O ultrassom de abdome total é o exame que avalia, numa mesma sessão, os órgãos do abdome superior (fígado, vesícula biliar, vias biliares, pâncreas, baço, rins e aorta) e a pelve (bexiga e, nos homens, a próstata). O preparo em adultos costuma ser jejum de 6 a 8 horas e bexiga cheia, com cerca de 1 litro de água uma hora antes do exame, sem urinar. O exame é feito com o paciente deitado, gel na pele e o transdutor passado pela barriga, dura em média 15 a 30 minutos e não usa radiação nem dói.
Para quem faz o exame, o abdome total é um dos pedidos mais comuns da rotina e também um dos mais fáceis de fazer de forma incompleta. Este guia explica a diferença entre abdome total, abdome superior e rins e vias urinárias, mostra a técnica passo a passo, reúne as medidas de referência mais usadas e lista o que não pode faltar no laudo. Se a dúvida for só o preparo dos outros exames, veja também o nosso guia Ultrassom precisa de jejum?
Abdome total, abdome superior ou rins e vias urinárias?
Os três nomes aparecem nos pedidos médicos e confundem pacientes e recepções. A diferença está nos órgãos incluídos e, por consequência, no preparo.
| Exame | O que avalia | Jejum | Bexiga |
|---|---|---|---|
| Abdome total | Fígado, vesícula, vias biliares, pâncreas, baço, rins, aorta, bexiga e próstata (homens) | Sim, 6 a 8 horas | Cheia |
| Abdome superior | Fígado, vesícula, vias biliares, pâncreas, baço, rins e aorta | Sim, 6 a 8 horas | Não precisa |
| Rins e vias urinárias | Rins, ureteres quando dilatados, bexiga e próstata (homens), com resíduo pós-miccional se pedido | Em geral não | Cheia |
Em mulheres, útero e ovários podem ser vistos durante o abdome total, mas a avaliação ginecológica completa é feita no ultrassom pélvico ou transvaginal. Na maioria dos serviços, o laudo de abdome total menciona apenas se há alteração grosseira na pelve feminina e recomenda o exame específico quando necessário.
Para que serve o ultrassom de abdome total
O exame costuma ser pedido para investigar dor abdominal, alteração de enzimas do fígado, icterícia, suspeita de cálculos na vesícula ou nos rins, aumento do fígado ou do baço, infecção urinária de repetição, sintomas urinários e massas palpáveis. Também é usado como check-up e no acompanhamento de doenças já conhecidas, como esteatose hepática, cistos renais e cirrose.
Ele mostra bem órgãos sólidos e estruturas com líquido. Mostra mal o que tem gás: estômago, intestino delgado e cólon não são avaliados de forma adequada no abdome total de rotina. Apendicite, por exemplo, exige busca dirigida, com técnica de compressão gradual na fossa ilíaca direita, e não deve ser considerada excluída por um abdome total sem menção ao apêndice.
Como é feito o exame, passo a passo
Na prática, o protocolo segue uma ordem fixa para não esquecer nenhum órgão. Uma sequência bem aceita, baseada nos parâmetros do ACR e do AIUM, é a seguinte:
- Posicionamento: paciente em decúbito dorsal, com o abdome exposto do apêndice xifoide até o púbis. Use transdutor convexo de baixa frequência, em geral entre 2 e 5 MHz.
- Fígado: cortes longitudinais e transversais pela via subcostal e intercostal, avaliando os lobos direito e esquerdo, contornos, ecogenicidade comparada ao rim direito e lesões focais. Medir o lobo direito no eixo longitudinal, na linha hemiclavicular.
- Vesícula biliar: cortes longitudinal e transversal, em decúbito dorsal e em decúbito lateral esquerdo. Mudar a posição do paciente ajuda a mostrar que o cálculo se move e a diferenciá-lo de pólipo.
- Vias biliares: medir o hepatocolédoco no hilo hepático, de parede interna a parede interna, e procurar dilatação das vias intra-hepáticas.
- Veia porta: medir o calibre no hilo e, quando houver Doppler, registrar o sentido do fluxo.
- Pâncreas: cortes transversais no epigástrio, usando a veia esplênica como referência. Se houver gás, peça inspiração profunda, compressão gradual ou tente o paciente sentado.
- Aorta abdominal: medir o maior diâmetro anteroposterior, de parede externa a parede externa, em cortes transversais no segmento proximal, médio e distal.
- Baço: via intercostal esquerda, com o paciente em decúbito dorsal ou lateral direito. Medir o maior eixo longitudinal.
- Rins: cortes longitudinais e transversais de cada rim, medindo o comprimento bipolar e a espessura do parênquima, avaliando a diferenciação corticomedular, cálculos e dilatação pielocalicinal.
- Bexiga: com a bexiga cheia, avaliar a parede, o conteúdo e a região dos meatos ureterais. Calcular o volume quando indicado.
- Próstata (homens): pela via suprapúbica, medir os três diâmetros e calcular o volume. Se pedido, medir o resíduo pós-miccional logo após o paciente urinar.
- Cavidade: pesquisar líquido livre no espaço hepatorrenal (Morison), no espaço esplenorrenal e na pelve.
Medidas de referência mais usadas em adultos
Os valores abaixo são referências gerais. Eles variam com biotipo, idade, sexo e a literatura usada pelo serviço, e devem ser interpretados junto com a clínica.
| Estrutura | Medida | Referência em adultos |
|---|---|---|
| Fígado (lobo direito) | Eixo longitudinal na linha hemiclavicular | Em geral até cerca de 15 a 16 cm |
| Vesícula biliar | Espessura da parede, em jejum | Até 3 mm |
| Hepatocolédoco | Calibre | Em geral até 6 mm; pode ser maior em idosos e após colecistectomia |
| Veia porta | Calibre no hilo | Em geral até 12 a 13 mm |
| Ducto pancreático principal (Wirsung) | Calibre | Em geral até 3 mm |
| Baço | Maior eixo longitudinal | Em geral até 12 a 13 cm |
| Rins | Comprimento bipolar | Em geral entre 9 e 12 cm |
| Aorta abdominal | Diâmetro externo máximo | Menor que 3,0 cm; a partir de 3,0 cm é aneurisma |
| Bexiga | Espessura da parede, com bexiga cheia | Em geral até 3 mm |
| Resíduo pós-miccional | Volume | Em geral abaixo de 50 mL é considerado normal |
Uma diferença de comprimento entre os rins maior que cerca de 1,5 a 2 cm merece ser mencionada no laudo, porque pode indicar doença de um dos lados. No fígado, a medida isolada vale pouco: forma, contornos e a extensão do lobo direito abaixo do rebordo costal ajudam tanto quanto o número.
O que deve constar no laudo
Um laudo de abdome total completo descreve cada órgão, mesmo quando normal, e deixa claro o que não foi avaliado. Os itens mínimos são:
- Fígado: dimensões, contornos, ecotextura, ecogenicidade (com grau de esteatose, se presente) e lesões focais com medidas e localização segmentar.
- Vesícula biliar: distensão, espessura da parede, conteúdo (cálculos, lama, pólipos com medida) e sinal de Murphy ultrassonográfico quando houver dor.
- Vias biliares: calibre do hepatocolédoco e presença ou ausência de dilatação intra-hepática.
- Pâncreas: segmentos visualizados, ecotextura, calibre do Wirsung e lesões.
- Baço: dimensão longitudinal, ecotextura e lesões.
- Rins: comprimento, espessura do parênquima, diferenciação corticomedular, cálculos com medida e localização, cistos e grau de dilatação pielocalicinal.
- Aorta: calibre e, se houver, aneurisma com diâmetro máximo e extensão.
- Bexiga: repleção, parede e conteúdo; volume e resíduo quando pedidos.
- Próstata: dimensões, volume calculado e ecotextura.
- Cavidade: presença ou ausência de líquido livre.
- Limitações técnicas: jejum inadequado, interposição gasosa, biotipo e bexiga pouco cheia.
- Conclusão: objetiva, listando os achados relevantes e, quando for o caso, a recomendação de exame complementar.
Erros comuns no ultrassom de abdome total
Não registrar segmentos não visualizados
A cauda do pâncreas e a aorta distal são frequentemente encobertas por gás. Escrever “pâncreas sem alterações” quando só a cabeça foi vista é um erro que pode atrasar um diagnóstico. Descreva o que foi visto e o que não foi.
Medir a aorta da parede interna
O diâmetro da aorta para triagem de aneurisma deve seguir o padrão do serviço, e a maioria das diretrizes usa a medida de parede externa a parede externa. Medir só o lúmen subestima o calibre, principalmente quando há trombo mural.
Confundir pólipo com cálculo
O cálculo costuma ser móvel e gerar sombra acústica posterior. O pólipo é fixo à parede e não faz sombra. Sem mudar o paciente de decúbito, a diferença pode passar despercebida.
Descrever hidronefrose com bexiga muito cheia
Uma bexiga hiperdistendida pode causar dilatação discreta e transitória do sistema coletor. Antes de laudar pielocaliectasia leve, reavalie os rins depois da micção.
Dar a pelve feminina como avaliada
O abdome total não substitui o ultrassom pélvico ou transvaginal. Se útero e ovários não foram estudados de forma completa, isso deve ficar claro no laudo.
Perguntas frequentes
Qual o preparo do ultrassom de abdome total?
Em adultos, jejum de 6 a 8 horas e bexiga cheia. A orientação mais comum é beber cerca de 1 litro de água uma hora antes do exame e não urinar até o fim. Siga sempre o protocolo da sua clínica.
Ultrassom de abdome total dá para ver gravidez?
Não é o exame indicado. Uma gravidez mais avançada pode aparecer na imagem por acaso, mas no início da gestação o abdome total pode não mostrar nada. Para confirmar gravidez, o caminho é o exame de sangue (beta-hCG) e o ultrassom obstétrico ou transvaginal.
O ultrassom de abdome total mostra o intestino?
De forma limitada. O gás dentro das alças impede uma boa avaliação do estômago e do intestino no exame de rotina. Algumas doenças intestinais exigem técnica dirigida ou outros exames.
Quanto tempo dura o ultrassom de abdome total?
Em geral entre 15 e 30 minutos, dependendo do biotipo do paciente, da quantidade de gás e dos achados.
O ultrassom de abdome total dói?
Não. Pode haver um leve desconforto pela pressão do transdutor, principalmente com a bexiga cheia ou se houver dor abdominal no momento do exame.
Qual a diferença entre abdome total e abdome superior?
O abdome superior avalia os órgãos da parte de cima do abdome e dispensa bexiga cheia. O abdome total inclui também a pelve, por isso pede jejum e bexiga cheia.
Conclusão
O ultrassom de abdome total é um exame simples para o paciente e exigente para quem o executa. O preparo com jejum e bexiga cheia garante a melhor janela acústica. Um protocolo em ordem fixa evita esquecer órgãos. Medidas feitas da forma padronizada permitem comparar exames ao longo do tempo. E um laudo que descreve cada órgão, inclusive as limitações, é o que transforma a imagem em informação útil para o médico assistente.
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Referências
- American College of Radiology (ACR), American Institute of Ultrasound in Medicine (AIUM), Society for Pediatric Radiology (SPR), Society of Radiologists in Ultrasound (SRU). ACR-AIUM-SPR-SRU Practice Parameter for the Performance of an Ultrasound Examination of the Abdomen and/or Retroperitoneum. Revisado em 2022.
- Rumack CM, Levine D. Diagnostic Ultrasound. 5ª edição. Philadelphia: Elsevier, 2018.
- Middleton WD, Kurtz AB, Hertzberg BS. Ultrasound: The Requisites. 3ª edição. Philadelphia: Elsevier, 2016.
- Chaikof EL, et al. The Society for Vascular Surgery practice guidelines on the care of patients with an abdominal aortic aneurysm. Journal of Vascular Surgery, 2018;67(1):2-77.
Este conteúdo tem finalidade educacional e não substitui a avaliação médica. Valores de referência e preparo podem variar entre serviços: siga sempre a orientação da clínica e do médico que pediu o exame.

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