O ultrassom de bolsa escrotal (também chamado de ultrassom de testículos) não precisa de preparo: não exige jejum, bexiga cheia nem suspensão de remédios. O exame em geral não dói, a não ser que a região já esteja dolorida, e dura poucos minutos. Ele avalia os testículos, os epidídimos e os vasos do cordão espermático e serve para investigar nódulos, varicocele, hidrocele, cistos de epidídimo, inflamações e torção testicular. Dor forte e súbita no testículo é uma urgência: nesse caso, a pessoa deve procurar um pronto-socorro na hora, sem esperar por um exame agendado.
Para quem faz o exame, a técnica decide o diagnóstico: Doppler ajustado para fluxo lento, Valsalva na pesquisa de varicocele, comparação com o lado oposto e a regra de que nódulo sólido dentro do testículo é suspeito até prova em contrário. Este guia responde às dúvidas dos pacientes e organiza os critérios para profissionais.
Dúvidas comuns de quem vai fazer o exame
Precisa de preparo?
Não. Basta a higiene habitual, sem jejum nem bexiga cheia. Para saber quando o preparo é necessário em outros exames, veja o guia sobre preparo e jejum no ultrassom.
Como é feito?
O paciente fica deitado de barriga para cima. A bolsa escrotal é apoiada sobre uma toalha entre as coxas e o pênis é posicionado sobre a parte de baixo do abdome, coberto por outra toalha. O examinador passa gel e desliza o transdutor sobre a pele. Na pesquisa de varicocele, também se pede que o paciente faça força como se fosse evacuar (manobra de Valsalva) e, muitas vezes, que fique em pé por alguns instantes.
O exame dói?
Em geral, não. O transdutor apenas encosta na pele com pressão leve. Quando há inflamação, trauma ou torção, o toque pode incomodar, e o examinador ajusta a pressão para causar o mínimo de desconforto.
O que o exame consegue mostrar?
- Nódulos no testículo, que precisam ser bem caracterizados porque alguns são tumores.
- Varicocele, que são veias dilatadas acima e ao redor do testículo.
- Hidrocele, um acúmulo de líquido em volta do testículo.
- Cistos de epidídimo e espermatoceles, bolinhas de líquido quase sempre benignas.
- Epididimite e orquite, inflamações em geral causadas por infecção.
- Torção testicular, quando o cordão gira sobre si mesmo e corta a circulação.
Técnica do exame para profissionais
Equipamento e posição
Usa-se transdutor linear de alta frequência. O paciente fica em decúbito dorsal, com a bolsa apoiada e o pênis afastado do campo. Cada testículo é estudado em cortes longitudinais e transversais, do polo superior ao inferior, incluindo epidídimo (cabeça, corpo e cauda), túnica albugínea, mediastino testicular, cordão espermático e canal inguinal quando houver queixa nessa região.
Um corte transversal mostrando os dois testículos lado a lado, em modo B e com Doppler, é um dos registros mais úteis do exame. Ele permite comparar ecogenicidade e vascularização com os mesmos ajustes, o que é essencial na suspeita de torção e de inflamação.
Doppler em fluxo lento
O fluxo intratesticular é de baixa velocidade, principalmente em crianças. Para não perder sinal verdadeiro:
- use escala de velocidade (PRF) baixa e filtro de parede baixo;
- aumente o ganho de cor até pouco abaixo do aparecimento de ruído;
- use o Doppler de amplitude (power) quando o colorido não mostrar fluxo;
- comece pelo lado assintomático e repita no lado doente sem mudar os ajustes;
- confirme com Doppler espectral, mostrando onda arterial e venosa dentro do parênquima.
Se quiser revisar os ajustes de PRF, ganho e filtro, veja o guia sobre ultrassom com Doppler.
Valsalva e posição em pé
Na pesquisa de varicocele, as veias do plexo pampiniforme são medidas em repouso e durante a Valsalva, e o Doppler mostra se há refluxo (inversão do fluxo) e quanto tempo ele dura. Varicoceles discretas podem só aparecer com o paciente em pé, por isso o exame em ortostatismo é recomendado sempre que possível.
Volume testicular: a fórmula de Lambert
O volume é calculado a partir das três medidas do testículo: comprimento, largura e altura (anteroposterior). A fórmula do elipsoide usa o fator 0,52, mas estudos que compararam o ultrassom com o volume real, como o de Sakamoto e colaboradores, mostraram que a fórmula de Lambert, com fator 0,71, estima melhor o volume do testículo:
Volume = comprimento × largura × altura × 0,71
O fator usado deve vir indicado no laudo. A comparação entre os lados é especialmente importante em adolescentes com varicocele, nos quais a diferença de volume pode influenciar a indicação de tratamento.
Varicocele: como medir e classificar
Não existe uma classificação única para varicocele. A mais conhecida na prática clínica é a de Dubin e Amelar, feita pelo exame físico. No ultrassom, a de Sarteschi é bastante usada e combina o aspecto das veias no modo B com o comportamento do refluxo no Doppler. A tabela abaixo resume as duas de forma simplificada; para uso no laudo, consulte a descrição original.
| Classificação | Base | Graus (resumo) |
|---|---|---|
| Dubin e Amelar | Exame físico | Grau 1: palpável só com Valsalva. Grau 2: palpável em repouso, sem ser visível. Grau 3: visível a olho nu |
| Sarteschi | Ultrassom com Doppler | Grau 1: refluxo só no canal inguinal, sem veias dilatadas na bolsa. Graus 2 e 3: veias dilatadas e refluxo que aparecem ou aumentam com Valsalva, descendo progressivamente em direção ao testículo. Grau 4: veias dilatadas já em repouso, com refluxo que aumenta com Valsalva, muitas vezes com testículo menor. Grau 5: ectasia venosa importante em repouso, com refluxo contínuo que não aumenta com Valsalva |
Para o diagnóstico ultrassonográfico, o critério mais usado é o calibre da maior veia do plexo pampiniforme acima de 3 mm, medido em pé ou durante a Valsalva, associado à presença de refluxo. O grupo de imagem escrotal e peniana da Sociedade Europeia de Radiologia Urogenital (ESUR) publicou em 2020 recomendações específicas para padronizar esse exame, e vale segui-las quando o serviço não tem protocolo próprio.
Varicocele isolada à direita, ou que não esvazia quando o paciente deita, é incomum e merece atenção: pode estar associada a compressão venosa no abdome ou no retroperitônio, e a avaliação do abdome costuma ser sugerida.
Torção testicular e epididimite: o papel do Doppler
As duas causas mais comuns de escroto agudo podem parecer iguais no exame físico, mas são opostas no Doppler.
| Achado | Torção testicular | Epididimite ou orquite |
|---|---|---|
| Fluxo no testículo | Ausente ou reduzido em relação ao lado oposto | Normal ou aumentado |
| Fluxo no epidídimo | Reduzido ou ausente | Aumentado |
| Cordão espermático | Sinal do redemoinho (whirlpool), com aspecto espiralado | Espessado, sem torção |
| Testículo no modo B | Normal no início; depois aumentado e heterogêneo | Pode estar aumentado e hipoecoico se houver orquite |
| Achados associados | Hidrocele reativa, espessamento da pele, posição alterada do testículo | Hidrocele reativa, espessamento da pele, possível abscesso |
Cuidados na suspeita de torção
- Fluxo presente não exclui torção. Na torção parcial ou intermitente, o fluxo pode estar preservado ou apenas reduzido. O sinal do redemoinho no cordão é o achado mais específico e deve ser procurado ativamente, acompanhando o cordão desde o canal inguinal.
- O ultrassom não deve atrasar a cirurgia. A torção é um diagnóstico clínico, e a chance de salvar o testículo cai com o passar das horas. Quando a suspeita clínica é alta, a exploração cirúrgica não depende do exame.
- Em crianças, a torção do apêndice testicular é uma causa frequente de dor. Ela aparece como uma pequena estrutura junto ao polo superior, sem fluxo, com aumento de vascularização ao redor e testículo com fluxo normal.
Na epididimite
O epidídimo fica aumentado, em geral hipoecoico e com fluxo aumentado. Quando o testículo também tem fluxo aumentado e textura heterogênea, há orquite associada. Vale procurar complicações: abscesso (coleção sem fluxo interno), piocele e, em casos graves, áreas sem fluxo no testículo por comprometimento venoso.
Microlitíase testicular: o que diz a ESUR
Microlitíase são pequenos pontos ecogênicos, sem sombra acústica, espalhados pelo parênquima. Pela definição usada pela ESUR, fala-se em microlitíase clássica quando há 5 ou mais microcálculos em uma imagem de um testículo; com menos de 5, fala-se em microcálculos esparsos ou limitados.
As orientações do subcomitê de imagem escrotal da ESUR, publicadas em 2015, dizem, em linhas gerais:
- microlitíase sem fatores de risco não precisa de ultrassom de seguimento; o paciente é orientado a fazer o autoexame regularmente;
- na presença de fatores de risco para tumor de células germinativas, como história pessoal ou familiar desse tumor, testículo que não desceu ou orquidopexia e atrofia testicular, sugere-se acompanhamento com ultrassom, em geral anual, até cerca de 55 anos;
- quando houver nódulo associado, ele é avaliado como qualquer lesão testicular.
Nódulo dentro do testículo: suspeito até prova em contrário
A regra mais importante do ultrassom escrotal é a localização: lesão sólida dentro do testículo deve ser considerada maligna até que se prove o contrário, enquanto a grande maioria das lesões fora do testículo (epidídimo, cordão, túnicas) é benigna. Os tumores de células germinativas, que incluem o seminoma, são os tumores sólidos mais frequentes em homens jovens.
Algumas lesões intratesticulares são benignas e têm aspecto característico:
- cisto simples do testículo ou da túnica albugínea, anecoico e sem fluxo;
- ectasia tubular da rete testis, com pequenas estruturas tubulares no mediastino, muitas vezes bilateral e associada a cistos de epidídimo;
- cisto epidermoide, com aspecto em camadas alternadas (em “casca de cebola”) e sem fluxo interno.
Nódulos sólidos pequenos e não palpáveis, achados por acaso, são um grupo à parte. Uma parte deles é benigna, e o grupo da ESUR discute o uso de contraste por microbolhas e de elastografia para ajudar na decisão. Mesmo assim, a conduta é definida pelo urologista, e o laudo deve descrever a lesão de forma completa e objetiva, sem minimizar o achado. Quando há suspeita de tumor, a recomendação usual é avaliação urológica prioritária e dosagem de marcadores tumorais, conforme as diretrizes da Associação Europeia de Urologia (EAU).
Hidrocele, cistos de epidídimo e outros achados
- Hidrocele: líquido entre as camadas da túnica vaginal, em volta do testículo. Pode ser simples ou ter septos e debris, o que sugere sangue (hematocele) ou pus (piocele). Hidrocele volumosa pode esconder um testículo alterado, por isso ele sempre deve ser avaliado por completo.
- Cisto de epidídimo e espermatocele: coleções anecoicas, mais comuns na cabeça do epidídimo. O ultrassom não diferencia bem um do outro, e a distinção em geral não muda a conduta.
- Trauma: procure ruptura da túnica albugínea (contorno interrompido), hematoma e áreas sem fluxo.
O que descrever no laudo
Um laudo de ultrassom escrotal completo deve trazer:
- técnica: transdutor, uso de Doppler colorido e espectral, Valsalva e posição em pé quando realizados;
- testículos: posição, dimensões nos três eixos, volume com a fórmula usada (por exemplo, Lambert, 0,71), ecotextura e vascularização comparada entre os lados;
- epidídimos: dimensões ou aspecto, ecogenicidade e fluxo;
- lesões: localização (intra ou extratesticular, polo e lado), número, dimensões em três eixos, ecogenicidade, contornos, presença de calcificações e vascularização ao Doppler;
- varicocele: lado, calibre da maior veia em repouso e na Valsalva, presença e duração do refluxo, posição do paciente e classificação usada;
- microlitíase: lateralidade e se é clássica ou limitada;
- líquido: hidrocele e seu aspecto, além de espessamento da pele;
- cordão espermático: presença ou ausência do sinal do redemoinho quando houver dor aguda.
Na conclusão, use termos objetivos, como “nódulo sólido intratesticular vascularizado à direita, medindo X mm”, e sugira avaliação urológica quando houver lesão suspeita, sem antecipar o diagnóstico histológico.
Erros comuns
Mudar os ajustes do Doppler entre os lados
Ajustes diferentes criam assimetria falsa ou escondem uma real. Ajuste no lado normal e mantenha os parâmetros no lado doente.
Concluir que não há torção porque existe fluxo
Torção parcial pode manter fluxo. Procure o sinal do redemoinho e compare a intensidade e a forma da onda com o outro lado.
Pesquisar varicocele só com o paciente deitado
Sem Valsalva e sem ortostatismo, varicoceles pequenas passam despercebidas. Também evite medir veias com o transdutor comprimindo o plexo.
Não informar a fórmula do volume
Um volume calculado com 0,52 em um exame e com 0,71 no seguinte simula crescimento ou atrofia que não aconteceram.
Chamar de benigno um nódulo sólido intratesticular
Mesmo pequeno e bem delimitado, o nódulo sólido dentro do testículo exige avaliação urológica. A localização da lesão pesa mais do que a aparência.
Perguntas frequentes
Quanto tempo dura o exame?
Em geral, leva de 15 a 30 minutos, um pouco mais quando se pesquisa varicocele com Valsalva e em pé. Para saber mais sobre o tempo do exame e do laudo, veja quanto tempo dura o ultrassom.
O ultrassom mostra se a varicocele afeta a fertilidade?
Não diretamente. O exame mostra o tamanho das veias, o refluxo e o volume dos testículos. A relação com a fertilidade é avaliada pelo urologista, junto com o espermograma.
Dor forte no testículo: faço um ultrassom agendado?
Não. Dor súbita e intensa, principalmente em crianças, adolescentes e adultos jovens, pode ser torção e precisa de atendimento de urgência imediato.
Cisto no epidídimo é perigoso?
Em geral, não. Cistos de epidídimo e espermatoceles são quase sempre benignos e só costumam ser tratados se forem grandes ou causarem incômodo.
Microlitíase testicular é câncer?
Não. Microlitíase não é tumor. Ela pode estar associada a maior risco em pessoas com outros fatores de risco, por isso a orientação de autoexame e, em alguns casos, de acompanhamento com ultrassom.
Conclusão
O ultrassom de bolsa escrotal é rápido, não precisa de preparo e responde perguntas importantes: se há nódulo e onde ele está, se há varicocele e qual o seu grau, se a dor é inflamação ou falta de circulação. Para o profissional, o exame depende de um Doppler bem ajustado para fluxo lento, da comparação com o lado oposto, da Valsalva em pé na pesquisa de varicocele e da descrição completa de qualquer lesão intratesticular.
Se você quer que volume com a fórmula de Lambert, calibre e refluxo da varicocele, lateralidade da microlitíase e descrição das lesões tenham campo próprio no seu laudo escrotal, conheça o UltraLaudo, plataforma de laudos estruturados de ultrassonografia.
Referências
- AIUM, ACR, SPR, SRU. AIUM Practice Parameter for the Performance of Scrotal Ultrasound Examinations. Journal of Ultrasound in Medicine.
- Richenberg J, Belfield J, Ramchandani P, et al. Testicular microlithiasis imaging and follow-up: guidelines of the ESUR scrotal imaging subcommittee. European Radiology, 2015.
- Freeman S, Bertolotto M, Richenberg J, et al. Ultrasound evaluation of varicoceles: guidelines and recommendations of the European Society of Urogenital Radiology Scrotal and Penile Imaging Working Group (ESUR-SPIWG) for detection, classification, and grading. European Radiology, 2020.
- Sakamoto H, Saito K, Oohta M, et al. Testicular volume measurement: comparison of ultrasonography, orchidometry, and water displacement. Urology, 2007.
- Dubin L, Amelar RD. Varicocele size and results of varicocelectomy in selected subfertile men with varicocele. Fertility and Sterility, 1970.
- Sarteschi LM, et al. Lo studio del varicocele con eco-color-Doppler. Giornale Italiano di Ultrasonologia, 1993.
- Rocher L, Ramchandani P, Belfield J, et al. Incidentally detected non-palpable testicular tumours in adults at scrotal ultrasound: impact of radiological findings on management. Radiologic review and recommendations of the ESUR scrotal imaging subcommittee. European Radiology, 2016.
- European Association of Urology. EAU Guidelines on Testicular Cancer. Edição atualizada.
Este conteúdo tem finalidade educacional e não substitui a avaliação médica. Dor testicular súbita é uma urgência. A indicação do exame e a interpretação do resultado cabem ao médico que acompanha o paciente.

Deixe um comentário