Ultrassom de vesícula: cálculo, pólipo e lama biliar

Ilustração de ultrassom de vesícula biliar com transdutor sobre o abdome superior direito e cálculos na vesícula

O ultrassom de vesícula é o exame de escolha para procurar pedra (cálculo), pólipo e lama biliar. Ele precisa de jejum de 6 a 8 horas em adultos, porque a vesícula só fica cheia e fácil de examinar quando a pessoa não comeu. No exame, a pedra aparece como um ponto brilhante que se move quando o paciente muda de posição e faz uma “sombra” atrás de si; o pólipo fica preso à parede e não se move; e a lama biliar é uma bile mais grossa, que forma uma camada no fundo da vesícula, sem sombra. O ultrassom detecta muito bem pedras a partir de poucos milímetros, mas cálculos muito pequenos ou escondidos no colo da vesícula podem passar despercebidos.

Para quem faz o exame, a vesícula parece simples, mas gera muitos erros de laudo: pólipo chamado de pedra, pedra chamada de pólipo e colédoco que ninguém mediu. Este guia junta as dúvidas mais comuns dos pacientes com a técnica, os critérios e o seguimento de pólipos segundo o consenso de 2022 da Society of Radiologists in Ultrasound (SRU).

Ultrassom de vesícula precisa de jejum? Por quê?

Precisa. Depois de uma refeição, principalmente com gordura, a vesícula contrai para liberar bile no intestino. Contraída, ela fica pequena, a parede parece espessa e pedras pequenas ou pólipos podem ficar escondidos. Com jejum de 6 a 8 horas, a vesícula se enche de bile, que no ultrassom é preta (anecoica), e qualquer coisa dentro dela se destaca.

Em geral, pode tomar um pouco de água pura durante o jejum. Café com leite, chiclete e cigarro devem ser evitados, porque estimulam a contração da vesícula ou aumentam os gases. Os detalhes de preparo de cada exame estão no nosso guia sobre jejum e preparo para ultrassom.

Na maioria das vezes a vesícula é avaliada dentro do ultrassom de abdome total ou abdome superior, junto com fígado, vias biliares, pâncreas, baço e rins.

O que é pedra, pólipo e lama na vesícula?

  • Pedra (cálculo biliar, colelitíase): é um depósito sólido que se forma dentro da vesícula, na maioria das vezes de colesterol. Muita gente tem pedra sem sintoma nenhum. Quando a pedra entope a saída da vesícula, causa dor forte do lado direito, embaixo das costelas, em geral depois de comer.
  • Pólipo: é uma pequena saliência presa na parede da vesícula. A grande maioria é benigna, quase sempre pseudopólipos de colesterol. Só uma parcela muito pequena, principalmente os maiores, tem risco de virar câncer, e é por isso que o tamanho e o formato orientam o acompanhamento.
  • Lama biliar: é bile mais espessa, com cristais e partículas. Aparece em jejum prolongado, gravidez, perda rápida de peso, nutrição pela veia e uso de alguns remédios. Pode sumir sozinha, persistir ou dar origem a pedras.

O ultrassom vê pedra pequena?

Na maioria dos casos, sim. O ultrassom é o melhor exame de imagem para pedra na vesícula, com sensibilidade alta, superior à da tomografia, que não enxerga bem cálculos de colesterol. Pedras de 2 ou 3 milímetros costumam ser vistas quando a vesícula está bem distendida e o exame é feito em mais de uma posição.

As situações em que uma pedra pequena pode escapar são: vesícula contraída por falta de jejum, cálculo preso no colo ou no ducto cístico, paciente com muito gás ou abdome volumoso, e microcálculos misturados com lama. Pedras dentro do colédoco (o canal que leva a bile ao intestino) são mais difíceis de ver no ultrassom, principalmente na parte final, perto do pâncreas.

Técnica do exame

Preparo e transdutor

Jejum de 6 a 8 horas e transdutor convexo de baixa frequência. Um transdutor linear de alta frequência ajuda a estudar a parede, um pólipo próximo à superfície e o fundo da vesícula em pacientes magros.

Decúbitos

O exame começa em decúbito dorsal, com cortes longitudinais e transversais de toda a vesícula, do fundo ao colo. Em seguida, o paciente passa para decúbito lateral esquerdo (oblíquo), que afasta as alças intestinais e traz a vesícula para mais perto da parede. Quando há dúvida, vale examinar com o paciente sentado ou em pé.

Mobilidade e sombra acústica

Os dois sinais que mais diferenciam pedra de pólipo são:

  • Mobilidade: o cálculo cai para a parte mais baixa da vesícula quando o paciente muda de posição. O pólipo continua no mesmo lugar da parede. Atenção: pedra impactada no colo ou aderida à parede pode não se mover.
  • Sombra acústica posterior: a pedra bloqueia o som e deixa uma faixa escura e limpa atrás dela. Pólipos e lama não fazem sombra. Cálculos muito pequenos podem não fazer sombra visível; aumentar a frequência e colocar o foco na altura do cálculo ajuda. O artefato de cintilação (twinkling) no Doppler colorido pode reforçar o diagnóstico.

Sinal WES

Quando a vesícula está cheia de pedras ou contraída sobre elas, não se vê bile. O que aparece é o sinal WES (do inglês wall, echo, shadow): uma linha da parede da vesícula, logo abaixo uma linha brilhante do eco do cálculo e, atrás, a sombra acústica. O diagnóstico diferencial principal é com alça intestinal com gás, que faz uma sombra “suja”, com reverberação, e muda de aspecto com o peristaltismo.

Cálculo, pólipo ou lama: como diferenciar

Característica Cálculo Pólipo Lama biliar
Ecogenicidade Muito ecogênico Ecogenicidade intermediária, parecida com a parede Ecos de baixa a média intensidade
Sombra acústica Presente (pode faltar se muito pequeno) Ausente Ausente
Mobilidade Move-se com a mudança de decúbito Fixo à parede Move-se devagar, forma nível
Forma Arredondado ou facetado Saliência presa à parede, com ou sem pedículo Camada no fundo, com nível líquido
Doppler Pode ter artefato de cintilação Pode ter vaso no pedículo Sem fluxo
Armadilha Cálculo aderido parece pólipo Pólipo grande pode ser confundido com lama tumefeita Lama tumefeita (sludge ball) simula pólipo ou tumor

A lama tumefeita forma uma massa sem sombra que pode parecer pólipo ou lesão de parede. O que ajuda: ela se desloca lentamente com a mudança de posição, não tem fluxo ao Doppler e pode mudar de forma ou desaparecer no controle.

Colecistite aguda: sinais no ultrassom

Na suspeita de colecistite aguda, o ultrassom é o primeiro exame. Os achados mais usados, também citados nas Diretrizes de Tóquio (TG18), são:

  • Cálculos, especialmente um cálculo impactado no colo ou no ducto cístico que não se move;
  • Sinal de Murphy ultrassonográfico: dor máxima quando o transdutor comprime exatamente sobre a vesícula visualizada. Pode ser negativo em idosos, diabéticos, pacientes sedados ou que tomaram analgésico, e na colecistite gangrenosa;
  • Espessamento da parede, em geral com aspecto em camadas ou edema. As TG18 citam espessura acima de 4 mm. A medida deve ser feita na parede anterior, com o feixe perpendicular;
  • Distensão da vesícula;
  • Líquido pericolecístico;
  • Aumento de fluxo na parede ao Doppler, achado de apoio, de menor peso.

A combinação de cálculo com sinal de Murphy ultrassonográfico positivo tem alto valor preditivo positivo para colecistite aguda. Um detalhe importante: parede espessa sozinha não é colecistite. Ela aparece em hepatopatia, ascite, hipoalbuminemia, insuficiência cardíaca, pancreatite, hepatite aguda e vesícula pós-prandial. O contexto clínico e os outros sinais decidem.

Sinais de complicação que devem ser procurados e descritos: parede irregular ou com membranas na luz (gangrena), falha na parede com coleção adjacente (perfuração), gás na parede ou na luz (colecistite enfisematosa).

Pólipo de vesícula: seguimento pelo consenso SRU 2022

Em 2022, a Society of Radiologists in Ultrasound publicou um consenso (Kamaya e colaboradores, na revista Radiology) para pólipos encontrados por acaso em adultos sem sintomas. As recomendações classificam o pólipo pelo formato e depois pelo tamanho.

Categorias de risco:

  • Risco extremamente baixo: pólipo pediculado, com aspecto de “bola na parede” (ball-on-the-wall), ou preso por um pedículo fino.
  • Risco baixo: pólipo séssil, ou com pedículo largo e grosso.
  • Indeterminado: pólipo com espessamento focal da parede adjacente de 4 mm ou mais.

Pólipos com suspeita de invasão ou de malignidade, e pacientes com colangite esclerosante primária, ficam fora do algoritmo e são conduzidos à parte.

Categoria Tamanho Recomendação SRU 2022
Extremamente baixo risco (pediculado, pedículo fino) Até 9 mm Sem seguimento
Extremamente baixo risco 10 a 14 mm Ultrassom em 6, 12 e 24 meses
Extremamente baixo risco 15 mm ou mais Avaliação cirúrgica
Baixo risco (séssil ou pedículo largo) Até 6 mm Sem seguimento
Baixo risco 7 a 9 mm Ultrassom em 12 meses
Baixo risco 10 a 14 mm Ultrassom em 6, 12, 24 e 36 meses, ou avaliação cirúrgica
Baixo risco 15 mm ou mais Avaliação cirúrgica
Indeterminado (espessamento focal da parede de 4 mm ou mais) Até 6 mm Ultrassom em 6, 12, 24 e 36 meses, ou avaliação cirúrgica
Indeterminado 7 mm ou mais Avaliação cirúrgica

Durante o seguimento, o consenso considera relevante um crescimento de 4 mm ou mais em até 12 meses, ou o pólipo atingir o tamanho de indicação cirúrgica da sua categoria (15 mm nos grupos de risco extremamente baixo e baixo, 7 mm no indeterminado), situações em que se indica avaliação cirúrgica. Crescimento de até 3 mm pode fazer parte da história natural do pólipo. Se o pólipo diminui 4 mm ou mais, o seguimento pode ser encerrado. Pólipo estável ao fim do seguimento proposto não precisa de novos controles, e o seguimento dura no máximo 3 anos.

Para a leitura detalhada do consenso, veja o nosso artigo comentado sobre o consenso SRU 2022 de pólipo de vesícula.

Essas recomendações não se aplicam a pacientes com sintomas atribuíveis à vesícula, colangite esclerosante primária ou outras condições de alto risco, e a conduta final cabe ao médico assistente. Para o laudo, o essencial é que o formato e o tamanho estejam descritos de forma que o colega consiga aplicar o algoritmo.

Medida do colédoco

A via biliar deve ser avaliada em todo exame de vesícula. O colédoco (ou o ducto hepático comum, na região do hilo) é medido em corte longitudinal, em geral no ponto em que cruza a frente da veia porta ou da artéria hepática direita, da parede interna à parede interna, perpendicular ao eixo do ducto.

Em adultos, valores até cerca de 6 mm costumam ser considerados normais. O calibre tende a ser um pouco maior em idosos e em pacientes já operados da vesícula, e não há um corte único aceito por todos para esses grupos. Por isso, o mais útil é descrever a medida, a presença ou ausência de dilatação das vias biliares dentro do fígado e, quando possível, a porção distal do colédoco, procurando cálculo ou causa de obstrução.

O que descrever no laudo

  • Condições do exame: tempo de jejum, se a vesícula estava distendida ou contraída e limitações (gases, biotipo).
  • Vesícula: posição, forma, dimensões quando relevantes e espessura da parede.
  • Conteúdo: bile anecoica ou presença de cálculos, pólipos ou lama.
  • Cálculos: número (único, alguns ou múltiplos), tamanho do maior, mobilidade, sombra acústica e se algum está impactado no colo.
  • Pólipos: número, tamanho do maior, formato (pediculado com pedículo fino, séssil ou pedículo largo), presença de espessamento focal da parede adjacente e fluxo ao Doppler, quando avaliado.
  • Lama: quantidade aproximada e se há lama tumefeita.
  • Sinais inflamatórios: Murphy ultrassonográfico (positivo, negativo ou não avaliável), parede, líquido pericolecístico e complicações.
  • Vias biliares: calibre do colédoco em milímetros e vias intra-hepáticas.

Na conclusão, use termos objetivos (“colelitíase sem sinais ultrassonográficos de colecistite aguda” ou “pólipo séssil de 8 mm na vesícula biliar”). Quando aplicável, cite a categoria e a recomendação do consenso SRU 2022, deixando claro que a conduta é definida pelo médico assistente.

Erros comuns

Laudar vesícula contraída como parede espessa

Sem jejum, a parede parece grossa e o conteúdo some. Registre que a vesícula estava contraída e, se necessário, sugira repetir com jejum adequado em vez de descrever espessamento.

Não mudar o decúbito

Sem mobilizar o paciente, cálculo aderido vira pólipo e pólipo vira cálculo. A mudança para decúbito lateral esquerdo ou posição sentada é o teste mais simples e mais esquecido.

Confundir o barrete frígio com septo ou lesão

A dobra no fundo da vesícula (barrete frígio, ou phrygian cap) é uma variação normal. Ela pode simular septo ou criar sombra de borda que lembra cálculo.

Chamar sombra de borda de cálculo

A sombra lateral que nasce das bordas curvas da vesícula é artefato de refração. A sombra do cálculo nasce do próprio cálculo, no centro da imagem dele.

Medir pólipo sem descrever o formato

Pelo consenso de 2022, um pólipo de 8 mm pediculado com pedículo fino não precisa de seguimento, e um séssil do mesmo tamanho precisa. Sem o formato no laudo, o colega não consegue aplicar a recomendação.

Perguntas frequentes

Quanto tempo de jejum para ultrassom de vesícula?

Em geral, de 6 a 8 horas para adultos. Em crianças o jejum costuma ser menor, conforme o protocolo do serviço.

Pedra na vesícula sempre precisa de cirurgia?

Não. Muitas pessoas têm pedra sem sintomas, e a decisão de operar depende dos sintomas e da avaliação do médico, em geral o cirurgião.

Pólipo na vesícula é câncer?

Quase nunca. A maioria é benigna, principalmente os pequenos. O tamanho e o formato definem se é preciso acompanhar com novos exames.

Lama biliar é grave?

Em geral, não. Ela pode desaparecer sozinha, mas às vezes causa sintomas, pancreatite ou forma pedras. O médico decide se precisa de acompanhamento.

Conclusão

O ultrassom de vesícula é rápido, barato e muito preciso quando o preparo e a técnica estão certos: jejum adequado, mais de um decúbito, atenção à mobilidade e à sombra acústica, e medida do colédoco em todo exame. Na suspeita de colecistite, o conjunto de achados vale mais do que um sinal isolado. Para pólipos, o consenso SRU 2022 deixou o seguimento mais racional, desde que o laudo traga o tamanho e o formato.

Se você quer que número e tamanho dos cálculos, formato do pólipo, sinal de Murphy e calibre do colédoco tenham campo próprio no laudo de abdome, conheça o UltraLaudo, plataforma de laudos estruturados de ultrassonografia.


Referências

  • Kamaya A, Fung C, Szpakowski JL, et al. Management of incidentally detected gallbladder polyps: Society of Radiologists in Ultrasound consensus conference recommendations. Radiology, 2022;305(2):277-289.
  • Yokoe M, Hata J, Takada T, et al. Tokyo Guidelines 2018: diagnostic criteria and severity grading of acute cholecystitis. Journal of Hepato-Biliary-Pancreatic Sciences, 2018;25(1):41-54.
  • American College of Radiology. ACR Appropriateness Criteria: Right Upper Quadrant Pain.
  • American Institute of Ultrasound in Medicine. AIUM Practice Parameter for the Performance of an Ultrasound Examination of the Abdomen and/or Retroperitoneum.
  • Rumack CM, Levine D. Diagnostic Ultrasound. 5ª edição. Elsevier, 2018.

Este conteúdo tem finalidade educacional e não substitui a avaliação médica. A interpretação do exame e a decisão sobre tratamento ou acompanhamento cabem ao médico que acompanha o paciente.

Respostas

  1. Avatar de Pólipos de vesícula: consenso SRU 2022 (Kamaya, Radiology): artigo comentado – UltraLaudo Blog

    […] 2. Examine em mais de um decúbito. Decúbito dorsal e lateral esquerdo são o mínimo; a posição sentada ou em pé ajuda nos casos duvidosos. É a forma mais simples de separar lama e cálculo de pólipo. A técnica completa está no nosso guia de ultrassom de vesícula. […]

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  2. Avatar de Como entender o laudo de ultrassom: anecoico, hipoecoico, hiperecoico e outros termos – UltraLaudo Blog

    […] Esse é o principal sinal que diferencia o cálculo de um pólipo, que não faz sombra e não se move quando o paciente muda de posição. Detalhamos essa diferença no guia de ultrassom de vesícula. […]

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  3. Avatar de Achados incidentais no ultrassom: cisto no rim, hemangioma, cisto no ovário e quando se preocupar – UltraLaudo Blog

    […] A tabela completa está no nosso artigo comentado sobre o consenso SRU 2022 de pólipos de vesícula, e a diferença entre pedra, pólipo e lama está no guia de ultrassom de vesícula. […]

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    […] o restante do exame, veja os guias de ultrassom de vesícula: cálculo, pólipo e lama biliar e de ultrassom de abdome total. No cirrótico, os demais achados estão no post sobre ultrassom do […]

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