Doppler de carótidas: placa, estenose e o que deve constar no laudo

Ilustração de exame de Doppler de carótidas com transdutor no pescoço e bifurcação carotídea com placa

O Doppler de carótidas é um ultrassom do pescoço que avalia as artérias que levam sangue ao cérebro: as carótidas e as vertebrais. Ele mostra se há placa (acúmulo de gordura e cálcio na parede da artéria), mede a velocidade do sangue e, com isso, estima quanto a placa estreita o vaso, a chamada estenose. O exame não precisa de preparo: não exige jejum, não dói e dura em geral de 20 a 30 minutos. No laudo, o dado mais importante é o grau de estenose da carótida interna, classificado em faixas (menor que 50%, de 50% a 69%, 70% ou mais, suboclusão e oclusão), que orientam o médico sobre acompanhamento ou tratamento.

Para quem faz o exame, o Doppler de carótidas parece simples, mas é um dos estudos vasculares em que a técnica mais pesa: um ângulo mal ajustado ou uma artéria confundida com outra mudam a classificação. Este guia responde às dúvidas mais comuns dos pacientes e depois detalha protocolo, critérios de estenose, caracterização de placa e erros frequentes. Se você quer entender o princípio do método antes, veja nosso artigo sobre ultrassom com Doppler.

Dúvidas comuns de quem vai fazer o exame

Precisa de preparo?

Não. Diferente do ultrassom de abdome, o Doppler de carótidas não pede jejum nem bexiga cheia. Basta usar uma roupa que deixe o pescoço livre e evitar colares. O paciente fica deitado, com a cabeça levemente virada para o lado oposto ao examinado. Para comparar com outros exames, veja o guia sobre preparo para ultrassom.

O que é placa na carótida?

É uma área em que a parede da artéria engrossa por depósito de gordura, células inflamatórias, tecido fibroso e, às vezes, cálcio. É a aterosclerose, o mesmo processo que afeta as artérias do coração. Placas pequenas são muito comuns a partir da meia-idade e, sozinhas, costumam indicar apenas a necessidade de controlar fatores de risco, como pressão, colesterol, diabetes e tabagismo.

Estenose de 50% é grave?

Depende do contexto. Uma estenose entre 50% e 69% é considerada moderada. Em quem nunca teve AVC ou sintomas, em geral o tratamento é clínico, com remédios e acompanhamento. Em quem teve sintomas neurológicos recentes do mesmo lado, como fraqueza de um lado do corpo, perda transitória da visão de um olho ou dificuldade para falar, a mesma estenose pode levar a uma discussão sobre cirurgia ou angioplastia. Quem decide é o médico assistente, muitas vezes com outros exames de imagem.

O que é espessamento médio-intimal?

A parede da artéria tem camadas. A espessura médio-intimal (EMI) é a medida das duas camadas internas, feita na carótida comum. Ela tende a aumentar com a idade e com fatores de risco. Um espessamento leve, sem placa, não é uma doença em si. Hoje, a medida não é mais recomendada de rotina para calcular risco cardiovascular, mas alguns médicos ainda a solicitam.

Protocolo do exame

O estudo usa transdutor linear, em geral de 5 a 12 MHz, em modo B, Doppler colorido e Doppler espectral, dos dois lados. Uma sequência prática:

  1. Carótida comum (CCA): varredura transversal da origem, o mais baixo possível, até a bifurcação. Corte longitudinal com espectro no terço médio a distal, longe da bifurcação. Medida da EMI na parede posterior, quando solicitada.
  2. Bulbo e bifurcação: é onde as placas mais aparecem. Avaliar extensão, espessura e superfície da placa em transversal e longitudinal.
  3. Carótida interna (ICA): espectro na origem, no ponto de maior velocidade da estenose, e no segmento distal visível. Registrar sempre a maior velocidade encontrada.
  4. Carótida externa (ECA): pelo menos um espectro, para confirmar a identificação.
  5. Vertebrais: fluxo entre os processos transversos, com direção e morfologia da onda. Tentar avaliar a origem.
  6. Subclávias: espectro proximal quando há assimetria de pressão nos braços ou fluxo vertebral alterado.

Nas medidas de velocidade, o ângulo de insonação deve ser igual ou menor que 60°, com o cursor de correção paralelo à parede ou ao jato, e o volume de amostra pequeno, no centro do lúmen ou no jato de maior velocidade.

Critérios de estenose: consenso SRU 2003

O critério mais usado na prática é o do consenso da Society of Radiologists in Ultrasound (SRU), publicado em 2003. Ele se aplica à carótida interna, gradua a estenose pelo método NASCET e combina a velocidade sistólica de pico (VSP) da ICA com a estimativa visual da placa. A relação ICA/CCA e a velocidade diastólica final (VDF) são parâmetros adicionais.

Grau de estenose VSP da ICA Placa (estimativa visual) Relação VSP ICA/CCA VDF da ICA
Normal < 125 cm/s Ausente < 2,0 < 40 cm/s
< 50% < 125 cm/s < 50% de redução do diâmetro < 2,0 < 40 cm/s
50% a 69% 125 a 230 cm/s ≥ 50% de redução do diâmetro 2,0 a 4,0 40 a 100 cm/s
≥ 70% (sem suboclusão) > 230 cm/s ≥ 50% de redução do diâmetro > 4,0 > 100 cm/s
Suboclusão Alta, baixa ou indetectável Lúmen muito reduzido Variável Variável
Oclusão Sem fluxo Sem lúmen detectável Não se aplica Não se aplica

Alguns pontos práticos:

  • A VSP e a presença de placa são os parâmetros principais. Relação ICA/CCA e VDF ajudam quando a VSP está perto de um limite ou quando há fatores que alteram a velocidade.
  • Na suboclusão, a velocidade pode cair, e o exame pode parecer menos grave do que é. O sinal de alerta é um lúmen filiforme com fluxo de “fio” (string sign) no colorido ou no power.
  • Situações que aumentam a velocidade sem estenose correspondente: estenose ou oclusão contralateral (fluxo compensatório), débito cardíaco alto, anemia. Situações que diminuem: baixo débito, estenose proximal na CCA, lesão distal grave.
  • Muitos serviços usam critérios próprios, validados localmente, ou critérios de outras sociedades. O laudo deve dizer qual critério foi usado.

Caracterização da placa

Além do grau de estenose, a placa deve ser descrita. Pelo consenso de Mannheim, considera-se placa uma estrutura focal que invade o lúmen em pelo menos 0,5 mm ou em 50% da EMI ao redor, ou com espessura acima de 1,5 mm.

Descritores úteis:

  • Localização e extensão: CCA distal, bulbo, origem da ICA, ECA; extensão longitudinal aproximada.
  • Ecogenicidade: predominantemente hipoecoica, isoecoica ou hiperecoica. Placas hipoecoicas (ricas em lipídios ou hemorragia) tendem a ser mais instáveis do que placas fibrosas ou calcificadas.
  • Homogeneidade: homogênea ou heterogênea. Áreas hipoecoicas junto à superfície merecem menção.
  • Superfície: regular, irregular ou ulcerada. A ulceração é uma escavação na superfície da placa, melhor vista com colorido, mas a sensibilidade do ultrassom para úlceras é limitada.
  • Calcificação: com sombra acústica. Sombras extensas podem impedir a medida da velocidade no segmento e devem ser citadas como limitação.

Escalas como a de Gray-Weale (tipos de 1 a 4 conforme a proporção de componente ecolucente) são usadas em alguns serviços. Se usar uma escala, cite-a no laudo.

Espessura médio-intimal: usar com cautela

A EMI é medida na parede posterior da CCA distal, cerca de 1 cm abaixo do bulbo, em diástole, preferencialmente com software de detecção automática de bordas. O resultado faz sentido apenas comparado a tabelas de referência por idade, sexo e etnia.

O papel da EMI na estratificação de risco perdeu força. A diretriz de avaliação de risco cardiovascular do ACC/AHA de 2013 não recomenda a medida rotineira da EMI para avaliar risco em prevenção primária, e diretrizes europeias seguem a mesma linha. Já a presença de placa carotídea tem mais valor como marcador de risco, segundo diretrizes europeias de prevenção. Na prática, em geral é melhor descrever a EMI quando pedida, citando a referência usada, e evitar conclusões de risco baseadas apenas nela.

Vertebrais e roubo da subclávia

O fluxo normal na vertebral é anterógrado (em direção à cabeça), com diástole contínua, semelhante à onda da carótida interna. É comum uma vertebral ser mais calibrosa que a outra (dominância), o que não é doença.

Quando há estenose importante ou oclusão da subclávia antes da origem da vertebral, o braço passa a “roubar” sangue da vertebral do mesmo lado. O espectro mostra graus progressivos:

  • Parcial (latente): desaceleração ou entalhe na mesossístole, com fluxo ainda anterógrado.
  • Alternante (bidirecional): componente reverso na sístole e anterógrado na diástole.
  • Completo: fluxo totalmente reverso na vertebral.

Achados de apoio são diferença de pressão entre os braços e onda monofásica ou de baixa resistência na subclávia distal. Um teste de hiperemia reativa do braço (manguito insuflado e depois liberado) pode acentuar o roubo latente. Na maioria das vezes o roubo da subclávia não causa sintomas, mas deve ser descrito.

O que descrever no laudo

Um laudo de Doppler de carótidas útil traz, para cada lado:

  • CCA, bulbo, ICA e ECA: perviedade, presença de placa e EMI, se solicitada;
  • Placa: localização, extensão, ecogenicidade, homogeneidade, superfície e calcificação;
  • Velocidades: VSP e VDF da CCA e da ICA (no ponto de maior velocidade), relação ICA/CCA;
  • Grau de estenose da ICA pela faixa do critério adotado, citando o critério (por exemplo, SRU 2003);
  • Vertebrais: direção do fluxo, morfologia da onda e calibre, com citação de dominância e de qualquer padrão de roubo;
  • Limitações técnicas: sombra acústica, bifurcação alta, pescoço curto, arritmia, pouca colaboração.

Na conclusão, use as faixas do critério (“estenose de 50% a 69% da carótida interna direita, segundo os critérios da SRU 2003”) em vez de um número exato. O ultrassom não mede estenose com precisão de 1%, e expressar “estenose de 63%” passa uma falsa precisão.

Erros comuns

Ângulo acima de 60° ou correção mal posicionada

Com ângulo grande, pequenos desvios do cursor geram grandes erros de velocidade, quase sempre superestimando. Reposicione o transdutor para melhorar o ângulo em vez de confiar na correção. Alinhe o cursor ao jato, que nem sempre é paralelo à parede.

Confundir carótida interna com externa

Um erro clássico, que pode levar a classificar uma estenose da ECA como da ICA ou deixar passar uma oclusão da interna. Para diferenciar:

  • a ICA costuma ficar posterior e lateral, é mais calibrosa e não tem ramos no pescoço;
  • a ECA costuma ser anterior e medial, tem ramos (como a tireoidiana superior) e onda de alta resistência, com diástole baixa;
  • a percussão da artéria temporal superficial (temporal tap) gera oscilações no espectro da ECA.

Nenhum sinal isolado é perfeito. Use mais de um.

Medir a velocidade fora do ponto de maior estenose

A velocidade máxima costuma estar no jato logo após o estreitamento. Faça varredura com o volume de amostra ao longo da lesão antes de registrar.

Ignorar lesões em série (tandem)

Uma estenose na origem da CCA ou uma lesão intracraniana podem reduzir as velocidades na ICA e fazer uma estenose cervical parecer menor. Desconfie de ondas amortecidas (tardus parvus) ou de alta resistência fora do esperado, compare os dois lados e descreva o achado.

Não considerar o lado contralateral

Oclusão ou estenose grave de um lado aumenta o fluxo do outro, o que pode superestimar a estenose do lado com fluxo compensatório. A relação ICA/CCA ajuda nesses casos.

Aliasing e ganho inadequados

Escala baixa demais corta o pico da onda; ganho alto “borra” o espectro e aumenta a velocidade medida. Ajuste a escala e o ganho antes de medir.

Perguntas frequentes

O Doppler de carótidas dói?

Não. O transdutor é apoiado no pescoço com gel. Pode haver um leve desconforto pela pressão, que passa logo.

Quem deve fazer Doppler de carótidas?

Em geral, quem teve AVC, ataque isquêmico transitório ou sintomas sugestivos, quem tem sopro no pescoço ou será avaliado para algumas cirurgias. Não é recomendado como rastreamento rotineiro em pessoas sem sintomas na população geral. A indicação é do médico.

Placa calcificada é melhor ou pior?

Em geral, placas calcificadas e fibrosas são consideradas mais estáveis do que placas hipoecoicas. Mas a calcificação atrapalha a visualização e a medida da velocidade, o que pode limitar o exame.

Estenose de 70% precisa de cirurgia?

Nem sempre. A decisão depende de sintomas, idade, outras doenças e da confirmação por outros exames. Em pacientes com sintomas recentes, a estenose de 70% ou mais costuma levar à discussão de tratamento intervencionista.

Com que frequência repetir o exame?

Depende do grau de estenose e da decisão do médico. Placas pequenas sem estenose relevante muitas vezes não exigem repetição frequente.

Conclusão

O Doppler de carótidas é um exame rápido, sem preparo e muito útil para detectar placas e estimar estenoses. Para que o resultado seja confiável, o examinador precisa identificar com segurança a carótida interna, medir a velocidade no ponto certo e com ângulo adequado, considerar o lado contralateral e lesões em série, e expressar o grau de estenose em faixas, citando o critério usado.

Se você quer que velocidades, relação ICA/CCA, descrição da placa e grau de estenose tenham campo próprio no seu laudo, com o critério já indicado, conheça o UltraLaudo, plataforma de laudos estruturados de ultrassonografia.


Referências

  • Grant EG, Benson CB, Moneta GL, et al. Carotid artery stenosis: gray-scale and Doppler US diagnosis. Society of Radiologists in Ultrasound Consensus Conference. Radiology, 2003;229(2):340-346.
  • Naylor R, Rantner B, Ancetti S, et al. European Society for Vascular Surgery (ESVS) 2023 Clinical Practice Guidelines on the Management of Atherosclerotic Carotid and Vertebral Artery Disease. European Journal of Vascular and Endovascular Surgery, 2023.
  • Touboul PJ, Hennerici MG, Meairs S, et al. Mannheim carotid intima-media thickness and plaque consensus (2004-2006-2011). Cerebrovascular Diseases, 2012.
  • Goff DC Jr, Lloyd-Jones DM, Bennett G, et al. 2013 ACC/AHA Guideline on the Assessment of Cardiovascular Risk. Circulation, 2014.
  • Gray-Weale AC, Graham JC, Burnett JR, et al. Carotid artery atheroma: comparison of preoperative B-mode ultrasound appearance with carotid endarterectomy specimen pathology. Journal of Cardiovascular Surgery, 1988.
  • Pellerito JS, Polak JF. Introduction to Vascular Ultrasonography. 7ª edição. Elsevier, 2019.

Este conteúdo tem finalidade educacional e não substitui a avaliação médica. A indicação do Doppler de carótidas e a interpretação do resultado cabem ao médico que acompanha o paciente.

Respostas

  1. Avatar de Doppler venoso para varizes: insuficiência venosa e mapeamento – UltraLaudo Blog

    […] Um modelo estruturado ajuda a não esquecer itens e torna os laudos comparáveis, a mesma lógica do Doppler de carótidas. […]

    Curtir

  2. Avatar de Estenose carotídea ao Doppler: consenso SRU 2003 (Grant, Radiology): artigo comentado – UltraLaudo Blog

    […] A dor de quem lauda é conhecida: velocidade alta com pouca placa, carótida contralateral ocluída, sombra acústica no ponto mais importante. O consenso não resolveu tudo, mas deu um ponto de partida comum e deixou claro que velocidade e imagem devem ser lidas juntas. Uma visão geral do exame, com protocolo e caracterização de placa, está no nosso guia de Doppler de carótidas. […]

    Curtir

  3. Avatar de Doppler arterial de membros inferiores na DAOP: onda, PSVR, oclusão e laudo – UltraLaudo Blog

    […] A leitura em cadeia é o que localiza a lesão. Uma femoral comum amortecida com ilíaca não visualizada sugere doença aortoilíaca significativa. Uma femoral comum multifásica com poplítea amortecida aponta para o segmento femoropoplíteo. Para o mesmo raciocínio aplicado às carótidas, veja nosso texto sobre Doppler de carótidas. […]

    Curtir

  4. Avatar de Doppler de artérias renais na estenose: critérios, técnica e laudo – UltraLaudo Blog

    […] Os valores nas frases são ilustrativos. Prefira faixas e critérios (“estenose ≥ 60%”) em vez de porcentagens exatas, como também recomendamos no Doppler de carótidas. […]

    Curtir

Deixe um comentário