Em 1986, o radiologista holandês Julien Puylaert publicou na Radiology um artigo curto que mudou a forma de procurar a apendicite: em vez de “olhar” a fossa ilíaca direita, o examinador passa a comprimir aos poucos a região dolorida com um transdutor linear, afastando e esmagando as alças normais com gás até que o apêndice inflamado, que não se deixa comprimir, apareça. Quase quarenta anos depois, a compressão gradual continua sendo a técnica de base do ultrassom do apêndice no mundo todo. A mensagem prática cabe em uma frase: o apêndice inflamado é um tubo de fundo cego que não comprime, e um exame em que o apêndice não foi visto não é um exame negativo, é um exame indeterminado que precisa ser descrito como tal.
Ficha do artigo
Referência: Puylaert JB. Acute appendicitis: US evaluation using graded compression. Radiology. 1986;158(2):355-360.
DOI: 10.1148/radiology.158.2.2934762
Tipo de estudo: série prospectiva de pacientes consecutivos, descrição de técnica e avaliação diagnóstica.
Amostra: 60 pacientes consecutivos com sinais clínicos de apendicite aguda; 28 com apendicite confirmada.
Contexto: serviço de radiologia na Holanda, exame em tempo real com compressão gradual; achado cirúrgico e evolução clínica como referência.
Por que este artigo importa
Até meados dos anos 1980, o ultrassom era pouco útil na suspeita de apendicite. O gás das alças intestinais bloqueava o feixe, e a fossa ilíaca direita era vista como uma região “cega”. O diagnóstico dependia quase só do exame clínico, com taxas altas de apendicectomia com apêndice normal e, do outro lado, de atrasos que levavam à perfuração.
Puylaert mostrou que a solução não era um aparelho melhor, e sim uma manobra: a compressão gradual. Ao aproximar o transdutor da parede posterior do abdome, o examinador encurta a distância até o apêndice e tira do caminho o gás e as alças normais, que se deixam comprimir. O que resiste à compressão chama a atenção.
A dor de quem lauda continua a mesma de 1986: o apêndice nem sempre aparece, o exame depende muito de quem segura o transdutor e o pronto-socorro quer uma resposta binária. Entender o artigo original e o que veio depois ajuda a dar essa resposta com honestidade.
O que o autor fez
Puylaert examinou de forma prospectiva 60 pacientes consecutivos com quadro clínico sugestivo de apendicite aguda. O princípio da técnica, descrito também em revisões posteriores, é aplicar pressão gradual e moderada sobre o quadrante inferior direito para colabar as alças normais e visualizar o apêndice distendido. A pressão é aumentada devagar, o que torna o exame tolerável mesmo com peritonite localizada.
O resultado foi comparado com o desfecho cirúrgico e clínico de cada paciente.
Olhar crítico:
- A amostra é pequena, de um único centro, em série conduzida pelo próprio criador da técnica. O resultado não pode ser transposto direto para examinadores menos experientes.
- No artigo de 1986, o apêndice não foi visualizado em nenhum dos 32 pacientes sem apendicite. Na prática, a lógica era quase binária: ver um apêndice anormal significava apendicite. Hoje, com transdutores melhores, o apêndice normal muitas vezes é visto, e por isso surgiram os critérios de diâmetro e de compressibilidade que usamos para separar normal de inflamado.
Principais resultados
Os números do resumo do artigo original, e os do estudo prospectivo maior que o mesmo grupo publicou no ano seguinte no New England Journal of Medicine:
| Estudo | Pacientes | Achado principal |
|---|---|---|
| Puylaert, Radiology 1986 | 60 consecutivos, 28 com apendicite | Apêndice inflamado visualizado em 25 de 28 (89%); perfuração prevista em 6 de 7; apêndice não visualizado nos 32 sem apendicite |
| Puylaert e colaboradores, NEJM 1987 | 111 consecutivos, 52 com apendicite | Sensibilidade de 75% e especificidade de 100%; sensibilidade de 28,5% na apendicite perfurada, contra 80,5% na não perfurada e 89% no plastrão; o exame mudou a conduta proposta em 26% dos pacientes |
A conclusão de 1986 foi direta: o ultrassom com compressão gradual é o exame de escolha quando há dúvida sobre a indicação de apendicectomia. O artigo de 1987 acrescentou duas lições que continuam valendo: o exame é muito específico nas mãos de quem domina a técnica, e a apendicite perfurada é a mais difícil de ver, em geral porque o apêndice pode descomprimir e se perder no meio da inflamação.
O que veio depois: sensibilidade e especificidade
A grande metanálise de Doria e colaboradores (Radiology, 2006) reuniu estudos publicados entre 1986 e 2004, com 26 estudos pediátricos (9.356 pacientes) e 31 estudos em adultos (4.341 pacientes):
| População | Ultrassom: sensibilidade | Ultrassom: especificidade | TC: sensibilidade | TC: especificidade |
|---|---|---|---|---|
| Crianças | 88% | 94% | 94% | 95% |
| Adultos | 83% | 93% | 94% | 94% |
A tomografia foi mais sensível, mas os autores lembraram que a radiação, sobretudo em crianças, pesa na escolha. A especificidade do ultrassom ficou próxima da TC: quando o ultrassom mostra apendicite com critérios claros, em geral ele está certo. O ponto fraco é o falso negativo, quase sempre ligado ao apêndice que não foi visto.
O debate dos 6 mm
O corte de diâmetro externo maior que 6 mm, medido de parede externa a parede externa, virou o critério mais citado. Ele não vem do artigo de 1986 e foi consolidado por trabalhos posteriores. A dificuldade é que existe sobreposição entre apêndice normal e inflamado logo acima desse valor.
Trout e colaboradores (European Radiology, 2015) analisaram 641 ultrassons pediátricos, com 28,2% de apendicite, e propuseram três faixas em vez de um corte único:
| Diâmetro máximo | Interpretação proposta | Prevalência de apendicite |
|---|---|---|
| Até 6 mm | Normal | 2,6% |
| Acima de 6 mm até 8 mm | Indeterminado | 64,9% |
| Acima de 8 mm | Positivo | 96,1% |
Com as três categorias, a acurácia foi de 97,2%, com 17,3% dos exames na faixa indeterminada, contra 91,6% usando o corte binário de 6 mm. A lição prática: entre 6 e 8 mm, o diâmetro sozinho não decide, e compressibilidade, gordura periapendicular, parede e Doppler passam a pesar mais.
O que muda na prática do ultrassonografista
1. Comece pelo ponto de dor. Peça ao paciente que aponte com um dedo o local de maior dor e comece ali, com transdutor linear de alta frequência. Em pacientes com mais panículo, o convexo ajuda a se orientar antes de voltar ao linear.
2. Comprima devagar e use as referências posteriores. A pressão deve ser gradual e mantida, até que o músculo psoas e os vasos ilíacos apareçam no fundo da imagem. A revisão pictórica de Quigley e Stafrace (Insights into Imaging, 2013) organiza o exame em quatro passos: afastar as alças do intestino delgado, identificar cólon ascendente e ceco com compressões repetidas, achar o apêndice nascendo do ceco e só então avaliar os sinais de inflamação.
3. Prove que é o apêndice. O apêndice nasce do ceco e termina em fundo cego. O íleo terminal continua até a válvula ileocecal, tem peristalse e se comprime. Siga a estrutura até o fim antes de dar o nome.
4. Teste a compressibilidade no corte transversal. O apêndice inflamado mantém a forma redonda sob pressão. Os sinais diretos listados na revisão de Mostbeck e colaboradores (Insights into Imaging, 2016), da Sociedade Europeia de Radiologia Gastrointestinal e Abdominal (ESGAR), são:
- diâmetro acima de 6 mm;
- não compressibilidade;
- parede com 3 mm ou mais;
- sinal do alvo;
- apendicolito com sombra acústica posterior.

5. Vá até a ponta. Segundo Quigley e Stafrace, quando só uma pequena parte do apêndice está acometida, a inflamação pode ficar restrita à ponta. Ver a base normal e parar ali é a receita do falso negativo.
6. Procure ativamente o apêndice retrocecal. A posição retrocecal é frequente e difícil de ver ao ultrassom. As soluções descritas são:
- compressão manual posterior, com a mão livre empurrando o flanco por trás;
- decúbito lateral esquerdo oblíquo;
- transdutor de frequência mais baixa.
Na posição pélvica, bexiga cheia ou via transvaginal podem ajudar.
7. No paciente obeso, registre a limitação. Na revisão da ESGAR, maior espessura da parede abdominal e escores de dor mais baixos se associaram a exames falso-negativos. Comece com o convexo, comprima com paciência e diga no laudo que o biotipo limitou o exame.
8. Valorize os sinais secundários, mas não os superestime. Os sinais indiretos citados pela ESGAR são:
- líquido ao redor do apêndice;
- abscesso local;
- aumento da ecogenicidade da gordura mesentérica;
- linfonodos regionais aumentados;
- espessamento peritoneal;
- obstrução intestinal secundária.
Eles reforçam o diagnóstico quando o apêndice é visto. Quando não é, mantêm a suspeita viva. Linfonodos aumentados isolados, porém, são comuns na adenite mesentérica e não fecham diagnóstico.
9. Desconfie da perfuração quando o apêndice “some”. O próprio Puylaert mostrou, em 1987, sensibilidade muito menor na apendicite perfurada. A revisão da ESGAR lembra que o apêndice perfurado pode ser compressível. Os sinais de perfuração descritos por Quigley e Stafrace são:
- perda da camada submucosa ecogênica;
- coleção periapendicular;
- líquido de ecogenicidade mista, sugerindo pus ou conteúdo fecal;
- massa inflamatória, do fleimão ao abscesso.

Um apendicolito fora da luz também deve ser descrito. Se o examinador não estiver familiarizado com a anatomia normal do quadrante, o nosso guia de ultrassom de abdome total ajuda a revisar as referências.
Quem faz ultrassom primeiro: crianças e gestantes
A ESGAR recomenda o ultrassom com compressão gradual como primeiro exame de imagem em crianças, com desempenho que pode se aproximar da TC sem radiação ionizante. Em adultos e idosos, a mesma revisão considera que a TC pode ser preferida, pela menor sensibilidade do ultrassom e pela necessidade de afastar diagnósticos diferenciais.
Na gestação, a atualização de 2022 dos Critérios de Adequação do American College of Radiology para dor no quadrante inferior direito afirma que a ressonância sem contraste e o ultrassom continuam sendo os exames de escolha, e que ambos funcionam melhor nas mãos de examinadores experientes. A revisão da ESGAR, por sua vez, dá preferência à ressonância na gestante. Na prática, em geral o ultrassom é feito primeiro pela disponibilidade, e a ressonância entra quando ele é inconclusivo. Uma revisão mais completa do tema, voltada também ao paciente, está no nosso texto sobre ultrassom na suspeita de apendicite.
Como levar para o laudo
O laudo deve responder a três perguntas que o cirurgião vai fazer: o apêndice foi visto? Está inflamado? Há sinais de complicação?
Apêndice visualizado e normal
- “Apêndice cecal identificado da base à ponta, em posição pélvica, compressível, com diâmetro máximo de 5 mm e paredes finas. Gordura periapendicular de aspecto habitual. Sem líquido livre na fossa ilíaca direita.”
Apendicite aguda não complicada
- “Apêndice cecal em posição medial, não compressível, com diâmetro máximo de 9 mm, parede de 3 mm com camadas preservadas e hiperemia ao Doppler colorido. Apendicolito de 6 mm na base, com sombra acústica posterior. Gordura periapendicular hiperecogênica. Sem coleções. Conclusão: achados compatíveis com apendicite aguda, sem sinais ultrassonográficos de perfuração.”
Apêndice não visualizado
- “Apêndice cecal não identificado apesar de compressão gradual, decúbito lateral esquerdo e compressão posterior. Exame limitado por interposição gasosa e biotipo. Sem sinais secundários: gordura da fossa ilíaca direita de aspecto habitual, sem líquido livre ou coleções. Conclusão: apêndice não visualizado, sem sinais indiretos de processo inflamatório. O exame não exclui apendicite; correlacionar com a evolução clínica.”
Sinais de perfuração
- “Apêndice parcialmente identificado, com perda da camada submucosa ecogênica na ponta e coleção periapendicular de conteúdo heterogêneo medindo 4,1 x 3,2 x 2,8 cm, com apendicolito no seu interior. Conclusão: apendicite aguda com sinais de perfuração e abscesso periapendicular.”
Em um laudo estruturado, vale ter campos próprios para:
- técnica e manobras usadas;
- visualização (completa, parcial, não visualizado) e posição;
- compressibilidade;
- diâmetro máximo externo;
- espessura e integridade da parede;
- apendicolito;
- gordura periapendicular;
- Doppler;
- sinais secundários;
- sinais de complicação, com medidas;
- limitações técnicas;
- diagnóstico alternativo, como adenite mesentérica, ileíte terminal, cisto ovariano complicado ou cálculo ureteral;
- categoria final, quando o serviço adota categorias.
Com o apêndice entre 6 e 8 mm, informe explicitamente os outros critérios para que a conclusão não fique apoiada só na medida.
Limitações e críticas
- Amostra pequena e centro único. São 60 pacientes, em série conduzida pelo criador da técnica. Nas metanálises posteriores, com muitos serviços e examinadores, a sensibilidade ficou abaixo da TC.
- Visualização variável. A revisão de Quigley e Stafrace cita taxas de não visualização do apêndice entre 24,4% e 69,3%. A da ESGAR afirma que exames não diagnósticos, com apêndice não visualizado, são “mais regra do que exceção”.
- Perfuração. É o cenário de menor sensibilidade desde o estudo de 1987.
- Critérios posteriores e corte único. O artigo original não definiu limiar de diâmetro. O corte de 6 mm, adotado depois, gera falsos positivos na faixa de 6 a 8 mm, como mostrou Trout em 2015.
- Adultos. A TC continua mais sensível em adultos, e o papel do ultrassom nesse grupo depende do biotipo, da experiência local e da necessidade de investigar diagnósticos diferenciais.
Dúvidas frequentes de quem lauda
Apêndice não visualizado: posso escrever “exame normal”?
Não. Escreva que o apêndice não foi identificado, diga quais manobras foram tentadas, se há ou não sinais secundários e quais limitações técnicas existiram. Para Quigley e Stafrace, repetir o exame após algumas horas aumenta significativamente a sensibilidade, uma opção útil quando a suspeita clínica persiste.
O apêndice mede 7 mm, mas comprime e tem gás. É apendicite?
Compressibilidade e gás na luz falam contra, mas não descarte só pelo diâmetro. Na série de Trout, cerca de dois terços dos apêndices entre 6 e 8 mm tinham apendicite, então a decisão depende do conjunto dos critérios. Descreva compressibilidade, conteúdo, parede, gordura e Doppler, e deixe isso claro na conclusão.
Ausência de fluxo ao Doppler afasta apendicite?
Não. O Doppler pode ser pouco sensível em fases iniciais e em apêndices profundos, e a falta de fluxo em um apêndice muito alterado pode indicar necrose da parede. A hiperemia reforça o diagnóstico; a ausência dela não exclui.
Como não perder a apendicite de ponta?
Siga o apêndice em eixo longo até o fundo cego e confirme a ponta em corte transversal. Se a ponta estiver escondida atrás do ceco ou na pelve, mude o decúbito, use compressão posterior ou a via transvaginal.
Linfonodos aumentados na fossa ilíaca direita fecham adenite mesentérica?
Só quando o apêndice foi visto e é normal. Linfonodos aumentados também aparecem na apendicite. Com o apêndice não visualizado, a adenite é uma hipótese, não uma conclusão.
Conclusão
O artigo de Puylaert transformou uma região “cega” do abdome em território do ultrassom com uma manobra simples: comprimir devagar até que o apêndice inflamado, que não comprime, apareça. As metanálises posteriores confirmaram especificidade alta e sensibilidade menor que a da TC, com o apêndice não visualizado e a perfuração como principais armadilhas. O diâmetro acima de 6 mm é útil, mas na faixa de 6 a 8 mm precisa ser lido junto com compressibilidade, parede, gordura e Doppler. E o laudo precisa dizer, sem ambiguidade, se o apêndice foi visto.
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Referências
- Puylaert JB. Acute appendicitis: US evaluation using graded compression. Radiology, 1986;158(2):355-360. DOI: 10.1148/radiology.158.2.2934762.
- Puylaert JB, et al. A prospective study of ultrasonography in the diagnosis of appendicitis. New England Journal of Medicine, 1987;317:666-669.
- Doria AS, Moineddin R, Kellenberger CJ, et al. US or CT for diagnosis of appendicitis in children and adults? A meta-analysis. Radiology, 2006;241(1):83-94.
- Trout AT, Towbin AJ, Fierke SR, Zhang B, Larson DB. Appendiceal diameter as a predictor of appendicitis in children: improved diagnosis with three diagnostic categories derived from a logistic predictive model. European Radiology, 2015;25(8):2231-2238. DOI: 10.1007/s00330-015-3639-x.
- Quigley AJ, Stafrace S. Ultrasound assessment of acute appendicitis in paediatric patients: methodology and pictorial overview of findings seen. Insights into Imaging, 2013;4:741-751. DOI: 10.1007/s13244-013-0275-3.
- Mostbeck G, Adam EJ, Nielsen MB, et al. How to diagnose acute appendicitis: ultrasound first. Insights into Imaging, 2016;7(2):255-263. DOI: 10.1007/s13244-016-0469-6.
- Expert Panel on Gastrointestinal Imaging. ACR Appropriateness Criteria® Right Lower Quadrant Pain: 2022 Update. Journal of the American College of Radiology, 2022;19(11S):S445-S461. DOI: 10.1016/j.jacr.2022.09.011.
Este conteúdo tem finalidade educacional e é voltado a profissionais e estudantes de ultrassonografia. Não substitui a avaliação médica individual nem a leitura dos artigos originais. A indicação de exames complementares e a conduta diante da suspeita de apendicite cabem ao médico que acompanha o paciente.

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