Ultrassom de quadril do bebê: displasia do desenvolvimento e método de Graf

Ilustração de ultrassom de quadril em bebê deitado de lado, com transdutor na lateral do quadril

O ultrassom de quadril do bebê é o exame que avalia se a cabeça do fêmur está bem encaixada e bem coberta pelo acetábulo, para diagnosticar a displasia do desenvolvimento do quadril (DDQ). Em geral, ele é feito por volta de 6 semanas de vida em bebês com fatores de risco, como apresentação pélvica no fim da gestação, histórico familiar de displasia ou exame físico alterado (manobras de Ortolani ou Barlow). Quando o pediatra encontra um quadril instável, o exame pode ser antecipado. O ultrassom é mais útil até cerca de 4 a 6 meses, porque depois disso o núcleo de ossificação da cabeça femoral passa a bloquear a imagem e a radiografia assume o papel principal. O exame não dói, não usa radiação e não precisa de preparo.

Para quem realiza o exame, o ultrassom de quadril infantil é um dos mais dependentes de técnica em toda a ultrassonografia. O método de Graf só funciona quando a imagem está no plano padrão, e um corte levemente oblíquo pode transformar um quadril normal em displásico, ou o contrário. Este guia explica o exame para os pais e detalha, para estudantes e profissionais, o plano de Graf, os ângulos alfa e beta, a classificação, o método dinâmico de Harcke e os erros mais comuns.

O que é displasia do desenvolvimento do quadril

O quadril é uma articulação em forma de bola e soquete: a cabeça do fêmur (a bola) se encaixa no acetábulo (o soquete), que faz parte da bacia. No recém-nascido, boa parte dessas estruturas ainda é cartilagem, e o acetábulo continua se formando nos primeiros meses de vida. Para que ele cresça com a forma correta, a cabeça do fêmur precisa estar bem centrada dentro dele.

Na displasia do desenvolvimento do quadril, esse encaixe é insuficiente. O espectro vai de um acetábulo apenas raso, com a cabeça no lugar, até um quadril que sai do lugar com facilidade (instável) ou que já está fora (luxado). O termo “do desenvolvimento” substituiu o antigo “congênita” justamente porque a alteração pode aparecer ou piorar depois do nascimento.

Quando diagnosticada cedo, a displasia em geral é tratada com órteses simples, como o suspensório de Pavlik, que mantêm os quadris dobrados e abertos enquanto o acetábulo amadurece. O diagnóstico tardio costuma exigir tratamentos mais complexos.

Quem precisa fazer o ultrassom de quadril

As recomendações variam entre países. No Brasil e nos Estados Unidos, em geral, o ultrassom é indicado de forma seletiva, para bebês com maior risco. Em alguns países, como a Áustria e outros países da Europa Central, todos os recém-nascidos fazem o exame. As indicações mais aceitas são:

  • apresentação pélvica (sentado) no terceiro trimestre, mesmo que o parto tenha sido cesárea ou que o bebê tenha virado depois;
  • histórico familiar de displasia do quadril em parente de primeiro grau;
  • exame físico alterado ou duvidoso, como manobra de Ortolani ou Barlow positiva, limitação para abrir as pernas ou assimetria;
  • acompanhamento de um quadril já tratado ou de uma alteração vista em exame anterior.

Outros fatores, como sexo feminino, primeiro filho e pouco líquido amniótico, aumentam o risco e podem pesar na decisão do pediatra. O hábito de enrolar o bebê com as pernas esticadas e juntas também é associado à displasia.

Como o exame é feito

O bebê fica deitado de lado, às vezes apoiado em uma almofada ou berço próprio para o exame. O médico usa um transdutor linear de alta frequência sobre a lateral do quadril, com gel. O exame é rápido, em geral de 10 a 15 minutos para os dois lados, e o principal desafio é manter o bebê calmo e quieto.

Algumas dicas para os pais ajudam bastante:

  • amamentar ou oferecer a mamadeira pouco antes ou durante o exame, se o serviço permitir;
  • levar roupa fácil de tirar, porque a fralda precisa ser afastada;
  • levar uma fralda reserva e um paninho.

O ultrassom usa ondas sonoras e não tem radiação. Se quiser entender melhor a segurança do método, veja o nosso texto sobre se o ultrassom faz mal ou dói.

Quando fazer e até que idade

A janela ideal tem dois limites:

  • Cedo demais: nas primeiras semanas de vida existe uma frouxidão ligamentar fisiológica, ligada aos hormônios maternos. Muitos quadris discretamente imaturos ou instáveis nessa fase se normalizam sozinhos. Por isso, nos protocolos seletivos, o exame de bebês com fator de risco costuma ser feito por volta de 6 semanas. A American Academy of Pediatrics e o parâmetro de prática do AIUM, em conjunto com ACR, SPR e SRU, seguem essa lógica. Se o exame físico estiver alterado, o ultrassom pode ser feito antes.
  • Tarde demais: entre 4 e 6 meses, em geral, o núcleo de ossificação da cabeça do fêmur cresce e passa a fazer sombra acústica sobre o fundo do acetábulo. A partir daí a radiografia da bacia costuma ser o exame de escolha.

Para profissionais: o método de Graf

O método de Graf é a técnica morfológica mais usada no mundo. Ele mede a forma do acetábulo em um corte coronal, com o bebê em decúbito lateral e o transdutor paralelo ao eixo do corpo.

O plano padrão

A imagem só pode ser medida quando três referências aparecem ao mesmo tempo:

  1. Borda inferior do ílio (lower limb), o ponto mais profundo do osso ilíaco dentro da fossa acetabular, visto como uma estrutura ecogênica bem definida.
  2. Linha do ílio reta, paralela à borda da tela, indicando que o corte passa pelo meio do teto acetabular, sem inclinação anterior ou posterior.
  3. Lábio acetabular (labrum), a estrutura fibrocartilaginosa triangular ecogênica na borda lateral do teto cartilaginoso.

Antes de medir, Graf recomenda uma checagem anatômica sistemática: borda condro-óssea do fêmur, cabeça femoral, prega sinovial, cápsula, lábio, teto cartilaginoso, teto ósseo e promontório (borda óssea). Se uma dessas estruturas não está clara, a imagem não serve para medir.

Uma exceção importante: em um quadril descentrado, a borda inferior do ílio pode não aparecer na mesma imagem que a cabeça. Nesse caso o quadril é classificado pela morfologia, sem exigir o plano padrão completo.

Ângulos alfa e beta

São traçadas três linhas:

  • Linha de base: tangente à parede lateral do ílio, a partir do ponto onde o pericôndrio da cápsula articular se encontra com o ílio.
  • Linha do teto ósseo: da borda inferior do ílio tangente ao teto ósseo do acetábulo.
  • Linha do teto cartilaginoso: do promontório ósseo até o centro do lábio.

O ângulo alfa, entre a linha de base e a linha do teto ósseo, mede a profundidade do acetábulo ósseo. Quanto maior, melhor a cobertura. O ângulo beta, entre a linha de base e a linha do teto cartilaginoso, mede quanto a cartilagem participa da cobertura. Quanto maior o beta, mais a cabeça está “empurrando” o teto cartilaginoso para cima.

Classificação de Graf

Tipo Ângulo alfa Ângulo beta Idade e características
I (Ia, Ib) 60° ou mais Ia até 55°, Ib acima de 55° Quadril maduro, em qualquer idade. Teto ósseo bom, promontório angular ou levemente arredondado
IIa 50° a 59° Não define o tipo Até 12 semanas. Imaturidade fisiológica. Entre 6 e 12 semanas, Graf divide em IIa+ (adequado à idade) e IIa- (atrasado)
IIb 50° a 59° Não define o tipo Acima de 12 semanas. Atraso de ossificação
IIc 43° a 49° Até 77° Qualquer idade. Quadril crítico, ainda centrado
D 43° a 49° Acima de 77° Qualquer idade. Quadril em descentralização
III (IIIa, IIIb) Abaixo de 43° Não usado Descentrado, teto cartilaginoso empurrado para cima. IIIb quando a cartilagem mostra alteração estrutural (ecogênica)
IV Abaixo de 43° Não usado Descentrado, teto cartilaginoso empurrado para baixo, entre a cabeça e o ílio

Na prática, os tipos I e IIa (dentro da idade) em geral só pedem acompanhamento clínico ou controle, enquanto IIb, IIc, D, III e IV costumam indicar tratamento. A decisão é do ortopedista pediátrico, e os protocolos variam.

Um ponto que gera muita confusão: o tipo IIa e o tipo IIb têm o mesmo alfa. O que muda é a idade. Por isso o laudo precisa informar a idade do bebê em semanas, e quem classifica precisa considerá-la.

O método dinâmico de Harcke

Desenvolvido por Harcke nos Estados Unidos, o método dinâmico avalia a posição e a estabilidade da cabeça femoral em vez de focar apenas nos ângulos. São feitos cortes coronais e transversais com o quadril em posição neutra e em flexão, e uma manobra de estresse semelhante à de Barlow, empurrando suavemente a coxa para trás, para ver se a cabeça se desloca.

Muitos serviços usam uma combinação: o método de Graf para a morfologia e o componente dinâmico para a estabilidade. Alguns serviços também usam, na abordagem dinâmica de Harcke, a medida da cobertura da cabeça femoral (porcentagem da cabeça coberta pelo acetábulo ósseo), em que valores abaixo de cerca de 50% costumam ser considerados alterados. A manobra de estresse não deve ser feita em bebês já em tratamento com órtese, a menos que o ortopedista peça.

O que descrever no laudo

Um laudo útil de ultrassom de quadril infantil informa, para cada lado:

  • a idade do bebê em semanas e a técnica usada (Graf, dinâmico ou ambos);
  • se a imagem foi obtida no plano padrão;
  • o ângulo alfa e o ângulo beta;
  • a descrição do teto ósseo (bom, deficiente ou pobre), do promontório (angular, arredondado ou plano) e do teto cartilaginoso (se cobre bem a cabeça ou está deslocado);
  • a posição da cabeça femoral (centrada ou descentrada) e, quando feito o exame dinâmico, a estabilidade e a cobertura;
  • a presença do núcleo de ossificação e se ele limita a avaliação;
  • se o bebê estava em órtese ou sem ela durante o exame.

Na conclusão, informe o tipo de Graf de cada quadril, por exemplo “quadril direito tipo Ia e quadril esquerdo tipo IIa, compatível com imaturidade fisiológica para a idade”. Evite indicar o tratamento, que é decisão do ortopedista. Sobre prazos e formato de laudo em geral, veja também quanto tempo demora o ultrassom e o laudo.

Erros comuns

Plano oblíquo

É o erro mais importante. Se o transdutor está inclinado para frente ou para trás, a linha do ílio deixa de ser reta e o teto acetabular parece mais raso ou mais fundo do que é. Uma imagem fora do plano padrão não deve ser medida. Ajuste o transdutor até a linha do ílio ficar reta e paralela à tela.

Medir sem ver a borda inferior do ílio

Sem esse ponto, a linha do teto ósseo fica sem âncora e o ângulo alfa perde o valor. Em quadril centrado, se a borda inferior não aparece, o corte não é o correto.

Confundir estruturas

Trocar o lábio pela cápsula ou pela prega sinovial muda o traçado do beta. Seguir a checagem anatômica antes de medir reduz esse risco.

Ignorar a idade

Classificar um alfa de 55° como “imaturo” sem considerar que o bebê tem mais de 12 semanas leva a perder um tipo IIb, que em geral precisa de tratamento.

Bebê inquieto e transdutor torto

Rotação do corpo, transdutor não paralelo ao eixo ou imagem fora do eixo distorcem tudo. Um posicionador e um assistente para segurar o bebê ajudam muito.

Examinar cedo demais sem motivo

Nas primeiras semanas, a frouxidão fisiológica pode gerar achados que se normalizam sozinhos, o que leva a controles e preocupação desnecessários.

Perguntas frequentes

Ultrassom de quadril do bebê dói?

Não. É feito com gel e um transdutor apoiado sobre a pele. O bebê pode chorar pelo incômodo de ficar deitado de lado ou pela manobra dinâmica, mas o exame não causa dor nem tem radiação.

Com quantas semanas fazer o ultrassom de quadril?

Em geral por volta de 6 semanas de vida em bebês com fator de risco. Se o pediatra encontrar alteração no exame físico, o ultrassom pode ser feito antes.

Até que idade dá para fazer o ultrassom de quadril?

Em geral até 4 a 6 meses. Depois disso, a ossificação da cabeça do fêmur atrapalha a imagem e a radiografia passa a ser o exame mais indicado.

Meu bebê nasceu sentado. Precisa fazer o exame?

Na maioria dos protocolos, sim. A apresentação pélvica no fim da gravidez é um dos principais fatores de risco, mesmo com parto cesárea ou se o bebê virou antes do parto.

Precisa de preparo?

Não. Basta levar o bebê alimentado, ou alimentá-lo durante o exame, e com roupa fácil de tirar.

Quadril tipo IIa é displasia?

Não necessariamente. Antes de 12 semanas, o tipo IIa é considerado imaturidade fisiológica e costuma evoluir para o normal. Em geral o médico pede um controle para confirmar o amadurecimento.

O resultado alterado significa que meu bebê vai precisar de cirurgia?

Na grande maioria das vezes, não. A displasia diagnosticada cedo costuma ser tratada com órteses, como o suspensório de Pavlik. A conduta é definida pelo ortopedista pediátrico.

Conclusão

O ultrassom de quadril é a melhor ferramenta para encontrar a displasia nos primeiros meses de vida, quando o tratamento é mais simples e eficaz. Para os pais, a mensagem é direta: o exame é seguro, rápido e indolor, e em geral é feito por volta de 6 semanas em bebês com fator de risco. Para quem examina, o resultado depende de um plano padrão rigoroso, de ângulos bem traçados e da idade correta na classificação de Graf.

Para se aprofundar no método, leia também o nosso artigo comentado sobre o método de Graf no ultrassom de quadril do bebê.

Se você quer que idade em semanas, ângulos alfa e beta, tipo de Graf e estabilidade de cada quadril tenham campo próprio no seu laudo, conheça o UltraLaudo, plataforma de laudos estruturados de ultrassonografia.


Referências

  • Graf R. Hip Sonography: Diagnosis and Management of Infant Hip Dysplasia. 2ª edição. Springer, 2006.
  • Graf R. The diagnosis of congenital hip-joint dislocation by the ultrasonic compound treatment. Archives of Orthopaedic and Traumatic Surgery, 1980.
  • American College of Radiology, American Institute of Ultrasound in Medicine, Society for Pediatric Radiology, Society of Radiologists in Ultrasound. ACR–AIUM–SPR–SRU Practice Parameter for the Performance of an Ultrasound Examination for Detection and Assessment of Developmental Dysplasia of the Hip. Revisado em 2023.
  • Shaw BA, Segal LS; Section on Orthopaedics. Evaluation and Referral for Developmental Dysplasia of the Hip in Infants. Pediatrics, 2016.
  • American Academy of Pediatrics. Clinical practice guideline: early detection of developmental dysplasia of the hip. Pediatrics, 2000.
  • Harcke HT, Kumar SJ. The role of ultrasound in the diagnosis and management of congenital dislocation and dysplasia of the hip. Journal of Bone and Joint Surgery (American), 1991.

Este conteúdo tem finalidade educacional e não substitui a avaliação médica. A indicação do ultrassom de quadril e a interpretação do resultado cabem ao pediatra e ao ortopedista que acompanham o bebê.

Respostas

  1. Avatar de Método de Graf no ultrassom de quadril do bebê (Arch Orthop Trauma Surg 1980 e 1984): artigo comentado – UltraLaudo Blog

    […] Em um laudo estruturado, idade, alfa e beta podem alimentar o tipo automaticamente. Para o contexto clínico e as dúvidas dos pais, veja o nosso guia de ultrassom de quadril do bebê. […]

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  2. Avatar de Ultrassom de abdome em crianças: invaginação, estenose do piloro e apendicite – UltraLaudo Blog

    […] pediatria há ainda outros ultrassons específicos, como o ultrassom de quadril do bebê, que segue a mesma lógica de evitar radiação e usar o tempo […]

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