O-RADS US v2022: guia prático para laudar lesões ovarianas no ultrassom

Ilustração de imagem ultrassonográfica de ovário com cisto bilocular, usada como capa do artigo sobre O-RADS US v2022.

Muita gente aprende O-RADS decorando a tabela de categorias e, na hora de laudar, trava em perguntas simples: esse cisto com um único septo é multilocular? Esse conteúdo com ecos finos tira o cisto do grupo “simples”? Preciso recomendar ressonância? A versão O-RADS US v2022, publicada pelo American College of Radiology (ACR) na revista Radiology em 2023, respondeu a várias dessas dúvidas e mudou categorias que muitos ainda aplicam do jeito antigo.

Este guia é para estudantes de ultrassonografia, ultrassonografistas em início de carreira e profissionais que querem se atualizar. Você vai ver o que mudou, como descrever uma lesão anexial passo a passo, como chegar à categoria correta e quais erros mais aparecem nos laudos.

O que é o O-RADS US

O O-RADS (Ovarian-Adnexal Reporting and Data System) é o sistema do ACR para padronizar a descrição e estratificar o risco de malignidade das lesões ovarianas e anexiais. Ele combina um léxico (os termos que você deve usar na descrição) com uma tabela de categorias de 0 a 5, cada uma ligada a uma faixa de risco e a uma recomendação de conduta.

CategoriaSignificadoRisco de malignidade
O-RADS 0Exame tecnicamente inadequadoNão se aplica
O-RADS 1Ovário normal (com ou sem achado fisiológico)0%
O-RADS 2Quase certamente benigno< 1%
O-RADS 3Baixo risco1% a < 10%
O-RADS 4Risco intermediário10% a < 50%
O-RADS 5Alto risco≥ 50%

A grande vantagem é a comunicação: o ginecologista lê “O-RADS 3” e já sabe o nível de risco e o próximo passo, sem precisar interpretar adjetivos vagos como “aspecto complexo”.

O que mudou na versão 2022

Se você aprendeu O-RADS pela versão de 2020, estas são as mudanças que mais afetam o laudo do dia a dia:

  1. Novo termo “bilocular”. Cisto com um único septo completo agora é bilocular, não multilocular. Cisto bilocular de parede interna lisa, sem componente sólido e com menos de 10 cm passou de O-RADS 3 para O-RADS 2. A justificativa veio de dados do IOTA, em que esses cistos tiveram risco de malignidade em torno de 0,7%.
  2. Multilocular foi redefinido. Agora significa três ou mais lóculos (dois ou mais septos completos).
  3. Sombra acústica em lesão sólida. Lesão sólida de contorno liso com sombra acústica ampla e difusa e escore de cor 2 ou 3 caiu de O-RADS 4 para O-RADS 3. Sombra de refração na borda não conta, e lesão sólida de contorno irregular continua O-RADS 5.
  4. O-RADS 0 ficou mais claro. É reservado para exame tecnicamente inadequado (gases, biotipo, lesão fora do campo), não para “fiquei em dúvida”.
  5. O-RADS 1 inclui achados fisiológicos. Folículo de até 3 cm e corpo lúteo (tipicamente até 3 cm) em pré-menopausa entram como ovário normal.
  6. Lesões benignas clássicas foram refinadas. Cisto hemorrágico precisa ter coágulo retrátil ou padrão reticular sem vascularização interna. Endometrioma ganhou como descritor opcional os focos ecogênicos puntiformes periféricos. Teratoma maduro (cisto dermoide) passou a ser definido pelo componente hiperecogênico com sombra, e a conduta deixou de depender do status menopausal.
  7. Corte de 10 cm. Lesão benigna clássica ovariana com menos de 10 cm é O-RADS 2; com 10 cm ou mais, é O-RADS 3.
  8. Seguimento mais curto. Para lesões de baixo risco, a vigilância passou a terminar em 2 anos, em vez de 5.

Como descrever uma lesão anexial passo a passo

Antes de pensar na categoria, descreva. A categoria sai da descrição; se a descrição for incompleta, a categoria vira palpite. Use esta sequência:

1. Origem e localização

Diga se a lesão é ovariana ou extraovariana (paraovariana, tubária, peritoneal) e o lado. Lesões extraovarianas típicas, como cisto paraovariano simples, hidrossalpinge e cisto de inclusão peritoneal, são O-RADS 2 em qualquer tamanho.

2. Dimensões

Meça nos três eixos ortogonais e registre a maior dimensão, que é a usada para os cortes de 3, 5 e 10 cm. Para comparar exames, o O-RADS 2022 recomenda a média linear (soma dos três eixos dividida por 3). Variação de até 10% a 15% é considerada estabilidade.

3. Tipo de lesão (o coração do léxico)

  • Unilocular: um único lóculo, sem septos completos.
  • Bilocular: um único septo completo, dois lóculos.
  • Multilocular: dois ou mais septos completos.
  • Com componente sólido: qualquer tecido ecogênico com vascularização ou sem as características de coágulo, gordura ou debris. Projeção papilar é um componente sólido que se projeta da parede ou septo com 3 mm ou mais de altura.
  • Sólida: 80% ou mais da lesão é sólida.

4. Parede interna e septos

Classifique como lisa ou irregular. Irregularidade com menos de 3 mm de altura é “parede irregular”; com 3 mm ou mais, já é projeção papilar (componente sólido). Essa diferença muda a categoria.

5. Conteúdo

Anecoico (simples) ou não simples: ecos finos difusos, padrão reticular, coágulo retrátil, nível líquido, componente hiperecogênico com sombra.

6. Contorno externo (para lesões sólidas)

Liso ou irregular. Contorno irregular em lesão sólida leva direto a O-RADS 5.

7. Doppler colorido: escore de cor (1 a 4)

  • 1: sem fluxo.
  • 2: fluxo mínimo.
  • 3: fluxo moderado.
  • 4: fluxo intenso.

Ajuste o Doppler para fluxo lento (PRF baixa, ganho otimizado) antes de afirmar escore 1. Se a imagem em modo B estiver mal ajustada, vale revisar o nosso guia de ganho, profundidade e foco. Escore de cor só entra na estratificação de lesões multiloculares, com componente sólido e sólidas.

8. Achados associados

Pesquise e descreva ascite (além de pequena quantidade fisiológica) e nódulos peritoneais. A presença de qualquer um deles classifica como O-RADS 5.

Tabela de categorias O-RADS US v2022 (resumo prático)

O-RADS 2

  • Cisto simples com menos de 10 cm.
  • Cisto unilocular liso não simples (ecos internos, septos incompletos) com menos de 10 cm.
  • Cisto bilocular liso, sem componente sólido, com menos de 10 cm.
  • Lesão benigna clássica ovariana com menos de 10 cm (cisto hemorrágico, teratoma maduro, endometrioma).
  • Lesão extraovariana clássica de qualquer tamanho.

O-RADS 3

  • Lesão benigna clássica ovariana com 10 cm ou mais.
  • Cisto unilocular ou bilocular liso com 10 cm ou mais.
  • Cisto unilocular de parede irregular (irregularidade menor que 3 mm), qualquer tamanho.
  • Cisto multilocular liso com menos de 10 cm e escore de cor menor que 4.
  • Lesão sólida lisa com escore de cor 1, ou com sombra acústica ampla e escore de cor 2 a 3.

O-RADS 4

  • Cisto bilocular de parede irregular, qualquer tamanho e escore de cor.
  • Cisto multilocular liso com 10 cm ou mais (escore de cor menor que 4), multilocular liso com escore de cor 4, ou multilocular irregular de qualquer tamanho.
  • Cisto unilocular com componente sólido: 1 a 3 projeções papilares, ou componente sólido que não é projeção papilar.
  • Cisto bilocular ou multilocular com componente sólido e escore de cor 1 a 2.
  • Lesão sólida lisa sem sombra, com escore de cor 2 a 3.

O-RADS 5

  • Cisto unilocular com 4 ou mais projeções papilares.
  • Cisto bilocular ou multilocular com componente sólido e escore de cor 3 a 4.
  • Lesão sólida lisa com escore de cor 4.
  • Lesão sólida de contorno irregular, qualquer escore de cor.
  • Ascite e/ou nódulos peritoneais.

Quando a lesão tiver características benignas e suspeitas ao mesmo tempo, use a característica de maior risco. Com várias lesões, dê uma categoria para cada uma; a conduta segue a de maior risco.

Conduta por categoria

  • O-RADS 1: sem seguimento.
  • O-RADS 2: depende do tipo e do tamanho. Exemplos: cisto simples maior que 5 cm na pré-menopausa ou maior que 3 cm na pós-menopausa tem controle em 12 meses; cisto hemorrágico na pré-menopausa com até 5 cm não precisa de controle e, acima de 5 cm, pede controle em 2 a 3 meses; se encontrado no início da pós-menopausa, pede reavaliação em 2 a 3 meses, avaliação por especialista ou RM; teratoma maduro até 3 cm tem seguimento opcional.
  • O-RADS 3: ultrassom de controle em até 6 meses, se não for operado; se estável, controle com 12 e 24 meses. Lesões sólidas podem se beneficiar de avaliação por especialista ou RM.
  • O-RADS 4: RM fortemente recomendada, especialmente para lesões sólidas ou com componente sólido, e avaliação por ginecologista oncológico.
  • O-RADS 5: encaminhamento ao ginecologista oncológico; imagem conforme protocolo oncológico (RM e/ou TC de estadiamento).

Erros comuns nos laudos

  1. Chamar de multilocular um cisto com um único septo. Pela versão 2022, é bilocular, e isso pode baixar a categoria de 3 para 2.
  2. Confundir parede irregular com projeção papilar. O corte é 3 mm de altura. Meça e escreva o valor.
  3. Classificar coágulo como componente sólido. Coágulo retrátil tem margem côncava, é avascular e se move com a compressão ou a mudança de decúbito. Faça Doppler com fluxo lento antes de chamar de sólido.
  4. Usar O-RADS 0 como “categoria de dúvida”. Ela serve para exame tecnicamente inadequado. Se a imagem é adequada, decida a categoria pela característica de maior risco.
  5. Esquecer o status menopausal. Ele muda a conduta de cistos simples, hemorrágicos e endometriomas. Se não for informado, use a idade: 50 a 55 anos como início da menopausa e 55 anos ou mais como menopausa tardia.
  6. Não pesquisar ascite e nódulos peritoneais. Eles definem O-RADS 5 independentemente da lesão anexial.
  7. Descrever “imagem cística complexa” sem detalhar. Esse termo não existe no léxico e não permite classificar. Diga o tipo (uni, bi ou multilocular), a parede, o conteúdo, o componente sólido e o escore de cor.
  8. Medir só o maior eixo. Sem os três eixos não é possível comparar volume nem calcular a média linear no seguimento.

Exemplo de descrição estruturada

Ovário direito com formação cística bilocular, medindo 5,2 x 4,1 x 3,8 cm (maior dimensão 5,2 cm), de paredes e septo lisos, conteúdo anecoico, sem componente sólido. Ao Doppler colorido, ausência de fluxo interno (escore de cor 1). Ausência de ascite ou nódulos peritoneais.

Conclusão: Formação cística bilocular lisa em ovário direito, O-RADS US 2 (quase certamente benigna, risco < 1%). Sugere-se controle ultrassonográfico conforme status menopausal.

Repare que a conclusão nasce diretamente dos descritores. Esse é o princípio dos laudos estruturados: quando cada campo do léxico é preenchido, a categoria deixa de depender da memória de quem lauda.

Perguntas frequentes

O O-RADS US vale para gestantes?

Os dados que sustentam as categorias vêm de pacientes não gestantes. Na gestação, descreva a lesão com o mesmo léxico e interprete a categoria com cautela, porque achados como a decidualização de endometrioma podem simular componente sólido.

Qual a diferença entre O-RADS e IOTA?

O IOTA criou regras simples e o modelo ADNEX para estimar risco. O O-RADS US usa o léxico e dados do IOTA, mas organiza tudo em categorias com conduta associada, no formato dos sistemas RADS do ACR (como BI-RADS e TI-RADS).

Preciso usar O-RADS em todo ultrassom pélvico?

Desde 2022, o O-RADS 1 permite aplicar o sistema também a ovários normais. Muitos serviços passaram a incluir a categoria em todo exame pélvico para padronizar.

Cisto de 2 cm em mulher na menacme precisa de categoria?

Folículo de até 3 cm na pré-menopausa é achado fisiológico, O-RADS 1, sem necessidade de controle.

Conclusão

O O-RADS US v2022 deixou o sistema mais simples para cistos de baixo risco (bilocular liso, lesões sólidas com sombra) e mais claro em situações que geravam dúvida (O-RADS 0 e 1, cisto hemorrágico, endometrioma). O caminho para acertar a categoria é sempre o mesmo: descrever com o léxico completo, aplicar o escore de cor e escolher a característica de maior risco.

Se você quer que cada campo do léxico já esteja no seu modelo de laudo, com a categoria calculada a partir da descrição, conheça o UltraLaudo, plataforma de laudos estruturados de ultrassonografia.


Referências

  • Strachowski LM, Jha P, Phillips CH, et al. O-RADS US v2022: An Update from the American College of Radiology’s Ovarian-Adnexal Reporting and Data System US Committee. Radiology. 2023;308(3):e230685. https://pubs.rsna.org/doi/10.1148/radiol.230685
  • Andreotti RF, Timmerman D, Strachowski LM, et al. O-RADS US Risk Stratification and Management System: A Consensus Guideline from the ACR O-RADS Committee. Radiology. 2020;294(1):168-185.
  • Brigham and Women’s Hospital, RAD-ASSIST. Adnexal Lesions: O-RADS US. https://rad.bwh.harvard.edu/adnexal-lesions-o-rads-us/

Este conteúdo tem finalidade educacional e não substitui as publicações oficiais do ACR nem o julgamento clínico.

Respostas

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