correta.
- Sensibilidade: cerca de 66% no conjunto dos pneumotórax e 79% nos pneumotórax ocultos à radiografia. Ele falta no colapso pulmonar completo, porque o pulmão não chega à parede, e em pneumotórax com aderências extensas.
- Localização e tamanho: ponto pulmonar anterior sugere pneumotórax pequeno; lateral ou posterior, volumoso. Na revisão de Lichtenstein, ponto pulmonar lateral se associou a necessidade de drenagem em 90% dos casos, contra 8% com ponto anterior. Hew e Tay (2016) também descrevem correlação entre a posição do ponto pulmonar em relação à linha axilar média e o tamanho do pneumotórax.

Pneumotórax no ultrassom versus radiografia em supino: acurácia
Em supino, o ar se acumula na região anterior e basal, sem a linha pleural apical do filme em ortostatismo; é justamente a região que o ultrassom examina primeiro. As metanálises chegam a números parecidos:
| Estudo | Estudos e população | Unidade | Ultrassom: S / E | Radiografia: S / E |
|---|---|---|---|---|
| Alrajhi, Woo e Vaillancourt, Chest 2012 | 8 estudos, 1.048 pacientes; trauma e iatrogênico | Paciente | 90,9% / 98,2% | 50,2% / 99,4% |
| Ding et al., Chest 2011 | 20 estudos, 7.569 hemitórax; trauma, pós-biópsia, críticos | Hemitórax | 88% / 99% | 52% / 100% |
| Alrajab et al., Crit Care 2013 | 13 estudos, 3.028 hemitórax | Hemitórax | 78,6% / 98,4% | 39,8% / 99,3% |
| Ebrahimi et al., Tanaffos 2014 | 28 estudos, 5.314 pacientes | Paciente | 87% / 99% | 46% / 100% |
| Chan et al., Cochrane 2020 | 9 estudos, 1.271 pacientes de trauma no pronto-socorro | Paciente | 91% / 99% | 47% / cerca de 100% |
S: sensibilidade; E: especificidade. Padrão de referência: tomografia de tórax ou saída de ar na drenagem. Números das quatro primeiras linhas conforme a síntese de Hew e Tay (Eur Respir Rev 2016).
No estudo-âncora, o exame positivo foi definido essencialmente por ausência de deslizamento e de artefatos em cauda de cometa. A conclusão se mantém nas metanálises seguintes: o ultrassom é bem mais sensível e quase tão específico quanto a radiografia em supino.
Duas ressalvas que valem para o laudo e para a conduta, apontadas por Hew e Tay:
- População: trauma, UTI e pós-procedimento, com prevalência de 13% a 30%. A acurácia no pneumotórax espontâneo, sobretudo com DPOC, não está bem estabelecida; para esse cenário os autores recomendam manter a radiologia convencional.
- Exclusões e operador: muitos estudos excluíram pacientes sem janela técnica (enfisema subcutâneo, curativos), e a heterogeneidade foi alta, atribuída em parte à experiência de quem examina.
Armadilhas e erros de interpretação
Deslizamento ausente sem pneumotórax
A ausência de deslizamento é o sinal com mais falso-positivos. Na revisão de Lichtenstein (2014), o valor preditivo positivo da ausência de deslizamento foi de 87% numa população geral, 56% no paciente crítico e 27% na insuficiência respiratória aguda. Causas comuns:
- Intubação seletiva e atelectasia: o pulmão não ventila, mas a pleura continua encostada (o pulso pulmonar costuma estar presente).
- Aderências pleurais, pleurodese, inflamação pleural na SDRA e fibrose.
- Hiperinsuflação na DPOC e bolhas enfisematosas.
- Apneia, parada cardiorrespiratória, paralisia frênica e ventilação a jato.
Falsos pontos pulmonares
Skulec et al. (Emerg Med Int 2021) descreveram quatro imitações do ponto pulmonar:
- Ponto pulmonar fisiológico: borda do pulmão junto ao coração, paraesternal; aparecem pericárdio pulsátil e tecido mediastinal.
- Pseudoponto pulmonar: limite entre pulmão contuso e normal, sem código de barras pleno.
- Ponto pleurofascial (sinal da cortina): na base, o pulmão entra e sai do recesso costofrênico, com diafragma e fígado ou baço abaixo.
- Bleb point: borda de uma bolha subpleural. É o mais perigoso, porque pode ser indistinguível do ponto pulmonar verdadeiro e levar à drenagem dentro da bolha.
Moreno-Aguilar e Lichtenstein (2015) defendem que o ponto pulmonar só tem o valor descrito quando procurado depois de identificado o perfil A’ na parede anterior, primeiro lateralmente e depois posteriormente. Um “ponto” achado por acaso, perto do esterno, raramente é pneumotórax.

Outros erros frequentes
- Examinar uma só janela: pneumotórax pequeno e anterior escapa; compare sempre com o lado contralateral.
- Ler deslizamento em imagem congelada: sem clipe ou modo M, o achado não é documentável.
- Tentar quantificar com precisão: o consenso de 2012 não chegou a acordo sobre usar o ultrassom para separar pneumotórax pequeno de grande. A localização do ponto pulmonar orienta, mas não substitui a tomografia quando o tamanho muda a conduta.
O que descrever no laudo de pneumotórax no ultrassom
Itens mínimos:
- Contexto, transdutor, posição do paciente e regiões examinadas em cada hemitórax.
- Deslizamento pleural, linhas B e pulso pulmonar por região.
- Modo M (praia ou código de barras).
- Ponto pulmonar: presente ou ausente e, se presente, localização (linha hemiclavicular, axilar anterior, média ou posterior; espaço intercostal).
- Limitações técnicas (enfisema subcutâneo, curativos, obesidade, cooperação).
- Conclusão graduada: diagnóstico, suspeito ou afastado nas regiões examinadas.
Frases-modelo de laudo estruturado:
- “Deslizamento pleural presente bilateralmente nas regiões anteriores e laterais, com padrão de praia ao modo M. Não há sinais ultrassonográficos de pneumotórax nas regiões examinadas.”
- “Hemitórax direito: ausência de deslizamento pleural, de linhas B e de pulso pulmonar nos espaços intercostais anteriores, com padrão em código de barras ao modo M. Ponto pulmonar identificado na linha axilar anterior, 4º espaço intercostal. Conclusão: achados diagnósticos de pneumotórax à direita.”
- “Hemitórax esquerdo: ausência de deslizamento pleural e de linhas B na parede anterior, sem ponto pulmonar identificado após varredura lateral e posterior. Achado suspeito, porém não específico, de pneumotórax; considerar intubação seletiva, aderências ou doença bolhosa. Correlacionar com a clínica e, se houver estabilidade, com tomografia.”
- “Exame limitado por enfisema subcutâneo extenso na parede torácica direita, que impede a avaliação da linha pleural.”
Quando escalonar
- Instabilidade hemodinâmica com perfil A’ e ponto pulmonar, ou com perfil A’ unilateral no contexto clínico típico: comunicação imediata; a decisão de descompressão é clínica e não deve esperar outro exame.
- Perfil A’ sem ponto pulmonar no paciente estável: tomografia de tórax quando disponível, sobretudo em DPOC, doença bolhosa ou cirurgia torácica prévia.
- Suspeita de pneumotórax espontâneo: radiografia de tórax continua sendo o exame inicial recomendado na revisão de Hew e Tay; o ultrassom complementa.
- Hemotórax associado: examinar as bases; a avaliação de líquido pleural está no nosso post sobre derrame pleural no ultrassom.
Perguntas frequentes
Qual sinal confirma pneumotórax no ultrassom?
O ponto pulmonar (lung point): a transição, no mesmo ponto da parede, entre área sem deslizamento e área com deslizamento ou linhas B ao longo da respiração. Tem especificidade descrita de 100%, mas falta em cerca de um terço dos casos, inclusive no colapso completo. Cuidado com o bleb point na doença bolhosa.
O que é o sinal do código de barras no modo M?
São linhas horizontais em todo o traçado do modo M, acima e abaixo da pleura (sinal da estratosfera), indicando ausência de movimento. Aparece em qualquer causa de deslizamento abolido, não só no pneumotórax.
A presença de linhas B exclui pneumotórax?
Sim, no ponto examinado, porque linhas B nascem da pleura visceral encostada na parietal. Não excluem pneumotórax pequeno em outra região do mesmo hemitórax.
O ultrassom é melhor que a radiografia para pneumotórax?
No trauma, na UTI e após procedimentos, sim: 90,9% contra 50,2% de sensibilidade (Alrajhi, 2012), com especificidade semelhante. No pneumotórax espontâneo a evidência é menor.
Conclusão
O pneumotórax no ultrassom é um diagnóstico por exclusão de movimento e confirmação de um ponto. Deslizamento pleural, linhas B ou pulso pulmonar presentes afastam pneumotórax onde o transdutor está. A ausência dos três, com código de barras no modo M, é sugestiva, e o ponto pulmonar confirma. A metanálise de Alrajhi e colaboradores mostrou que, no trauma e no pneumotórax iatrogênico, o ultrassom detecta muito mais casos que a radiografia em supino, com especificidade semelhante. O cuidado está nas imitações, sobretudo as bolhas, que geram falso ponto pulmonar.
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Referências
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- Volpicelli G, Elbarbary M, Blaivas M, et al. International evidence-based recommendations for point-of-care lung ultrasound. Intensive Care Med. 2012;38:577-591. DOI: 10.1007/s00134-012-2513-4.
- Lichtenstein D, Mezière G, Biderman P, Gepner A. The “lung point”: an ultrasound sign specific to pneumothorax. Intensive Care Med. 2000;26:1434-1440. DOI: 10.1007/s001340000627.
- Lichtenstein DA, Menu Y. A bedside ultrasound sign ruling out pneumothorax in the critically ill: lung sliding. Chest. 1995;108:1345-1348. DOI: 10.1378/chest.108.5.1345.
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- Chan KK, Joo DA, McRae AD, et al. Chest ultrasonography versus supine chest radiography for diagnosis of pneumothorax in trauma patients in the emergency department. Cochrane Database Syst Rev. 2020;7:CD013031. DOI: 10.1002/14651858.CD013031.pub2.
- Hew M, Tay TR. The efficacy of bedside chest ultrasound: from accuracy to outcomes. Eur Respir Rev. 2016;25:230-246. DOI: 10.1183/16000617.0047-2016.
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- Skulec R, Parizek T, David M, et al. Lung point sign in ultrasound diagnostics of pneumothorax: imitations and variants. Emerg Med Int. 2021;2021:6897946. DOI: 10.1155/2021/6897946.
- Gelabert C, Nelson M. Bleb point: mimicker of pneumothorax in bullous lung disease. West J Emerg Med. 2015;16(3):447. DOI: 10.5811/westjem.2015.3.24809.
Conteúdo educativo destinado a profissionais de saúde. Não substitui o julgamento clínico, os protocolos institucionais nem as diretrizes locais. Valores de acurácia vêm de populações selecionadas (trauma, UTI e pós-procedimento) e devem ser interpretados no contexto do paciente e da experiência do operador.

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