Ultrassom de tornozelo e pé: fascite plantar, tendão de Aquiles e entorse

Ilustração de exame de ultrassom de tornozelo e pé, com transdutor sobre o tendão de Aquiles

O ultrassom de tornozelo e pé é um exame rápido, sem preparo e sem radiação que avalia muito bem as estruturas superficiais da região: a fáscia plantar (na suspeita de fascite plantar), o tendão de Aquiles (tendinopatia e ruptura parcial ou completa), os ligamentos laterais do tornozelo (como o ligamento talofibular anterior, o mais lesado na entorse), os demais tendões e o neuroma de Morton. A grande vantagem é o exame dinâmico: o médico pode mexer o pé durante o exame e ver o tendão ou o ligamento funcionando. Para fraturas, a radiografia continua sendo o exame inicial, e para cartilagem, edema ósseo e lesões profundas da articulação, a ressonância magnética costuma ser superior.

Para quem faz o exame, tornozelo e pé reúnem muitos tendões, ligamentos e nervos em pouco espaço. Ter um roteiro, medir nos pontos certos e comparar com o outro lado faz diferença no laudo. Este guia responde às dúvidas mais comuns dos pacientes e, na parte final, organiza os critérios para profissionais.

Dúvidas de quem vai fazer o exame

Para que serve o ultrassom de tornozelo e pé?

As indicações mais frequentes são:

  • Dor no calcanhar, principalmente ao dar os primeiros passos pela manhã, típica da fascite plantar.
  • Dor ou inchaço atrás do tornozelo, na região do tendão de Aquiles, ou suspeita de ruptura depois de um “estalo” na panturrilha.
  • Entorse (torção) do tornozelo, para avaliar os ligamentos.
  • Dor na parte da frente do pé entre os dedos, com formigamento ou sensação de “pedrinha no sapato”, que sugere neuroma de Morton.
  • Dor em tendões ao redor do tornozelo, como o tibial posterior e os fibulares.
  • Caroços, cistos e líquido na articulação.
  • Guiar infiltrações e punções.

Precisa de preparo?

Não. Não há jejum, bexiga cheia nem suspensão de remédios. Vá com uma roupa que permita expor a perna até o joelho, como bermuda ou calça larga, e leve radiografias, ultrassons ou ressonâncias anteriores. Para saber quais exames pedem preparo, veja o guia de preparo e jejum para ultrassom.

Como é feito e dói?

O paciente fica deitado de barriga para cima ou para baixo, ou sentado com o pé apoiado, conforme a região. O médico usa gel e um transdutor linear de alta frequência. O exame não dói, mas a pressão sobre uma área inflamada pode incomodar. É comum o médico pedir para você dobrar e esticar o pé, virar o pé para dentro ou para fora, ou apertar a parte da frente do pé. Esses movimentos fazem parte do exame.

Por que o exame dinâmico é uma vantagem?

Porque algumas alterações só aparecem com movimento. No ultrassom é possível:

  • Ver se as pontas de um tendão de Aquiles rompido se aproximam quando o pé é empurrado para baixo.
  • Testar o ligamento talofibular anterior com uma manobra que puxa o pé para a frente.
  • Mostrar um tendão fibular que “pula” para fora do seu lugar (subluxação).
  • Provocar o neuroma de Morton comprimindo os lados do pé.

A ressonância é um exame parado. Já o ultrassom permite ainda comparar na hora com o lado oposto.

Fascite plantar

A fáscia plantar é uma faixa fibrosa que vai do calcanhar até a base dos dedos e sustenta o arco do pé. Na fascite plantar, a origem dessa faixa no calcâneo fica espessada e dolorosa. O diagnóstico é principalmente clínico, mas o ultrassom confirma a suspeita, afasta outras causas e pode guiar uma infiltração.

Qual a espessura normal da fáscia plantar?

A medida é feita em corte longitudinal, perto da inserção no calcâneo. Uma revisão sistemática com metanálise de McMillan e colaboradores (2009) mostrou que a fáscia de pessoas com dor crônica no calcanhar é, em média, cerca de 2 mm mais espessa que a de controles, e que espessura acima de 4,0 mm está associada à fascite plantar. Uma revisão de Draghi e colaboradores (2017) cita a espessura normal média em torno de 4 mm e considera sugestivos valores acima de 4 a 5 mm junto à inserção.

Além da espessura, o ultrassom mostra:

  • Fáscia hipoecoica (mais escura) e com perda do padrão fibrilar.
  • Edema na gordura ao redor e, às vezes, aumento de fluxo ao Doppler.
  • Calcificações e esporão do calcâneo, que é comum, mas não é a causa da dor por si só.
  • Ruptura da fáscia, às vezes após infiltrações.
  • Nódulos fusiformes no meio da fáscia, mais longe do calcanhar, que sugerem fibromatose plantar (doença de Ledderhose), e não fascite.
Fascite plantar: radiografia, ultrassom com fáscia plantar espessada de 6,5 mm e ressonância do calcanhar
Figura 1. Fascite plantar. Na radiografia (a), sinal indireto de espessamento da fáscia. No ultrassom (b), a fáscia plantar está espessada (6,5 mm, linha tracejada), hipoecoica e sem o padrão fibrilar. A ressonância (c, d) confirma o espessamento na origem calcânea. Fonte: Draghi F et al., Insights into Imaging, 2017, CC BY 4.0.

Tendão de Aquiles

O tendão de Aquiles é o maior tendão do corpo e liga a panturrilha ao calcanhar. Como é superficial, é ideal para o ultrassom.

Tendinopatia

Na tendinopatia, o tendão fica espessado, em geral em forma de fuso, a cerca de 2 a 6 cm da inserção (porção média), ou espessado junto ao calcâneo (forma insercional). Outros achados:

  • Áreas hipoecoicas e perda do padrão fibrilar.
  • Neovascularização ao Doppler, vasos entrando no tendão pela face anterior.
  • Calcificações e irregularidade óssea na inserção.
  • Bursite retrocalcânea, entre o tendão e o osso, e bursite superficial, sob a pele.

Não existe um número único de espessura aceito por todos. Por isso, é prático medir a espessura anteroposterior no ponto mais espesso e comparar com o lado oposto.

Ruptura parcial ou completa

Na ruptura completa, o ultrassom mostra a falha entre as duas pontas do tendão, com hematoma no espaço. O exame dinâmico é decisivo: com o pé empurrado para baixo (flexão plantar), o médico vê se as pontas se encostam ou se continuam afastadas e mede essa distância. Essa informação ajuda o ortopedista a escolher entre tratamento com bota ou cirurgia.

Na ruptura parcial, parte das fibras permanece íntegra e a falha não atravessa toda a espessura. A diferença entre uma ruptura parcial e uma tendinopatia grave nem sempre é fácil, e o laudo deve descrever o que foi visto com cuidado.

Entorse de tornozelo e ligamento talofibular anterior

A entorse mais comum acontece quando o pé vira para dentro. O primeiro ligamento a ser lesado costuma ser o ligamento talofibular anterior (LTFA), seguido pelo ligamento calcaneofibular. O ultrassom mostra o ligamento espessado e hipoecoico nas lesões parciais, a descontinuidade das fibras nas lesões completas e o líquido ao redor. Com a manobra de gaveta anterior durante o exame, dá para ver se o ligamento fica frouxo.

Uma metanálise de Colò e colaboradores (2023) comparou ultrassom e ressonância nas lesões do LTFA e encontrou alta sensibilidade para os dois métodos, com resultado numericamente melhor para o ultrassom. Na prática, o desempenho do ultrassom depende muito da experiência de quem examina.

O ultrassom também avalia os ligamentos da sindesmose (entre a tíbia e a fíbula, a chamada “entorse alta”), o ligamento deltoide na face medial e os tendões fibulares, que podem ser lesados na mesma torção.

Neuroma de Morton

O neuroma de Morton é um espessamento do nervo entre os dedos, mais comum no terceiro espaço intermetatarsal (entre o 3º e o 4º dedo) e, em seguida, no segundo. Ele causa dor em queimação e formigamento na parte da frente do pé.

No ultrassom, aparece como um nódulo hipoecoico entre as cabeças dos metatarsos, visto melhor com o transdutor na planta do pé. A compressão lateral do pé pode deslocar o nódulo e reproduzir a dor, o que se chama sinal de Mulder ultrassonográfico. Uma metanálise de Bignotti e colaboradores (2015) encontrou sensibilidade semelhante entre ultrassom e ressonância para o neuroma de Morton. Muitas vezes há uma bursa intermetatarsal distendida junto, que deve ser descrita.

Quando a ressonância ou a radiografia são melhores

Situação Melhor exame inicial, em geral Comentário
Suspeita de fratura após torção Radiografia Regras de Ottawa ajudam a decidir quem precisa
Fascite plantar Ultrassom Mede a fáscia e pode guiar infiltração
Tendão de Aquiles Ultrassom Exame dinâmico mostra a distância entre as pontas
Entorse com dor nos ligamentos Ultrassom Avalia LTFA, calcaneofibular e tendões fibulares
Neuroma de Morton Ultrassom ou ressonância Desempenho parecido; ultrassom permite o sinal de Mulder
Dor persistente após entorse Ressonância Lesão osteocondral do tálus e edema ósseo
Fratura por estresse Ressonância Radiografia pode ser normal no início
Cartilagem e lesões profundas da articulação Ressonância O ultrassom não alcança bem

Para entender melhor a diferença entre os métodos, compare com os nossos guias de ultrassom de joelho e de ultrassom de punho, que seguem a mesma lógica.

Para profissionais: roteiro do exame

As diretrizes técnicas da Sociedade Europeia de Radiologia Musculoesquelética (ESSR) dividem tornozelo e pé em regiões. Um roteiro prático:

  • Anterior: recesso articular anterior (derrame, sinovite), tendões tibial anterior, extensor longo do hálux e extensor longo dos dedos, e o ligamento tibiofibular anteroinferior.
  • Medial: tendões tibial posterior, flexor longo dos dedos e flexor longo do hálux, nervo tibial no túnel do tarso e o ligamento deltoide.
  • Lateral: tendões fibulares curto e longo, com manobra dinâmica para subluxação, LTFA (pé em leve inversão e flexão plantar) e ligamento calcaneofibular (pé em dorsiflexão).
  • Posterior: tendão de Aquiles em longitudinal e transversal, da junção miotendínea até a inserção, bursa retrocalcânea, e o tendão plantar delgado na face medial.
  • Planta do pé: fáscia plantar na inserção calcânea, com medida em longitudinal, e os espaços intermetatarsais na suspeita de Morton.

Algumas dicas:

  • Corrija a anisotropia antes de chamar um tendão de hipoecoico.
  • Meça a fáscia plantar perpendicular às fibras, na região de maior espessura junto ao calcâneo.
  • Na ruptura do Aquiles, faça o exame em flexão plantar e em posição neutra.
  • Na entorse, avalie também a sindesmose e a base do 5º metatarso.

O que descrever no laudo

Fáscia plantar

  • Espessura junto à inserção calcânea, em milímetros, e comparação com o lado oposto, quando feita.
  • Ecogenicidade, padrão fibrilar, edema perifascial e Doppler.
  • Esporão, calcificações, ruptura ou nódulos de fibromatose.

Tendão de Aquiles

  • Espessura anteroposterior no ponto mais espesso e local (porção média ou inserção).
  • Ecotextura, neovascularização e calcificações.
  • Ruptura: parcial ou completa, nível em relação à inserção, distância entre as pontas em posição neutra e em flexão plantar.
  • Bursas retrocalcânea e superficial.

Ligamentos laterais

  • LTFA e calcaneofibular: normal, lesão parcial ou completa, achados da manobra dinâmica.
  • Sindesmose, ligamento deltoide e tendões fibulares.

Neuroma de Morton

  • Espaço acometido, medidas, sinal de Mulder e bursa associada.

Frases de laudo que costumam ajudar:

  • “Fáscia plantar espessada junto à inserção calcânea, medindo X mm, hipoecoica, com perda do padrão fibrilar, compatível com fasciopatia plantar.”
  • “Tendão de Aquiles com descontinuidade completa das fibras a X cm da inserção, com afastamento de X mm entre os cotos em posição neutra, que diminui para X mm em flexão plantar.”
  • “Ligamento talofibular anterior espessado e hipoecoico, com fibras parcialmente preservadas, compatível com lesão parcial.”
  • “Nódulo hipoecoico no 3º espaço intermetatarsal, medindo X mm, com sinal de Mulder ultrassonográfico positivo, compatível com neuroma de Morton.”

Erros comuns

Medir a fáscia plantar oblíqua ou longe da inserção

O corte oblíquo aumenta a espessura. Medir longe do calcâneo pode perder o espessamento. Isso gera falso-positivo e falso-negativo.

Confundir o tendão plantar delgado com fibras íntegras do Aquiles

Na ruptura completa do Aquiles, o tendão plantar delgado pode estar preservado, na face medial, e simular uma ruptura parcial. Siga o tendão em transversal.

Não fazer o exame dinâmico

Sem a flexão plantar, não dá para saber se as pontas do Aquiles se aproximam. Sem manobra, uma subluxação dos fibulares pode passar despercebida.

Chamar todo espessamento do Aquiles de tendinopatia

Compare com o lado oposto e correlacione com a dor. Um tendão espessado sem sintomas nem sempre tem significado clínico.

Procurar Morton só no terceiro espaço

O segundo espaço também pode ser acometido. Examine todos os espaços intermetatarsais.

Perguntas frequentes

Ultrassom mostra esporão de calcâneo?

Sim. O esporão aparece como uma saliência óssea na inserção da fáscia. Mas a dor costuma vir da fáscia, não do esporão, e muita gente tem esporão sem sintomas.

Ultrassom ou ressonância para entorse de tornozelo?

Para os ligamentos laterais e tendões, o ultrassom costuma ser suficiente. A ressonância é mais útil quando a dor persiste por semanas, para procurar lesão da cartilagem do tálus ou edema ósseo. Quem decide é o médico que acompanha o paciente.

O ultrassom diferencia ruptura parcial de completa do tendão de Aquiles?

Em geral, sim, sobretudo com o exame dinâmico. Em casos limítrofes, a correlação com o exame físico é essencial.

Fascite plantar aparece em todo ultrassom?

Não. Nos casos leves, a fáscia pode ter espessura normal. Um exame normal não exclui o diagnóstico clínico.

Conclusão

O ultrassom de tornozelo e pé é um exame sem preparo, rápido e dinâmico, muito útil para fascite plantar, tendão de Aquiles, entorse com lesão do ligamento talofibular anterior e neuroma de Morton. Ele não substitui a radiografia na suspeita de fratura nem a ressonância para cartilagem e osso. Para quem examina, medir a fáscia no lugar certo, usar o exame dinâmico no Aquiles e nos ligamentos e comparar com o outro lado são as atitudes que mais tornam o laudo útil. Se você também examina o membro superior, veja o nosso guia de ultrassom de ombro.

Se você quer que a espessura da fáscia plantar, a distância entre os cotos do Aquiles, os ligamentos laterais e o neuroma de Morton tenham campo próprio no seu laudo, conheça o UltraLaudo, plataforma de laudos estruturados de ultrassonografia.


Referências

  • McMillan AM, Landorf KB, Barrett JT, Menz HB, Bird AR. Diagnostic imaging for chronic plantar heel pain: a systematic review and meta-analysis. Journal of Foot and Ankle Research, 2009;2:32.
  • Draghi F, Gitto S, Bortolotto C, et al. Imaging of plantar fascia disorders: findings on plain radiography, ultrasound and magnetic resonance imaging. Insights into Imaging, 2017;8:69-78.
  • Colò G, Bignotti B, Costa G, Signori A, Tagliafico AS. Ultrasound or MRI in the evaluation of anterior talofibular ligament (ATFL) injuries: systematic review and meta-analysis. Diagnostics, 2023.
  • Bignotti B, Signori A, Sormani MP, Molfetta L, Martinoli C, Tagliafico A. Ultrasound versus magnetic resonance imaging for Morton neuroma: systematic review and meta-analysis. European Radiology, 2015;25:2254-2262.
  • Stiell IG, Greenberg GH, McKnight RD, et al. Decision rules for the use of radiography in acute ankle injuries. JAMA, 1993.
  • European Society of Musculoskeletal Radiology (ESSR). Musculoskeletal Ultrasound Technical Guidelines: Ankle.

Este conteúdo tem finalidade educacional e não substitui a avaliação médica. A indicação do exame, a interpretação do resultado e a escolha do tratamento cabem ao médico que acompanha o paciente.

Resposta

  1. Avatar de Lesão muscular no ultrassom: classificação, timing do exame e laudo – UltraLaudo Blog

    […] Na série de 141 pacientes de Delgado e colaboradores (Radiology, 2002), o ultrassom mostrou rotura da cabeça medial do gastrocnêmio em 66,7%, coleção entre as aponeuroses do gastrocnêmio medial e do sóleo sem rotura muscular em 21,3%, rotura do tendão plantar delgado em apenas 1,4% e trombose venosa profunda isolada em 9,9%. Por isso, comprima as veias da panturrilha. O diagnóstico diferencial com cisto de Baker roto passa pela fossa poplítea, como discutido no guia de ultrassom de joelho. A avaliação do tendão de Aquiles e da junção miotendínea distal está no texto de ultrassom de tornozelo e pé. […]

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