Ultrassom de aorta abdominal: aneurisma, medidas e rastreamento

Ilustração de ultrassom de aorta abdominal com transdutor sobre o abdome e a aorta em destaque

O ultrassom de aorta abdominal é o exame que mede o calibre da maior artéria do abdome para descobrir se existe um aneurisma, uma dilatação da parede do vaso. Considera-se aneurisma de aorta abdominal quando o diâmetro chega a 3,0 cm ou mais. O exame é rápido, não usa radiação nem contraste e, em geral, pede jejum de 6 a 8 horas para reduzir os gases intestinais. Pela recomendação da força-tarefa americana USPSTF (2019), o rastreamento com uma única ultrassonografia é indicado para homens de 65 a 75 anos que já fumaram em algum momento da vida.

Para quem faz o exame, a aorta parece simples, mas a forma de medir muda o número final, e o número final muda a conduta. Este guia explica para o paciente o que é o aneurisma e quem deve ser rastreado, e para o profissional detalha técnica, métodos de medida, intervalos de acompanhamento, limiares de cirurgia e os erros mais comuns.

O que é um aneurisma de aorta abdominal

A aorta sai do coração, desce pelo tórax, atravessa o diafragma e percorre o abdome até se dividir nas artérias ilíacas, mais ou menos na altura do umbigo. Com a idade, o tabagismo, a hipertensão e a predisposição familiar, a parede da aorta pode enfraquecer e se dilatar. Essa dilatação permanente é o aneurisma.

A maioria dos aneurismas fica abaixo das artérias renais (infrarrenais) e cresce devagar, sem sintomas. O risco principal é a ruptura, que causa sangramento interno grave e costuma ser fatal quando não tratada a tempo. Por isso a ideia do rastreamento é encontrar o aneurisma antes que ele cresça o bastante para romper, acompanhá-lo com exames periódicos e indicar o reparo no momento certo.

Na maior parte das vezes, o aneurisma é descoberto por acaso, em um ultrassom ou tomografia feitos por outro motivo. Quando dá sintomas, pode haver dor abdominal ou lombar, ou uma massa pulsátil percebida no abdome. Dor súbita e intensa em quem sabe que tem aneurisma é uma emergência.

Precisa de jejum para ultrassom de aorta?

Em geral, sim. O jejum de 6 a 8 horas diminui a quantidade de gases no intestino, que bloqueiam o ultrassom e escondem a aorta. Água em pequena quantidade costuma ser liberada, e remédios de uso contínuo normalmente são mantidos, mas vale seguir a orientação da clínica. Se o pedido incluir outros órgãos, como no ultrassom de abdome total, o preparo pode ser um pouco diferente.

O exame dura poucos minutos. A pessoa fica deitada de barriga para cima, o médico passa gel e pressiona o transdutor no meio do abdome. A pressão pode incomodar um pouco, mas não dói.

Quem deve fazer rastreamento de aneurisma de aorta

A recomendação mais citada é a da U.S. Preventive Services Task Force (USPSTF), publicada em 2019:

Grupo Recomendação USPSTF 2019
Homens de 65 a 75 anos que já fumaram Rastreamento único com ultrassom (grau B)
Homens de 65 a 75 anos que nunca fumaram Oferecer de forma seletiva, conforme história e fatores de risco (grau C)
Mulheres de 65 a 75 anos que já fumaram ou têm história familiar Evidência insuficiente para recomendar a favor ou contra (grau I)
Mulheres que nunca fumaram e sem história familiar Não recomendado (grau D)

Na definição da USPSTF, “já fumou” significa ter fumado pelo menos 100 cigarros na vida. As diretrizes de sociedades vasculares, como a europeia (ESVS) e a americana (SVS), também apoiam o rastreamento em homens idosos e discutem a avaliação de outros grupos, como parentes de primeiro grau de pessoas com aneurisma. A decisão de rastrear quem está fora desses grupos deve ser conversada com o médico.

Técnica do exame para o profissional

Transdutor e posicionamento

Usa-se, em geral, um transdutor convexo de baixa frequência, com o paciente em decúbito dorsal. A aorta é avaliada do hiato diafragmático até a bifurcação, em cortes transversais e longitudinais, e depois as ilíacas comuns. Quando os gases atrapalham, ajudam:

  • compressão gradual e sustentada com o transdutor, empurrando as alças;
  • decúbito lateral esquerdo ou direito, usando o fígado ou o rim como janela (abordagem coronal);
  • inspiração profunda para baixar o fígado e melhorar a janela superior.

Pontos de medida

Em geral, mede-se a aorta em três níveis: proximal (perto do tronco celíaco e da mesentérica superior), médio (região das renais) e distal (acima da bifurcação), além do maior diâmetro encontrado em qualquer ponto. As ilíacas comuns são medidas logo após a bifurcação.

A medida deve ser feita perpendicular ao eixo longo do vaso. Em uma aorta tortuosa, o corte transversal “puro” do paciente pode cortar o vaso em diagonal e superestimar o diâmetro. Por isso, o ideal é alinhar o corte ao eixo da aorta naquele segmento, e não ao eixo do corpo.

O Doppler colorido não é obrigatório para medir o calibre, mas ajuda a diferenciar luz pérvia de trombo mural e a confirmar fluxo nas ilíacas. Se precisar revisar os ajustes, veja o guia de ultrassom com Doppler.

Medida externa ou interna: qual usar

Existem três formas principais de colocar os calipers na aorta:

Método Onde ficam os calipers Comentário
Externa a externa (outer-to-outer, OTO) Borda externa da parede anterior até a borda externa da parede posterior Usado em muitos estudos e diretrizes; dá os maiores valores
Interna a interna (inner-to-inner, ITI) Borda interna da parede anterior até a borda interna da posterior Método do estudo MASS e do programa nacional de rastreamento inglês (NAAASP); valores alguns milímetros menores
Borda de ataque (leading edge to leading edge, LELE) Borda externa da parede anterior até a borda interna da posterior Considerado mais reprodutível por alguns autores; valor intermediário

A diferença entre os métodos é de alguns milímetros, o que pode bastar para um paciente mudar de categoria. A diretriz da ESVS de 2024 dá ênfase, em linhas gerais, a usar um método padronizado e consistente, para que os exames seriados sejam comparáveis. Na prática, o mais importante é: escolher um método, usá-lo sempre do mesmo jeito e escrever no laudo qual foi usado.

Também se discute medir o diâmetro anteroposterior ou o maior diâmetro em qualquer eixo. Em aortas ovaladas, o diâmetro transverso pode ser maior, mas também é mais sujeito a erro por causa da resolução lateral do ultrassom. Siga o protocolo do serviço e registre os dois quando houver diferença relevante.

Valores de referência e conduta pelo tamanho

O critério mais usado para aneurisma de aorta abdominal é o diâmetro de 3,0 cm ou mais. Abaixo disso, a aorta pode ser normal ou ectásica, e o calibre esperado varia com sexo, idade e superfície corporal.

Os intervalos de acompanhamento abaixo comparam a diretriz da Society for Vascular Surgery (SVS, 2018) com a diretriz europeia (ESVS 2024). Para homens, a ESVS 2024 sugere novo exame a cada 5 anos entre 25 e 29 mm, a cada 3 anos entre 30 e 39 mm, anual entre 40 e 49 mm e a cada 6 meses a partir de 50 mm. Para mulheres, a ESVS usa cortes diferentes: seguimento anual entre 40 e 44 mm e a cada 6 meses a partir de 45 mm. Os intervalos variam entre diretrizes e programas: o programa nacional de rastreamento inglês (NAAASP), por exemplo, mede de parede interna a parede interna e repete o ultrassom anualmente entre 3,0 e 4,4 cm e a cada 3 meses entre 4,5 e 5,4 cm. O intervalo final é sempre definido pelo cirurgião vascular.

Diâmetro máximo SVS 2018 ESVS 2024 (homens)
2,5 a 2,9 cm Novo exame em cerca de 10 anos Novo exame em cerca de 5 anos
3,0 a 3,9 cm Ultrassom a cada 3 anos Ultrassom a cada 3 anos
4,0 a 4,9 cm Ultrassom anual Ultrassom anual
5,0 a 5,4 cm Ultrassom a cada 6 meses Ultrassom a cada 6 meses

Quanto ao reparo eletivo, a ESVS 2024 considera, em geral, o limiar de 5,5 cm em homens e 5,0 cm em mulheres. Crescimento rápido e sintomas, como dor ou sensibilidade à palpação, também levam à avaliação do cirurgião independentemente do diâmetro. O ultrassom informa o tamanho; a indicação de cirurgia aberta ou endovascular depende de tomografia e da avaliação clínica.

Artérias ilíacas e trombo mural

Ilíacas

As artérias ilíacas comuns devem fazer parte de todo exame de aorta. Aneurismas ilíacos podem acompanhar o aneurisma aórtico ou existir isoladamente, e a extensão para as ilíacas influencia o planejamento do reparo, principalmente o endovascular. Em geral, considera-se dilatação quando o calibre está claramente acima do esperado para o segmento; registre o diâmetro de cada lado e se a dilatação começa logo na bifurcação. As ilíacas internas são mais difíceis de ver por via abdominal, e a limitação deve constar no laudo.

Trombo mural

Boa parte dos aneurismas tem trombo mural, que aparece como material ecogênico, muitas vezes em camadas, aderido à parede e reduzindo a luz pérvia. Dois cuidados:

  • o diâmetro do aneurisma inclui o trombo. Medir só a luz com fluxo subestima muito o tamanho;
  • trombo hipoecoico pode ser confundido com luz. Doppler colorido e ajuste de ganho ajudam a separar.

Também vale descrever calcificação parietal, placas e, quando visível, flap intimal (sugestivo de dissecção), achado que exige comunicação imediata.

O que descrever no laudo

Um laudo de aorta abdominal útil para o cirurgião vascular traz:

  • qualidade do exame e segmentos não visualizados por gases ou biotipo;
  • método de medida (externa a externa, interna a interna ou borda de ataque) e se o diâmetro é anteroposterior ou máximo;
  • diâmetros da aorta proximal, média e distal;
  • maior diâmetro do aneurisma, com o eixo em que foi medido;
  • forma (fusiforme ou sacular) e extensão craniocaudal;
  • relação com as artérias renais (infrarrenal, justarrenal ou suprarrenal), quando possível definir;
  • distância entre as renais e o início do aneurisma (colo proximal), se avaliável;
  • trombo mural: presença, espessura e diâmetro da luz pérvia;
  • artérias ilíacas comuns: diâmetros e presença de extensão do aneurisma;
  • placas, calcificações, flap intimal ou coleções periaórticas;
  • comparação com exame anterior, com a taxa de crescimento, se houver dado.

Na conclusão, informe o maior diâmetro e a classificação objetiva (“aneurisma fusiforme infrarrenal da aorta abdominal, com diâmetro máximo de 4,3 cm, medida externa a externa”). Evite prescrever conduta: sugira correlação com o cirurgião vascular quando adequado.

Erros comuns

Medida oblíqua

É o erro mais frequente. Em aorta tortuosa ou angulada, o corte transversal oblíquo vira uma elipse e superestima o diâmetro. Confirme o eixo no corte longitudinal e meça perpendicular a ele.

Gases intestinais

Gases podem esconder segmentos inteiros, principalmente a aorta média e a bifurcação. Use compressão gradual, janelas laterais e, se o segmento continuar oculto, diga isso no laudo em vez de considerá-lo normal.

Trocar de método entre exames

Comparar um exame com medida externa a externa com outro feito interna a interna pode simular crescimento ou estabilidade que não existem. Mantenha o método e registre-o.

Medir só a luz com fluxo

Ignorar o trombo mural leva a subestimar o aneurisma, às vezes de forma importante. A parede externa é o limite.

Esquecer as ilíacas

Um aneurisma ilíaco isolado passa despercebido se o exame parar na bifurcação.

Confundir estruturas

Linfonodos retroperitoneais, veia cava, um rim em ferradura ou uma alça com líquido podem imitar a aorta ou um aneurisma. Siga o vaso em toda a extensão e confirme com Doppler.

Perguntas frequentes

Ultrassom de aorta precisa de jejum?

Em geral, sim: de 6 a 8 horas, para reduzir os gases. Siga a orientação da clínica sobre água e medicamentos. Veja mais em preparo e jejum para ultrassom.

O que é considerado aneurisma de aorta abdominal?

Na maioria das diretrizes, um diâmetro de 3,0 cm ou mais na aorta abdominal.

Quem deve fazer o rastreamento?

Pela USPSTF (2019), homens de 65 a 75 anos que já fumaram devem fazer um ultrassom de rastreamento uma vez. Para outros grupos, a decisão é individual.

Ultrassom de aorta é o mesmo que Doppler de aorta?

Não exatamente. O ultrassom mede o calibre e a parede. O Doppler acrescenta a avaliação do fluxo. Muitos serviços fazem os dois no mesmo exame.

Se o aneurisma for pequeno, preciso operar?

Na maioria das vezes, não. Aneurismas pequenos são acompanhados com exames periódicos e controle dos fatores de risco, como parar de fumar e tratar a pressão. A cirurgia é considerada quando o diâmetro chega ao limiar definido pelas diretrizes ou quando há crescimento rápido ou sintomas.

O ultrassom substitui a tomografia?

Para rastreamento e seguimento, o ultrassom costuma ser suficiente. Para planejar a cirurgia, a tomografia com contraste é, em geral, o exame de escolha.

Conclusão

O ultrassom de aorta abdominal é um exame simples, barato e sem radiação que detecta e acompanha aneurismas antes que eles rompam. Para o paciente, o principal é saber se está no grupo de rastreamento e fazer o preparo com jejum. Para o profissional, o valor do exame depende da medida: corte perpendicular ao eixo, método consistente e informado no laudo, trombo incluído no diâmetro e ilíacas sempre avaliadas.

Para entender a evidência por trás do rastreamento, leia o nosso artigo comentado sobre o estudo MASS.

Se você quer que método de medida, diâmetros por segmento, trombo mural, ilíacas e comparação com exames anteriores tenham campo próprio no seu laudo de aorta, conheça o UltraLaudo, plataforma de laudos estruturados de ultrassonografia.


Referências

  • US Preventive Services Task Force. Screening for Abdominal Aortic Aneurysm: US Preventive Services Task Force Recommendation Statement. JAMA, 2019;322(22):2211-2218.
  • Wanhainen A, Van Herzeele I, Bastos Goncalves F, et al. European Society for Vascular Surgery (ESVS) 2024 Clinical Practice Guidelines on the Management of Abdominal Aorto-Iliac Artery Aneurysms. European Journal of Vascular and Endovascular Surgery, 2024.
  • Chaikof EL, Dalman RL, Eskandari MK, et al. The Society for Vascular Surgery practice guidelines on the care of patients with an abdominal aortic aneurysm. Journal of Vascular Surgery, 2018;67(1):2-77.
  • AIUM. AIUM Practice Parameter for the Performance of Diagnostic and Screening Ultrasound Examinations of the Abdominal Aorta in Adults. Journal of Ultrasound in Medicine (versão vigente).
  • Pellerito JS, Polak JF. Introduction to Vascular Ultrasonography. 7ª edição. Elsevier, 2019.

Este conteúdo tem finalidade educacional e não substitui a avaliação médica. A indicação do rastreamento, a interpretação do exame e a decisão sobre tratamento cabem ao médico que acompanha o paciente.

Respostas

  1. Avatar de MASS: rastreamento do aneurisma de aorta abdominal com ultrassom (Ashton, Lancet 2002): artigo comentado – UltraLaudo Blog

    […] O MASS respondeu à pergunta com o desenho mais forte possível e com um tamanho de amostra capaz de medir um desfecho raro: morte relacionada ao aneurisma. Para quem faz ultrassom, a dor é outra e muito concreta: o programa só funciona se a medida for confiável. Um erro de 3 ou 4 milímetros pode mandar um paciente para o cirurgião antes da hora ou atrasar uma indicação. Para a parte básica do exame, veja também o nosso guia de ultrassom de aorta abdominal. […]

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