Ovário policístico no ultrassom não é o mesmo que SOP. “Ovário policístico” (ou morfologia ovariana policística) é apenas um aspecto de imagem: ovários com muitos folículos pequenos ou com volume aumentado. Já a síndrome dos ovários policísticos (SOP) é um diagnóstico clínico, que exige pelo menos dois de três critérios: ciclos irregulares ou falta de ovulação, sinais de excesso de hormônios masculinos (androgênios) e, só então, a imagem do ultrassom. Muitas mulheres saudáveis têm ovários com aspecto policístico e não têm SOP. E os cistos ovarianos, em sua maioria, são cistos funcionais, ligados ao ciclo menstrual, que costumam desaparecer sozinhos em algumas semanas.
Ovário policístico x SOP: qual a diferença
A palavra “policístico” confunde, porque os “cistos” do ovário policístico não são cistos de verdade. São folículos pequenos, de 2 a 9 mm, que pararam de crescer antes de ovular. Eles ficam distribuídos na periferia do ovário, às vezes em “colar de pérolas”, com o estroma central aumentado.
A SOP é uma condição hormonal e metabólica, que pode causar menstruação irregular, acne, excesso de pelos (hirsutismo), dificuldade para engravidar e resistência à insulina. O ultrassom ajuda no diagnóstico, mas sozinho não define SOP.
| Ovário policístico (morfologia) | Síndrome dos ovários policísticos (SOP) | |
|---|---|---|
| O que é | Aspecto de imagem no ultrassom | Diagnóstico clínico e hormonal |
| Como se define | Contagem de folículos e/ou volume ovariano | Critérios de Rotterdam (2 de 3), após excluir outras causas |
| Pode existir sozinho? | Sim, é comum em mulheres sem SOP | Pode existir com ovários de aspecto normal |
| Precisa de tratamento? | Não, por si só | Depende dos sintomas e dos objetivos da paciente |
| Quem confirma | O ultrassom descreve | O médico assistente, com história, exame e laboratório |
Critérios de Rotterdam e a diretriz internacional de 2023
Os critérios de Rotterdam (2003) definem SOP em adultas pela presença de pelo menos dois de três achados:
- Disfunção ovulatória: ciclos irregulares ou anovulação.
- Hiperandrogenismo clínico (como hirsutismo) ou bioquímico (androgênios elevados no sangue).
- Morfologia ovariana policística no ultrassom.
Antes de fechar o diagnóstico, é preciso excluir outras causas com quadro parecido, como doenças da tireoide, aumento da prolactina e hiperplasia adrenal congênita não clássica.
A diretriz internacional baseada em evidências de 2023 (Teede e colaboradores) manteve essa estrutura e trouxe atualizações importantes para quem faz ultrassom:
- Se a paciente já tem ciclos irregulares e hiperandrogenismo, o ultrassom não é necessário para o diagnóstico. Ele pode ser feito por outros motivos, mas a SOP já está definida.
- O hormônio antimülleriano (AMH) passou a ser aceito como alternativa ao ultrassom para o critério ovariano em adultas.
- Em adolescentes, nem ultrassom nem AMH são recomendados para o diagnóstico de SOP dentro de 8 anos após a menarca. Nessa fase, ovários multifoliculares são esperados e o diagnóstico depende de ciclos irregulares e hiperandrogenismo.
O critério ultrassonográfico atual
Pela diretriz de 2023, com ultrassom transvaginal e transdutor com frequência de 8 MHz ou mais, considera-se morfologia ovariana policística em adultas quando há, em pelo menos um ovário:
- contagem de folículos por ovário (FNPO) de 20 ou mais, considerando folículos de 2 a 9 mm; e/ou
- volume ovariano de 10 mL ou mais, desde que não haja corpo lúteo, cisto ou folículo dominante influenciando a medida.
Quando o exame é feito com equipamento mais antigo ou por via abdominal, a diretriz orienta usar preferencialmente o volume ovariano de 10 mL ou mais, já que a contagem de folículos fica pouco confiável. Para comparação, o critério original de Rotterdam usava 12 ou mais folículos de 2 a 9 mm e/ou volume maior que 10 mL. Esse limiar de 12 ficou ultrapassado com os transdutores modernos, que enxergam muito mais folículos, e hoje deve ser evitado.
Cisto no ovário é perigoso?
Na maioria das vezes, não. Durante a idade reprodutiva, o ovário forma estruturas císticas todos os meses como parte normal da ovulação. Um “cisto” pequeno visto no ultrassom de uma mulher que menstrua costuma ser simplesmente um folículo ou um corpo lúteo.
O que muda a conversa é o aspecto do cisto, não só o tamanho. Cistos de parede fina, conteúdo totalmente anecoico (escuro) e sem partes sólidas têm risco de malignidade praticamente nulo. Já cistos com projeções sólidas, septos espessos, componente sólido vascularizado ou ascite merecem avaliação mais cuidadosa. Para essa estratificação, o sistema usado hoje é o O-RADS US, detalhado no nosso guia de O-RADS US 2022.
Além do risco de câncer, alguns cistos podem causar sintomas: dor por sangramento interno, ruptura com líquido livre na pelve ou, mais raramente, torção ovariana, que é uma urgência. Dor forte e súbita na pelve, com náuseas ou vômitos, deve ser avaliada no pronto atendimento.
Tipos de cistos funcionais e como reconhecê-los
Folículo e cisto folicular
O folículo dominante cresce até cerca de 2 cm antes de ovular. Quando não rompe e continua crescendo, passa a ser chamado de cisto folicular. No ultrassom, aparece como cisto simples: parede fina e regular, conteúdo anecoico, reforço acústico posterior e sem fluxo interno ao Doppler.
Corpo lúteo
Forma-se após a ovulação. Costuma ter parede espessa e por vezes crenulada (pregueada), pode ter conteúdo com ecos finos ou aspecto um pouco heterogêneo e mostra vascularização periférica intensa ao Doppler colorido, o clássico “anel de fogo”. No início da gestação, ele é esperado.
Cisto hemorrágico
Resulta de sangramento dentro de um folículo ou corpo lúteo. O aspecto típico é de ecos internos finos em rede ou em “renda” (padrão reticular) e, à medida que o coágulo se retrai, uma área de aspecto sólido com margens côncavas e sem fluxo ao Doppler. A ausência de vascularização no “coágulo” é o detalhe que mais ajuda a diferenciá-lo de um componente sólido verdadeiro. Esses cistos geralmente regridem ou mudam de aspecto em poucas semanas.
| Estrutura | Aspecto no modo B | Doppler | Comportamento esperado |
|---|---|---|---|
| Folículo / cisto folicular | Simples, parede fina, anecoico | Sem fluxo interno | Regride ou ovula no ciclo seguinte |
| Corpo lúteo | Parede espessa, crenulada, pode ter ecos internos | Anel vascular periférico | Regride se não houver gestação |
| Cisto hemorrágico | Ecos reticulares, coágulo com margens côncavas | Sem fluxo no conteúdo; pode haver fluxo na parede | Regride ou se modifica em semanas |
Cisto funcional some sozinho?
Em geral, sim. Cistos foliculares, corpos lúteos e cistos hemorrágicos costumam regredir espontaneamente em um a três ciclos. Por isso, quando há dúvida, é comum o médico pedir um ultrassom de controle após algumas semanas, de preferência na primeira fase do ciclo, logo depois da menstruação, quando a chance de haver um novo corpo lúteo é menor. Um cisto que desaparece ou muda de aspecto confirma a natureza funcional.
Cistos que persistem por vários ciclos, crescem ou mantêm características atípicas sugerem outras causas, como endometrioma, cisto dermoide ou cistoadenoma, e passam a ser avaliados conforme o O-RADS.
Quando o O-RADS se aplica
O O-RADS US vale para lesões ovarianas e anexiais em geral, inclusive as fisiológicas, e tem uma regra simples para não gerar alarme: em mulheres na pré-menopausa, folículos e cistos simples de até 3 cm e o corpo lúteo de até 3 cm são classificados como O-RADS 1, ou seja, ovário normal com achado fisiológico. Eles não exigem seguimento.
Cistos simples maiores, cistos hemorrágicos típicos e outras lesões com aspecto clássico benigno costumam entrar em O-RADS 2, quase certamente benignas, e o seguimento depende do tamanho e do status menopausal. Na pós-menopausa a lógica muda: o ovário deixa de formar folículos, e cistos simples passam a ter regras próprias de acompanhamento. Os limiares de tamanho e os intervalos de controle estão na tabela de manejo do O-RADS e no nosso guia de O-RADS US 2022.
Importante: a morfologia ovariana policística em si não recebe categoria O-RADS de risco. Ela é um padrão do ovário, não uma lesão. Se houver uma lesão em um ovário com aspecto policístico, a lesão é que é classificada.
Como é feito o exame
A via de escolha para avaliar os ovários é a transvaginal, que dá mais resolução e permite contar folículos com precisão. Ela não exige jejum e é feita com a bexiga vazia; veja os detalhes em ultrassom transvaginal: dúvidas e preparo. Em pacientes que nunca tiveram relação sexual ou que não aceitam a via vaginal, usa-se a via abdominal com bexiga cheia, sabendo que a contagem de folículos perde confiabilidade.
Para avaliar morfologia policística, o ideal é examinar na fase folicular inicial (entre o 3º e o 5º dia do ciclo, em geral) ou, em mulheres com ciclos muito irregulares, em qualquer dia, repetindo se houver folículo dominante ou corpo lúteo. A paciente não deve estar usando anticoncepcional hormonal, que altera o aspecto dos ovários; nessa situação, o critério ultrassonográfico perde valor.
O que descrever no laudo
Para os ovários em geral:
- Via do exame (transvaginal ou abdominal) e frequência do transdutor quando relevante.
- Dia do ciclo ou data da última menstruação, uso de anticoncepcional hormonal e status menopausal.
- Dimensões dos três eixos e volume de cada ovário (fórmula do elipsoide: comprimento x largura x altura x 0,523).
- Presença e tamanho do folículo dominante ou do corpo lúteo.
Para a avaliação de morfologia policística:
- Contagem de folículos de 2 a 9 mm em cada ovário (FNPO), varrendo o ovário inteiro, e não só em um corte.
- Distribuição dos folículos (periférica ou difusa) e aspecto do estroma.
- Se os critérios de 2023 são ou não preenchidos, usando o termo “morfologia ovariana policística” e não “SOP”.
- Ressalva quando a paciente estiver a menos de 8 anos da menarca, em uso de anticoncepcional ou quando a técnica limitar a contagem.
Para cistos:
- Lado, tamanho em três eixos e tipo (simples, hemorrágico típico, corpo lúteo, outro).
- Parede, septos, componente sólido, ecos internos e vascularização ao Doppler.
- Líquido livre na pelve e sinais de torção, quando houver dor.
- Categoria O-RADS e recomendação de seguimento quando aplicável.
Erros comuns
Concluir “SOP” pelo ultrassom
O ultrassom descreve morfologia. O diagnóstico de SOP exige critérios clínicos e laboratoriais e a exclusão de outras causas. Escrever “ovários policísticos, SOP” no laudo gera ansiedade e rótulo errado.
Usar o limiar antigo de 12 folículos
Com transdutores modernos, muitas mulheres sem SOP têm 12 ou mais folículos por ovário. O ponto de corte atual com transvaginal de alta frequência é 20 ou mais folículos por ovário.
Contar folículos em um único corte
O critério de 20 se refere ao ovário inteiro. Contar só o número de folículos em um plano subestima a contagem e não corresponde ao limiar validado.
Medir o volume com corpo lúteo ou folículo dominante
Um corpo lúteo ou um folículo dominante aumenta o volume do ovário e pode simular critério. Nesse caso, o ideal é repetir o exame no início do ciclo seguinte.
Aplicar o critério em adolescentes
Menos de 8 anos após a menarca, ovários com muitos folículos são esperados. Descrever “ovários policísticos” nessa faixa sem ressalva induz a diagnóstico precoce e inadequado.
Confundir corpo lúteo ou coágulo com lesão sólida
Parede espessa e crenulada com anel vascular é corpo lúteo. Conteúdo com margens côncavas e sem fluxo ao Doppler é coágulo. Usar o Doppler e considerar a fase do ciclo evita classificações O-RADS altas e cirurgias desnecessárias.
Perguntas frequentes
Ovário policístico é o mesmo que SOP?
Não. Ovário policístico é um aspecto de imagem que aparece em muitas mulheres saudáveis. SOP é uma síndrome diagnosticada pelo médico com base em ciclos irregulares, sinais de excesso de androgênios e, às vezes, no ultrassom.
Quem tem ovário policístico consegue engravidar?
Sim. Ter ovários com aspecto policístico não impede a gravidez. Na SOP, a falta de ovulação pode dificultar, mas existem tratamentos eficazes para induzir a ovulação. Converse com o ginecologista.
Cisto funcional some sozinho? Em quanto tempo?
Em geral, sim, em um a três ciclos menstruais. O médico pode pedir um ultrassom de controle após algumas semanas para confirmar.
Conclusão
Ovário policístico é uma descrição de imagem, SOP é um diagnóstico clínico, e a maioria dos cistos ovarianos é fisiológica e transitória. Para quem faz o exame, isso significa técnica cuidadosa, critérios de 2023, respeito à exceção dos 8 anos após a menarca e reconhecimento dos cistos funcionais antes de pensar em O-RADS de maior risco.
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Referências
- Teede HJ, Tay CT, Laven JJE, et al. Recommendations from the 2023 International Evidence-based Guideline for the Assessment and Management of Polycystic Ovary Syndrome. Fertility and Sterility, 2023 (publicado também em Human Reproduction, Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism e European Journal of Endocrinology).
- The Rotterdam ESHRE/ASRM-Sponsored PCOS Consensus Workshop Group. Revised 2003 consensus on diagnostic criteria and long-term health risks related to polycystic ovary syndrome. Fertility and Sterility / Human Reproduction, 2004.
- Strachowski LM, Jha P, Phillips CH, et al. O-RADS US v2022: An Update from the American College of Radiology’s Ovarian-Adnexal Reporting and Data System US Committee. Radiology, 2023.
- Andreotti RF, Timmerman D, Strachowski LM, et al. O-RADS US Risk Stratification and Management System: A Consensus Guideline from the ACR Ovarian-Adnexal Reporting and Data System Committee. Radiology, 2020.
- Levine D, Brown DL, Andreotti RF, et al. Management of asymptomatic ovarian and other adnexal cysts imaged at US: Society of Radiologists in Ultrasound Consensus Conference Statement. Radiology, 2010.
Este conteúdo tem finalidade educacional e não substitui a avaliação médica. O diagnóstico de SOP e a conduta diante de um cisto ovariano cabem ao médico que acompanha a paciente.

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