Ultrassom intestinal na doença de Crohn e retocolite: técnica, escores e laudo

Ilustração de ultrassom intestinal com transdutor sobre o abdome inferior direito e alças intestinais em corte

O ultrassom intestinal na doença de Crohn e na retocolite ulcerativa (IUS, intestinal ultrasound) avalia atividade inflamatória pela espessura da parede, que em geral é considerada anormal acima de 3 mm no intestino delgado e no cólon, somada à perda da estratificação, à hiperemia ao Doppler (escore de Limberg), à gordura mesentérica inflamada e às complicações. Em meta-análise de 2022, o IUS teve sensibilidade de 86% e especificidade de 88% para lesões ativas no Crohn, desempenho semelhante ao da entero-RM. Os escores mais usados são o IBUS-SAS e o SUS-CD no Crohn e os Milan Ultrasound Criteria (MUC) na retocolite, em que um valor acima de 6,2 indica doença endoscopicamente ativa.

Resumo rápido

  • Corte principal: espessura parietal acima de 3 mm é o limiar mais usado e o que as recomendações da EFSUMB favorecem por sensibilidade; acima de 4 mm ganha especificidade.
  • Escores: IBUS-SAS (espessura, estratificação, Doppler e gordura inflamada) e SUS-CD (espessura e Doppler) no Crohn; MUC = 1,4 × espessura (mm) + 2 × Doppler (0 ou 1) na retocolite, com corte de 6,2.
  • Estenose (consenso STAR 2024): parede acima de 3 mm, redução luminal acima de 50% ou luz menor que 1 cm e dilatação pré-estenótica acima de 2,5 cm.
  • Resposta ao tratamento: queda da espessura acima de 25%, acima de 2,0 mm, ou acima de 1,0 mm com queda de um grau no Doppler; remissão transmural com parede de até 3 mm e Doppler normal.
  • Frente à entero-RM: acurácia global parecida; no estudo METRIC, a entero-RM foi mais sensível para extensão no delgado (80% contra 70%).
  • Diretriz: a atualização ECCO-ESGAR-ESP-IBUS de 2025 ampliou o papel do IUS como exame de primeira linha no diagnóstico e no monitoramento.

Técnica do ultrassom intestinal na doença de Crohn e na retocolite

Preparo e equipamento

Não há preparo obrigatório. Muitos serviços pedem jejum de algumas horas para reduzir gás e peristaltismo pós-prandial, mas o exame também é feito sem jejum, inclusive no ambulatório de DII. Contraste oral não é usado de rotina na maioria dos centros.

O exame combina dois transdutores:

  • Convexo de baixa frequência: visão geral, alças profundas, pacientes com mais panículo adiposo, coleções e dilatação de alças.
  • Linear de alta frequência: medida da parede, estratificação, Doppler da parede e detalhes da gordura mesentérica. É o transdutor da maior parte das medidas.

No Doppler colorido, ajuste escala e filtro para fluxo lento, use compressão mínima e mantenha os ajustes constantes entre exames.

Varredura sistemática

  1. Sigmoide e descendente: comece na fossa ilíaca esquerda, com o sigmoide anterior aos vasos ilíacos, e siga até a flexura esplênica.
  2. Transverso, ascendente e ceco: acompanhe o cólon até o fundo cego.
  3. Íleo terminal e válvula ileocecal: a partir do ceco, procure a alça que cruza os vasos ilíacos direitos e desemboca na válvula. É o segmento mais acometido no Crohn e o que merece mais tempo.
  4. Intestino delgado restante: varredura em faixas (técnica de “cortador de grama”) pelos quatro quadrantes, procurando segmentos espessados, dilatação e alças aglomeradas.
  5. Reto: pouco acessível por via abdominal; a via transperineal ajuda quando a pergunta é o reto ou a doença perianal.

Como medir a espessura da parede

Meça da interface luz-mucosa até a interface da muscular própria com a serosa, com o transdutor linear e a parede perpendicular ao feixe. A padronização do grupo IBUS recomenda duas medidas no eixo longitudinal e duas no transversal, no segmento mais acometido, com o valor médio registrado. Evite medir sobre pregas, haustrações ou em contração peristáltica, que simulam espessamento.

Parâmetros: o que avaliar em cada segmento

Parâmetro Normal Alterado Comentário
Espessura da parede (delgado e cólon) Até 3 mm (alguns usam até 2 mm no delgado) Acima de 3 mm; acima de 4 mm com maior especificidade No sigmoide, parede de 3 a 4 mm pode ser normal, sobretudo com doença diverticular
Estratificação Cinco camadas visíveis Borrada, focal ou extensamente perdida Perda da estratificação se associa a inflamação mais intensa
Doppler colorido (Limberg modificado) 0: sem sinal 1: sinais pontuais; 2: segmentos longos na parede; 3: segmentos longos na parede e no mesentério Graus 2 e 3 têm alta especificidade para atividade endoscópica
Gordura mesentérica Isoecoica, sem efeito de massa Hiperecoica, espessada, envolvendo a alça (creeping fat) Sinal de inflamação transmural ativa
Linfonodos mesentéricos Ausentes ou pequenos, ovalados Aumentados, hipoecoicos, junto ao segmento doente Achado frequente e inespecífico
Luz e alças a montante Sem dilatação Estreitamento, dilatação pré-estenótica Ver critérios de estenose abaixo

Sobre o limiar de espessura há divergência real. As recomendações da EFSUMB (Maconi, 2018) favorecem 3 mm para maior sensibilidade, enquanto revisões citam até 2 mm como limite da normalidade no delgado e a maioria dos estudos de atividade usa 3 a 4 mm. Na prática, 3 mm é o limiar mais adotado tanto para o Crohn quanto para a retocolite, e valores acima de 4 mm reforçam a atividade.

Ultrassom intestinal de doença de Crohn ativa: corte longitudinal do íleo com parede de 6,0 mm e estratificação indistinta, e Doppler colorido com sinais vasculares longos na parede conectados ao mesentério
Figura 1. Crohn ativo no ultrassom intestinal: (a) corte longitudinal do íleo com parede de 6,0 mm e estratificação indistinta (linhas brancas: limite da serosa; linha vermelha: luz); (b) Doppler colorido com sinais longos na parede espessada, conectados ao mesentério, classificado pelos autores como Limberg IV na escala original (grau 3 na modificada). Fonte: Wang Y et al., Diagnostics 2024, CC BY 4.0.

O escore de Limberg original (1999) tem graus I a IV, e o grau I é o espessamento sem fluxo; os escores atuais usam a versão modificada de 0 a 3. Deixe claro no laudo qual numeração foi usada.

Escores de atividade no IUS

IBUS-SAS (Crohn)

O International Bowel Ultrasound Segmental Activity Score nasceu de consenso de especialistas do grupo IBUS (Novak, 2021) e combina quatro parâmetros do segmento mais acometido: espessura da parede (BWT), estratificação (BWS), sinal ao Doppler (CDS, Limberg modificado) e gordura mesentérica inflamada (i-fat). A fórmula descrita em estudos que aplicam o escore é 4 × BWT + 15 × i-fat + 7 × CDS + 4 × BWS. A concordância entre observadores foi alta (coeficiente de correlação intraclasse de 0,97). Não há corte de remissão consensual; registre os componentes e compare o mesmo segmento ao longo do tempo.

SUS-CD (Crohn)

O Simple Ultrasound Score for Crohn’s Disease (Sævik, 2021) foi derivado contra o SES-CD endoscópico. Ficaram só espessura e Doppler, porque estratificação e gordura inflamada tiveram baixa concordância entre observadores. A correlação com o SES-CD foi de 0,83 na coorte de derivação e 0,78 na de validação.

Milan Ultrasound Criteria (retocolite)

Na retocolite, os MUC usam dois parâmetros: MUC = 1,4 × espessura da parede (mm) + 2 × sinal ao Doppler (0 = ausente; 1 = presente). Um valor acima de 6,2 separa doença endoscópica ativa (Mayo endoscópico 2 ou 3) de doença inativa ou leve (Mayo 0 ou 1). Na validação externa (Allocca, 2021), o corte de 6,2 teve sensibilidade de 85% e especificidade de 94%. Repare que, com Doppler ausente, o corte corresponde a uma parede de cerca de 4,4 mm; com Doppler presente, a cerca de 3,0 mm. O escore é binário e não gradua a gravidade.

Escore Doença Componentes Corte verificado
IBUS-SAS Crohn Espessura, estratificação, Doppler, gordura inflamada Sem corte de remissão consensual
SUS-CD Crohn Espessura e Doppler, por segmento Cortes variam entre coortes
MUC Retocolite 1,4 × espessura + 2 × Doppler Acima de 6,2 = Mayo endoscópico 2 ou 3
Remissão transmural Crohn e retocolite Espessura e Doppler Parede de até 3 mm e Doppler normal

Complicações do Crohn no ultrassom

Estenose

O consenso internacional do grupo STAR (Lu, 2024) define estenose do delgado no IUS pela combinação de:

  • espessura da parede acima de 3 mm;
  • estreitamento luminal acima de 50% em relação a uma alça normal adjacente, ou luz menor que 1 cm;
  • dilatação pré-estenótica acima de 2,5 cm, ou aumento do calibre em relação à alça normal adjacente.

Sem contraste oral, a dilatação a montante pode ser subestimada. Informe localização, extensão, espessura, Doppler e calibre da alça a montante.

Fístula e abscesso

  • Fístula: trajeto hipoecoico partindo da parede doente, com ou sem focos hiperecogênicos de gás, em direção a outra alça, à bexiga, à pele ou ao mesentério. Descreva origem, destino e se há coleção associada.
  • Flegmão: área hipoecoica mal delimitada, sem parede própria e sem conteúdo líquido, junto ao segmento doente.
  • Abscesso: coleção anecoica ou hipoecoica, com paredes definidas, sem fluxo central, por vezes com gás e reforço acústico posterior. Medir em três eixos e informar a relação com alças e parede abdominal, que orienta a drenagem.

Na revisão sistemática de Panés (2011), ultrassom, TC e RM tiveram alta acurácia para fístula, abscesso e estenose, com mais falsos positivos de abscesso no ultrassom. Quando a distinção entre flegmão e abscesso muda a conduta, o ultrassom com contraste, a TC ou a RM ajudam.

Acurácia frente à entero-RM

  • Meta-análise de Lee (2022), 11 estudos e 752 pacientes: IUS com sensibilidade de 86% e especificidade de 88% para lesões ativas; entero-RM com 88% e 87%. Nos sete estudos com as duas técnicas, a sensibilidade foi igual (86%).
  • METRIC (Taylor, 2018), 284 pacientes: para extensão da doença no delgado, a entero-RM teve sensibilidade de 80% contra 70% do ultrassom, e especificidade de 95% contra 81%. Para presença de doença no delgado, 97% contra 92%.
  • Panés (2011), 68 estudos: acurácia do ultrassom menor para doença proximal ao íleo terminal.

Na prática, o IUS é excelente para íleo terminal, cólon e seguimento seriado; a entero-RM segue superior para mapear todo o delgado e a doença perianal.

Resposta ao tratamento

O consenso de especialistas de Ilvemark (2022) e trabalhos do grupo IBUS propõem, como resposta ao IUS, redução da espessura acima de 25%, acima de 2,0 mm, ou acima de 1,0 mm acompanhada de queda de um grau no Doppler. A remissão transmural é, em geral, parede de até 3 mm com Doppler normal. Na retocolite, o MUC de até 6,2 após a indução se associa a resposta endoscópica sustentada (Allocca, 2023).

O momento da reavaliação varia: em geral, o cólon responde mais cedo (semanas 4 a 8) e o íleo terminal mais tarde (por volta da semana 12). Compare sempre o mesmo segmento, com o mesmo transdutor e os mesmos ajustes de Doppler.

Armadilhas e erros de medida

  • Medir sobre prega ou haustração: superestima a espessura. Procure a parede lisa entre as pregas.
  • Compressão excessiva no Doppler: apaga o sinal parietal e subestima a atividade.
  • Sigmoide com doença diverticular: parede de 3 a 4 mm pode ser normal ou hipertrofia muscular, não inflamação.
  • Espessamento não é sinônimo de Crohn: ileíte infecciosa, apendicite, isquemia, linfoma e tuberculose intestinal também espessam a parede. Correlacione com a clínica.

O que descrever no laudo

Informe, por segmento, espessura, estratificação, Doppler (com a escala usada), gordura mesentérica, linfonodos, complicações e o escore aplicado. Frases-modelo:

  • Normal: “Paredes do íleo terminal e dos cólons com espessura de até 3 mm, estratificação preservada e sem sinal ao Doppler colorido. Gordura mesentérica de aspecto habitual. Ausência de estenoses, fístulas ou coleções nos segmentos avaliados.”
  • Crohn ativo: “Íleo terminal com espessamento parietal de 6,5 mm (média de quatro medidas) em extensão de 12 cm, estratificação focalmente perdida, Doppler grau 2 (Limberg modificado) e gordura mesentérica hiperecoica circunjacente. Linfonodos mesentéricos reacionais. IBUS-SAS: [valor].”
  • Estenose: “Segmento de íleo distal com parede de 7 mm, luz reduzida a 4 mm e dilatação a montante de 3,1 cm, preenchendo critérios de estenose do consenso STAR. Doppler grau 2, sugerindo componente inflamatório associado.”
  • Retocolite: “Sigmoide com parede de 5,0 mm e sinal ao Doppler presente. MUC = 9,0 (acima de 6,2), sugerindo atividade endoscópica (Mayo 2 ou 3).”
  • Resposta: “Redução da espessura do íleo terminal de 7,0 para 4,5 mm (36%) e do Doppler de grau 2 para 1 em relação ao exame anterior, compatível com resposta ultrassonográfica, sem remissão transmural.”

Quando escalonar

  • Suspeita de doença do jejuno proximal, delgado extenso ou varredura limitada: entero-RM.
  • Fístula complexa ou doença perianal: RM de pelve.
  • Abscesso grande, coleção de difícil acesso ou peritonite: TC com contraste e discussão com cirurgia ou radiologia intervencionista.
  • Estenose com distensão importante e sintomas obstrutivos: avaliação cirúrgica ou endoscópica e, em geral, entero-RM para planejamento.
  • Espessamento sem diagnóstico de DII: colonoscopia com ileoscopia e biópsias.

Na dor em fossa ilíaca direita, lembre que o íleo terminal espessado é diagnóstico diferencial importante da apendicite; o protocolo está no post de ultrassom na suspeita de apendicite. As alças também aparecem como achado no ultrassom de abdome total, e vale descrevê-las quando espessadas mesmo fora de um protocolo de IUS.

Perguntas frequentes

Qual a espessura normal da parede intestinal no ultrassom?

Em geral, até 3 mm no intestino delgado e no cólon. Acima de 3 mm é o limiar mais usado para doença ativa, e acima de 4 mm aumenta a especificidade. No sigmoide, 3 a 4 mm podem ser normais.

O ultrassom intestinal substitui a colonoscopia no Crohn?

Não no diagnóstico, que exige ileocolonoscopia com biópsias. No monitoramento, o IUS permite avaliações frequentes, sem preparo e sem radiação, e reduz a necessidade de endoscopias repetidas.

Qual o corte dos Milan Ultrasound Criteria na retocolite?

MUC = 1,4 × espessura (mm) + 2 × Doppler (0 ou 1). Acima de 6,2 indica Mayo endoscópico 2 ou 3.

O ultrassom intestinal é tão bom quanto a entero-RM?

Para lesões ativas, a acurácia global é semelhante (cerca de 86% a 88% de sensibilidade nas duas técnicas). Para extensão da doença no delgado, a entero-RM foi superior no estudo METRIC.

Conclusão

O ultrassom intestinal na doença de Crohn e na retocolite é hoje exame de primeira linha para diagnóstico e monitoramento, com acurácia próxima à da entero-RM para lesões ativas. O laudo ganha valor quando registra, por segmento, espessura medida de forma padronizada, estratificação, Doppler com escala definida, gordura mesentérica, complicações e o escore aplicado, porque é a comparação entre exames que orienta a troca ou a manutenção do tratamento.

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Referências

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Conteúdo educativo destinado a profissionais de saúde. Não substitui o julgamento clínico nem as diretrizes institucionais; critérios, escores e condutas devem ser interpretados no contexto de cada paciente.

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