No derrame pleural ao ultrassom, o diagnóstico se apoia em um espaço em geral anecoico entre a pleura parietal e a visceral, com o sinal do quadrilátero no modo B e o sinal do sinusoide no modo M; juntos, esses sinais tiveram sensibilidade de 93% e especificidade de 97% na revisão de Lichtenstein. Para estimar o volume, a fórmula mais usada é a de Balik: volume (mL) = 20 × distância interpleural máxima (mm), medida na base, em supino com tronco a 15°, ao final da expiração. É uma estimativa com erro médio de cerca de 160 mL, útil para decidir conduta, não para substituir o volume drenado.
Resumo rápido
- Sinais diagnósticos: espaço anecoico acima do diafragma, sinal do quadrilátero, sinal do sinusoide (modo M) e spine sign (coluna visível acima do diafragma).
- Ecogenicidade: anecoico pode ser transudato ou exsudato; complexo septado, complexo não septado e homogeneamente ecogênico foram sempre exsudatos na série de Yang (AJR 1992).
- Volume: Balik, V (mL) = 20 × Sep (mm), em supino. No paciente sentado, Usta propôs V (mL) = 16 × D (mm).
- Vignon: distância > 45 mm à direita ou > 50 mm à esquerda prediz derrame ≥ 800 mL no paciente crítico em supino.
- O ultrassom supera a radiografia à beira do leito: acurácia de 93% contra 47% na SDRA (Lichtenstein, 2004).
- Toracocentese guiada por ultrassom se associou a menor risco de pneumotórax (OR 0,3) na metanálise de Gordon.
Como avaliar o derrame pleural no ultrassom
O consenso internacional de ultrassom pulmonar (Volpicelli et al., 2012) recomenda procurar o derrame livre na linha axilar posterior, logo acima do diafragma, que é a região mais pendente no paciente em supino. O transdutor preferido pelo consenso é o microconvexo, mas o convexo abdominal e o setorial funcionam bem, sobretudo para medir profundidade. Discutimos o consenso em detalhe no nosso artigo comentado sobre as recomendações internacionais de ultrassom pulmonar.
Rotina prática, em geral:
- Paciente sentado: varredura posterior e posterolateral nos espaços intercostais inferiores, de baixo para cima, até encontrar o limite superior do líquido.
- Paciente em supino (UTI): transdutor na linha axilar posterior, o mais posterior possível, apontado para cima, no ponto que Lichtenstein chama de PLAPS (posterolateral alveolar and/or pleural syndrome).
- Referências anatômicas obrigatórias: identificar diafragma, fígado ou baço e, quando possível, o pulmão. Sem ver o diafragma, não se afirma que o líquido é pleural e não subfrênico.
- Modo M: sobre o espaço líquido, para documentar o sinusoide.
- Clipe de vídeo: para documentar pulmão flutuante e septos móveis.
Sinais ultrassonográficos de derrame pleural
| Sinal | Modo | O que se vê | Comentário |
|---|---|---|---|
| Espaço anecoico | B | Coleção entre pleura parietal e visceral, acima do diafragma | Pode não ser anecoico em exsudatos, hemotórax e empiema |
| Sinal do quadrilátero (quad sign) | B | Coleção delimitada pela linha pleural, pelas sombras de duas costelas e pela linha do pulmão (pleura visceral), paralela e regular | Sinal estático; vale para derrame de qualquer ecogenicidade |
| Sinal do sinusoide | M | A linha do pulmão se aproxima da linha pleural na inspiração, desenhando uma curva sinusoidal | Indica líquido livre e de baixa viscosidade; tende a desaparecer em derrame muito viscoso ou septado |
| Spine sign | B | Corpos vertebrais visíveis acima do diafragma | Normalmente o pulmão aerado esconde a coluna; o líquido (ou consolidação) cria uma janela acústica |
| Pulmão flutuante | B | Pulmão atelectasiado, hiperecogênico, oscilando dentro do líquido | Sugere derrame volumoso e livre |
Segundo a revisão de Lichtenstein (2014), quadrilátero e sinusoide juntos tiveram sensibilidade de 93% e especificidade de 97% para derrame, com base em estudos anteriores do próprio grupo. A revisão também lembra que esses dois sinais são parcialmente redundantes. O spine sign é um sinal de apoio: não achamos acurácia isolada bem estabelecida, e ele também aparece na consolidação, então não deve ser usado sozinho.

Padrões de ecogenicidade do derrame pleural e o que sugerem
A classificação clássica vem de Yang et al. (AJR, 1992), que estudaram 320 pacientes com derrame confirmado por análise do líquido, biópsia ou seguimento:
| Padrão | Aspecto | O que sugere |
|---|---|---|
| Anecoico | Sem ecos internos | Transudato ou exsudato. Todos os transudatos da série eram anecoicos, mas muitos exsudatos também |
| Complexo não septado | Ecos internos heterogêneos, sem septos | Exsudato |
| Complexo septado | Septos ou filamentos de fibrina, às vezes em “favo de mel” | Exsudato; pensar em derrame parapneumônico complicado, empiema, tuberculose, neoplasia |
| Homogeneamente ecogênico | Ecos finos e difusos, às vezes em redemoinho | Exsudato; na série, hemotórax ou empiema |
Achados associados também pesam a favor de exsudato na mesma série: espessamento pleural e lesão do parênquima pulmonar adjacente (consolidação). Nódulo pleural foi achado específico de derrame maligno.
Duas ressalvas importam no laudo:
- Anecoico não é sinônimo de transudato. Um derrame anecoico em paciente com febre ou pneumonia ainda pode ser exsudato e pedir punção diagnóstica.
- Ecogênico nem sempre é exsudato. A afirmação de Yang foi questionada depois. A revisão de Hassan, Mercer e Rahman (2020) lembra que transudatos concentrados por diurético podem parecer ecogênicos. O padrão sugere, mas quem define é a análise do líquido.
Fórmulas de volume do derrame pleural
Nenhuma fórmula é precisa no paciente individual. Elas servem para ordem de grandeza, acompanhamento e decisão de drenagem. Use a fórmula validada para a posição em que o paciente foi examinado e registre no laudo qual foi usada.
| Fórmula | Posição e medida | Equação | Observações |
|---|---|---|---|
| Balik et al. (2006) | Supino, tronco a 15°; distância máxima entre pleura parietal e visceral (Sep) na base, ao final da expiração | V (mL) = 20 × Sep (mm) | 81 pacientes em ventilação mecânica; r = 0,72; erro médio de 158 ± 160 mL |
| Eibenberger et al. (1994) | Supino; maior distância perpendicular entre pulmão e parede torácica, em inspiração máxima | V (mL) = 47,6 × D (mm) − 837 | Devolve valor negativo quando a distância é pequena (abaixo de cerca de 18 mm) |
| Usta et al. (2010) | Sentado; distância entre o ponto médio do diafragma e a pleura visceral (D) | V (mL) = 16 × D (mm) | Pós-operatório de cirurgia cardíaca, respiração espontânea |
| Vignon et al. (2005) | Supino; distância interpleural expiratória na base | Sem fórmula: > 45 mm (direita) ou > 50 mm (esquerda) prediz ≥ 800 mL | Sensibilidade 94% e 100%; especificidade 76% e 67% |
Exemplo com Balik: Sep de 35 mm resulta em 20 × 35 = cerca de 700 mL.
Pontos que mudam o resultado:
- Posição. Balik foi validada em supino com elevação leve. Em semi-sentado (40 a 45°), o líquido migra para a base e a distância medida tende a superestimar o volume.
- Fase respiratória. Balik usa fim da expiração; Eibenberger, inspiração máxima. Misturar as duas coisas invalida a conta.
- Pulmão consolidado. As fórmulas assumem pulmão aerado flutuando no líquido. Com pulmão extensamente consolidado e pouco flutuante, como na SDRA grave, a estimativa pode falhar.
- Derrame loculado. Nenhuma fórmula de distância única se aplica a coleções septadas ou encistadas; descreva as dimensões da maior loja.
Não há fórmula vencedora para todos os cenários, e o próprio estudo de Balik mostra erro de centenas de mililitros. No laudo, prefira “estimado em cerca de X mL (fórmula de Balik)” a um número com falsa precisão.
Ultrassom ou radiografia de tórax no derrame pleural?
Na comparação com a tomografia como padrão de referência, em 32 pacientes com SDRA, Lichtenstein et al. (2004) encontraram acurácia diagnóstica para derrame de 93% para o ultrassom, 47% para a radiografia à beira do leito e 61% para a ausculta. O consenso de Volpicelli concluiu que o ultrassom é mais acurado que a radiografia em supino e tão acurado quanto a tomografia para detectar derrame.
| Método | Volume mínimo detectável (aproximado) | Comentário |
|---|---|---|
| Ultrassom | 5 a 20 mL | Detecção mais confiável a partir de cerca de 20 mL |
| Radiografia em perfil, ortostase | Cerca de 50 mL | Velamento do seio costofrênico posterior |
| Radiografia PA, ortostase | Cerca de 200 mL | Velamento do seio costofrênico lateral |
| Radiografia em supino (UTI) | Variável | Derrame se espalha posteriormente e pode passar despercebido |
Os volumes mínimos da radiografia variam entre fontes (há citações de 175 mL no PA, por exemplo), e servem como ordem de grandeza. Os valores da tabela vêm da revisão de Soni et al. (2015). Para entender quando a tomografia acrescenta informação, veja nosso texto sobre ultrassom, tomografia ou ressonância.
Além de detectar, o ultrassom diferencia derrame de consolidação em um hemitórax opaco, caracteriza septações e estima o volume.
Marcação e guia para toracocentese
A declaração clínica da British Thoracic Society sobre procedimentos pleurais (2023) recomenda ultrassom para a aspiração de líquido pleural, com o objetivo de reduzir riscos. Na metanálise de Gordon et al. (2010), com 24 estudos e 6.605 toracocenteses, a taxa geral de pneumotórax foi de 6,0%, um terço deles precisou de dreno, e o uso de ultrassom se associou a menor chance de pneumotórax (OR 0,3; IC 95% 0,2 a 0,7). Toracocentese terapêutica teve mais risco que a diagnóstica (OR 2,6).
Como marcar o sítio, em geral:
- Mesma posição do procedimento. Examine o paciente na posição em que será puncionado. Se ele se mover depois da marcação, refaça o exame.
- Ponto de maior profundidade, longe do diafragma, do fígado, do baço e do coração, confirmando o líquido em todo o ciclo respiratório.
- Profundidade mínima. No estudo de Lichtenstein et al. (1999) em pacientes ventilados, a punção só foi feita com distância interpleural inspiratória ≥ 15 mm, visível em três espaços intercostais; não houve complicações em 45 procedimentos. Esse corte foi critério de inclusão do estudo, não um limiar de segurança validado, mas é a referência mais citada para derrame “drenável” na UTI.
- Profundidade da pele até a pleura parietal e até o centro da coleção, para escolher agulha ou cateter.
- Borda superior da costela inferior, para afastar o feixe vasculonervoso intercostal. Alguns serviços usam Doppler colorido para procurar vasos intercostais no trajeto.
- Punção logo após a marcação, ou em tempo real com o transdutor.
Em procedimentos terapêuticos, a BTS orienta, em geral, retirar no máximo 1,5 L de uma vez, com aspiração lenta e interrupção se surgir desconforto torácico.
Armadilhas e erros de medida
- Confundir ascite ou coleção subfrênica com derrame. Sempre mostre o diafragma separando as duas cavidades.
- Confundir consolidação com derrame complexo. Consolidação tem ecotextura de tecido, broncograma e fluxo ao Doppler; derrame não tem fluxo e muda de forma com a respiração.
- Medir em plano oblíquo. Meça a distância perpendicular entre as pleuras; o plano oblíquo superestima.
- Ignorar a posição. Balik em paciente sentado não é Balik.
- Pleura espessada interpretada como líquido. Espessamento pleural é sólido, não muda com a respiração e não tem sinal do sinusoide.
O que descrever no laudo
- Lado e localização (base, recesso costofrênico, posterior, loculado em outra topografia).
- Posição do paciente durante o exame.
- Ecogenicidade: anecoico, complexo não septado, complexo septado ou homogeneamente ecogênico.
- Mobilidade: livre ou loculado; presença de septos.
- Distância interpleural máxima (mm), fase respiratória e volume estimado com o nome da fórmula.
- Pulmão adjacente: atelectasia compressiva, consolidação, linhas B.
- Pleura: espessamento, nódulos.
- Se houver marcação: ponto, profundidade da pele à pleura parietal e profundidade do líquido.
Frases-modelo de laudo estruturado:
- “Derrame pleural à direita, anecoico, livre, com sinal do quadrilátero e sinal do sinusoide ao modo M. Distância interpleural máxima de 28 mm na base, ao final da expiração, em decúbito dorsal com cabeceira a 15°, correspondendo a volume estimado em cerca de 560 mL (fórmula de Balik).”
- “Derrame pleural à esquerda, complexo septado, com múltiplos septos móveis e loculações, associado a espessamento pleural. Aspecto sugestivo de exsudato; correlacionar com análise do líquido pleural.”
- “Marcação para toracocentese: ponto na linha axilar posterior direita, 8º espaço intercostal, com distância pele-pleura parietal de 22 mm e coluna líquida de 40 mm em inspiração.”
- “Ausência de derrame pleural nos recessos costofrênicos avaliados.”
O significado preciso de anecoico, hipoecoico e ecogênico para quem lê o laudo está no nosso guia de termos do laudo de ultrassom.
Quando escalonar
- Derrame complexo septado ou ecogênico com febre: suspeita de derrame parapneumônico complicado ou empiema; punção diagnóstica e avaliação para drenagem.
- Derrame homogeneamente ecogênico após trauma ou procedimento: suspeita de hemotórax; avaliação imediata.
- Nódulos ou espessamento pleural nodular: suspeita de neoplasia; tomografia com contraste e investigação pleural.
- Derrame volumoso com instabilidade respiratória: drenagem guiada, sem esperar outro exame.
- Derrame unilateral sem causa evidente: toracocentese diagnóstica; a tomografia ajuda a avaliar pleura, parênquima e mediastino.
Perguntas frequentes
Qual a fórmula de Balik para volume de derrame pleural?
V (mL) = 20 × Sep (mm), em que Sep é a distância máxima entre pleura parietal e visceral na base, ao final da expiração, com o paciente em supino e tronco elevado a 15°. Exemplo: 40 mm correspondem a cerca de 800 mL.
Derrame pleural anecoico é transudato?
Não necessariamente. Na série de Yang, todo transudato era anecoico, mas muitos exsudatos também. Anecoico não exclui exsudato.
Qual a espessura mínima de derrame para toracocentese?
A referência mais citada é ≥ 15 mm de distância interpleural, visível em três espaços intercostais (Lichtenstein et al., 1999). É um critério prático, não um limite de segurança validado.
O que é o spine sign no ultrassom de tórax?
É a visualização dos corpos vertebrais acima do diafragma, que normalmente ficam escondidos pelo pulmão aerado. Aparece quando há líquido ou consolidação na base.
Conclusão
O diagnóstico de derrame pleural ao ultrassom se faz com o espaço anecoico acima do diafragma, o sinal do quadrilátero e o sinal do sinusoide, com o spine sign como apoio. A ecogenicidade orienta, mas não define a natureza do líquido: anecoico pode ser exsudato, e complexo ou ecogênico sugere exsudato. Para o volume, a fórmula de Balik (20 × Sep em mm) é prática no paciente em supino, desde que o laudo informe posição, fase respiratória e fórmula usada. Na toracocentese, o ultrassom reduz o risco de pneumotórax e deve marcar o ponto na mesma posição do procedimento.
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Referências
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Conteúdo educativo destinado a profissionais de saúde. Não substitui o julgamento clínico nem as diretrizes locais. Valores de corte e fórmulas devem ser interpretados no contexto do paciente, da posição do exame e do método de referência usado em cada estudo.

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