O pico de velocidade sistólica da artéria cerebral média (ACM-PVS) é o exame não invasivo de escolha para rastrear anemia fetal: o valor medido é dividido pela mediana esperada para a idade gestacional, e um resultado acima de 1,5 múltiplo da mediana (MoM) indica anemia moderada ou grave provável. No estudo de Mari e colaboradores (NEJM, 2000), esse corte detectou 100% dos fetos com anemia moderada ou grave, com 12% de falso-positivos. A medida exige técnica rigorosa (corte axial do polígono de Willis, segmento proximal da ACM, ângulo próximo de 0°), perde acurácia depois de 35 semanas e após transfusões intrauterinas, e um ACM-PVS alterado leva à cordocentese com sangue preparado para transfusão.
Resumo rápido
- Corte: ACM-PVS acima de 1,5 MoM para a idade gestacional sugere anemia moderada ou grave (Mari et al., 2000).
- Como calcular o MoM: mediana esperada = e^(2,31 + 0,0464 × IG em semanas); MoM = PVS medido ÷ mediana.
- Técnica: corte axial com tálamos e asas do esfenoide, Doppler colorido do polígono de Willis, amostra na ACM proximal perto da origem na carótida interna, ângulo próximo de 0°, feto em repouso, sem pressão na cabeça.
- Indicações: aloimunização com título crítico (ou anti-Kell), parvovírus B19, gemelar monocoriônica (TAPS) e hidropisia.
- Limites: mais falso-positivos depois de 35 semanas e depois da primeira transfusão (corte de 1,69 MoM proposto para programar a segunda).
- Não confundir com o IP da ACM e a relação cerebroplacentária, que avaliam hipóxia, não anemia.
Por que o ACM-PVS detecta anemia fetal
Na anemia, a viscosidade do sangue cai e o débito cardíaco aumenta, e a velocidade do fluxo sobe. A ACM é o vaso escolhido porque é fácil de insonar com ângulo próximo de zero e tem boa reprodutibilidade.
O estudo que mudou a prática foi o de Mari e colaboradores (NEJM, 2000): 111 fetos de gestações com aloimunização eritrocitária tiveram a hemoglobina medida por cordocentese e comparada ao ACM-PVS. Para anemia moderada ou grave, o ACM-PVS acima de 1,5 MoM teve sensibilidade de 100%, com ou sem hidropisia, e taxa de falso-positivos de 12%. Desde então, o Doppler substituiu a amniocentese seriada (delta OD450) na maioria dos centros.
A gravidade da anemia é definida pela hemoglobina fetal em MoM para a idade gestacional, e não por valor absoluto:
| Grau de anemia fetal | Hemoglobina fetal (MoM para a IG) |
|---|---|
| Leve | 0,84 a 0,65 |
| Moderada | 0,64 a 0,55 |
| Grave | abaixo de 0,55 |
Os limites variam em 0,01 entre as fontes. O ACM-PVS foi validado para anemia moderada ou grave e não detecta bem a anemia leve.
Técnica de medida do ACM-PVS segundo a ISUOG
A técnica segue as diretrizes de Doppler obstétrico da ISUOG (2013 e 2021) e o método de Mari. Pequenos desvios mudam o valor em vários cm/s, o bastante para cruzar o limiar.
- Corte axial da cabeça fetal no nível dos tálamos e das asas do esfenoide, ampliado para ocupar a maior parte da tela.
- Doppler colorido para identificar o polígono de Willis e a ACM, que corre ao longo da asa do esfenoide.
- Escolher a ACM mais próxima do transdutor e posicionar o volume de amostra no segmento proximal, logo após a origem na carótida interna. A velocidade sistólica cai à medida que se avança para a porção distal do vaso.
- Ângulo de insonação próximo de 0°: incline o transdutor até alinhar o feixe com o vaso.
- Feto em repouso, sem movimentos respiratórios nem corporais, e sem pressão do transdutor sobre a cabeça fetal, que eleva o PVS e o IP.
- Registrar várias ondas semelhantes e consecutivas, repetir a medida e usar o maior PVS obtido em medidas adequadas (o ponto mais alto da onda).

Correção de ângulo: onde a literatura diverge
A curva de Mari foi construída com ângulo próximo de 0° sem correção de ângulo, e a recomendação clássica é alinhar em vez de corrigir. Alguns protocolos aceitam correção até cerca de 30° quando o alinhamento não é possível, apoiados em Ruma e colaboradores (AJOG, 2009), que encontraram valores comparáveis com correção. Prefira 0° sem correção; se corrigir, registre o ângulo no laudo.
Como calcular o MoM do ACM-PVS
O MoM é a razão entre o valor medido e a mediana esperada para a idade gestacional:
- Mediana esperada (cm/s) = e^(2,31 + 0,0464 × IG), com a IG em semanas e décimos (a calculadora de referência usa o coeficiente 0,04643).
- MoM = PVS medido ÷ mediana esperada.
Exemplo: com 28 semanas, a mediana é de cerca de 37,0 cm/s. Um PVS de 58 cm/s corresponde a 58 ÷ 37,0 = 1,57 MoM, acima do corte de 1,5.
A tabela abaixo foi calculada com essa fórmula. Os valores de 18 a 26 semanas conferem com a tabela de referência derivada de Mari (diferenças de 0,1 cm/s por arredondamento); para outras idades, confira na calculadora do seu serviço.
| IG (semanas) | Mediana (cm/s) | 1,5 MoM (cm/s) | 1,69 MoM (cm/s) |
|---|---|---|---|
| 18 | 23,2 | 34,8 | 39,3 |
| 20 | 25,5 | 38,2 | 43,1 |
| 22 | 28,0 | 42,0 | 47,3 |
| 24 | 30,7 | 46,0 | 51,9 |
| 26 | 33,6 | 50,4 | 56,9 |
| 28 | 37,0 | 55,5 | 62,5 |
| 30 | 40,6 | 60,8 | 68,6 |
| 32 | 44,5 | 66,8 | 75,2 |
| 34 | 48,8 | 73,3 | 82,5 |
| 36 | 53,6 | 80,4 | 90,6 |
Use a IG datada pelo primeiro trimestre: um erro de duas semanas desloca a mediana em cerca de 10%. Curvas de outras populações, inclusive brasileiras, dão medianas um pouco diferentes; a de Mari é a usada nos estudos de acurácia e nos protocolos de conduta.
Quando indicar o ACM-PVS
Aloimunização eritrocitária
É a indicação clássica. Em geral, o Doppler seriado começa quando o título do anticorpo atinge o valor crítico do laboratório (habitualmente entre 1:8 e 1:32 para anti-D) ou quando há história de feto ou recém-nascido gravemente afetado, a partir de cerca de 16 a 18 semanas. Na aloimunização anti-Kell, o título se correlaciona mal com a gravidade, porque o anticorpo também suprime a eritropoese, e muitos serviços usam limiar de título mais baixo. O intervalo habitual é de 1 a 2 semanas.
Infecção por parvovírus B19
O parvovírus causa aplasia eritroide transitória, com maior risco de anemia grave e hidropisia quando a infecção materna ocorre antes de 20 semanas. Os protocolos costumam indicar ACM-PVS a cada 1 a 2 semanas por 8 a 12 semanas após a infecção materna, com transfusão considerada se o PVS passar de 1,5 MoM ou surgir hidropisia longe do termo. Anemia grave depois de 12 semanas da soroconversão é rara.
Gemelar monocoriônica: TAPS
Na sequência anemia-policitemia (TAPS), o ACM-PVS é o critério diagnóstico pré-natal, e aqui os critérios variam entre as fontes:
| Critério | Doador (anêmico) | Receptor (policitêmico) | Fonte |
|---|---|---|---|
| Tradicional (cortes fixos) | ACM-PVS acima de 1,5 MoM | abaixo de 1,0 MoM | diretriz ISUOG de gemelares (2016) |
| Consenso Delphi | igual ou acima de 1,5 MoM | igual ou abaixo de 0,8 MoM | Khalil et al., 2020 |
| Delta (diferença entre os gêmeos) | diferença acima de 0,5 MoM | Tollenaar et al., 2019 | |
| Delta do consenso Delphi (alternativo) | diferença igual ou acima de 1,0 MoM | Khalil et al., 2020 |
No estudo de Tollenaar e colaboradores, o delta acima de 0,5 MoM teve sensibilidade de 83% contra 46% dos cortes fixos, ambos com especificidade de 100%, porque parte dos pares com TAPS tem o PVS de um dos gêmeos ainda dentro do normal. O consenso Delphi recomenda monitorar o ACM-PVS das gestações monocoriônicas a cada 2 semanas e semanalmente após o diagnóstico de TAPS.
Outras indicações: hidropisia de causa indeterminada, suspeita de hemorragia feto-materna e seguimento após transfusão intrauterina.
Conduta diante do ACM-PVS acima de 1,5 MoM
- Confirmar a medida na mesma sessão, com técnica correta e feto em repouso.
- Antes de cerca de 35 semanas: encaminhar com urgência a um centro de medicina fetal para cordocentese com sangue preparado para transfusão intrauterina no mesmo procedimento. Pela diretriz da SMFM, a transfusão é indicada em geral quando o hematócrito fetal está abaixo de 30%.
- Depois de cerca de 35 semanas: a conduta tende a ser programar o parto, em vez de procedimentos invasivos.
Limitações: depois de 35 semanas e após transfusões
Depois de 35 semanas. No estudo prospectivo multicêntrico de Zimmerman e colaboradores (BJOG, 2002), com 125 fetos de gestações aloimunizadas, o ACM-PVS teve sensibilidade de 88% e especificidade de 87% antes de 35 semanas, e os autores concluíram que o método não foi útil depois de 35 semanas, quando os falso-positivos aumentam.
Após transfusões intrauterinas. Com sangue adulto na circulação fetal, os falso-positivos aumentam a cada transfusão. Detti e colaboradores propuseram 1,69 MoM como corte para programar a segunda transfusão; estudos posteriores divergem (alguns sugerem cortes um pouco maiores, outros alertam que subir o corte perde casos), e muitos centros combinam o PVS com a queda esperada da hemoglobina.
ACM-PVS não é o IP da ACM nem a relação cerebroplacentária
O mesmo vaso serve a duas perguntas diferentes:
| Parâmetro | O que mede | Pergunta clínica | Alteração |
|---|---|---|---|
| ACM-PVS | velocidade máxima (cm/s), em MoM | anemia fetal | acima de 1,5 MoM |
| IP da ACM | resistência ao fluxo | hipóxia, redistribuição | abaixo do p5 |
| Relação cerebroplacentária (IP ACM ÷ IP umbilical) | redistribuição relativa | restrição de crescimento, vitalidade | abaixo do p5 |
O PVS é velocidade absoluta e depende do ângulo; o IP, não. Um feto com restrição de crescimento pode ter IP da ACM baixo (centralização) e PVS normal, e um feto anêmico pode ter IP normal e PVS muito alto. A centralização e o protocolo de Barcelona estão no artigo comentado sobre centralização fetal; o componente placentário materno, no post sobre o Doppler das artérias uterinas; e a visão geral dos vasos obstétricos, no guia de ultrassom com Doppler.
Armadilhas e erros de medida
| Erro | Efeito no PVS | Como evitar |
|---|---|---|
| Ângulo de insonação grande sem correção | subestima | alinhar o feixe com o vaso, próximo de 0° |
| Amostra na ACM distal | subestima | amostra logo após a origem na carótida interna |
| Pressão do transdutor na cabeça fetal | superestima | aliviar a pressão, sobretudo em apresentação pélvica ou córmica |
| IG errada | MoM errado | usar a datação do primeiro trimestre |
| Valor único alterado | falso-positivo | repetir a medida e usar a maior entre medidas adequadas |
O que descrever no laudo
Campos mínimos de um laudo estruturado:
- idade gestacional de referência e sua origem;
- indicação (aloimunização com anticorpo e título, parvovírus, gemelar monocoriônica, hidropisia);
- ACM-PVS em cm/s e em MoM, com a referência usada (Mari et al., 2000);
- ângulo de insonação e se houve correção;
- sinais de hidropisia (ascite, derrame pleural ou pericárdico, edema de pele), cardiomegalia, polidrâmnio e espessura placentária;
- em gêmeos, o MoM de cada feto e o delta;
- no seguimento, comparação com o exame anterior e datas de transfusões.
Frases-modelo (os colchetes indicam campos a preencher):
- Normal: “Pico de velocidade sistólica da artéria cerebral média de [valor] cm/s, correspondente a [valor] MoM para [IG] semanas (Mari et al., 2000), medido com ângulo de insonação próximo de 0°, sem correção de ângulo. Valor abaixo de 1,5 MoM, sem sinais Doppler de anemia fetal moderada ou grave.”
- Alterado: “Pico de velocidade sistólica da artéria cerebral média de [valor] cm/s ([valor] MoM para [IG] semanas), acima de 1,5 MoM, confirmado em medidas repetidas com feto em repouso. Achado sugestivo de anemia fetal moderada ou grave. [Ausência/presença] de sinais de hidropisia.”
- Gemelar monocoriônica: “ACM-PVS de [valor] MoM no feto A e [valor] MoM no feto B, com diferença de [valor] MoM. [Preenche/não preenche] critérios Doppler de TAPS ([critério adotado]).”
- Após transfusão: “ACM-PVS de [valor] MoM, [n] dias após a [n]ª transfusão intrauterina, quando a especificidade do método é menor.”
Quando escalonar
- ACM-PVS acima de 1,5 MoM confirmado antes de 35 semanas: comunicar no mesmo dia e encaminhar com urgência a medicina fetal para cordocentese e transfusão.
- Hidropisia: encaminhamento imediato, qualquer que seja o PVS.
- Critérios de TAPS ou delta crescente em gêmeos monocoriônicos: referência a centro com experiência em terapia fetal.
- Valor alterado depois de 35 semanas: discutir o parto com a equipe obstétrica e neonatal.
Perguntas frequentes
Qual o valor normal do ACM-PVS?
Normal é abaixo de 1,5 MoM para a idade gestacional. Pela fórmula de Mari, o valor de 1,5 MoM é de cerca de 38 cm/s com 20 semanas, 46 cm/s com 24 semanas, 55,5 cm/s com 28 semanas e 67 cm/s com 32 semanas.
ACM-PVS acima de 1,5 MoM confirma anemia fetal?
Não. Indica anemia moderada ou grave provável, com taxa de falso-positivos de cerca de 12% no estudo original. O diagnóstico é feito pela hemoglobina na cordocentese.
Como calcular o MoM da artéria cerebral média?
Divida o PVS medido pela mediana esperada, e^(2,31 + 0,0464 × IG em semanas). Exemplo: 50 cm/s com 26 semanas (mediana de 33,6 cm/s) dão cerca de 1,49 MoM.
Conclusão
O ACM-PVS acima de 1,5 MoM é o limiar validado para anemia fetal moderada ou grave e depende da técnica: segmento proximal, ângulo próximo de 0°, feto em repouso e MoM bem calculado. Perde especificidade depois de 35 semanas e após transfusões, tem critérios próprios na TAPS e não se confunde com o IP da ACM.
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Referências
- Mari G, Deter RL, Carpenter RL, et al. Noninvasive diagnosis by Doppler ultrasonography of fetal anemia due to maternal red-cell alloimmunization. N Engl J Med. 2000;342(1):9-14. doi:10.1056/NEJM200001063420102
- Bhide A, Acharya G, Bilardo CM, et al. ISUOG Practice Guidelines: use of Doppler ultrasonography in obstetrics. Ultrasound Obstet Gynecol. 2013;41(2):233-239. doi:10.1002/uog.12371
- Bhide A, Acharya G, Baschat A, et al. ISUOG Practice Guidelines (updated): use of Doppler velocimetry in obstetrics. Ultrasound Obstet Gynecol. 2021;58(2):331-339. doi:10.1002/uog.23698
- Society for Maternal-Fetal Medicine (SMFM), Mari G, Norton ME, et al. SMFM Clinical Guideline #8: the fetus at risk for anemia, diagnosis and management. Am J Obstet Gynecol. 2015;212(6):697-710. doi:10.1016/j.ajog.2015.01.059
- Zimmerman R, Carpenter RJ Jr, Durig P, Mari G. Longitudinal measurement of peak systolic velocity in the fetal middle cerebral artery for monitoring pregnancies complicated by red cell alloimmunisation: a prospective multicentre trial with intention-to-treat. BJOG. 2002;109(7):746-752.
- Detti L, Oz U, Guney I, et al. Doppler ultrasound velocimetry for timing the second intrauterine transfusion in fetuses with anemia from red cell alloimmunization. Am J Obstet Gynecol. 2001;185(5):1048-1051.
- Ruma MS, Swartz AE, Kim E, et al. Angle correction can be used to measure peak systolic velocity in the fetal middle cerebral artery. Am J Obstet Gynecol. 2009;200(4):397.e1-397.e3.
- Tollenaar LSA, Lopriore E, Middeldorp JM, et al. Improved antenatal prediction of twin anemia-polycythemia sequence by delta middle cerebral artery peak systolic velocity: new antenatal classification system. Ultrasound Obstet Gynecol. 2019;53(6):788-793.
- Khalil A, Gordijn S, Ganzevoort W, et al. Consensus diagnostic criteria and monitoring of twin anemia-polycythemia sequence: Delphi procedure. Ultrasound Obstet Gynecol. 2020;56(3):388-394. doi:10.1002/uog.21882
- Khalil A, Rodgers M, Baschat A, et al. ISUOG Practice Guidelines: role of ultrasound in twin pregnancy. Ultrasound Obstet Gynecol. 2016;47(2):247-263. doi:10.1002/uog.15821
Conteúdo educativo destinado a profissionais de saúde. Os limiares citados vêm das referências listadas e devem ser aplicados com a curva e a calculadora adotadas pelo serviço, em conjunto com o quadro clínico. Este texto não substitui diretrizes oficiais nem o julgamento clínico do médico responsável.

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