Baço aumentado (esplenomegalia) no ultrassom: medidas normais, causas e o que fazer

Ilustração de transdutor de ultrassom avaliando o baço no lado esquerdo do abdome

Baço aumentado (esplenomegalia) no ultrassom significa que o baço mede mais do que o esperado para a pessoa. A medida mais usada é o maior eixo longitudinal (comprimento bipolar), e o limite clássico em adultos é de cerca de 12 cm, com muitos serviços usando 12 a 13 cm. Esse corte, porém, não serve para todos: homens e pessoas altas têm baço maior, e no estudo de Chow e colaboradores (Radiology, 2016) 26% dos homens e 6% das mulheres saudáveis passaram de 12 cm. As causas mais comuns são doença do fígado com hipertensão portal, infecções como a mononucleose e doenças do sangue. O achado isolado não é um diagnóstico: o médico costuma pedir exames de sangue e comparar com a história clínica para descobrir a causa.

Este guia explica o que o baço faz, como ele é medido no ultrassom, o que pode aumentá-lo, achados frequentes que assustam mas costumam ser benignos (como o baço acessório) e, para quem faz o exame, como descrever tudo isso no laudo.

O que o baço faz

O baço fica no lado esquerdo do abdome, embaixo das costelas, atrás do estômago e acima do rim esquerdo. Ele tem três funções principais:

  • Filtrar o sangue: retira hemácias velhas ou defeituosas e partículas da circulação.
  • Defesa: participa da resposta imune, sobretudo contra bactérias encapsuladas, como o pneumococo.
  • Reservatório: guarda parte das plaquetas e, em algumas doenças, volta a produzir células do sangue (hematopoese extramedular).

Por isso o baço aumenta quando trabalha mais (infecções, destruição de hemácias), quando o sangue tem dificuldade de sair dele (hipertensão portal) ou quando é infiltrado por células anormais (leucemias, linfomas, doenças de depósito). Um baço grande também pode “sequestrar” plaquetas e glóbulos, o que se chama hiperesplenismo.

Como o baço é medido no ultrassom

O baço é avaliado no ultrassom de abdome total ou de abdome superior, pela janela intercostal esquerda, com o paciente deitado de costas ou de lado sobre o lado direito. A respiração costuma ser ajustada para afastar o pulmão e as costelas.

Comprimento bipolar (maior eixo longitudinal)

É a medida do polo superior ao polo inferior, no corte que mostra o hilo e o maior comprimento do órgão. É a mais reprodutível e a que aparece em quase todos os laudos.

  • Referência clássica: em geral até 12 cm em adultos; muitos serviços aceitam até 13 cm.
  • Ajuste por sexo e altura: Chow e colaboradores avaliaram 1.230 doadores saudáveis e mostraram que sexo, altura e peso influenciam o tamanho do baço de forma independente. Eles publicaram limites corrigidos para mulheres de 155 a 179 cm e homens de 165 a 199 cm, e um homem alto pode ter baço normal acima de 12 cm.
  • Reprodutibilidade: no mesmo estudo, a diferença mediana entre duas medidas da mesma pessoa, com pelo menos 6 meses de intervalo, foi de apenas 0,1 cm. Variações maiores no seguimento costumam refletir técnica ou doença.

Largura, espessura, índice esplênico e volume

Além do comprimento, podem ser medidas a largura (maior diâmetro transversal) e a espessura (distância do hilo à borda convexa). Com as três medidas:

  • Índice esplênico: é o produto comprimento × largura × espessura. O limite mais citado é 480 cm³, atribuído a Koga e Morikawa (Radiology, 1975), mas a definição varia entre fontes.
  • Volume pela fórmula do elipsoide: comprimento × largura × espessura × 0,523. Também acompanha bem a evolução no mesmo paciente.

Na prática, o índice e o volume são mais úteis para comparar exames seriados (por exemplo, na resposta ao tratamento de uma doença hematológica) do que para definir sozinhos se o baço está aumentado. Em crianças, o tamanho normal muda com a idade e há tabelas próprias, como a de Rosenberg e colaboradores (AJR, 1991); os números de adulto não devem ser usados.

Ultrassom em escala de cinza do hipocôndrio esquerdo mostrando baço aumentado, com maior eixo craniocaudal de 13,8 cm
Figura 1. Esplenomegalia no ultrassom em escala de cinza: baço no hipocôndrio esquerdo com 13,8 cm no maior eixo craniocaudal. Fonte: Rumhumha AR, Mphephu PE, Gabuza LM, South African Journal of Radiology, 2026, CC BY 4.0.

Tabela: medidas e como interpretar

Medida Como fazer Referência em adultos Observação
Comprimento bipolar Maior eixo, polo a polo, passando pelo hilo Em geral até 12 cm (muitos serviços usam 12 a 13 cm) Ajustar para sexo e altura (Chow 2016)
Índice esplênico Comprimento × largura × espessura Limite mais citado: 480 cm³ (Koga 1975) Definição varia; melhor para seguimento
Volume (elipsoide) Comprimento × largura × espessura × 0,523 Sem corte único consagrado Útil para comparar exames seriados
Crianças Comprimento bipolar Tabelas por idade (Rosenberg 1991) Não usar valores de adulto

Causas mais comuns de baço aumentado

Doença do fígado e hipertensão portal

É uma das causas mais frequentes em adultos. Na cirrose, o fígado endurecido dificulta a passagem do sangue da veia porta, a pressão sobe e o baço fica congestionado. O ultrassom costuma mostrar, junto com a esplenomegalia, fígado de contornos irregulares, ascite e vasos colaterais. A esplenomegalia é um sinal sensível de hipertensão portal, mas pouco específico; o Doppler acrescenta a direção e a velocidade do fluxo portal, como explicamos no post sobre hipertensão portal no Doppler. No Brasil, a esquistossomose mansônica na forma hepatoesplênica também causa hipertensão portal e baço grande.

Infecções

  • Mononucleose infecciosa (vírus Epstein-Barr): causa clássica de baço aumentado em adolescentes e adultos jovens, junto com febre, dor de garganta e ínguas no pescoço.
  • Outras infecções virais, como citomegalovírus, HIV e hepatites virais.
  • Infecções bacterianas sistêmicas, como endocardite.
  • Doenças parasitárias, como malária e leishmaniose visceral (calazar), que podem causar baços muito grandes.

Doenças do sangue

  • Anemias hemolíticas (por exemplo, esferocitose e talassemias).
  • Leucemias, sobretudo a leucemia mieloide crônica.
  • Linfomas.
  • Neoplasias mieloproliferativas, como a mielofibrose, uma das causas de baços muito volumosos.

Outras causas

Doenças de depósito (como a doença de Gaucher), doenças inflamatórias (como sarcoidose e lúpus) e congestão por insuficiência cardíaca direita também podem aumentar o baço. Em parte dos casos, sobretudo quando o aumento é discreto num homem alto, não há doença nenhuma: é só a variação normal do tamanho.

Baço acessório: achado comum e benigno

O baço acessório (também chamado de esplenúnculo) é um pequeno nódulo de tecido esplênico normal, separado do baço principal. É uma variação anatômica de nascença, encontrada em 10% a 30% das pessoas em estudos de autópsia. Cerca de 75% ficam perto do hilo do baço e cerca de 20% junto à cauda do pâncreas.

No ultrassom, em geral aparece como um nódulo arredondado, bem delimitado, com o mesmo aspecto do baço (mesma ecogenicidade) e, às vezes, um pequeno vaso vindo do hilo. Na grande maioria das vezes é assintomático e não exige seguimento. Ele importa em duas situações: pode ser confundido com linfonodo ou nódulo do pâncreas e, em pessoas que retiraram o baço por doenças como a púrpura trombocitopênica imune, um baço acessório que cresce pode explicar a volta da doença. Mais sobre achados que aparecem “por acaso” está no post de achados incidentais no ultrassom.

Cisto e hemangioma no baço

Cistos esplênicos são raros e, em geral, benignos. Os principais tipos são os cistos verdadeiros (epiteliais ou epidermoides, mais comuns em jovens, de parede fina e lisa), os pseudocistos (geralmente depois de trauma ou infarto, às vezes com parede calcificada) e os cistos parasitários (hidatidose). Pequenos e sem sintomas, costumam ser apenas acompanhados; os grandes ou sintomáticos são avaliados pelo cirurgião.

Cisto esplênico benigno: ultrassom com cisto bem delimitado e borda calcificada fina, e tomografias mostrando cisto de conteúdo líquido homogêneo no baço
Figura 2. Cistos esplênicos não parasitários: (a, b) cisto bem delimitado com fina borda calcificada no ultrassom e conteúdo líquido homogêneo na tomografia, sem septos nem nódulos murais; (c, d) cisto incidental em homem de 67 anos, com parede calcificada espessa na tomografia. Fonte: Rumhumha AR, Mphephu PE, Gabuza LM, South African Journal of Radiology, 2026, CC BY 4.0.

O hemangioma é o tumor benigno primário mais comum do baço. No ultrassom, em geral é um nódulo bem delimitado, mais claro (hiperecogênico) que o restante do órgão, sem sintomas. Quando o aspecto é típico e a lesão é pequena, o seguimento costuma bastar. Se a lesão tiver aspecto atípico, crescer ou o paciente tiver câncer conhecido, o médico pode pedir tomografia, ressonância ou ultrassom com contraste, porque metástases, linfoma e hamartoma podem ter aparência parecida.

Por que o médico pede exames de sangue

O ultrassom mostra que o baço está grande, mas raramente mostra por quê. Por isso, depois do laudo, o médico costuma pedir:

  • Hemograma completo com plaquetas e esfregaço de sangue: procura anemia, plaquetas baixas (comum no hiperesplenismo da hipertensão portal), alterações dos glóbulos brancos e células anormais.
  • Exames do fígado: enzimas, bilirrubinas, albumina e coagulação, para avaliar doença hepática.
  • Sorologias: para mononucleose, citomegalovírus, HIV e hepatites, conforme a suspeita.
  • Marcadores de hemólise, como reticulócitos, LDH e bilirrubina indireta, quando há anemia.

Conforme o resultado, o caminho pode incluir elastografia hepática, Doppler do sistema portal, tomografia ou avaliação com hematologista.

Mononucleose e esportes de contato

Na mononucleose, o baço aumentado fica mais frágil e pode romper, às vezes sem trauma importante. A ruptura é rara, estimada em 0,1% a 0,5% dos pacientes, mas é grave. Numa série de 42 casos publicada na Sports Health (Sylvester e colaboradores, 2019), 73,8% das rupturas aconteceram nos primeiros 21 dias de sintomas e 90,5% nos primeiros 31 dias.

Por isso, as recomendações em geral pedem afastamento de esportes de contato e de esforço intenso por pelo menos 3 semanas a partir do início dos sintomas, e os autores dessa série sugerem considerar estender para cerca de 4 semanas. O retorno depende de o paciente estar sem sintomas e da avaliação do médico. O ultrassom pode ajudar no acompanhamento do tamanho do baço, mas não existe um número único que libere o retorno, até porque muita gente não tem uma medida anterior para comparar. Dor forte no lado esquerdo do abdome ou no ombro esquerdo, tontura ou desmaio nesse período pedem atendimento de urgência.

O que descrever no laudo

Para quem faz o exame, um bom laudo do baço permite comparar exames e orienta a investigação:

  • Comprimento bipolar em centímetros, medido no maior eixo passando pelo hilo; se usado, índice ou volume com a fórmula informada.
  • Referência usada: limite fixo ou ajustado por sexo e altura (informar a altura do paciente quando possível).
  • Contornos e ecotextura: homogênea ou heterogênea.
  • Lesões focais: número, tamanho, localização, ecogenicidade, conteúdo (cístico ou sólido), calcificações e vascularização ao Doppler.
  • Baço acessório: tamanho e localização.
  • Achados associados: aspecto do fígado, calibre e fluxo da veia porta, veia esplênica, colaterais, ascite e linfonodos.
  • Comparação com exames anteriores e limitações técnicas (gás, costelas, biotipo).

Frases de laudo

  • Normal: “Baço de dimensões normais, medindo 10,8 cm no maior eixo longitudinal, com contornos regulares e ecotextura homogênea.”
  • Com referência ajustada (modelo): “Baço medindo [medida] cm no maior eixo longitudinal, [dentro/acima] do limite de referência ajustado à altura ([altura] m) e ao sexo do paciente.”
  • Esplenomegalia: “Baço aumentado de volume, medindo 15,2 cm no maior eixo longitudinal (índice esplênico de 620 cm³), com ecotextura homogênea, sem lesões focais. Conclusão: esplenomegalia homogênea.”
  • Com hipertensão portal: “Esplenomegalia (14,8 cm) associada a fígado de contornos irregulares, ascite em pequeno volume e veia paraumbilical recanalizada, achados compatíveis com hipertensão portal.”
  • Baço acessório: “Nódulo arredondado de 1,2 cm junto ao hilo esplênico, com ecogenicidade semelhante à do baço, compatível com baço acessório (variante anatômica).”
  • Hemangioma: “Nódulo hiperecogênico, homogêneo e bem delimitado no terço médio do baço, medindo 1,4 cm, sugestivo de hemangioma. Sugere-se controle evolutivo a critério clínico.”

Erros comuns

  • Medir em corte oblíquo. Encurta o baço e pode esconder uma esplenomegalia. Procure sempre o maior eixo verdadeiro, passando pelo hilo.
  • Usar o mesmo corte para todos. Um baço de 12,5 cm num homem de 1,90 m pode ser normal; em uma mulher de 1,55 m, pode não ser.
  • Concluir “esplenomegalia” sem descrever o contexto. Fígado, veia porta, ascite e linfonodos ajudam o médico a direcionar a causa.
  • Confundir baço acessório com linfonodo ou nódulo pancreático. A ecogenicidade igual à do baço e o vaso do hilo ajudam.
  • Não comparar com exames anteriores. Uma variação pequena pode ser só técnica; um aumento progressivo tem outro significado.

Perguntas frequentes

Qual o tamanho normal do baço no ultrassom?

Em adultos, em geral até 12 cm de comprimento, com muitos serviços aceitando até 13 cm. O valor normal muda com sexo e altura: homens e pessoas altas têm baço maior.

Baço aumentado é grave?

Depende da causa. Pode ser só uma variação do normal, uma infecção passageira como a mononucleose ou sinal de doença do fígado ou do sangue. O médico investiga com exames de sangue e a história clínica.

Baço aumentado tem cura?

O baço costuma voltar ao tamanho normal quando a causa é tratada ou passa, como nas infecções. Em doenças crônicas, o objetivo é tratar a doença de base.

Baço acessório é perigoso?

Na grande maioria das vezes, não. É uma variação anatômica de nascença, encontrada em parte importante da população, e em geral não precisa de tratamento nem de seguimento.

Quem teve mononucleose pode jogar futebol?

Esportes de contato costumam ser evitados por pelo menos 3 semanas desde o início dos sintomas, e muitos médicos preferem cerca de 4 semanas. A liberação deve ser feita pelo médico que acompanha o caso.

Precisa de jejum para o ultrassom do baço?

O baço costuma ser avaliado no ultrassom de abdome, que em geral pede jejum de 6 a 8 horas. Siga sempre a orientação da clínica.

Conclusão

Baço aumentado no ultrassom é um achado, não um diagnóstico. A medida principal é o comprimento bipolar, com limite clássico de cerca de 12 cm, que deve ser interpretado considerando sexo e altura. As causas mais comuns são doença do fígado com hipertensão portal, infecções como a mononucleose e doenças do sangue, e o próximo passo costuma ser uma avaliação com exames de sangue. Baço acessório, cistos simples e hemangiomas típicos são achados frequentes e, em geral, benignos.

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Referências

  • Chow KU, Luxembourg B, Seifried E, Bonig H. Spleen size is significantly influenced by body height and sex: establishment of normal values for spleen size at US with a cohort of 1200 healthy individuals. Radiology, 2016;279(1):306-313.
  • Koga T, Morikawa Y. Ultrasonographic determination of the splenic size and its clinical usefulness in various liver diseases. Radiology, 1975;115(1):157-161.
  • Rosenberg HK, Markowitz RI, Kolberg H, et al. Normal splenic size in infants and children: sonographic measurements. AJR American Journal of Roentgenology, 1991;157(1):119-121.
  • Lucius C, Meier J, Gschmack A, et al. Ultrasound of the spleen: an update on measurements, reference values, and influencing factors. Medical Ultrasonography, 2025;27(2):185-194.
  • Sylvester JE, Buchanan BK, Paradise SL, Yauger JJ, Beutler AI. Association of splenic rupture and infectious mononucleosis: a retrospective analysis and review of return-to-play recommendations. Sports Health, 2019;11(6):543-549.
  • Feng Y, Shi Y, Wang B, et al. Multiple pelvic accessory spleen: rare case report with review of literature. Experimental and Therapeutic Medicine, 2018;15(4):4001-4004.
  • Rumhumha AR, Mphephu PE, Gabuza LM. Splenic pathologies: a pictorial review of common, wandering, twisting and rare presentations. South African Journal of Radiology, 2026;30(1). doi:10.4102/sajr.v30i1.3366.

Este conteúdo tem finalidade educacional e não substitui a avaliação médica. A interpretação do tamanho do baço e a investigação da causa cabem ao médico que acompanha o paciente.

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