Para entender o laudo de ultrassom, vale saber que a maioria dos termos descreve como o som volta de cada tecido. Anecoico significa sem ecos: a imagem fica preta e em geral corresponde a líquido, como num cisto simples. Hipoecoico é mais escuro que o tecido de referência, isoecoico é igual e hiperecoico é mais claro, como gordura, calcificações e cálculos. Essas palavras descrevem a imagem e não são um diagnóstico sozinhas: um nódulo hipoecoico pode ser benigno, e um achado só ganha sentido junto com o tamanho, a forma, os contornos, o Doppler e a conclusão do laudo. Quem interpreta o resultado para a sua situação é o médico que pediu o exame.
Este glossário explica os termos mais comuns, as frases da conclusão, as escalas BI-RADS, TI-RADS e O-RADS e quando voltar ao médico.
Por que o laudo usa essas palavras
O transdutor emite som de alta frequência, que atravessa os tecidos e volta em parte como eco. O aparelho transforma cada eco num tom de cinza: muito eco vira branco, pouco eco vira cinza escuro e nenhum eco vira preto.
Por isso o laudo descreve a imagem em termos de ecogenicidade, a capacidade de um tecido de refletir o som. É um vocabulário padronizado, que permite que outro médico, em outra cidade ou daqui a um ano, entenda como era a imagem e compare com um exame novo. Sistemas como BI-RADS, TI-RADS e O-RADS existem justamente para que todos usem as mesmas palavras com o mesmo sentido.
Glossário de ecogenicidade
A ecogenicidade é sempre comparativa. O laudo diz que algo é hipoecoico ou hiperecoico em relação a uma referência, que pode ser o próprio órgão, o tecido ao redor ou outro órgão. No fígado, por exemplo, a comparação com o rim ajuda a avaliar gordura, como explicamos no guia de esteatose hepática. Na tireoide, o nódulo é comparado ao tecido normal da glândula.
| Termo | O que significa | Exemplos comuns |
|---|---|---|
| Anecoico | Sem ecos, imagem preta | Líquido: cisto simples, bexiga cheia, vesícula, vasos |
| Hipoecoico | Menos ecos que a referência, mais escuro | Muitos nódulos sólidos, linfonodos, músculo, alguns tumores |
| Isoecoico | Mesma ecogenicidade da referência | Nódulo que “se confunde” com o tecido ao redor |
| Hiperecoico | Mais ecos que a referência, mais claro | Gordura, fibrose, calcificação, cálculo, hemangioma típico no fígado |
| Ecogênico | Que produz ecos; sinônimo amplo de “claro”. Hipo, iso e hiperecogênico têm o mesmo sentido de hipo, iso e hiperecoico | Lama biliar, pólipo, conteúdo espesso de um cisto |
Alguns pontos ajudam a não se assustar:
- Hipoecoico não quer dizer maligno. Muitos nódulos benignos são hipoecoicos. O que pesa mais é o conjunto: forma, contornos, calcificações, tamanho e comportamento ao longo do tempo.
- Hiperecoico não quer dizer benigno. Na maioria das vezes é, mas há exceções.
- Anecoico sugere líquido, mas a confirmação vem de outros sinais, como o reforço acústico e a ausência de fluxo ao Doppler.
Homogêneo, heterogêneo e outras descrições de textura
Homogêneo quer dizer que o tecido ou o nódulo tem textura uniforme, com ecos distribuídos por igual. Heterogêneo significa que há áreas diferentes dentro dele, mais claras e mais escuras misturadas.
Um órgão “de ecotextura homogênea” costuma ter aspecto normal. “Heterogêneo” aparece em situações bem diferentes, como tireoidite, fígado com doença crônica ou nódulo com partes sólidas e líquidas, e sozinho não define nada.
Outros termos de forma e contorno que aparecem com frequência:
- Circunscrito ou bem delimitado: limites nítidos, fáceis de separar do tecido ao redor.
- Contornos irregulares, lobulados, angulados ou espiculados: bordas que não são lisas. Em mama e tireoide, alguns desses padrões aumentam a suspeita.
- Mais alto que largo: nódulo cuja altura supera a largura no corte transversal. Na tireoide, é um dos sinais que somam pontos no TI-RADS.
- Cístico, sólido ou misto: conteúdo líquido, tecido ou as duas coisas.
Sombra acústica e reforço acústico
Esses dois termos descrevem o que acontece atrás de uma estrutura. São artefatos, mas aqui o artefato ajuda no diagnóstico.
A sombra acústica posterior é uma faixa escura atrás de algo que bloqueia o som, como um cálculo, uma calcificação ou osso. O som quase não passa, então a região de trás fica sem ecos. É por isso que a pedra na vesícula aparece como um ponto branco com uma “sombra” preta embaixo. O gás do intestino também gera sombra, de aspecto mais “sujo”, e é um dos motivos do preparo com jejum em alguns exames.

Esse é o principal sinal que diferencia o cálculo de um pólipo, que não faz sombra e não se move quando o paciente muda de posição. Detalhamos essa diferença no guia de ultrassom de vesícula.
O reforço acústico posterior é o contrário: uma faixa mais clara atrás de uma estrutura que deixa o som passar com facilidade, como o líquido. O som atravessa o cisto sem perder força e chega mais intenso aos tecidos de trás. Um nódulo redondo, anecoico, de paredes finas e com reforço posterior é o retrato do cisto simples.

Uma ressalva para profissionais: o reforço posterior não é exclusivo de líquido. Alguns nódulos sólidos muito celulares também o mostram, e a sombra pode aparecer em lesões sólidas com fibrose. Por isso, esses sinais entram no conjunto e não decidem sozinhos. A qualidade do ajuste do aparelho também interfere, como mostramos no texto sobre ganho, profundidade e foco.
Doppler e vascularização
O Doppler mostra se há sangue circulando e em que direção. No laudo, ele aparece em frases como:
- “Sem fluxo ao Doppler” ou “avascular”: não se detectou sangue circulando dentro da estrutura. Combina com cisto, mas fluxo muito lento pode não ser captado.
- “Vascularização periférica”: os vasos ficam ao redor, na borda do nódulo.
- “Vascularização central ou interna”: há vasos dentro da lesão.
- “Vascularização mista”: vasos na borda e no centro.
A vascularização é mais uma característica, não um veredito. Muitos nódulos benignos têm vasos, e o ACR TI-RADS nem usa o Doppler na pontuação. Já no ovário, pelo O-RADS, o fluxo dentro de uma parte sólida pesa bastante. Explicamos o exame em mais detalhe no guia de ultrassom com Doppler.
Nódulo, cisto, massa e imagem: qual a diferença
Essas palavras geram muita dúvida, porque o uso varia um pouco entre órgãos e entre profissionais.
| Termo | Sentido mais comum no laudo |
|---|---|
| Cisto | Estrutura com conteúdo líquido. “Cisto simples”: anecoico, parede fina, sem partes sólidas |
| Cisto complicado ou com conteúdo | Cisto com ecos dentro (sangue, proteína, debris), mas sem parte sólida |
| Cisto complexo ou lesão sólido-cística | Mistura de líquido e componente sólido, que em geral pede mais atenção |
| Nódulo | Lesão focal arredondada, geralmente sólida; em alguns sistemas o termo inclui nódulos císticos |
| Massa | Termo usado para lesões maiores ou de aspecto expansivo; no BI-RADS de ultrassom, “nódulo” é a tradução usual de mass |
| Imagem, formação, lesão | Termos neutros, usados quando ainda não se sabe a natureza do achado |
“Nódulo” não é sinônimo de câncer, e “massa” nem sempre indica algo grave.
Expressões que aparecem na conclusão
A conclusão é a parte mais lida do laudo, e algumas frases têm um sentido técnico preciso.
“Sem alterações” ou “dentro dos limites da normalidade”
Significa que, no que o ultrassom consegue mostrar, não foram vistas anormalidades. O exame tem limites: lesões muito pequenas, regiões cobertas por gás ou osso e algumas doenças funcionais não aparecem. Se o laudo citar “exame prejudicado por gases” ou “visualização parcial”, isso deve ser levado em conta.
“Compatível com”, “sugestivo de” e “não se pode excluir”
São graus de certeza. “Compatível com” indica que o achado combina bem com aquele diagnóstico. “Sugestivo de” é um pouco menos firme. “Não se pode excluir” quer dizer que a hipótese existe e precisa ser considerada, em geral com outro exame ou com a avaliação clínica.
“A critério clínico”
É uma sugestão do radiologista, cuja decisão final cabe ao médico assistente. Exemplo: “controle ultrassonográfico a critério clínico”. O médico que pediu o exame conhece os sintomas, o histórico e os outros exames, e decide se a sugestão faz sentido para aquele paciente.
“Controle evolutivo”
Significa repetir o exame depois de um tempo para ver se o achado ficou estável, cresceu ou sumiu. É uma conduta comum para achados de baixa suspeita. Estabilidade ao longo do tempo é, em geral, um sinal tranquilizador. Para o controle funcionar, o ideal é levar os laudos e imagens anteriores, de preferência feitos com o mesmo método.
BI-RADS, TI-RADS e O-RADS: escalas de risco
Esses sistemas, todos do Colégio Americano de Radiologia (ACR), transformam a descrição em uma categoria de risco com conduta sugerida. Eles não dão o diagnóstico definitivo, que, quando necessário, vem da biópsia ou da evolução.
| Sistema | Órgão | Como funciona em resumo |
|---|---|---|
| BI-RADS | Mama | Categorias 0 a 6. 1 e 2: sem achado suspeito ou achado benigno. 3: provavelmente benigno, risco de malignidade de até 2%, em geral com controle de curto prazo. 4 e 5: suspeita crescente, com biópsia em geral indicada. 0: exame incompleto. 6: câncer já comprovado |
| TI-RADS (ACR) | Tireoide | Pontos por composição, ecogenicidade, forma, margens e focos ecogênicos. Categorias TR1 a TR5; a punção depende da categoria e do tamanho do nódulo |
| O-RADS US | Ovário e anexos | Categorias 0 a 5, do ovário normal até alto risco, com conduta sugerida para cada uma |
No ACR TI-RADS, a punção costuma ser recomendada a partir de 2,5 cm no TR3, 1,5 cm no TR4 e 1 cm no TR5, com seguimento em tamanhos menores. Explicamos o sistema no guia de ultrassom de tireoide e TI-RADS. Para a mama, veja as categorias BI-RADS e quando biopsiar. Para o ovário, o guia de O-RADS US v2022 traz o passo a passo.
Quando voltar ao médico que pediu o exame
Sempre. Todo laudo deve ser levado ao médico que solicitou o exame, mesmo quando vem “normal”. Algumas situações pedem que esse retorno seja mais rápido:
- BI-RADS 4 ou 5, TI-RADS com punção recomendada ou O-RADS 4 ou 5.
- Termos como “suspeito”, “não se pode excluir neoplasia” ou “sugere-se complementação”.
- Recomendação de outro exame, como tomografia, ressonância ou biópsia.
- Sintomas novos ou piora, independentemente do laudo.
Se você está esperando o resultado, o texto sobre quanto tempo demora o laudo explica os prazos habituais.
O que descrever no laudo
Para quem faz o exame, um laudo que o paciente e o médico assistente entendem deve trazer:
- Técnica e limitações: via do exame, preparo, uso de Doppler e o que prejudicou a avaliação.
- Órgão a órgão: dimensões, contornos e ecotextura, com a referência de comparação quando se usa um termo de ecogenicidade.
- Cada achado focal: localização precisa, três medidas, conteúdo (cístico, sólido ou misto), ecogenicidade, forma, margens, artefatos posteriores (sombra ou reforço) e padrão ao Doppler.
- Léxico padronizado: termos do BI-RADS, TI-RADS, O-RADS ou do consenso do órgão, sem sinônimos inventados.
- Comparação com exames anteriores, com data, quando disponíveis.
- Conclusão objetiva: hipótese principal, grau de certeza, categoria de risco quando houver e conduta sugerida pelo sistema usado.
Erros comuns
Usar ecogenicidade sem referência
“Nódulo hipoecoico” diz pouco se não se sabe comparado a quê. Na tireoide, “hipoecoico” e “muito hipoecoico” têm pontuações diferentes no TI-RADS.
Chamar de cisto o que não foi confirmado como líquido
Uma lesão escura sem reforço posterior, ou com ecos internos, pode ser sólida. Usar “cisto” sem os critérios de cisto simples dá falsa segurança.
Conclusão que só repete a descrição
A conclusão deve responder à pergunta clínica e dizer o que fazer, não copiar as medidas do corpo do laudo.
Omitir limitações
Se o gás ou a obesidade prejudicaram a avaliação, isso precisa estar escrito. Caso contrário, “sem alterações” parece mais tranquilizador do que é.
Perguntas frequentes
Nódulo hipoecoico é câncer?
Não necessariamente. Muitos nódulos benignos são hipoecoicos. O risco depende do conjunto das características e, quando existe, da categoria BI-RADS, TI-RADS ou O-RADS.
O que é imagem anecoica no ultrassom?
É uma área sem ecos, que aparece preta na tela. Na maioria das vezes corresponde a líquido, como um cisto simples ou a bexiga cheia.
Sombra acústica é grave?
Não. É um efeito físico causado por estruturas que bloqueiam o som, como cálculos, calcificações e gás. Ela ajuda a identificar, por exemplo, uma pedra na vesícula.
Se o laudo diz “a critério clínico”, preciso repetir o exame?
Quem decide é o seu médico. A frase indica uma sugestão do radiologista que precisa ser avaliada junto com a sua história.
Conclusão
Os termos do laudo de ultrassom descrevem como o som se comporta em cada tecido: ecogenicidade e textura falam da imagem, sombra e reforço acústico ajudam a separar cálculo de pólipo e cisto de nódulo sólido, e o Doppler mostra se há vasos. Nenhum desses termos, sozinho, é diagnóstico. As escalas BI-RADS, TI-RADS e O-RADS juntam tudo em uma categoria de risco com conduta sugerida, e quem decide o próximo passo é o médico que pediu o exame.
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Referências
- Mendelson EB, Böhm-Vélez M, Berg WA, et al. ACR BI-RADS Ultrasound. In: ACR BI-RADS Atlas, Breast Imaging Reporting and Data System. 5th ed. American College of Radiology, 2013.
- Tessler FN, Middleton WD, Grant EG, et al. ACR Thyroid Imaging, Reporting and Data System (TI-RADS): white paper of the ACR TI-RADS Committee. Journal of the American College of Radiology, 2017.
- Andreotti RF, Timmerman D, Strachowski LM, et al. O-RADS US risk stratification and management system: a consensus guideline from the ACR Ovarian-Adnexal Reporting and Data System Committee. Radiology, 2020.
- Strachowski LM, Jha P, Phillips CH, et al. O-RADS US v2022: an update from the American College of Radiology’s Ovarian-Adnexal Reporting and Data System US Committee. Radiology, 2023.
- Feldman MK, Katyal S, Blackwood MS. US artifacts. RadioGraphics, 2009.
- Murphy MC, Gibney B, Gillespie C, et al. Gallstones top to toe: what the radiologist needs to know. Insights into Imaging, 2020.
- Chenin M, Paisant A, Lebigot J, et al. Cystic liver lesions: a pictorial review. Insights into Imaging, 2022.
Este conteúdo tem finalidade educacional e não substitui a avaliação médica. A interpretação do laudo e a decisão sobre exames complementares ou tratamento cabem ao médico que acompanha o paciente.

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