O ultrassom de abdome em crianças é, em geral, o primeiro exame de imagem na dor abdominal e nos vômitos da infância, porque não usa radiação, não precisa de sedação e responde bem às três dúvidas mais urgentes da pediatria: invaginação intestinal, estenose hipertrófica do piloro e apendicite. Na invaginação, o exame mostra o “sinal do alvo”, geralmente no lado direito do abdome. Na estenose do piloro, mede o músculo do piloro, que fica espessado, em geral com 3 mm ou mais, e o canal alongado, com cerca de 15 a 17 mm ou mais. Na apendicite, procura um apêndice com mais de 6 mm de diâmetro e que não se comprime com a pressão do transdutor. Se o exame for inconclusivo, pode ser repetido ou complementado.
Para quem faz o exame, o abdome pediátrico tem particularidades: a criança nem sempre colabora e a decisão clínica depende de detalhes que precisam estar no laudo. Este guia reúne o que os pais precisam saber e o que o profissional deve observar e descrever.
Por que o ultrassom é o primeiro exame em crianças
As crianças são mais sensíveis à radiação ionizante do que os adultos e têm mais anos de vida pela frente para que um eventual efeito apareça. Por isso, campanhas internacionais como a Image Gently recomendam preferir métodos sem radiação sempre que eles respondem à pergunta clínica.
Além disso, o ultrassom dispensa sedação, é feito em tempo real (permite ver o peristaltismo, a passagem de líquido pelo piloro e a compressão do apêndice), tem imagem muito boa na parede abdominal fina da criança e pode ser repetido sem preocupação com dose. A principal limitação é a dependência do examinador. Se quiser entender melhor a segurança do método, veja o texto sobre se o ultrassom faz mal ou dói.
Preparo: como deixar a criança tranquila
Nos exames de urgência, como na suspeita de invaginação ou apendicite, em geral não se exige jejum, porque o diagnóstico não pode esperar. Nos exames eletivos de abdome total, muitos serviços pedem um jejum curto, adaptado à idade, e a orientação varia de um lugar para outro. Siga sempre o que o serviço informar.
Algumas dicas ajudam bastante:
- Bebês: se o serviço permitir, mamar pouco antes ou durante o exame acalma. Na suspeita de estenose do piloro, o examinador pode até oferecer leite ou soro durante o exame para ver o esvaziamento do estômago.
- Crianças pequenas: levar um brinquedo ou um vídeo no celular para distrair.
- Crianças maiores: explicar antes que o exame não dói e que o gel é gelado.
- Bexiga cheia: quando a pelve também será avaliada, pode ser pedido que a criança beba água e não urine antes.
Invaginação intestinal
A invaginação intestinal (intussuscepção) acontece quando um segmento do intestino entra dentro do segmento seguinte, como um telescópio. É uma das causas mais comuns de obstrução intestinal em crianças pequenas, principalmente entre 3 meses e 3 anos. Na maioria das vezes é ileocólica: o final do intestino delgado (íleo) entra no cólon. Em geral não há causa estrutural: o tecido linfoide aumentado, muitas vezes após uma virose, funciona como ponto de partida.
Os sintomas clássicos são cólica forte e intermitente, vômitos, sonolência entre as crises e, mais tarde, fezes com sangue e muco.
O que o ultrassom mostra
No corte transversal, a invaginação aparece como uma imagem arredondada com anéis concêntricos, alternadamente claros e escuros, chamada sinal do alvo ou “rosquinha”. No corte longitudinal, as camadas sobrepostas podem lembrar um rim, o sinal do pseudorrim. Em mãos experientes, o ultrassom tem sensibilidade e especificidade muito altas para a invaginação ileocólica e é hoje o exame de escolha para o diagnóstico.

Ileocólica ou de delgado: por que o tamanho importa
Nem toda invaginação precisa de tratamento. As invaginações só de intestino delgado (delgado-delgado) costumam ser pequenas, ficam em qualquer parte do abdome, muitas vezes na região central, e frequentemente se desfazem sozinhas. Já a ileocólica fica tipicamente no lado direito, abaixo do fígado, é maior e em geral precisa ser reduzida.
| Característica | Ileocólica | Delgado-delgado |
|---|---|---|
| Localização típica | Lado direito, junto ao cólon ascendente ou abaixo do fígado | Variável, muitas vezes periumbilical ou à esquerda |
| Diâmetro | Em geral maior que 2,5 cm | Em geral menor que 2,5 cm |
| Comprimento | Longo | Curto; segmentos menores que 3,5 cm costumam ser transitórios |
| Linfonodos dentro da invaginação | Frequentes | Pouco frequentes |
| Conduta habitual | Redução por enema (ar ou líquido) | Muitas vezes observação e novo ultrassom |
Os números são referências práticas de estudos de série, não regras absolutas. Uma invaginação de delgado longa, persistente, com obstrução ou com ponto de partida visível merece atenção.
O que influencia o tratamento
A invaginação ileocólica costuma ser tratada com enema de ar ou de líquido, guiado por radioscopia ou pelo próprio ultrassom. Alguns achados ajudam o cirurgião e o radiologista a planejar:
- Líquido preso entre as camadas e ausência de fluxo ao Doppler sugerem sofrimento da parede e associam-se a mais falhas de redução, mas não contraindicam sozinhos a tentativa.
- Líquido livre em pequena quantidade é comum; ar livre ou sinais de peritonite mudam a conduta.
Estenose hipertrófica do piloro
O piloro é o músculo que controla a saída do estômago para o intestino. Na estenose hipertrófica do piloro, esse músculo engrossa e alonga nas primeiras semanas de vida, e o leite não consegue passar. O quadro típico aparece entre 2 e 12 semanas de vida, mais frequentemente entre 3 e 6 semanas: vômitos em jato, sem bile, logo após as mamadas, com o bebê faminto em seguida. Sem tratamento, o bebê perde peso e desidrata. O tratamento é cirúrgico (piloromiotomia), com ótimos resultados.
Critérios no ultrassom
O exame é feito com transdutor linear, com o bebê em decúbito dorsal ou levemente virado para a direita, o que ajuda o líquido do estômago a chegar ao piloro. As medidas mais usadas são:
| Medida | Valor sugestivo de estenose | Observação |
|---|---|---|
| Espessura do músculo (uma parede) | 3 mm ou mais | Medir só a camada muscular, sem a mucosa |
| Comprimento do canal pilórico | Cerca de 15 a 17 mm ou mais | O ponto de corte varia entre as publicações |
| Passagem de conteúdo | Ausente ou mínima durante a observação | Avaliar por alguns minutos |
Além dos números, o examinador procura o sinal do mamilo antral (mucosa redundante fazendo saliência no antro) e o sinal do ombro (músculo espessado abaulando o antro cheio). O diagnóstico é mais confiável quando medidas e dinâmica concordam: um piloro espessado, alongado e que não se abre durante a observação.

Valores limítrofes e pilorospasmo
Medidas logo abaixo do limite são uma zona cinzenta: descreva a dúvida e sugira reavaliação em curto prazo, porque a estenose pode estar em evolução. O pilorospasmo engrossa o músculo de forma transitória, mas o canal se abre em algum momento e as medidas mudam. Em prematuros, alguns autores aceitam valores um pouco menores.
Apendicite em crianças
A apendicite é a causa cirúrgica mais comum de dor abdominal aguda na infância. Em crianças pequenas, o quadro é atípico e a perfuração é mais frequente. Explicamos a técnica de compressão gradual e o laudo do apêndice em detalhes no texto sobre ultrassom na suspeita de apendicite.
Os principais critérios usados em crianças:
- Diâmetro maior que 6 mm, medido de parede externa a parede externa, no corte transversal. Alguns estudos sugerem que valores acima de 7 mm aumentam a especificidade; entre 6 e 7 mm, os sinais associados pesam mais.
- Apêndice que não se comprime com a pressão gradual do transdutor.
- Gordura ao redor mais ecogênica (mais clara), sinal de inflamação do mesentério.
- Aumento do fluxo na parede ao Doppler, nas fases iniciais.
- Apendicolito, líquido ao redor, coleção ou perda da camada submucosa, que sugerem quadro complicado ou perfuração.
Um apêndice normal, visto por inteiro, compressível e com diâmetro de até 6 mm, praticamente afasta a doença. Já um apêndice não visualizado, sem sinais secundários, reduz a probabilidade, mas não exclui apendicite.
Adenite mesentérica: o diagnóstico que confunde
A adenite mesentérica é a inflamação dos linfonodos do mesentério, em geral na fossa ilíaca direita, quase sempre associada a viroses. Ela causa dor parecida com a da apendicite e é uma das causas mais comuns de dor abdominal em crianças.
No ultrassom, aparecem vários linfonodos aumentados. A definição mais usada é de três ou mais linfonodos agrupados com eixo curto maior que 5 mm, às vezes com espessamento discreto da parede do íleo terminal. O ponto central é que adenite mesentérica é diagnóstico de exclusão: só deve ser sugerida quando o apêndice foi visto e está normal. Linfonodos aumentados também acompanham a apendicite e a invaginação.
Quando outros exames são necessários
O ultrassom resolve a maioria dos casos, mas outros exames entram em situações específicas:
- Apendicite inconclusiva: apêndice não visto com sinais secundários, ou exame negativo com suspeita clínica alta. Pode-se repetir o ultrassom após algumas horas ou fazer ressonância, preferida à tomografia em crianças quando disponível.
- Vômito com bile em recém-nascido: é uma emergência, pela possibilidade de má rotação com volvo. O ultrassom pode sugerir, mas o estudo contrastado do trato digestivo alto continua sendo a referência na maioria dos protocolos.
- Invaginação com suspeita de perfuração ou criança instável: a decisão passa pela cirurgia.
- Massa abdominal ou ponto de partida patológico: tomografia ou ressonância complementam.
Na pediatria há ainda outros ultrassons específicos, como o ultrassom de quadril do bebê, que segue a mesma lógica de evitar radiação e usar o tempo real.
O que descrever no laudo
O laudo deve responder à pergunta clínica de forma direta e registrar o que sustenta a resposta.
Invaginação intestinal
- Presença, localização e tipo provável (ileocólica ou delgado-delgado).
- Diâmetro transverso e, nas de delgado, comprimento.
- Líquido preso entre as camadas e fluxo ao Doppler.
- Linfonodos ou ponto de partida patológico.
- Líquido livre, com aspecto, e sinais de obstrução ou perfuração.
Estenose hipertrófica do piloro
- Espessura do músculo pilórico e comprimento do canal, com o plano de medida.
- Passagem ou não de conteúdo gástrico, e por quanto tempo foi observada.
- Se as medidas forem limítrofes, a hipótese de pilorospasmo e a sugestão de controle.
Apendicite
- Apêndice visualizado por inteiro, parcialmente ou não visualizado.
- Diâmetro máximo e compressibilidade.
- Sinais associados: gordura inflamada, Doppler, apendicolito, líquido, coleção.
- Sinais de complicação e diagnósticos alternativos, como adenite ou causas ginecológicas em meninas.
- Limitações técnicas, como dor, pouca colaboração ou gases.
Na conclusão, evite frases vagas como “sem alterações significativas” quando a pergunta era apendicite e o apêndice não foi visto. Escreva que ele não foi caracterizado e diga se havia ou não sinais secundários.
Erros comuns
Medir o piloro fora do eixo verdadeiro
Um corte oblíquo aumenta a espessura aparente do músculo. Meça só a camada muscular hipoecogênica, no eixo longo verdadeiro, e confirme no corte transversal.
Estômago cheio demais ou vazio demais
Muito distendido, o estômago empurra o piloro para trás. Vazio, falta líquido para avaliar a passagem. Ajustar a posição e oferecer pouco líquido costuma resolver. E observe por alguns minutos: um piloro espessado num momento pode ser espasmo.
Confundir fezes ou alça espessada com invaginação
Fezes no cólon e alças de parede espessa podem imitar o sinal do alvo. Confirme as camadas em dois planos.
Tratar toda invaginação de delgado como urgência
Segmentos curtos e sem obstrução costumam ser transitórios. Descreva tamanho e peristaltismo.
Dar adenite mesentérica sem ver o apêndice
É um dos erros mais perigosos na pediatria. Sem o apêndice normal documentado, linfonodos aumentados não explicam a dor.
Usar só o diâmetro na apendicite
Um apêndice de 6,5 mm compressível e sem inflamação ao redor pode ser normal. Interprete o diâmetro com a compressibilidade e os sinais secundários.
Perguntas frequentes
Criança precisa de jejum para fazer ultrassom de abdome?
Em urgências, em geral não. Em exames eletivos, alguns serviços pedem jejum curto conforme a idade. Siga a orientação do local do exame.
O ultrassom consegue ver invaginação intestinal?
Sim. É o exame de escolha, com resultados muito confiáveis quando feito por profissional experiente. Ele também ajuda a diferenciar a invaginação que precisa de tratamento da que se resolve sozinha.
Quais medidas confirmam estenose do piloro?
Em geral, músculo pilórico com 3 mm ou mais de espessura e canal com cerca de 15 a 17 mm ou mais, junto com a falta de passagem de leite ou líquido durante o exame.
O apêndice não apareceu no ultrassom. Isso é bom?
Sem sinais de inflamação ao redor, a chance de apendicite é menor, mas não é zero. O médico decide entre observar, repetir o exame ou pedir outro método.
Conclusão
O ultrassom de abdome é o exame de primeira linha na criança com dor abdominal ou vômitos porque não usa radiação, é feito em tempo real e responde bem às suspeitas de invaginação, estenose do piloro e apendicite. Os números ajudam, como os 3 mm do músculo pilórico e os 6 mm do apêndice, mas o diagnóstico seguro depende de técnica, observação da dinâmica e dos sinais associados. Um bom laudo diz o que foi visto, o que não foi visto e quando outro exame pode ajudar.
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Referências
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Este conteúdo tem finalidade educacional e não substitui a avaliação médica. Criança com dor abdominal forte, vômitos persistentes, vômito com bile, sangue nas fezes ou sonolência deve ser avaliada com urgência. O diagnóstico e a conduta cabem ao médico que acompanha a criança.

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