No Doppler das artérias uterinas, o parâmetro que importa é o índice de pulsatilidade (IP) médio das duas artérias, interpretado por idade gestacional: acima do percentil 95 é considerado alterado (pela curva de Gómez e colaboradores, 2008, o p95 cai de cerca de 2,70 com 11 semanas para cerca de 1,61 com 20 semanas e 1,04 com 32 semanas). Entre 11 e 13+6 semanas, o IP médio entra no rastreamento combinado de pré-eclâmpsia da Fetal Medicine Foundation (FMF), junto com fatores maternos, pressão arterial média e PlGF; risco de pré-eclâmpsia pré-termo acima de 1:100 indica aspirina 150 mg à noite até 36 semanas, conduta testada no estudo ASPRE. A incisura protodiastólica é fisiológica no início da gestação e passa a ter significado quando persiste, sobretudo bilateralmente, depois de cerca de 24 semanas.
Resumo rápido
- Índice de escolha: IP médio (média do IP direito e esquerdo); a incisura isolada é subjetiva.
- Corte de anormalidade: IP médio acima do p95 para a idade gestacional na curva adotada pelo serviço (Gómez 2008 é uma das mais usadas). No algoritmo da FMF, o IP entra em MoM.
- Primeiro trimestre (11 a 13+6 semanas): via abdominal ou transvaginal, no nível do orifício interno, com velocidade sistólica acima de 60 cm/s.
- Segundo trimestre: via abdominal, amostra cerca de 1 cm após o cruzamento aparente da artéria uterina com a ilíaca externa.
- Rastreamento combinado FMF: detecta cerca de 90% da pré-eclâmpsia antes de 32 semanas e 75% da pré-termo, com 10% de rastreamento positivo. O Doppler isolado detecta menos da metade dos casos precoces.
- Incisura: normal até o meio do segundo trimestre; persistente e bilateral depois de cerca de 24 semanas, com IP alto, é o padrão de maior valor preditivo.
Para que serve o Doppler das artérias uterinas
A invasão trofoblástica remodela as artérias espiraladas e transforma a circulação uteroplacentária num leito de baixa resistência: o IP cai progressivamente e a incisura desaparece ao longo do segundo trimestre. Na placentação deficiente, o IP fica acima do esperado e a incisura persiste.
O exame tem três usos: rastreamento de pré-eclâmpsia pré-termo no primeiro trimestre, avaliação de risco no morfológico de 20 a 24 semanas e apoio ao diagnóstico da restrição de crescimento fetal de origem placentária.
Física, ajustes e outros vasos obstétricos estão no guia de ultrassom com Doppler.
Técnica de medida segundo a ISUOG
Filtro de parede baixo, escala sem aliasing e ao menos três ondas semelhantes e consecutivas antes de medir. O IP é uma razão e depende pouco do ângulo, mas os protocolos pedem ângulo de insonação menor que 30°.
Primeiro trimestre (11 a 13+6 semanas)
- Via abdominal: corte sagital mediano do canal cervical; inclinar o transdutor lateralmente até o Doppler colorido mostrar a artéria uterina no nível do orifício interno.
- Via transvaginal: transdutor em cada fórnice lateral, no nível do orifício interno.
- Ajustes do protocolo FMF: volume de amostra de cerca de 2 mm, ângulo menor que 30° e velocidade sistólica de pico acima de 60 cm/s, para não medir um ramo arqueado.
- Registrar o IP direito, o esquerdo e o IP médio.
A ISUOG aceita as duas vias no primeiro trimestre, conforme a preferência e os recursos locais.
Segundo e terceiro trimestres
Com o transdutor longitudinal no quadrante inferior do abdome, angulado medialmente, identifica-se no Doppler colorido o ponto em que a artéria uterina parece cruzar a artéria ilíaca externa, e o volume de amostra é colocado cerca de 1 cm após esse cruzamento, em direção ao útero. O protocolo de Barcelona fala em 1 a 2 cm.
A via transvaginal, no fórnice lateral e no nível do orifício interno, é alternativa em gestantes obesas. Registre o ponto de medida no laudo.

Valores de referência do IP médio das artérias uterinas
A curva mais citada para uso clínico é a de Gómez e colaboradores (Ultrasound Obstet Gynecol, 2008), construída num estudo transversal de 620 gestantes entre 11 e 41 semanas. A tabela abaixo traz semanas selecionadas, com valores arredondados.
| Idade gestacional | IP médio, p50 | IP médio, p95 (corte) |
|---|---|---|
| 11 semanas | 1,79 | 2,70 |
| 12 semanas | 1,68 | 2,53 |
| 13 semanas | 1,58 | 2,38 |
| 14 semanas | 1,49 | 2,24 |
| 16 semanas | 1,33 | 1,99 |
| 18 semanas | 1,20 | 1,79 |
| 20 semanas | 1,10 | 1,61 |
| 22 semanas | 1,00 | 1,47 |
| 24 semanas | 0,93 | 1,35 |
| 26 semanas | 0,86 | 1,25 |
| 28 semanas | 0,81 | 1,17 |
| 30 semanas | 0,77 | 1,10 |
| 32 semanas | 0,73 | 1,04 |
| 34 semanas | 0,70 | 0,99 |
| 36 semanas | 0,68 | 0,95 |
| 38 semanas | 0,66 | 0,92 |
| 40 semanas | 0,65 | 0,90 |
Três cuidados práticos com essa tabela:
- A queda é rápida até cerca de 24 semanas. Um IP de 1,5 é normal com 18 semanas e alterado com 24. Use a idade gestacional datada no primeiro trimestre.
- As curvas divergem. Estudos em outras populações encontraram percentis diferentes, principalmente no primeiro trimestre, e a curva varia com a via (abdominal ou transvaginal). Escolha uma curva, cite-a no laudo e não troque de referência entre exames da mesma paciente.
- Na FMF, o IP vira MoM, ajustado por idade gestacional e características maternas. O percentil da tabela não entra no cálculo de risco.
Rastreamento de pré-eclâmpsia no primeiro trimestre (algoritmo FMF)
O modelo de riscos competitivos da FMF combina, entre 11 e 13+6 semanas:
- fatores maternos (idade, peso, etnia, concepção, história obstétrica, hipertensão crônica, diabetes, lúpus, síndrome antifosfolípide);
- pressão arterial média (PAM) com técnica padronizada;
- IP médio das artérias uterinas;
- PlGF ou, na falta dele, PAPP-A, com desempenho menor.
Na análise de Wright e colaboradores (2019), com 61.174 gestações únicas, a combinação de fatores maternos, PAM, IP das uterinas e PlGF detectou cerca de 90% da pré-eclâmpsia antes de 32 semanas, 75% da pré-termo (antes de 37 semanas) e 41% da de termo, com 10% de rastreamento positivo. O desempenho variou com a origem étnica, e coortes de validação em outros países em geral relatam detecção um pouco menor.
O Doppler isolado rende bem menos. Na metanálise de Velauthar e colaboradores (2014), com 55.974 mulheres, o IP alterado teve sensibilidade de 47,8% e especificidade de 92,1% para pré-eclâmpsia precoce, e sensibilidade de apenas 26,4% para pré-eclâmpsia em geral. Por isso a ISUOG recomenda não usar corte de Doppler como teste isolado quando o rastreamento combinado estiver disponível.
ASPRE e aspirina
O estudo ASPRE (Rolnik e colaboradores, NEJM 2017) aplicou o algoritmo da FMF a 26.941 gestações únicas. As gestantes com risco de pré-eclâmpsia pré-termo acima de 1:100 foram randomizadas para aspirina 150 mg por dia, à noite, de 11 a 14 semanas até 36 semanas, ou placebo. A pré-eclâmpsia pré-termo ocorreu em 1,6% no grupo aspirina e 4,3% no placebo (odds ratio 0,38; IC 95% 0,20 a 0,74), sem diferença em eventos adversos neonatais.
Ou seja, o IP medido entre 11 e 13+6 semanas alimenta uma decisão terapêutica: uma medida no ramo errado desloca o risco calculado. Para os demais componentes do exame de primeiro trimestre, veja o guia do ultrassom do 1º trimestre e translucência nucal.
Incisura protodiastólica: quando importa
A incisura (notch) é um entalhe no início da diástole que reflete a resistência alta antes da remodelação trofoblástica.
- No primeiro trimestre e no início do segundo, é frequente e fisiológica.
- Ela tende a desaparecer até cerca de 22 a 24 semanas. A persistência depois de 24 semanas, principalmente bilateral, está associada a pré-eclâmpsia, restrição de crescimento e outras complicações placentárias.
- A combinação IP alto mais incisura foi o melhor preditor de pré-eclâmpsia na metanálise de Cnossen e colaboradores (CMAJ 2008), com razão de verossimilhança positiva de 21,0 em gestantes de alto risco e 7,5 em baixo risco, e o exame no segundo trimestre foi mais acurado que no primeiro.
A incisura é subjetiva: não há definição consensual de profundidade, e ganho, filtro e ponto de amostra mudam sua aparência. Por isso o IP médio é o índice de escolha e a incisura é informação complementar.

Significado no segundo e no terceiro trimestres
Segundo trimestre (20 a 24 semanas). Sem rastreamento prévio, o IP médio no morfológico identifica gestantes com maior risco de pré-eclâmpsia e restrição de crescimento, candidatas a vigilância de pressão e de crescimento fetal. Como os estudos de aspirina começaram entre 11 e 14 semanas, o benefício de iniciá-la nessa fase é menos estabelecido. Mais detalhes sobre o exame de 20 a 24 semanas estão no guia do ultrassom morfológico.
Terceiro trimestre. Aqui o IP das uterinas ajuda a caracterizar a origem placentária de um feto pequeno:
- no consenso Delphi adotado pela ISUOG, a restrição de crescimento precoce (antes de 32 semanas) pode ser definida por circunferência abdominal ou peso abaixo do p10 associado a IP das uterinas ou da umbilical acima do p95;
- no protocolo de Barcelona, o IP médio das uterinas acima do p95 em feto pequeno classifica a restrição de crescimento como estágio I, com vigilância e conduta próprias.
Esse uso está detalhado no artigo comentado sobre centralização fetal e o protocolo de Barcelona. IP normal no terceiro trimestre não exclui insuficiência placentária; o Doppler fetal continua necessário.
Armadilhas e erros de medida
| Erro | Efeito | Como evitar |
|---|---|---|
| Medir a artéria arqueada ou um ramo após a divisão | IP falsamente baixo | No 1º tri, confirmar VPS > 60 cm/s; no 2º tri, amostrar perto do cruzamento com a ilíaca |
| Medir a artéria ilíaca interna ou externa | Onda de alta resistência com fluxo reverso, IP muito alto | Seguir a artéria até o útero com o Doppler colorido |
| Medir só um lado | IP não representa a placentação; lado placentário tem IP menor | Sempre medir os dois lados e calcular o IP médio |
| Usar a idade gestacional do exame atual em vez da datada | Percentil errado, principalmente antes de 24 semanas | Usar a datação do 1º trimestre |
| Filtro alto ou ganho alto | Apaga a diástole ou cria falsa incisura | Filtro baixo e ganho ajustado ao espectro |
| Laudar incisura no 1º trimestre como alteração | Ansiedade e conduta desnecessária | Lembrar que a incisura é fisiológica até cerca de 24 semanas |
O que descrever no laudo
Campos mínimos de um laudo estruturado:
- idade gestacional de referência e sua origem;
- via e ponto de medida;
- IP direito e esquerdo;
- IP médio, com percentil e curva de referência (ou MoM, no software da FMF);
- incisura (ausente, unilateral ou bilateral), a partir do segundo trimestre;
- localização da placenta;
- no exame de 11 a 13+6 semanas, o risco calculado e o algoritmo usado.
Frases-modelo (os colchetes indicam campos a preencher):
- Primeiro trimestre: “IP da artéria uterina direita de [valor] e esquerda de [valor]; IP médio de [valor] ([valor] MoM). Risco de pré-eclâmpsia antes de 37 semanas estimado em 1:[valor] pelo algoritmo da Fetal Medicine Foundation (fatores maternos, PAM, IP das uterinas e [PlGF/PAPP-A]). Resultado de [alto/baixo] risco pelo corte de 1:100.”
- Segundo trimestre, normal: “Artérias uterinas com fluxo de baixa resistência, sem incisura protodiastólica. IP médio de [valor], percentil [n] para [IG] semanas (Gómez et al., 2008).”
- Segundo trimestre, alterado: “Artérias uterinas com IP médio de [valor], acima do percentil 95 para [IG] semanas (Gómez et al., 2008), com incisura protodiastólica bilateral. Aumento da resistência uteroplacentária.”
- Terceiro trimestre, feto pequeno: “IP médio das artérias uterinas de [valor], acima do percentil 95 para a idade gestacional. Em conjunto com o peso fetal estimado no percentil [n], o achado sugere componente placentário. Correlacionar com o Doppler fetal descrito acima.”
Evite concluir “pré-eclâmpsia” ou “insuficiência placentária” só pelas uterinas: o laudo descreve resistência e risco.
Quando escalonar
- Risco combinado acima de 1:100 no primeiro trimestre: comunicar ao obstetra para discutir aspirina, idealmente iniciada antes de 16 semanas, e pré-natal de alto risco.
- IP médio acima do p95 no segundo trimestre: sugerir vigilância de pressão arterial e proteinúria, avaliação do crescimento fetal e Doppler fetal seriados.
- IP das uterinas alterado com feto abaixo do p10: completar o Doppler fetal (umbilical, cerebral média, relação cerebroplacentária e, se indicado, ducto venoso) e encaminhar para medicina fetal.
- Sinais de pré-eclâmpsia grave durante o exame: avaliação obstétrica imediata, independentemente do Doppler.
Perguntas frequentes
Qual o valor normal do IP das artérias uterinas?
Depende da idade gestacional: normal é o IP médio abaixo do p95 da curva adotada. Pela curva de Gómez e colaboradores (2008), o p95 é de cerca de 2,38 com 13 semanas, 1,61 com 20 semanas, 1,35 com 24 semanas e 1,04 com 32 semanas.
Incisura nas artérias uterinas no primeiro trimestre é normal?
Sim. Ela tende a desaparecer até cerca de 24 semanas; só a persistência depois disso, sobretudo bilateral e com IP alto, tem significado clínico.
Doppler das uterinas alterado indica aspirina?
No primeiro trimestre, a indicação de aspirina deve vir do risco combinado (fatores maternos, PAM, IP das uterinas e PlGF), e não do IP isolado. No ASPRE, a aspirina 150 mg à noite foi dada a gestantes com risco acima de 1:100 e reduziu a pré-eclâmpsia pré-termo de 4,3% para 1,6%.
Doppler das uterinas normal exclui pré-eclâmpsia?
Não. Mesmo no rastreamento combinado, cerca de um quarto da pré-eclâmpsia pré-termo e mais da metade da de termo não são detectadas.
Conclusão
O IP médio dos dois lados, comparado ao p95 de uma curva definida (como Gómez 2008), é o dado principal; a incisura só ganha peso depois de cerca de 24 semanas. No primeiro trimestre, o exame vale como parte do rastreamento combinado da FMF, que orienta a aspirina para gestantes com risco acima de 1:100; no terceiro, ajuda a reconhecer o componente placentário da restrição de crescimento.
Para padronizar o IP de cada lado, o IP médio com percentil e curva, a incisura e o risco calculado em campos próprios, conheça o UltraLaudo, plataforma de laudos estruturados de ultrassom.
Referências
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- Rolnik DL, Wright D, Poon LC, et al. Aspirin versus placebo in pregnancies at high risk for preterm preeclampsia. N Engl J Med. 2017;377(7):613-622. doi:10.1056/NEJMoa1704559
- Wright D, Tan MY, O’Gorman N, et al. Predictive performance of the competing risk model in screening for preeclampsia. Am J Obstet Gynecol. 2019;220(2):199.e1-199.e13. doi:10.1016/j.ajog.2018.11.1087
- Velauthar L, Plana MN, Kalidindi M, et al. First-trimester uterine artery Doppler and adverse pregnancy outcome: a meta-analysis involving 55,974 women. Ultrasound Obstet Gynecol. 2014;43(5):500-507. doi:10.1002/uog.13275
- Cnossen JS, Morris RK, ter Riet G, et al. Use of uterine artery Doppler ultrasonography to predict pre-eclampsia and intrauterine growth restriction: a systematic review and bivariable meta-analysis. CMAJ. 2008;178(6):701-711. doi:10.1503/cmaj.070430
- Gordijn SJ, Beune IM, Thilaganathan B, et al. Consensus definition of fetal growth restriction: a Delphi procedure. Ultrasound Obstet Gynecol. 2016;48(3):333-339. doi:10.1002/uog.15884
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- Setiawan D, Mose JC, Kharismawati N, et al. Medicina (Kaunas). 2023;59(9):1648. doi:10.3390/medicina59091648 (fonte da Figura 2, CC BY 4.0)
Conteúdo educativo destinado a profissionais de saúde. Os valores de referência variam entre curvas, populações e serviços e devem ser interpretados em conjunto com o quadro clínico. Este texto não substitui diretrizes oficiais, o software validado de cálculo de risco nem o julgamento clínico do médico responsável.

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