O ultrassom de joelho avalia as estruturas mais superficiais da articulação: o tendão do quadríceps, o tendão patelar, os ligamentos colaterais, a banda iliotibial, os tendões da pata de ganso, as bursas e o cisto de Baker na parte de trás do joelho. Ele mostra muito bem derrame articular, tendinopatias, rupturas de tendões, bursites e cistos, e permite comparar com o outro lado e examinar o joelho em movimento. O exame não precisa de preparo. A principal limitação é que o ultrassom não avalia de forma adequada os ligamentos cruzados nem a maior parte dos meniscos, nem a cartilagem e o osso por dentro. Para essas suspeitas, como na torção com joelho “falseando”, a ressonância magnética costuma ser o exame indicado.
Para quem faz o exame, o joelho é um dos exames musculoesqueléticos em que um roteiro fixo mais ajuda: dividir a articulação em quatro regiões e examinar sempre na mesma ordem evita esquecer estruturas. Este guia responde às dúvidas comuns de pacientes e organiza o exame por quadrantes, seguindo as diretrizes técnicas da Sociedade Europeia de Radiologia Musculoesquelética (ESSR).
Dúvidas comuns de quem vai fazer o exame
Precisa de preparo?
Não. Não há jejum, bexiga cheia nem suspensão de remédios. O mais prático é ir de bermuda ou com uma calça larga, que suba acima do joelho com facilidade. Vale levar radiografias, ultrassons ou ressonâncias anteriores para comparação. Se quiser entender quais exames pedem preparo, veja o nosso guia sobre jejum e preparo para ultrassom.
Ultrassom ou ressonância de joelho?
Depende da pergunta clínica. Os dois exames se complementam:
| Situação | Ultrassom | Ressonância magnética |
|---|---|---|
| Inchaço atrás do joelho (cisto de Baker) | Muito bom, é o exame inicial em geral | Também mostra, mas raramente é necessária só para isso |
| Dor na frente do joelho (tendão patelar, quadríceps) | Muito bom, com avaliação dinâmica e Doppler | Bom |
| Derrame articular | Detecta bem e pode guiar a punção | Detecta bem |
| Ligamento colateral medial | Bom para lesões agudas | Bom |
| Ligamentos cruzados | Limitado | Exame de escolha |
| Meniscos | Vê só a borda periférica | Exame de escolha |
| Cartilagem e edema ósseo | Muito limitado | Exame de escolha |
Em resumo: para tendões, bursas, cistos e líquido, o ultrassom resolve a maioria das dúvidas, com a vantagem de ser rápido, sem radiação e de permitir guiar procedimentos. Para lesões internas da articulação, a ressonância é superior.
O ultrassom vê menisco e ligamento cruzado?
Só em parte. O ultrassom enxerga a porção periférica dos meniscos, principalmente o corpo, e pode mostrar extrusão meniscal e cistos parameniscais. As rupturas dentro do menisco e os cornos posteriores ficam, em geral, fora do alcance adequado. O ligamento cruzado anterior fica no centro da articulação, atrás de estruturas que bloqueiam o som, e não é avaliado de forma confiável. O cruzado posterior pode ser visto parcialmente pela face posterior, mas um exame normal não exclui lesão. Por isso, um laudo de ultrassom que não comenta os cruzados não está incompleto: ele está dentro do que o método permite.
O que o ultrassom de joelho mostra
- Derrame articular: líquido aumentado dentro da articulação, visto principalmente no recesso suprapatelar.
- Sinovite: espessamento da membrana sinovial, às vezes com aumento do fluxo ao Doppler.
- Tendinopatias e rupturas: do tendão do quadríceps e do tendão patelar (o chamado “joelho do saltador”).
- Bursites: pré-patelar, infrapatelar e da pata de ganso.
- Cisto de Baker: coleção de líquido na parte posterior e medial do joelho.
- Lesões dos ligamentos colaterais, principalmente o medial.
- Síndrome da banda iliotibial, comum em corredores.
- Cistos parameniscais e outros nódulos de partes moles ao redor do joelho.
Se a queixa for um caroço ao redor do joelho que não parece ligado à articulação, os princípios do nosso guia de ultrassom de partes moles também se aplicam.
Cisto de Baker: o que é
O cisto de Baker, ou cisto poplíteo, é a distensão da bursa que fica entre o tendão do semimembranoso e a cabeça medial do gastrocnêmio. Essa bursa costuma se comunicar com a articulação por um colo estreito. Quando o joelho produz mais líquido, como na artrose, nas lesões de menisco ou na artrite, esse líquido passa para a bursa e forma o cisto. Por isso, em adultos, o cisto de Baker geralmente é um sinal de que existe outro problema dentro do joelho.
No ultrassom, o achado típico é uma coleção anecoica ou hipoecoica na região posteromedial, com um colo que passa entre o tendão do semimembranoso e o tendão do gastrocnêmio medial, em forma de “vírgula” ou “bico” no corte axial. Esse colo é o que confirma o diagnóstico e diferencia o cisto de Baker de outras coleções ou massas da fossa poplítea. O conteúdo pode ter septos, debris, sinovite ou corpos livres.
Cisto de Baker roto e trombose venosa profunda
Quando o cisto se rompe ou vaza, o líquido desce entre os músculos da panturrilha e provoca dor, inchaço e vermelhidão muito parecidos com os da trombose venosa profunda. Esse quadro é chamado às vezes de “pseudotromboflebite”.
No ultrassom, a ruptura aparece como um cisto de contorno inferior afilado ou irregular, com líquido se estendendo para baixo, geralmente entre a cabeça medial do gastrocnêmio e o sóleo ou no tecido subcutâneo da panturrilha.
O ponto prático é que um diagnóstico não exclui o outro. O cisto pode comprimir a veia poplítea e os dois quadros podem coexistir. Diante de panturrilha inchada e dolorosa, o exame deve incluir a avaliação das veias profundas com compressão e Doppler, mesmo que um cisto roto já tenha sido encontrado. Para entender como o Doppler avalia o fluxo venoso, veja nosso guia sobre ultrassom com Doppler.
Para profissionais: o exame por quadrantes (ESSR)
As diretrizes técnicas da ESSR organizam o joelho em quatro regiões: anterior, medial, lateral e posterior. Em geral se usa um transdutor linear de alta frequência, com frequência menor ou transdutor convexo para pacientes volumosos e para a fossa poplítea profunda. Examine sempre em dois planos e compare com o lado oposto quando houver dúvida.
Quadrante anterior
Paciente em decúbito dorsal, com o joelho em leve flexão (cerca de 20° a 30°, com um coxim sob a fossa poplítea). A flexão tensiona o aparelho extensor e reduz a anisotropia.
- Recesso suprapatelar: corte longitudinal acima da patela, entre a gordura quadricipital e a gordura pré-femoral. É o local mais sensível para derrame articular. Para mobilizar o líquido, pode-se contrair o quadríceps ou comprimir os recessos laterais. Avalie também espessamento sinovial e Doppler.
- Tendão do quadríceps: aspecto fibrilar e em camadas. Procure espessamento, áreas hipoecoicas e descontinuidade. Na suspeita de ruptura, a avaliação dinâmica com flexão ajuda a mostrar a falha e a retração.
- Patela e tendão patelar: do polo inferior da patela até a tuberosidade da tíbia, em longitudinal e transversal. Avalie espessura, ecogenicidade, Doppler (neovascularização na tendinopatia), calcificações e irregularidade da tuberosidade, como na doença de Osgood-Schlatter em adolescentes.
- Bursas: pré-patelar, infrapatelar superficial e infrapatelar profunda, e a gordura de Hoffa.
- Cartilagem troclear: com o joelho em flexão máxima, um corte axial suprapatelar mostra a cartilagem da tróclea, que pode ser medida e descrita.
Quadrante medial
Joelho em leve flexão com rotação externa do quadril.
- Ligamento colateral medial: cortes longitudinais do fêmur até a tíbia. Avalie as camadas superficial e profunda, espessura, ecogenicidade e continuidade. Nas lesões crônicas, procure calcificação na inserção femoral. A manobra em valgo pode ajudar a demonstrar instabilidade.
- Corpo do menisco medial: abaixo do ligamento colateral medial. Descreva extrusão meniscal e cistos parameniscais.
- Pata de ganso: inserção do sartório, grácil e semitendíneo na face medial da tíbia, abaixo da linha articular. Avalie os tendões e a bursa anserina.
- Bursa do ligamento colateral medial, quando distendida.
Quadrante lateral
Joelho em leve flexão com rotação interna, ou paciente em decúbito lateral.
- Banda iliotibial: até o tubérculo de Gerdy na tíbia. Procure espessamento e líquido entre a banda e o côndilo femoral lateral.
- Ligamento colateral lateral: do côndilo femoral lateral até a cabeça da fíbula, em trajeto oblíquo.
- Tendão do bíceps femoral: até a cabeça da fíbula, formando junto com o colateral lateral um tendão conjunto distal.
- Tendão do poplíteo no seu sulco, e o corpo do menisco lateral, com atenção a cistos parameniscais.
- Nervo fibular comum: atrás do bíceps femoral e ao redor do colo da fíbula, sobretudo na queixa de pé caído ou parestesia.
Quadrante posterior
Paciente em decúbito ventral, joelho estendido.
- Cisto de Baker: corte axial posteromedial mostrando o colo entre o tendão do semimembranoso e a cabeça medial do gastrocnêmio. Depois, corte longitudinal para medir e para ver o polo inferior.
- Feixe neurovascular: artéria e veia poplíteas e nervo tibial. Faça compressão da veia poplítea e use Doppler quando houver suspeita de trombose ou de aneurisma da artéria poplítea.
- Tendão do semimembranoso, cabeças do gastrocnêmio e, em parte, o ligamento cruzado posterior e os cornos posteriores dos meniscos, lembrando das limitações já citadas.
Avaliação dinâmica e procedimentos
O ultrassom permite examinar o joelho em movimento, por exemplo na ruptura do aparelho extensor e na instabilidade do colateral medial. Também é usado para guiar a punção do derrame pelo recesso suprapatelar e a aspiração ou infiltração de cistos e bursas.
O que descrever no laudo
Um laudo de joelho útil segue a mesma ordem do exame e deixa claro o que foi e o que não foi avaliado:
- Técnica e lado: joelho direito ou esquerdo, transdutor e se houve avaliação dinâmica ou Doppler.
- Derrame articular: presente ou ausente, quantidade estimada de forma qualitativa (pequeno, moderado, acentuado), aspecto do conteúdo e presença de sinovite com Doppler.
- Aparelho extensor: espessura e ecotextura dos tendões do quadríceps e patelar, rupturas (parcial ou completa, extensão e retração), calcificações e neovascularização.
- Bursas: quais estão distendidas e o aspecto do conteúdo.
- Ligamentos colaterais e banda iliotibial: integridade, espessamento, calcificações.
- Meniscos (porção periférica): extrusão e cistos parameniscais, sem afirmar integridade meniscal global.
- Cisto de Baker: presença do colo entre semimembranoso e gastrocnêmio medial, medidas em três eixos, conteúdo (simples, septado, com debris, sinovite ou corpos livres) e sinais de ruptura.
- Feixe neurovascular poplíteo: compressibilidade venosa e fluxo, quando avaliado.
- Limitação do método: registrar que ligamentos cruzados, porção interna dos meniscos e cartilagem não são adequadamente avaliados pelo ultrassom, quando isso for relevante para a pergunta clínica.
Na impressão diagnóstica, responda à pergunta do pedido. Por exemplo: “cisto de Baker com sinais de ruptura, sem trombose venosa profunda no segmento avaliado” é mais útil do que só “cisto de Baker”.
Erros comuns
Chamar qualquer coleção posterior de cisto de Baker
Sem demonstrar o colo entre o semimembranoso e o gastrocnêmio medial, a coleção pode ser um cisto parameniscal, um gânglio, um aneurisma da artéria poplítea ou até um tumor de partes moles. Use o Doppler em toda lesão da fossa poplítea.
Parar no cisto roto e não avaliar as veias
O cisto de Baker roto e a trombose venosa profunda podem coexistir. Encontrar o cisto não dispensa a compressão das veias profundas quando a queixa é panturrilha inchada.
Confundir anisotropia com tendinopatia
Os tendões patelar e do quadríceps ficam hipoecoicos se o feixe não estiver perpendicular às fibras. Ajuste o ângulo do transdutor e a flexão do joelho antes de descrever alteração.
Não procurar derrame no lugar certo
Pequenos derrames são perdidos quando o recesso suprapatelar é comprimido com força ou examinado com o joelho totalmente estendido e relaxado. Use pouca pressão e leve flexão.
Prometer o que o método não entrega
Escrever “meniscos íntegros” ou “ligamentos cruzados sem alterações” em um ultrassom passa uma segurança falsa. O correto é descrever o que foi visto e registrar a limitação.
Perguntas frequentes
Cisto de Baker é perigoso?
Na maioria dos casos, não. Ele costuma refletir outro problema no joelho, como artrose ou lesão de menisco. Pode causar desconforto, limitar a flexão e, quando rompe, simular uma trombose. Quem define se precisa de tratamento é o médico que acompanha o paciente.
Cisto de Baker some sozinho?
Pode diminuir quando a causa dentro do joelho é tratada. O comportamento varia de pessoa para pessoa.
Ultrassom de joelho mostra artrose?
Mostra sinais indiretos, como osteófitos nas bordas, derrame, sinovite e extrusão meniscal, e parte da cartilagem da tróclea. A avaliação da artrose, em geral, é feita com radiografia.
Quanto tempo dura o exame?
Em geral, entre 15 e 30 minutos por joelho, dependendo da queixa e de a avaliação incluir Doppler das veias.
Dá para tirar o líquido do joelho com ultrassom?
Sim. O ultrassom pode guiar a punção do derrame articular ou a aspiração de um cisto, o que aumenta a precisão do procedimento.
Conclusão
O ultrassom de joelho é um exame rápido, sem preparo e muito bom para tendões, bursas, ligamentos colaterais, derrame articular e cisto de Baker. Ele não substitui a ressonância quando a dúvida é menisco, ligamento cruzado ou cartilagem, e um bom laudo deixa essa limitação clara. Para quem examina, dividir o joelho em quatro quadrantes, demonstrar o colo do cisto de Baker e lembrar de avaliar as veias na panturrilha dolorosa são as atitudes que mais evitam erros. Se você também faz exames musculoesqueléticos de membro superior, veja o nosso guia de ultrassom de ombro.
Se você quer que derrame, aparelho extensor, colaterais, cisto de Baker e limitações do método tenham campo próprio no seu laudo de joelho, conheça o UltraLaudo, plataforma de laudos estruturados de ultrassonografia.
Referências
- Martinoli C. Musculoskeletal ultrasound: technical guidelines. Insights into Imaging, 2010;1(3):99-141.
- Sconfienza LM, Albano D, Allen G, et al. Clinical indications for musculoskeletal ultrasound updated in 2017 by European Society of Musculoskeletal Radiology (ESSR) consensus. European Radiology, 2018;28:5338-5351.
- Ward EE, Jacobson JA, Fessell DP, et al. Sonographic detection of Baker’s cysts: comparison with MR imaging. American Journal of Roentgenology, 2001;176(2):373-380.
- Jacobson JA. Fundamentals of Musculoskeletal Ultrasound. 3ª edição. Elsevier, 2018.
- Bianchi S, Martinoli C. Ultrasound of the Musculoskeletal System. Springer, 2007.
Este conteúdo tem finalidade educacional e não substitui a avaliação médica. A indicação do exame e a interpretação do resultado cabem ao médico que acompanha o paciente.

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