Na hipertensão portal no Doppler, os sinais mais úteis são o fluxo portal lentificado (velocidade média abaixo de cerca de 15 cm/s), o fluxo bidirecional ou hepatofugal, as colaterais portossistêmicas (veia paraumbilical recanalizada, veia gástrica esquerda acima de 6 mm ou com fluxo hepatofugal, shunt esplenorrenal), a perda da variação respiratória das veias esplênica e mesentérica superior, a esplenomegalia e a ascite. Calibre da veia porta acima de 13 mm é específico, mas pouco sensível. Colaterais e fluxo hepatofugal são os sinais mais específicos; um Doppler normal não exclui hipertensão portal clinicamente significativa.
O Doppler não mede pressão: mostra as consequências hemodinâmicas do aumento da resistência. Por isso o laudo deve trazer cada parâmetro com valor, direção e técnica.
Resumo rápido
- Sinais específicos: veia paraumbilical recanalizada, fluxo hepatofugal na porta ou na gástrica esquerda, shunts espontâneos (esplenorrenal, gastrorrenal).
- Sinais sensíveis, porém inespecíficos: esplenomegalia, velocidade portal baixa, perda da variação respiratória (variação de calibre da esplênica ou da mesentérica superior abaixo de 40%, segundo Bolondi).
- Calibre portal > 13 mm: alta especificidade e sensibilidade de cerca de 40 a 50%. Não use como critério isolado.
- Técnica: jejum, medida no tronco na porta hepatis, ângulo de insonação ≤ 60°, respiração tranquila ou apneia breve, sem Valsalva.
- Trombose portal: fluxo arterial pulsátil dentro do trombo e expansão da veia sugerem trombo tumoral; trombo sem fluxo não exclui tumor.
- Baveno VII: no paciente compensado, a classificação de hipertensão portal clinicamente significativa é feita por elastografia e plaquetas, não pelo Doppler.
Hipertensão portal no Doppler: o que o exame responde
A hipertensão portal é definida por gradiente de pressão venosa hepática (HVPG) acima de 5 mmHg, e a forma clinicamente significativa por HVPG de 10 mmHg ou mais, limiar a partir do qual aumenta o risco de varizes, ascite e descompensação. O Doppler não estima o HVPG com precisão. Taourel e colaboradores (Hepatology, 1998) encontraram correlação moderada do HVPG com velocidade e fluxo portal, mas nenhuma com o índice de resistividade (IR) da artéria hepática, e as recomendações da EFSUMB (Berzigotti e Piscaglia, 2011 e 2012) reforçam que o Doppler também não discrimina respondedores a betabloqueador.
O que o exame responde bem: há sinais de hipertensão portal, qual a direção do fluxo, há colaterais ou shunts e se a veia porta está pérvia. Os sinais de doença hepática crônica no parênquima (superfície nodular, lobo caudado, ecotextura) e o rastreamento do hepatocarcinoma estão no nosso guia de cirrose no ultrassom, e não serão repetidos aqui.
Técnica: jejum, ângulo e onde medir
Preparo. Jejum, em geral de pelo menos 6 horas, conforme o protocolo do serviço. A refeição aumenta o fluxo e o calibre portal e invalida a comparação entre exames.
Posição e janela. Decúbito dorsal ou oblíquo esquerdo, janela intercostal ou subcostal direita.
Onde medir. O calibre é medido no tronco da veia porta na porta hepatis, onde ela cruza a artéria hepática, de parede interna a parede interna, perpendicular ao eixo do vaso. A velocidade é medida no mesmo segmento.
Ajustes do Doppler.
- Ângulo de insonação ≤ 60°, com correção de ângulo alinhada à parede do vaso. Acima disso, o erro na velocidade calculada cresce muito.
- Escala de cor baixa (a porta é um vaso de baixa velocidade) e filtro de parede baixo, para não “apagar” fluxo lento e simular trombose.
- Volume de amostra cobrindo a maior parte do lúmen para a velocidade média no tempo.
- Respiração tranquila ou apneia breve, sem Valsalva: inspiração profunda e Valsalva alteram calibre e fluxo.
Para revisar os princípios físicos e os modos de Doppler, veja o guia de ultrassom com Doppler.
Sinais de hipertensão portal: tabela de referência
| Sinal | Critério usado | Desempenho | Fonte |
|---|---|---|---|
| Calibre da veia porta | > 13 mm no tronco, em jejum e respiração tranquila | Específico; sensibilidade de cerca de 40 a 50% | Weinreb 1982; EFSUMB 2011 |
| Variação respiratória | Variação de calibre da esplênica ou da mesentérica superior < 40% entre inspiração e expiração | Sensibilidade de cerca de 80% e especificidade alta no estudo original | Bolondi 1982 |
| Velocidade portal | Média < 15 cm/s (cortes variam entre 13 e 16 cm/s nos estudos) | Parâmetro quantitativo mais útil, mas com sobreposição com normais | EFSUMB 2011; Möller 2025 |
| Índice de congestão | Área da porta (cm²) ÷ velocidade média (cm/s) > 0,1 | Aumenta na hipertensão portal; útil para seguimento | Moriyasu 1986 |
| Direção do fluxo | Bidirecional ou hepatofugal | Muito específico; indica doença avançada | EFSUMB 2011 |
| Veia paraumbilical | Canal com fluxo venoso no ligamento redondo, em geral > 3 mm, saindo do fígado | Muito específica, pouco sensível | Gerstenmaier 2014; Möller 2025 |
| Veia gástrica esquerda | Calibre > 6 mm e/ou fluxo hepatofugal | Fluxo hepatofugal em 78% dos pacientes com hipertensão portal; dilatação em 26% | Wachsberg 1994 |
| Shunt esplenorrenal | Comunicação entre esplênica e renal esquerda, com renal esquerda dilatada | Específico; associa-se a encefalopatia | EFSUMB 2012 |
| Esplenomegalia | Acima do limite ajustado para sexo e altura | Sinal mais sensível, pouco específico | EFSUMB 2011 |
| Ascite | Líquido livre peri-hepático, periesplênico ou pélvico | Indica descompensação | Baveno VII 2022 |
Os limites normais de calibre portal e do baço estão detalhados no post de valores de referência no ultrassom de abdome.
Calibre da veia porta e variação respiratória
O corte clássico de 13 mm vem de Weinreb e colaboradores (AJR, 1982). Acima dele, a hipertensão portal é provável, mas a sensibilidade fica em torno de 40 a 50%, e veias de 13 a 15 mm aparecem em pessoas normais, sobretudo altas ou após refeição. Além disso, quando surgem grandes colaterais, o calibre portal pode diminuir, porque parte do fluxo sai pelos shunts.
A perda da variação respiratória costuma ser mais informativa que o calibre absoluto. Normalmente, esplênica e mesentérica superior aumentam de calibre na inspiração profunda; Bolondi e colaboradores (Radiology, 1982) mostraram que variação abaixo de 40% sugere hipertensão portal, com especificidade alta. Meça no mesmo ponto, em inspiração e expiração profundas, e registre os dois valores.
Velocidade e direção do fluxo portal
O fluxo portal normal é hepatopetal (em direção ao fígado), contínuo e levemente fásico com a respiração e o ciclo cardíaco. A velocidade portal reduzida é, segundo a EFSUMB, o parâmetro quantitativo isolado mais importante, e tem valor prognóstico. As faixas normais publicadas variam entre fontes; na prática, velocidade média abaixo de cerca de 15 cm/s em jejum, com técnica correta, sugere hipertensão portal. Os cortes exatos variam entre 13 e 16 cm/s conforme o estudo, então registre o valor medido em vez de só “reduzida”.
Com a progressão, o traçado perde a fasicidade, fica monofásico e lento, depois bidirecional (vaivém) e, por fim, hepatofugal. Fluxo hepatofugal significa que a porta passou a drenar para as colaterais: é sinal de hipertensão portal avançada e de pior prognóstico.

Atenção à pulsatilidade. Fluxo portal muito pulsátil não é sinal de hipertensão portal: pense em insuficiência tricúspide, insuficiência cardíaca direita ou fístula arterioportal.
Colaterais portossistêmicas
As colaterais são o sinal mais específico. Procure três delas de rotina:
- Veia paraumbilical recanalizada. No ligamento redondo, a partir do ramo portal esquerdo, com fluxo saindo do fígado em direção à parede abdominal e ao umbigo. Um canal com fluxo venoso acima de cerca de 3 mm é praticamente diagnóstico. É pouco sensível: só uma parte dos cirróticos a apresenta.
- Veia gástrica esquerda (coronária). Sai da confluência esplenoportal em direção à pequena curvatura e à junção esofagogástrica. Wachsberg e Simmons (AJR, 1994) mediram até 6 mm em controles; na hipertensão portal, o fluxo hepatofugal foi visto em 78% dos pacientes e a dilatação acima de 6 mm em apenas 26%. Ou seja, a direção do fluxo vale mais que o calibre. Fluxo hepatofugal nessa veia alimenta varizes esofágicas.
- Shunt esplenorrenal. Vasos tortuosos no hilo esplênico em direção ao rim esquerdo, com veia renal esquerda dilatada. Shunts espontâneos grandes se associam a encefalopatia hepática e podem explicar porta fina ou com fluxo hepatofugal.
Descreva também varizes no hilo esplênico e gástricas, quando visíveis.

Baço, ascite e artéria hepática
Esplenomegalia é o sinal mais sensível e o menos específico. Meça o maior eixo e compare com exames anteriores; o limite deve considerar sexo e altura. Ascite em pequeno volume aparece primeiro no espaço hepatorrenal, peri-hepático e na pelve; descreva volume e aspecto (anecoica, septada, com debris).
A artéria hepática costuma ficar mais calibrosa na cirrose, por aumento compensatório do fluxo arterial. O IR normal fica, em geral, entre 0,55 e 0,70. Na cirrose, o IR intra-hepático tende a subir, mas não se correlaciona com o HVPG (Taourel, 1998) e varia com idade e refeição. Registre-o como dado complementar, não como critério.
Trombose da veia porta: trombo brando x trombo tumoral
A trombose portal é comum na cirrose e deve ser procurada em todo Doppler de hepatopata. Descreva extensão (tronco, ramos, confluência, esplênica, mesentérica superior), grau de oclusão (parcial ou total) e cronicidade (transformação cavernomatosa, com múltiplos vasos serpiginosos no hilo).
| Característica | Trombo brando | Trombo tumoral |
|---|---|---|
| Calibre da veia | Normal ou pouco aumentado | Veia expandida |
| Relação com tumor | Sem nódulo contíguo | Contíguo a lesão hepática, em geral CHC |
| Doppler colorido no trombo | Sem fluxo interno | Pode haver vasos internos |
| Doppler espectral no trombo | Sem sinal | Fluxo arterial pulsátil dentro do trombo |
| CEUS | Sem realce | Realce arterial com lavagem |
O fluxo arterial pulsátil dentro do trombo é muito específico para trombo tumoral, mas pouco sensível. Na série de Dodd e colaboradores (AJR, 1995) em cirróticos, a sensibilidade foi de cerca de 62% e a especificidade de cerca de 95%. A ausência de fluxo, portanto, não exclui invasão tumoral. O ultrassom com contraste aumenta muito a sensibilidade e é o próximo passo natural, junto com tomografia ou ressonância.
Antes de laudar trombose, baixe a escala e o filtro, aumente o ganho de cor e confirme com Doppler espectral e power Doppler: fluxo muito lento simula oclusão.
Baveno VII e elastografia
Pelo consenso Baveno VII, em doença hepática crônica avançada compensada, rigidez hepática ≥ 25 kPa por elastografia transitória indica hipertensão portal clinicamente significativa, e ≤ 15 kPa com plaquetas ≥ 150 mil/mm³ praticamente a exclui; os detalhes de técnica e qualidade estão no nosso artigo comentado sobre elastografia hepática e o consenso SRU.
O que descrever no laudo
Um laudo de Doppler portal útil traz, em ordem fixa:
- Condição técnica: jejum, janela, limitações (gases, ascite, biotipo).
- Veia porta: calibre no tronco, perviedade, direção do fluxo, velocidade média (ou máxima, deixando claro qual), ângulo usado, fasicidade.
- Veias esplênica e mesentérica superior: perviedade, direção e variação respiratória, se avaliada.
- Colaterais: presentes ou ausentes, quais, calibre e direção.
- Artéria hepática: perviedade e IR, como dado complementar.
- Veias hepáticas: perviedade e padrão de onda.
- Baço (maior eixo) e ascite (volume).
- Conclusão com o grau de suspeita e, quando houver trombo, as características que favorecem brando ou tumoral.
Frases-modelo
- “Veia porta pérvia, com calibre de 14 mm no tronco, fluxo hepatopetal monofásico e velocidade média de 11 cm/s (ângulo de 55°).”
- “Veia paraumbilical recanalizada no ligamento redondo, com 5 mm de calibre e fluxo hepatofugal em direção à parede abdominal.”
- “Veia gástrica esquerda com 7 mm de calibre e fluxo hepatofugal.”
- “Material ecogênico preenchendo parcialmente o tronco da veia porta, sem expansão do vaso e sem fluxo interno ao Doppler, sugestivo de trombo brando.”
- “Material sólido expandindo o ramo portal direito, contíguo a nódulo no segmento VIII, com fluxo arterial pulsátil no seu interior, sugestivo de trombo tumoral.”
- Conclusão: “Sinais ultrassonográficos de hipertensão portal (fluxo portal lentificado, veia paraumbilical recanalizada, esplenomegalia e ascite em pequeno volume).”
Armadilhas e erros comuns
- Exame pós-prandial: aumenta calibre e velocidade e mascara a lentificação.
- Ângulo acima de 60° ou correção de ângulo mal alinhada: superestima ou subestima a velocidade.
- Escala e filtro altos: fluxo lento some e simula trombose; fluxo hepatofugal pode ser lido como ausente.
- Confundir direção: use a artéria hepática, adjacente, como referência de fluxo hepatopetal.
- Calibre isolado: porta de 14 mm em paciente alto e sem outros sinais não fecha diagnóstico; porta fina não exclui hipertensão portal com grandes shunts.
- Atribuir pulsatilidade portal à cirrose: pense em causa cardíaca.
- Trombo sem fluxo considerado brando: em cirrótico com nódulo, a ausência de fluxo arterial não exclui trombo tumoral.
Quando escalonar
- Fluxo hepatofugal, colaterais ou esplenomegalia com plaquetopenia em paciente sem diagnóstico de hepatopatia: encaminhar à hepatologia para elastografia e avaliação de causa (cirrose, trombose, causas pré-hepáticas e pós-hepáticas).
- Trombose portal nova: comunicar ao solicitante no mesmo dia; avaliar extensão à mesentérica superior, que muda conduta.
- Trombo com expansão do vaso, nódulo contíguo ou fluxo arterial interno: CEUS, tomografia ou ressonância multifásica para confirmar invasão tumoral.
- Ascite nova: sinal de descompensação, merece contato com a equipe assistente.
Perguntas frequentes
Doppler de veia porta normal exclui hipertensão portal?
Não. Os sinais do Doppler são específicos, mas pouco sensíveis nas fases compensadas, em que o Baveno VII classifica a hipertensão portal clinicamente significativa por elastografia e plaquetas.
Qual a velocidade normal da veia porta no Doppler?
As faixas normais variam entre fontes. Velocidade média abaixo de cerca de 15 cm/s, em jejum e com ângulo ≤ 60°, sugere hipertensão portal.
Fluxo hepatofugal na veia porta é sempre hipertensão portal?
Na grande maioria das vezes, sim, e indica doença avançada. Fístula arterioportal (inclusive pós-biópsia ou associada a CHC) é a principal exceção; contexto e demais sinais resolvem a dúvida.
Como diferenciar trombo tumoral de trombo brando na veia porta?
Expansão da veia, contiguidade com nódulo e fluxo arterial pulsátil dentro do trombo favorecem trombo tumoral. A ausência de fluxo não exclui tumor; CEUS, tomografia ou ressonância confirmam.
Conclusão
A hipertensão portal no Doppler é diagnosticada pela soma de sinais: fluxo portal lento, fluxo bidirecional ou hepatofugal, colaterais, perda da variação respiratória, esplenomegalia e ascite. O calibre acima de 13 mm ajuda pouco sozinho, e o IR da artéria hepática é apenas complementar. Na trombose portal, o fluxo arterial dentro do trombo é o sinal mais específico de invasão tumoral. Técnica padronizada e laudo com valores, direção e ângulo tornam o exame comparável no seguimento.
Para padronizar esses campos, as frases de achado e a conclusão do Doppler portal, conheça o UltraLaudo, plataforma de laudos estruturados de ultrassom.
Referências
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- Bolondi L, Gandolfi L, Arienti V, et al. Ultrasonography in the diagnosis of portal hypertension: diminished response of portal vessels to respiration. Radiology. 1982;142(1):167-172.
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- Wachsberg RH, Simmons MZ. Coronary vein diameter and flow direction in patients with portal hypertension: evaluation with duplex sonography. AJR Am J Roentgenol. 1994;162(3):637-641.
- Taourel P, Blanc P, Dauzat M, et al. Doppler study of mesenteric, hepatic, and portal circulation in alcoholic cirrhosis: relationship between quantitative Doppler measurements and the severity of portal hypertension and hepatic failure. Hepatology. 1998;28(4):932-936. doi:10.1002/hep.510280406
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