Ultrassom, tomografia e ressonância mostram o corpo por dentro com princípios diferentes, e por isso cada um é o primeiro exame em situações diferentes. O ultrassom usa ondas de som, não tem radiação e costuma ser a primeira escolha na vesícula, na gravidez e na dor abdominal da criança. A tomografia computadorizada (TC) usa raios X, é rápida e muito disponível no pronto-socorro, e em geral é o exame inicial no traumatismo de crânio e na suspeita de apendicite no adulto. A ressonância magnética (RM) usa campo magnético e ondas de rádio, também não tem radiação e é a melhor para caracterizar nódulos do fígado e avaliar o interior das articulações. Não existe exame “melhor” em tudo: o certo é o que responde à pergunta clínica com menos risco.
Veja como cada método funciona, as diferenças de radiação, contraste, custo e tempo e qual costuma ser o primeiro em oito situações comuns, segundo os Critérios de Adequação do Colégio Americano de Radiologia (ACR).
Como cada exame funciona
Ultrassom: som que volta como eco
O aparelho emite ondas de som de alta frequência, que o ouvido não escuta, e capta os ecos que voltam dos órgãos. O computador transforma esses ecos em imagem em tempo real. O médico vê o órgão em movimento, aperta o ponto que dói e, com o Doppler, mede o fluxo de sangue. A limitação principal é que o som não atravessa bem o ar e o osso: gases no intestino, pulmão e crânio atrapalham, e pacientes com muita gordura abdominal podem ter imagens piores.
O ultrassom não usa radiação ionizante. Explicamos por que ele é considerado seguro, inclusive na gravidez, no guia ultrassom faz mal?.
Tomografia: raios X em fatias
A TC é uma máquina de raios X que gira ao redor do paciente e monta cortes finos do corpo. Ela vê muito bem osso, sangramento recente, ar fora do lugar e cálculos, e a aquisição é muito rápida, o que ajuda em pacientes graves. Muitas vezes se injeta contraste iodado na veia para destacar vasos e órgãos.
Ressonância: ímã e ondas de rádio
A RM coloca o paciente dentro de um campo magnético forte e usa pulsos de ondas de rádio. Os tecidos devolvem sinais diferentes conforme a quantidade de água e gordura, o que dá um contraste entre tecidos moles que nenhum outro método alcança. É ótima para cérebro, medula, articulações, fígado, pelve e vias biliares. O contraste usado é à base de gadolínio. O exame é mais demorado, barulhento e exige ficar parado dentro de um tubo.
Comparação rápida
| Característica | Ultrassom | Tomografia | Ressonância |
|---|---|---|---|
| Como funciona | Ondas de som | Raios X | Campo magnético e ondas de rádio |
| Radiação ionizante | Não | Sim | Não |
| Contraste mais usado | Em geral nenhum (microbolhas em casos selecionados) | Iodado, na veia | Gadolínio, na veia |
| Tempo na mesa | Em geral curto | O mais rápido | O mais longo |
| Disponibilidade | Muito alta, inclusive à beira do leito | Alta em hospitais e prontos-socorros | Menor, com mais fila |
| Custo relativo | Em geral o menor | Intermediário | Em geral o maior |
| Pontos fortes | Vesícula, gravidez, criança, tireoide, tendões, vasos com Doppler | Trauma, sangramento, cálculo, abdome agudo no adulto | Fígado, cérebro, medula, articulações, pelve |
| Pontos fracos | Gás, osso, obesidade; depende de quem examina | Radiação; contraste iodado | Claustrofobia, implantes, tempo, custo |
Radiação: quanto é, de verdade
A radiação é medida em milissievert (mSv). Segundo a página de doses do RadiologyInfo, mantida pelo ACR e pela Sociedade de Radiologia da América do Norte (RSNA), uma pessoa recebe em média cerca de 3 mSv por ano da radiação natural do ambiente. Para comparação:
| Exame | Dose efetiva aproximada | Equivale à radiação natural de |
|---|---|---|
| Radiografia de tórax | 0,1 mSv | 10 dias |
| TC de crânio | 1,6 mSv | 7 meses |
| TC de tórax | 6,1 mSv | 2 anos |
| TC de abdome e pelve | 7,7 mSv | 2,6 anos |
| Ultrassom e ressonância | Sem radiação ionizante | Não se aplica |
São médias, que variam com o aparelho e o paciente. Uma TC bem indicada traz benefício muito maior que o risco, que é pequeno, mas a radiação se soma ao longo da vida e importa mais em crianças e gestantes. Por isso, quando dois exames respondem igualmente bem, tende-se a escolher o que não tem radiação.
Contraste, implantes e claustrofobia
Contraste iodado (TC):
- Reações alérgicas graves são muito raras, e os serviços estão preparados para tratá-las.
- Quem já teve reação ao contraste ou tem doença renal deve avisar antes.
Gadolínio (RM):
- Em pacientes com doença renal grave existe risco de fibrose sistêmica nefrogênica, hoje excepcionalmente raro com os agentes mais novos. Por isso se avalia a função renal antes.
- Na gravidez, o uso de gadolínio é em geral evitado e reservado a situações em que o benefício seja claro.
Implantes e marca-passo (RM):
- O campo magnético pode atrair metal e alterar o funcionamento de dispositivos eletrônicos. Marca-passo, desfibrilador, implante coclear, neuroestimulador, clipes de aneurisma antigos e fragmentos metálicos precisam ser informados.
- Muitos dispositivos modernos são condicionais para RM, ou seja, podem entrar no aparelho seguindo regras do fabricante. A decisão é do serviço de radiologia, com o modelo do dispositivo em mãos.
- A maioria das próteses ortopédicas não impede a RM. Para TC e ultrassom, implantes não são problema.
Claustrofobia: avisar antes permite usar aparelho mais aberto, quando disponível, ou um sedativo leve prescrito pelo médico, indo acompanhado.
Qual é o primeiro exame em cada situação
As recomendações abaixo resumem os Critérios de Adequação do ACR para pacientes típicos. Cada caso é avaliado pelo médico, e a clínica pode mudar a escolha.
| Situação | Primeiro exame mais comum | Quando entra outro |
|---|---|---|
| Dor abdominal em criança com suspeita de apendicite | Ultrassom | RM sem contraste ou TC se o ultrassom não esclarecer |
| Dor na vesícula (quadrante superior direito) | Ultrassom | RM com colangiorressonância ou TC se houver dúvida |
| Dor abdominal na gravidez | Ultrassom | RM sem contraste |
| Cólica renal no adulto | TC sem contraste ou ultrassom, conforme o caso | TC se o ultrassom não resolver ou houver sinais de alarme |
| Suspeita de apendicite no adulto | TC com contraste | Ultrassom em jovens e magros, conforme o serviço |
| Nódulo no fígado a caracterizar | RM com contraste (TC multifásica ou ultrassom contrastado são alternativas) | Biópsia em casos selecionados |
| Dor articular | Radiografia | Ultrassom para tendões e bursas; RM para menisco, ligamento, cartilagem e osso |
| Traumatismo de crânio agudo | TC sem contraste, quando há indicação de imagem | RM se os sintomas persistirem sem explicação |
Criança com dor abdominal
Na criança com suspeita de apendicite e risco intermediário, o ACR coloca o ultrassom como exame inicial. Ele também é o exame de escolha na invaginação intestinal e na estenose do piloro. Se o ultrassom não for conclusivo, a RM sem contraste ou a TC podem ser usadas. Em crianças com risco clínico baixo, muitas vezes nenhum exame de imagem é necessário.
Vesícula
Na dor no lado direito de cima da barriga, o ultrassom é o primeiro exame recomendado. Ele mostra cálculos, espessamento da parede e o sinal de Murphy ultrassonográfico. Quando o ultrassom não esclarece, a RM com colangiorressonância ou a TC com contraste entram como segunda etapa.
Gravidez
Na gestante, ultrassom e RM sem contraste são os métodos preferidos. Na suspeita de apendicite com febre e leucocitose, o ACR considera ambos geralmente apropriados. Na suspeita de cálculo renal, o ultrassom de rins e bexiga vem primeiro. O Colégio Americano de Obstetras e Ginecologistas (ACOG) lembra que, se a TC for realmente necessária, ela não deve ser negada só por causa da gravidez, pois as doses de exames diagnósticos costumam ficar muito abaixo das associadas a dano fetal.
Cólica renal
Aqui a escolha é mais discutida. Para o primeiro episódio de dor em flanco com suspeita de cálculo, o ACR mantém a TC de abdome e pelve sem contraste como geralmente apropriada, e o ultrassom aparece como alternativa, com divergência entre os especialistas. Por outro lado, o ensaio clínico de Smith-Bindman e colaboradores, publicado no New England Journal of Medicine em 2014, sorteou 2.759 pacientes no pronto-socorro para começar por ultrassom ou por TC. Começar pelo ultrassom reduziu a radiação acumulada sem aumentar diagnósticos graves perdidos, complicações, retornos ou internações. Detalhamos o estudo no artigo comentado sobre ultrassom ou tomografia no cálculo renal.

Na prática, muitos serviços começam pelo ultrassom em quadros típicos sem sinais de alarme e reservam a TC para dúvida diagnóstica, febre, rim único, dor que não melhora ou planejamento de tratamento.
Apendicite no adulto
No adulto com dor no lado direito de baixo da barriga, o ACR considera a TC de abdome e pelve com contraste o exame inicial geralmente apropriado, pela alta precisão e por mostrar diagnósticos alternativos. Em pacientes jovens, magros e em serviços com experiência, o ultrassom pode ser feito primeiro, e um resultado claramente positivo pode bastar. Um ultrassom em que o apêndice não foi visto, porém, não exclui apendicite. Veja como o exame é feito no guia de ultrassom na suspeita de apendicite.
Nódulo no fígado
O ultrassom é ótimo para encontrar nódulos, e alguns, como o cisto simples, são resolvidos por ele. Mas para caracterizar um nódulo indeterminado maior que 1 cm em fígado normal, o ACR considera geralmente apropriados a RM com contraste, a TC multifásica com contraste e o ultrassom com contraste de microbolhas. Na prática, a RM costuma ser a preferida pelo melhor contraste entre tecidos. Na cirrose, a lógica muda: o ultrassom a cada seis meses é o exame de vigilância, e TC ou RM confirmam os achados, como explicamos no guia de cirrose no ultrassom e rastreamento do hepatocarcinoma.
Articulações
Na dor articular, a radiografia em geral é o primeiro exame nas diretrizes do ACR, porque mostra fratura, artrose, calcificações e alterações do osso. Depois dela, o ultrassom é excelente para tendões, bursas, derrame e cistos, como no manguito rotador do ombro, e permite examinar em movimento. A RM é superior para estruturas internas: meniscos, ligamentos cruzados, cartilagem, lábio do ombro e edema ósseo.
Traumatismo de crânio
No trauma de crânio agudo com indicação de imagem, a TC sem contraste é o exame inicial: é rápida e mostra muito bem sangramento e fratura. Em traumas leves, regras clínicas validadas, como a Regra Canadense de TC de Crânio no adulto e os critérios PECARN na criança, ajudam a identificar quem pode dispensar o exame. A RM entra depois, quando os sintomas persistem sem explicação na TC.
Por que o médico às vezes pede mais de um exame
Pedir dois exames não significa que o primeiro “errou”. Os motivos mais comuns são:
- O primeiro exame encontrou algo que precisa ser caracterizado. O ultrassom vê um nódulo no fígado, e a RM diz o que ele é.
- O primeiro foi inconclusivo. Gases, obesidade ou dor intensa podem impedir a visualização completa no ultrassom.
- Planejamento de tratamento. O cirurgião pode precisar de mapa anatômico que só a TC ou a RM oferecem.
- Escalonamento por segurança. Começar pelo exame sem radiação e avançar só se necessário, a estratégia testada no estudo de Smith-Bindman.

O que descrever no laudo
Quando o ultrassom é o primeiro exame de uma cadeia, o laudo precisa ajudar o médico a decidir o próximo passo:
- Pergunta clínica e o que foi efetivamente avaliado.
- Limitações técnicas objetivas: gases, biotipo, dor, órgão parcialmente visto.
- Achados negativos relevantes, por exemplo “apêndice visualizado em toda a extensão, compressível, com 5 mm”, em vez de silêncio.
- Diferença entre “não visto” e “ausente”: cálculo não identificado não é o mesmo que ausência de cálculo.
- Medidas e localização de qualquer achado que possa ser comparado em TC ou RM.
- Sugestão de complementação, quando pertinente e de forma objetiva, como “nódulo indeterminado; considerar caracterização por método com contraste”.
Erros comuns
Achar que o exame mais caro é sempre o melhor
A RM é excelente, mas não é o primeiro exame na vesícula nem no trauma de crânio agudo. O melhor exame é o que responde à pergunta.
Esquecer de informar implantes e gravidez
Marca-passo, clipes metálicos e possibilidade de gravidez mudam a escolha. Informar antes evita cancelamento e risco.
Interpretar ultrassom negativo como exclusão
Um ultrassom sem alterações em que o órgão não foi bem visto não exclui a doença. O laudo deve deixar isso claro.
Repetir TC sem necessidade
Na litíase recorrente, por exemplo, nem todo episódio exige nova TC; em muitos casos o ultrassom basta para o seguimento.
Perguntas frequentes
Ressonância tem radiação?
Não. A RM usa campo magnético e ondas de rádio. O ultrassom também não tem radiação ionizante. Só a TC, entre os três, usa raios X.
Quem tem marca-passo pode fazer ressonância?
Depende do modelo. Muitos marca-passos modernos são condicionais para RM e podem ser examinados seguindo protocolo específico. Leve o cartão do dispositivo e avise o serviço com antecedência.
Grávida pode fazer tomografia?
Pode, quando o médico considera necessário e outros métodos não resolveram. Em geral se prefere ultrassom e RM sem contraste.
Posso trocar o exame do pedido por outro?
Não por conta própria. A escolha depende da pergunta clínica. Converse com o médico que pediu, que pode explicar o motivo ou ajustar o pedido.
Conclusão
Ultrassom, tomografia e ressonância não competem; se completam. O ultrassom, sem radiação e disponível, é o primeiro exame na vesícula, na gravidez e na dor abdominal da criança, e pode iniciar a investigação da cólica renal. A TC é a escolha inicial no trauma de crânio e na apendicite do adulto, e segue como referência no cálculo renal. A RM é a melhor para caracterizar nódulos do fígado e avaliar o interior das articulações, com atenção a implantes e claustrofobia. Quando um exame leva a outro, quase sempre é porque cada um responde a uma parte da pergunta.
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Referências
- RadiologyInfo.org (ACR e RSNA). Radiation Dose in X-Ray and CT Exams e Radiation Dose: Patient Safety. Disponível em radiologyinfo.org, acesso em outubro de 2026.
- RadiologyInfo.org (ACR e RSNA). Body MRI e CT – Abdomen and Pelvis. Disponível em radiologyinfo.org, acesso em outubro de 2026.
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- Expert Panel on Urological Imaging: Gupta RT, Kalisz K, Khatri G, et al. ACR Appropriateness Criteria® Acute Onset Flank Pain-Suspicion of Stone Disease (Urolithiasis): 2023 Update. Journal of the American College of Radiology, 2023;20(11S):S315-S328.
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- Smith-Bindman R, Aubin C, Bailitz J, et al. Ultrasonography versus computed tomography for suspected nephrolithiasis. New England Journal of Medicine, 2014;371(12):1100-1110.
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Este conteúdo tem finalidade educacional e não substitui a avaliação médica. A escolha do exame de imagem depende do quadro clínico de cada paciente e cabe ao médico que acompanha o caso.

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