Em 2015, o subcomitê de imagem escrotal da European Society of Urogenital Radiology (ESUR) publicou na European Radiology a diretriz de microlitíase testicular, assinada por Jonathan Richenberg e colaboradores. Antes dela, o mesmo achado podia gerar alta sem orientação em um serviço e ultrassom semestral, marcadores tumorais e ansiedade em outro. A mensagem prática cabe em uma frase: microlitíase sem fatores de risco não pede ultrassom de controle, só autoexame mensal; com fatores de risco (tumor de células germinativas prévio ou na família, criptorquidia ou orquidopexia, atrofia abaixo de 12 mL), pede ultrassom anual até os 55 anos, e qualquer nódulo associado vai para avaliação especializada.
Ficha do artigo
Referência: Richenberg J, Belfield J, Ramchandani P, Rocher L, Freeman S, Tsili AC, Cuthbert F, Studniarek M, Bertolotto M, Turgut AT, Dogra V, Derchi LE. Testicular microlithiasis imaging and follow-up: guidelines of the ESUR scrotal imaging subcommittee. Eur Radiol. 2015;25:323-330.
DOI: 10.1007/s00330-014-3437-x
Tipo de estudo: diretriz por consenso de especialistas, baseada em revisão da literatura (MEDLINE e EMBASE) e em reuniões presenciais do subcomitê.
Amostra: não se aplica; não há pacientes próprios.
Contexto: subcomitê de imagem escrotal da ESUR, hoje chamado Scrotal and Penile Imaging Working Group (ESUR-SPIWG), com radiologistas de vários países europeus, da Turquia e dos Estados Unidos.
Por que este artigo importa
Microlitíase testicular (TML, do inglês testicular microlithiasis) é o nome dado a pequenos focos ecogênicos, menores que 3 mm e sem sombra acústica, espalhados pelo parênquima do testículo. Correspondem a calcificações dentro dos túbulos seminíferos. O folheto para pacientes que acompanha a diretriz estima que o achado apareça em cerca de 2 a 3 em cada 100 homens, e a revisão de Winter e colaboradores na AJR cita prevalência de 2,4% a 5,6% em adultos assintomáticos.
O problema é que a microlitíase aparece com mais frequência em homens com tumor de células germinativas (TCG), e a literatura antiga oscilava entre o alarme e o desprezo. Na prática de quem lauda, as dores eram três: como contar (quantos pontos fazem o diagnóstico?), o que escrever na conclusão e o que sugerir, sabendo que um “seguimento semestral” mal colocado gera anos de exames sem benefício comprovado. A diretriz da ESUR responde às três.
Para a técnica geral do exame, preparo e outros achados escrotais, veja nosso guia de ultrassom de bolsa escrotal e testículos.
O que os autores fizeram
O subcomitê fez busca na literatura sobre microlitíase e câncer de testículo, além de buscas paralelas sobre síndromes associadas (Klinefelter e McCune-Albright), e redigiu as recomendações por consenso, com base em opinião de especialistas, depois de três reuniões presenciais.
Pontos centrais do método:
- Definição escolhida: havia duas definições na literatura, cinco ou mais microlitos no testículo inteiro ou cinco ou mais por campo de visão (uma imagem). O comitê declarou “preferência esmagadora” pela segunda.
- Estratificação por risco, e não pela microlitíase em si: o achado isolado não muda a conduta; o que muda é o contexto clínico.
- Idade limite de 55 anos para o seguimento, baseada em dados de incidência de câncer de testículo do Reino Unido, França, Grécia e Polônia.
Olhar crítico: é um consenso sem graduação formal da evidência. Os próprios autores reconhecem que não está provado que detectar uma lesão subclínica no ultrassom anual melhore a sobrevida em relação ao autoexame. O ultrassom anual também serve para manter o paciente engajado, já que o autoexame sem supervisão tende a ser abandonado.
Principais resultados
A tabela resume o que a diretriz define e recomenda.
| Tema | O que a diretriz diz |
|---|---|
| Definição de microlitíase | 5 ou mais microlitos por campo de visão em um testículo; focos ecogênicos menores que 3 mm, sem sombra |
| Menos de 5 por campo | Não preenche a definição; na tabela de conduta, sem fator de risco, alta |
| Microlitíase sem fator de risco | Não é indicação de ultrassom regular, rastreamento adicional nem biópsia; alta com orientação de autoexame mensal |
| Fatores de risco que indicam seguimento | TCG prévio; criptorquidia (testículo que não desceu); orquidopexia; atrofia (volume abaixo de 12 mL); TCG em parente de primeiro grau |
| Microlitíase com fator de risco | Ultrassom anual e autoexame mensal até os 55 anos |
| Microlitíase com lesão focal | Encaminhamento a centro especializado (urologia, com ou sem oncologia) |
| Bilateral ou unilateral | O seguimento vale independentemente da lateralidade |
| Massa percebida no autoexame | Acesso rápido ao ultrassom |
| Ressonância | Microlitos não aparecem na RM; ela não tem papel direto no monitoramento |
| Marcadores tumorais e TC | Não fazem parte do seguimento; marcadores aparecem só entre as opções após o encaminhamento ao centro especializado |
| Biópsia | Pode ser indicada no testículo contralateral, no momento da orquiectomia por TCG, se ele tiver microlitíase ou for atrófico (pesquisa de carcinoma in situ) |
Sobre atrofia, a diretriz dá números úteis: o volume testicular médio é de cerca de 18 mL (faixa de 12 a 30 mL), um testículo abaixo de 12 mL deve ser considerado pequeno e uma diferença maior que 20% entre os lados também deve levantar a hipótese de atrofia. A volumetria deve ser feita quando a maior dimensão do testículo for de 35 mm ou menos.
Sobre síndromes e infertilidade: na síndrome de Klinefelter, a microlitíase associada à atrofia deve levar a seguimento; no homem infértil com microlitíase e ultrassom de resto normal, a conduta é a mesma da população geral.

O que muda na prática do ultrassonografista
1. Conte por campo, não no testículo inteiro. O diagnóstico exige 5 ou mais microlitos em uma mesma imagem. Varra o testículo nos cortes longitudinal e transversal e registre a imagem com maior número de focos. A diretriz ainda lembra que a distribuição importa: 5 microlitos agrupados em um ponto podem preocupar mais do que 10 espalhados pelo testículo.
2. “Clássica” e “limitada” não são termos da ESUR. Na literatura americana, Bennett e colaboradores chamaram de microlitíase limitada a presença de menos de 5 microlitos em todas as imagens e de clássica a de 5 ou mais em pelo menos uma imagem. A ESUR não usa essas palavras: na tabela de conduta, separa “menos de 5 por campo” (alta) de microlitíase difusa, que costuma acompanhar atrofia e infertilidade. Se o seu serviço usa “limitada”, deixe claro no laudo o que o termo significa.
3. Use transdutor linear de alta frequência. A diretriz pede transdutor de pelo menos 15 MHz, admitindo frequência menor em bolsa volumosa, quando a penetração for um problema. Ela também lembra que a microlitíase é mais detectada em aparelhos de alta frequência, o que ajuda a explicar a variação de prevalência entre estudos. Microlitos são focos sem sombra; um foco maior, com sombra, é uma calcificação grosseira e não entra na contagem.
4. Meça o volume e diga a fórmula. Atrofia é fator de risco, então o volume deixa de ser detalhe. A ESUR menciona que existem “várias fórmulas”, sem escolher uma. As duas mais usadas são:
- Elipsoide: comprimento × largura × altura × 0,52.
- Lambert: comprimento × largura × altura × 0,71.
No estudo de Sakamoto e colaboradores, que comparou as fórmulas com o volume de peças de orquiectomia medido por deslocamento de água, o fator 0,71 teve a menor diferença em relação ao volume real (superestimativa média de 7,4%). O detalhe que pesa no laudo: o mesmo testículo dá cerca de 37% a mais com 0,71 do que com 0,52. Um testículo de 10,5 mL pelo elipsoide vira cerca de 14,3 mL por Lambert, e passa a ficar acima do corte de 12 mL. A diretriz não diz com qual fórmula o corte de 12 mL foi pensado, então informe sempre o fator e compare o volume entre os lados. Os detalhes dos fatores estão no nosso guia de cálculo de volume pela fórmula do elipsoide.
5. Pergunte os fatores de risco na hora do exame. A diretriz traz uma lista de verificação para o fim do exame. Pergunte sobre câncer de testículo prévio, testículo que não desceu ou cirurgia para baixá-lo e casos de câncer de testículo em pai, irmão ou filho. Sem essa informação, a conclusão fica pela metade.
6. Procure lesão focal com atenção redobrada. Microlitíase densa dificulta a avaliação do parênquima. A diretriz prevê encaminhamento quando há microlitos demais para avaliar o testículo com segurança, além dos casos com nódulo.
Microlitíase em crianças
A diretriz traz uma seção curta para crianças e adolescentes:
- Atrofia ou criptorquidia/orquidopexia: ultrassom anual, informar os pais ou responsáveis e ensinar o autoexame escrotal.
- Síndromes: seguir a seção específica.
- Sintomas: seguir as recomendações gerais.
Revisões pediátricas posteriores, publicadas na Frontiers in Pediatrics, mostram que o tema ainda divide opiniões. Flores e colaboradores (2025) resumem que a maior parte das fontes indica educação e autoexame sem fatores de risco e ultrassom periódico com fatores de risco, e que a European Association of Urology (EAU) recomenda autoexame a partir da puberdade nas crianças de risco. Zitouni e colaboradores (2026) concluem que a microlitíase isolada, sem fator de risco, parece benigna na criança e não exige monitoramento prolongado. Já Habachi e colaboradores (2025) consideram o seguimento continuado a opção mais segura enquanto faltar evidência, com ultrassom quando acessível. Na prática: na criança sem fator de risco, descreva o achado sem alarme e sugira orientação de autoexame a partir da puberdade; na criança com fator de risco, a diretriz sugere ultrassom anual.

Como levar para o laudo
A diretriz não traz um modelo de laudo, mas a lista de verificação deixa claro o que precisa estar escrito. Exemplos de frases:
Microlitíase sem fator de risco
- “Múltiplos focos ecogênicos puntiformes, sem sombra acústica, dispersos no parênquima do testículo direito, com até 8 focos por campo de visão. Testículos de dimensões e ecotextura preservadas, sem lesão focal. Volume direito: 16,2 mL; esquerdo: 15,8 mL (fórmula de Lambert, fator 0,71). Conclusão: microlitíase testicular à direita, sem lesão focal. Na ausência de fatores de risco para tumor de células germinativas, a diretriz da ESUR (2015) não indica controle ultrassonográfico de rotina e recomenda autoexame mensal.”
Microlitíase com fator de risco
- “Microlitíase testicular bilateral, difusa, sem lesão focal. Testículo esquerdo reduzido (volume de 9,6 mL, fator 0,71), com diferença maior que 20% em relação ao contralateral. Antecedente de orquidopexia à esquerda referido. Conclusão: microlitíase testicular bilateral associada a fator de risco (atrofia e orquidopexia). A diretriz da ESUR sugere ultrassom anual e autoexame mensal até os 55 anos.”
Menos de 5 focos por campo
- “Raros focos ecogênicos puntiformes no testículo esquerdo (até 3 por campo de visão), sem lesão focal. Achado abaixo do critério de microlitíase da ESUR (5 ou mais por campo).”
Microlitíase com nódulo
- “Nódulo sólido hipoecoico de 7 mm no polo superior do testículo direito, com fluxo ao Doppler colorido, em meio a microlitíase difusa. Conclusão: nódulo sólido intratesticular. Sugere-se avaliação urológica prioritária.”
Em um laudo estruturado, vale ter campos próprios para: presença e lateralidade, número máximo de microlitos por campo, distribuição (dispersa, agrupada, difusa), volume de cada testículo com o fator usado, diferença percentual entre os lados, lesão focal, fatores de risco referidos e a recomendação correspondente.
Limitações e críticas
- Consenso, não ensaio. As recomendações vêm de opinião de especialistas, sem graduação formal de evidência, e o benefício em sobrevida do ultrassom anual não está demonstrado.
- Risco relativo alto, risco absoluto incerto. A metanálise de Wang e colaboradores (2015), com 14 estudos e 35.578 participantes, encontrou associação forte entre microlitíase e câncer de testículo (risco relativo de 12,70; IC 95%: 8,18 a 19,71), mas com heterogeneidade alta (I² de 82,1%) e estudos majoritariamente em populações já encaminhadas para ultrassom. Em homens inférteis, a metanálise de Barbonetti e colaboradores (2019), com 8 estudos caso-controle, chegou a odds ratio de 18,11 (IC 95%: 8,09 a 40,55). Esses números não se aplicam diretamente ao homem jovem assintomático com microlitíase isolada.
- Infertilidade fica numa zona cinzenta. A diretriz de 2015 trata o infértil com ultrassom normal como a população geral. Em 2025, o ESUR-SPIWG, em recomendações sobre infertilidade masculina (Lotti e colaboradores), afirmou que a microlitíase deve ser investigada no homem infértil, manteve o seguimento anual até os 55 anos com fatores de risco e incluiu também a microlitíase difusa (“céu estrelado”). A mesma publicação cita a EAU, que inclui infertilidade, microlitíase bilateral e atrofia entre os fatores de risco.
- Sem atualização formal dedicada. Até a data deste artigo, não encontramos uma nova diretriz da ESUR específica sobre microlitíase; as publicações posteriores do grupo reafirmam as recomendações de 2015.
- Fórmula de volume indefinida. O corte de 12 mL não vem acompanhado da fórmula, e a diferença entre 0,52 e 0,71 pode mudar a classificação de um testículo limítrofe.
Dúvidas frequentes de quem lauda
Quantos microlitos fazem o diagnóstico?
Pela ESUR, 5 ou mais em um mesmo campo de visão, em pelo menos um testículo. Abaixo disso, descreva os focos, mas não conclua como microlitíase.
Microlitíase isolada em homem jovem: sugiro controle semestral, marcadores ou TC?
Não. Sem fator de risco, a diretriz não indica ultrassom de rotina, marcadores tumorais, tomografia nem biópsia. A sugestão é autoexame mensal.
O paciente tem microlitíase bilateral. Isso muda a conduta?
Pela diretriz de 2015, não: o seguimento depende dos fatores de risco, seja a microlitíase uni ou bilateral. Vale lembrar que a EAU, citada nas recomendações de 2025 do ESUR-SPIWG, coloca a microlitíase bilateral entre os fatores de risco.
E se a criança tiver microlitíase?
Com atrofia ou criptorquidia/orquidopexia, a diretriz sugere ultrassom anual e orientação da família. Sem fator de risco, descreva o achado e sugira autoexame a partir da puberdade, conforme as revisões pediátricas mais recentes.
A microlitíase pode atrapalhar a avaliação de nódulo?
Sim. Quando os microlitos são tantos que impedem avaliar o parênquima com segurança, a diretriz prevê encaminhamento. Se houver dor aguda associada, lembre que o exame segue o raciocínio do escroto agudo, como no nosso guia de torção testicular no Doppler.
Conclusão
A diretriz da ESUR de 2015 tirou a microlitíase testicular do campo da ansiedade e a colocou no da estratificação de risco: contar por campo, perguntar os fatores de risco, medir o volume com fórmula informada e procurar lesão focal. Sem fator de risco, autoexame mensal; com fator de risco, ultrassom anual até os 55 anos; com nódulo, encaminhamento. Um laudo que traga esses elementos evita tanto o exame desnecessário quanto o seguimento esquecido.
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Referências
- Richenberg J, Belfield J, Ramchandani P, et al. Testicular microlithiasis imaging and follow-up: guidelines of the ESUR scrotal imaging subcommittee. European Radiology, 2015;25:323-330. DOI: 10.1007/s00330-014-3437-x.
- Wang T, Liu L, Luo J, Liu T, Wei A. A meta-analysis of the relationship between testicular microlithiasis and incidence of testicular cancer. Urology Journal, 2015;12(2):2057-2064.
- Barbonetti A, Martorella A, Minaldi E, et al. Testicular cancer in infertile men with and without testicular microlithiasis: a systematic review and meta-analysis of case-control studies. Frontiers in Endocrinology, 2019;10:164. DOI: 10.3389/fendo.2019.00164.
- Lotti F, Studniarek M, Balasa C, et al. The role of the radiologist in the evaluation of male infertility: recommendations of the European Society of Urogenital Radiology-Scrotal and Penile Imaging Working Group (ESUR-SPIWG) for scrotal imaging. European Radiology, 2025;35(2):752-766. DOI: 10.1007/s00330-024-10964-5.
- Winter TC, Kim B, Lowrance WT, Middleton WD. Testicular microlithiasis: what should you recommend? AJR, 2016;206:1-6. DOI: 10.2214/AJR.15.15226.
- Sakamoto H, Saito K, Oohta M, et al. Testicular volume measurement: comparison of ultrasonography, orchidometry, and water displacement. Urology, 2007;69(1). DOI: 10.1016/j.urology.2006.09.012.
- Flores HA, Bailey WC, Harris KT. Management of pediatric testicular microlithiasis. Frontiers in Pediatrics, 2025;13:1588261. DOI: 10.3389/fped.2025.1588261.
- Habachi G, Kerkeni Y, Jouini R. Clinical and imaging diagnosis of pediatric testicular microlithiasis: a physician’s dilemma. Frontiers in Pediatrics, 2025;13:1554081. DOI: 10.3389/fped.2025.1554081.
- Zitouni H, Dghaies R, Kechiche N, Mhiri R. Pediatric testicular microlithiasis: a review of epidemiology, risk associations and management. Frontiers in Pediatrics, 2026;13:1553825. DOI: 10.3389/fped.2025.1553825.
Este conteúdo tem finalidade educacional e é voltado a profissionais e estudantes de ultrassonografia. Não substitui a avaliação médica individual nem a leitura da diretriz original da ESUR. A decisão sobre seguimento e investigação cabe ao médico que acompanha o paciente.

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