O ultrassom de tireoide não precisa de preparo: não é necessário jejum, não precisa suspender remédios (incluindo a levotiroxina) e não há restrição de água ou comida. O exame é rápido, em geral leva de 15 a 30 minutos, e é feito com o paciente deitado e o pescoço levemente estendido. O Doppler costuma ser acrescentado quando o médico quer avaliar a circulação da glândula, por exemplo para diferenciar doença de Graves de tireoidite, e o TI-RADS é um sistema de pontos que classifica os nódulos de tireoide de acordo com o risco de câncer e ajuda a decidir se o nódulo precisa de punção ou só de acompanhamento.
Para quem faz o exame, o ultrassom de tireoide parece simples, mas o laudo de nódulo exige método. Um nódulo mal descrito, sem pontuação ou sem as três medidas, dificulta a comparação no exame seguinte e pode levar a punções desnecessárias ou, ao contrário, a atrasos. Este guia explica o exame para o paciente e detalha o ACR TI-RADS 2017, o que descrever no laudo e os erros mais comuns.
Ultrassom de tireoide precisa de preparo?
Não. Diferente do ultrassom de abdome, que pede jejum, ou do pélvico, que às vezes pede bexiga cheia, o exame da tireoide não exige nenhum preparo. Se você quiser entender por que alguns ultrassons pedem jejum e outros não, veja o nosso guia sobre preparo para ultrassom: jejum e bexiga cheia.
Algumas dicas práticas ajudam no dia do exame:
- Vá com roupa que deixe o pescoço livre e evite colares e gola alta.
- Leve os ultrassons e exames de sangue anteriores (TSH, T4 livre, anticorpos), principalmente se você já tem nódulo em acompanhamento. A comparação com o exame anterior é uma das informações mais úteis do laudo.
- Continue tomando seus remédios normalmente, salvo orientação diferente do seu médico.
Como o exame é feito
O paciente deita de barriga para cima, com um travesseiro ou coxim sob os ombros para estender o pescoço. O médico aplica gel e usa um transdutor linear de alta frequência, que mostra estruturas superficiais com muito detalhe. O exame não dói, não usa radiação e pode ser repetido quantas vezes for necessário.
São avaliados os dois lobos e o istmo, com medidas da glândula, textura do tecido (homogêneo ou heterogêneo), presença de nódulos e os linfonodos do pescoço. Quando há nódulos, cada um é medido em três dimensões e caracterizado. Por isso, um exame com vários nódulos costuma demorar mais.
Quando fazer o ultrassom de tireoide com Doppler
O Doppler mostra o fluxo de sangue dentro da glândula e dos nódulos. Se quiser entender melhor a técnica, temos um artigo sobre ultrassom com Doppler: o que é e para que serve. Na tireoide, ele agrega valor principalmente em três situações:
- Hipertireoidismo: na doença de Graves, a glândula costuma estar difusamente aumentada e muito vascularizada, padrão às vezes descrito como “tireoide em chamas” (thyroid inferno). Nas tireoidites destrutivas, como a tireoidite silenciosa, a pós-parto e a subaguda, a vascularização em geral está normal ou reduzida. Essa diferença ajuda o endocrinologista quando a cintilografia não está disponível ou é contraindicada, como na gestação e na amamentação.
- Tireoidite de Hashimoto: o padrão vascular varia conforme a fase da doença. O Doppler complementa, mas o diagnóstico depende dos anticorpos e da função tireoidiana.
- Nódulos e linfonodos: o Doppler mostra se o componente sólido de um nódulo tem fluxo (útil para diferenciar debris ou coágulo de tecido real) e ajuda a avaliar linfonodos, em que a vascularização periférica ou caótica é um sinal suspeito.
Um ponto importante para quem lauda: o ACR TI-RADS não usa a vascularização na pontuação dos nódulos. Os estudos que embasaram o sistema não mostraram ganho consistente ao incluir o padrão de fluxo. Descrever a vascularização não é errado, mas ela não deve alterar os pontos nem a categoria.
O que é TI-RADS
TI-RADS significa Thyroid Imaging Reporting and Data System. É um sistema padronizado para descrever nódulos de tireoide no ultrassom e estimar o risco de malignidade. Existem várias versões. A mais usada no Brasil é o ACR TI-RADS, publicado pelo American College of Radiology em 2017 (Tessler e colaboradores).
A lógica é simples: o nódulo recebe pontos em cinco grupos de características. A soma define a categoria, de TR1 (benigno) a TR5 (altamente suspeito). A categoria, junto com o maior diâmetro do nódulo, indica se deve ser feita punção aspirativa por agulha fina (PAAF), acompanhamento com ultrassom ou nada.
As cinco categorias de características e os pontos
Em cada um dos quatro primeiros grupos, escolhe-se uma única opção. No grupo dos focos ecogênicos, todas as opções presentes são somadas.
| Grupo | Característica | Pontos |
|---|---|---|
| Composição | Cístico ou quase completamente cístico | 0 |
| Espongiforme | 0 | |
| Misto cístico e sólido | 1 | |
| Sólido ou quase completamente sólido | 2 | |
| Ecogenicidade | Anecoico | 0 |
| Hiperecoico ou isoecoico | 1 | |
| Hipoecoico | 2 | |
| Muito hipoecoico | 3 | |
| Forma | Mais largo que alto | 0 |
| Mais alto que largo | 3 | |
| Margem | Lisa | 0 |
| Mal definida | 0 | |
| Lobulada ou irregular | 2 | |
| Extensão extratireoidiana | 3 | |
| Focos ecogênicos | Nenhum ou artefato em cauda de cometa grande | 0 |
| Macrocalcificações | 1 | |
| Calcificações periféricas (em anel) | 2 | |
| Focos ecogênicos puntiformes | 3 |
Algumas regras do ACR ajudam nos casos difíceis:
- Espongiforme é o nódulo composto em mais de 50% por pequenos espaços císticos. Ele recebe 0 ponto e não se somam pontos dos outros grupos.
- Muito hipoecoico é o nódulo mais escuro que os músculos pré-tireoidianos (alça). Hipoecoico é mais escuro que o parênquima tireoidiano, mas não mais que os músculos.
- Se a composição não puder ser avaliada por causa de calcificação, atribui-se 2 pontos. Se a ecogenicidade não puder ser avaliada, atribui-se 1 ponto.
- A forma mais alto que largo é avaliada no plano transversal: o diâmetro anteroposterior é maior que o transversal.
- Mal definida não é o mesmo que irregular. Uma margem difícil de separar do parênquima, sem espículas ou projeções, continua com 0 ponto.
- Focos ecogênicos puntiformes incluem as microcalcificações e os pequenos focos com artefato em cauda de cometa dentro de componente sólido. O artefato em cauda de cometa grande, típico de coloide em área cística, vale 0.
Categorias, pontuação e conduta
| Categoria | Pontos | Interpretação | PAAF se maior diâmetro | Acompanhamento se maior diâmetro |
|---|---|---|---|---|
| TR1 | 0 | Benigno | Não indicada | Não indicado |
| TR2 | 2 | Não suspeito | Não indicada | Não indicado |
| TR3 | 3 | Levemente suspeito | ≥ 2,5 cm | ≥ 1,5 cm |
| TR4 | 4 a 6 | Moderadamente suspeito | ≥ 1,5 cm | ≥ 1,0 cm |
| TR5 | 7 ou mais | Altamente suspeito | ≥ 1,0 cm | ≥ 0,5 cm |
A tabela do ACR lista TR1 com 0 ponto e TR2 com 2 pontos. Na prática, somas intermediárias são raras, e o mais seguro é seguir a soma e o quadro oficial do ACR.
Quando o nódulo fica abaixo do limite de acompanhamento, em geral não precisa de novo ultrassom só por causa dele. Para o seguimento, o ACR sugere, em geral:
- TR5: ultrassom anual por até 5 anos.
- TR4: ultrassom em 1, 2, 3 e 5 anos.
- TR3: ultrassom em 1, 3 e 5 anos.
O ACR considera crescimento significativo o aumento de pelo menos 20% em pelo menos duas dimensões, com aumento mínimo de 2 mm, ou aumento de 50% ou mais no volume. Se o nódulo fica estável por 5 anos, o acompanhamento pode ser encerrado. Quando há muitos nódulos, o ACR recomenda descrever e pontuar no máximo os quatro com maior pontuação, e não necessariamente os maiores.
Exemplo de pontuação
Um nódulo sólido (2), hipoecoico (2), mais largo que alto (0), de margem lisa (0) e sem focos ecogênicos (0) soma 4 pontos: TR4. Com 1,2 cm de maior diâmetro, fica indicado acompanhamento. Com 1,6 cm, fica indicada PAAF. Se o mesmo nódulo tivesse focos ecogênicos puntiformes (+3), somaria 7 pontos e passaria a TR5, com PAAF a partir de 1,0 cm.
Outros sistemas usados no Brasil
Além do ACR TI-RADS, dois sistemas aparecem com frequência em laudos e em diretrizes:
- EU-TIRADS (2017): proposto pela European Thyroid Association. Não usa pontos, e sim um padrão: a presença de qualquer característica de alto risco (forma não oval ou mais alta que larga, margem irregular, microcalcificações, hipoecogenicidade acentuada) define EU-TIRADS 5. Os limites de punção são, em geral, acima de 20 mm para EU-TIRADS 3, acima de 15 mm para 4 e acima de 10 mm para 5.
- K-TIRADS: sistema coreano, revisado em 2021, também baseado em padrões e com limites de punção próprios, em geral mais baixos que os do ACR.
O importante é dizer no laudo qual sistema foi usado e não misturar critérios. Um “TR4” do ACR e um “EU-TIRADS 4” não são a mesma coisa. A diretriz da American Thyroid Association de 2015 (Haugen e colaboradores) também traz padrões ultrassonográficos de risco e continua sendo citada por endocrinologistas.
O que descrever no laudo
Um bom laudo de ultrassom de tireoide permite que outro médico, meses depois, encontre o mesmo nódulo e compare. Em geral, deve conter:
Glândula
- Dimensões de cada lobo (longitudinal, transversal e anteroposterior) e espessura do istmo. Volume, quando calculado.
- Ecotextura: homogênea ou heterogênea. Ecogenicidade do parênquima.
- Padrão de vascularização ao Doppler, quando realizado.
Cada nódulo relevante
- Localização: lobo, terço (superior, médio, inferior) e posição (anterior, posterior, medial, lateral), ou istmo.
- Três dimensões, com o maior diâmetro destacado, já que é ele que define a conduta.
- Composição, ecogenicidade, forma, margem e focos ecogênicos, com os pontos de cada grupo.
- Soma de pontos e categoria TI-RADS, com o nome do sistema usado.
- Recomendação conforme o tamanho: PAAF, acompanhamento ou nenhum seguimento.
- Comparação com exame anterior: estável, cresceu (em quanto) ou diminuiu.
Linfonodos cervicais
- Presença de linfonodos com características suspeitas: forma arredondada, perda do hilo ecogênico, focos ecogênicos, componente cístico, hiperecogenicidade semelhante à tireoide ou vascularização periférica.
- Localização por nível cervical (I a VI), quando possível.
Conclusão
- Uma conclusão objetiva, por exemplo: “Nódulo no terço médio do lobo direito, ACR TI-RADS TR4 (4 pontos), com 1,6 cm de maior diâmetro. Critério de PAAF pelo ACR TI-RADS.”
Erros comuns
Medir só uma ou duas dimensões
Sem as três medidas, não dá para calcular volume nem aplicar o critério de crescimento. Meça sempre o longitudinal, o transversal e o anteroposterior, e no mesmo padrão nos exames seguintes.
Avaliar “mais alto que largo” no plano errado
A forma é avaliada no plano transversal. No longitudinal, um nódulo pode parecer mais alto que largo sem ser. Esse erro acrescenta 3 pontos de uma vez.
Confundir margem mal definida com irregular
Margem mal definida vale 0. Irregular ou lobulada vale 2. Chamar de irregular um nódulo apenas pouco delimitado sobe a categoria sem motivo.
Chamar todo ponto brilhante de microcalcificação
O artefato em cauda de cometa grande, em área cística, é sinal de coloide e vale 0. Só os focos puntiformes no componente sólido valem 3.
Usar o Doppler para pontuar
No ACR TI-RADS, a vascularização não entra na soma. Descreva se quiser, mas não use para mudar a categoria.
Não informar o sistema usado nem a conduta
“TI-RADS 4” sozinho é ambíguo. Informe o sistema, a soma de pontos e a recomendação correspondente ao tamanho.
Perguntas frequentes
Ultrassom de tireoide precisa de jejum?
Não. O exame não exige jejum nem qualquer outro preparo. Você pode comer, beber e tomar seus remédios normalmente.
Quanto tempo dura o ultrassom de tireoide?
Em geral de 15 a 30 minutos. Exames com muitos nódulos ou com Doppler podem levar um pouco mais.
O ultrassom de tireoide mostra se o nódulo é câncer?
Não com certeza. O ultrassom estima o risco pelo TI-RADS. A confirmação, quando necessária, é feita pela punção (PAAF) e pela análise das células.
TI-RADS 3 é perigoso?
TR3 significa nódulo levemente suspeito, com risco baixo de malignidade. Em geral, só se indica punção a partir de 2,5 cm e acompanhamento a partir de 1,5 cm. Quem define a conduta é o seu médico.
Preciso fazer o Doppler junto?
Depende do pedido médico. Para avaliar nódulos pelo ACR TI-RADS, o Doppler não é obrigatório. Ele é mais útil na investigação de hipertireoidismo e de linfonodos.
Com que frequência devo repetir o ultrassom se tenho nódulo?
Depende da categoria e do tamanho. Nódulos TR1 e TR2 em geral não precisam de seguimento. Para TR3 a TR5, o intervalo varia de 1 a 2 anos, conforme a tabela do ACR e a avaliação do endocrinologista.
Conclusão
O ultrassom de tireoide é um exame simples para o paciente, sem preparo e sem desconforto. O Doppler entra quando a pergunta é sobre circulação, como no hipertireoidismo, e o TI-RADS organiza a avaliação dos nódulos em pontos, categoria e conduta. Para quem lauda, o segredo está no método: três medidas, cada grupo de características pontuado, soma correta, sistema identificado e recomendação clara.
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Referências
- Tessler FN, Middleton WD, Grant EG, et al. ACR Thyroid Imaging, Reporting and Data System (TI-RADS): White Paper of the ACR TI-RADS Committee. Journal of the American College of Radiology, 2017.
- Grant EG, Tessler FN, Hoang JK, et al. Thyroid Ultrasound Reporting Lexicon: White Paper of the ACR Thyroid Imaging, Reporting and Data System (TIRADS) Committee. Journal of the American College of Radiology, 2015.
- Russ G, Bonnema SJ, Erdogan MF, et al. European Thyroid Association Guidelines for Ultrasound Malignancy Risk Stratification of Thyroid Nodules in Adults: The EU-TIRADS. European Thyroid Journal, 2017.
- Haugen BR, Alexander EK, Bible KC, et al. 2015 American Thyroid Association Management Guidelines for Adult Patients with Thyroid Nodules and Differentiated Thyroid Cancer. Thyroid, 2016.
- Ha EJ, Chung SR, Na DG, et al. 2021 Korean Thyroid Imaging Reporting and Data System and Imaging-Based Management of Thyroid Nodules. Korean Journal of Radiology, 2021.
- Ross DS, Burch HB, Cooper DS, et al. 2016 American Thyroid Association Guidelines for Diagnosis and Management of Hyperthyroidism and Other Causes of Thyrotoxicosis. Thyroid, 2016.
Este conteúdo tem finalidade educacional e não substitui a avaliação médica. A indicação do exame, a interpretação do resultado e a decisão sobre punção ou acompanhamento cabem ao médico que acompanha o paciente.

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