O ultrassom de mama não tem uma idade fixa para começar: ele é pedido quando há uma queixa (um nódulo palpável, dor localizada, secreção), como primeiro exame em mulheres jovens, em geral abaixo dos 30 anos, e em gestantes ou lactantes, e como complemento da mamografia em mamas densas. Ele ajuda a encontrar câncer, mas não substitui a mamografia no rastreamento. Já o ultrassom de rins e vias urinárias pede, em geral, apenas bexiga cheia: jejum costuma ser necessário só quando o exame é feito junto com o abdome total. Ele avalia o tamanho dos rins, dilatação (hidronefrose), cálculos, cistos, a bexiga e quanto de urina sobra depois de urinar.
Para quem faz os exames, o laudo só é útil quando usa linguagem padronizada e responde à pergunta clínica: na mama, o léxico e as categorias BI-RADS; nos rins, medidas e graduações reprodutíveis. Este guia reúne as dúvidas de pacientes e os pontos de atenção para profissionais.
Parte 1: ultrassom de mama
A partir de que idade fazer ultrassom de mama?
Não existe uma idade mínima ou máxima. O que define o exame é a indicação. De forma geral, as recomendações do Colégio Americano de Radiologia (ACR) e das sociedades brasileiras seguem esta lógica:
- Mulheres jovens com queixa: abaixo dos 30 anos, o ultrassom costuma ser o primeiro exame diante de um nódulo palpável. Entre 30 e 39 anos, pode-se começar pelo ultrassom ou pela mamografia, conforme o caso. A partir dos 40 anos, em geral começa-se pela mamografia diagnóstica, com ultrassom complementar.
- Gestantes e lactantes: o ultrassom é o exame inicial para avaliar sintomas na mama, porque não usa radiação e a mama nessa fase é mais densa.
- Mamas densas: o ultrassom pode ser usado como complemento à mamografia de rastreamento. As recomendações do Colégio Brasileiro de Radiologia (CBR), da Sociedade Brasileira de Mastologia (SBM) e da FEBRASGO, publicadas em 2023, consideram o ultrassom complementar em mulheres com mamas densas, avaliado caso a caso, e em situações de alto risco quando a ressonância não está disponível ou não é possível.
Para o rastreamento em mulheres de risco habitual, as sociedades brasileiras recomendam mamografia anual a partir dos 40 anos. O ultrassom entra como exame adicional, não como substituto.
O ultrassom consegue ver câncer de mama?
Sim, o ultrassom pode mostrar tumores, inclusive alguns que a mamografia não vê em mamas densas. Mas ele tem limitações importantes: vê mal as microcalcificações, que às vezes são o único sinal de um câncer inicial, depende bastante de quem faz o exame e, usado sozinho no rastreamento, gera mais achados que levam a biópsias com resultado benigno. Por isso, na maioria das mulheres, ele complementa a mamografia. Um ultrassom normal não dispensa a mamografia quando ela está indicada para a idade ou para o risco.
Precisa de preparo para ultrassom de mama?
Não. Não é preciso jejum, bexiga cheia nem escolher um dia específico do ciclo menstrual. Vale levar mamografias, ultrassons e ressonâncias anteriores, porque a comparação muda a interpretação. Para outras dúvidas de preparo, veja o guia sobre jejum e bexiga cheia no ultrassom.
Categorias BI-RADS no ultrassom de mama
O BI-RADS (Breast Imaging Reporting and Data System), do ACR, padroniza a descrição dos achados e a conclusão do laudo. A categoria final indica a probabilidade de câncer e orienta a conduta. As faixas abaixo são as do atlas BI-RADS, 5ª edição.
| Categoria | Significado | Probabilidade de malignidade | Conduta típica |
|---|---|---|---|
| 0 | Incompleto | Não se aplica | Complementar com outro exame (por exemplo, mamografia) ou comparar com exames anteriores |
| 1 | Negativo | Essencialmente 0% | Seguir o rastreamento de rotina para a idade e o risco |
| 2 | Achado benigno | Essencialmente 0% | Seguir o rastreamento de rotina |
| 3 | Provavelmente benigno | Até 2% | Controle em intervalo curto, em geral em 6 meses, e depois acompanhamento por cerca de 2 anos |
| 4A | Baixa suspeita | Mais de 2% até 10% | Biópsia |
| 4B | Suspeita moderada | Mais de 10% até 50% | Biópsia |
| 4C | Alta suspeita | Mais de 50% e menos de 95% | Biópsia |
| 5 | Altamente sugestivo de malignidade | 95% ou mais | Biópsia |
| 6 | Malignidade já comprovada por biópsia | Não se aplica | Tratamento adequado ao caso |
Alguns pontos ajudam a entender a tabela:
- BI-RADS 3 não é “suspeito”. É uma lesão com aspecto típico de benignidade, como um nódulo oval, circunscrito e paralelo à pele sugestivo de fibroadenoma, em que o acompanhamento é uma alternativa segura à biópsia.
- A subdivisão da categoria 4 é opcional no ultrassom, mas ajuda o médico assistente e o patologista a interpretar o resultado da biópsia. Uma biópsia benigna em uma lesão 4C, por exemplo, merece revisão da concordância.
- Cisto simples é BI-RADS 2, não 3.
O que descrever no laudo de ultrassom de mama
Um bom laudo de mama descreve cada achado com o léxico BI-RADS e termina com uma categoria única por exame, que é a do achado mais suspeito.
- Indicação e contexto: rastreamento complementar, nódulo palpável, controle, gestação, prótese.
- Composição do tecido: homogêneo adiposo, homogêneo fibroglandular ou heterogêneo.
- Localização de cada achado: mama, posição em horas de relógio e distância do mamilo em centímetros. Quando houver, profundidade.
- Medidas: três dimensões, com o maior eixo identificado.
- Forma: oval, redonda ou irregular.
- Orientação: paralela ou não paralela à pele.
- Margens: circunscrita ou não circunscrita (indistinta, angular, microlobulada, espiculada).
- Padrão de ecogenicidade: anecoico, hipoecoico, isoecoico, hiperecoico, complexo cístico e sólido, heterogêneo.
- Características posteriores: ausentes, reforço, sombra ou padrão combinado.
- Achados associados e casos especiais: distorção arquitetural, alterações da pele, calcificações visíveis, vascularização ao Doppler, elastografia, cisto simples ou complicado, linfonodo intramamário.
- Linfonodos axilares: espessura e aspecto da cortical, preservação do hilo gorduroso.
- Comparação com exames anteriores e correlação com a mamografia e com o exame físico.
- Conclusão: categoria BI-RADS e recomendação clara de conduta.
Erros comuns no ultrassom de mama
Usar BI-RADS 3 como “zona de conforto”
A categoria 3 exige critérios morfológicos definidos. Lesão com margem não circunscrita, orientação não paralela ou forma irregular não deve ser classificada como 3 só porque a paciente é jovem ou o achado é pequeno.
Classificar cisto simples como BI-RADS 3
Cisto simples, anecoico, com paredes finas e reforço posterior, é benigno. Colocá-lo na categoria 3 gera controles desnecessários e ansiedade.
BI-RADS 0 sem dizer o que falta
A categoria 0 deve vir acompanhada do exame ou da comparação necessária. No ultrassom, ela é menos usada do que na mamografia, porque em geral a avaliação já é a etapa diagnóstica.
Localização incompleta
Descrever “nódulo na mama direita” sem hora e distância do mamilo dificulta o controle evolutivo, a correlação com a mamografia e a biópsia guiada.
Não correlacionar com a mamografia
Um nódulo visto no ultrassom deve, sempre que possível, corresponder ao achado mamográfico em localização, tamanho e aspecto. Quando não corresponde, isso precisa estar escrito.
Parte 2: ultrassom de rins e vias urinárias
Qual o preparo para ultrassom de rins e vias urinárias?
O principal é a bexiga cheia. Em geral, orienta-se beber água cerca de uma hora antes e não urinar até o exame. A bexiga cheia permite avaliar a parede, a presença de cálculos ou lesões na bexiga e, ao final, medir o resíduo após urinar. Jejum costuma não ser necessário quando o exame é só dos rins e da bexiga. Se o pedido for combinado com o abdome total, aí entra o jejum, por causa da vesícula. As orientações variam entre serviços, por isso vale seguir o que a clínica informar. O passo a passo está no guia sobre preparo com jejum e bexiga cheia.
Qual a diferença entre ultrassom de rins e ultrassom de abdome total?
O ultrassom de abdome total avalia fígado, vesícula, vias biliares, pâncreas, baço, rins, aorta e bexiga. O ultrassom de rins e vias urinárias é focado no aparelho urinário, com mais tempo dedicado aos rins, à bexiga e ao resíduo pós-miccional. Se a dúvida clínica é cólica renal, infecção urinária de repetição ou alteração da função renal, o exame dirigido costuma ser suficiente. Para entender o exame mais amplo, veja o guia de ultrassom de abdome total.
O que o ultrassom de rins e vias urinárias avalia?
| Estrutura | O que se avalia |
|---|---|
| Rins | Posição, tamanho (comprimento), espessura do parênquima, ecogenicidade da cortical, diferenciação corticomedular, contornos |
| Sistema coletor | Presença e grau de dilatação (hidronefrose), cálculos |
| Lesões renais | Cistos, lesões sólidas, angiomiolipomas |
| Ureteres | Em geral só são vistos quando dilatados; podem mostrar cálculo na junção ureterovesical |
| Bexiga | Paredes, conteúdo, cálculos, divertículos, lesões, jatos ureterais |
| Após urinar | Volume de resíduo pós-miccional |
Alguns pontos merecem explicação:
- Tamanho e cortical: em adultos, o comprimento renal fica em geral entre 10 e 12 cm, com variação conforme altura e idade. Rins pequenos, com cortical fina e mais ecogênica, sugerem doença renal crônica. O ultrassom não mede a função renal, mas mostra sinais indiretos.
- Hidronefrose: é a dilatação do sistema coletor. O laudo deve dizer se é leve, moderada ou acentuada e, se possível, apontar a causa, como um cálculo. Uma dilatação discreta com bexiga muito cheia pode diminuir depois de urinar, e vale reavaliar.
- Cálculos: aparecem como imagens hiperecogênicas com sombra acústica posterior. O artefato de cintilação (twinkling) ao Doppler colorido ajuda a confirmar. Cálculos pequenos e os localizados no meio do ureter podem não ser vistos, e a tomografia sem contraste segue como referência na cólica renal em adultos.
- Cistos renais: são muito comuns e, quando simples, benignos. A classificação de Bosniak, atualizada em 2019, foi desenvolvida principalmente para tomografia e ressonância. No ultrassom, o papel é reconhecer o cisto simples e indicar quando um cisto tem septos espessos, componente sólido, paredes irregulares ou vascularização, que pedem avaliação complementar. Aplicar a categoria Bosniak só com base no ultrassom convencional deve ser feito com cautela.
- Bexiga e resíduo: com a bexiga cheia avaliam-se espessura da parede, cálculos, lesões e divertículos. O resíduo pós-miccional é o volume que sobra depois de urinar. Volumes pequenos são esperados, e o significado de um resíduo aumentado depende da idade, dos sintomas e do contexto, como no aumento da próstata. Veja mais no guia de ultrassom de próstata e resíduo pós-miccional.
O que descrever no laudo de rins e vias urinárias
- Indicação e condições técnicas (gases, biotipo, enchimento vesical).
- Rins: posição, comprimento de cada rim, espessura do parênquima, ecogenicidade cortical comparada ao fígado e ao baço, diferenciação corticomedular e contornos.
- Sistema coletor: presença ou ausência de dilatação, com grau e lado. Se houver dilatação, descrever se o ureter está dilatado e até onde.
- Cálculos: número, lado, localização (cálice, pelve, junção ureteropiélica, ureter, junção ureterovesical), maior medida e se causam obstrução.
- Cistos e lesões: localização, tamanho, paredes, septos, conteúdo, componente sólido e vascularização. Sugerir complementação quando não for um cisto simples.
- Bexiga: grau de enchimento, espessura e regularidade das paredes, conteúdo, cálculos, lesões, divertículos e jatos ureterais quando relevantes.
- Resíduo pós-miccional: volume em mL e método de cálculo.
- Conclusão objetiva: responde à pergunta clínica, por exemplo “hidronefrose moderada à direita secundária a cálculo na junção ureterovesical”.
Erros comuns no ultrassom de rins e vias urinárias
Avaliar a bexiga vazia
Bexiga pouco cheia simula parede espessa e esconde cálculos e lesões. Se o enchimento for insuficiente, o laudo deve dizer isso.
Chamar de hidronefrose uma pelve extrarrenal ou cistos parapiélicos
Pelve extrarrenal e cistos parapiélicos podem imitar dilatação. Ver se os cálices estão dilatados e se as imagens se comunicam ajuda a diferenciar. O Doppler também separa vasos do hilo de um sistema coletor dilatado.
Confiar demais no tamanho do cálculo
O ultrassom pode superestimar o tamanho de cálculos pequenos, e a sombra acústica pode ser confundida com o próprio cálculo. Meça a imagem ecogênica e não a sombra.
Aplicar Bosniak como se fosse tomografia
Cisto com septo fino ou pequeno conteúdo ecogênico no ultrassom não deve receber uma categoria Bosniak definitiva sem método adequado. Descreva os achados e sugira complementação quando indicado.
Resíduo medido tarde ou com técnica inconsistente
O resíduo deve ser medido logo após a micção. Esperar muito tempo superestima o volume. Registre as três medidas e o método.
Perguntas frequentes
Ultrassom de mama substitui a mamografia?
Não. Para o rastreamento, a mamografia segue como o exame principal a partir dos 40 anos. O ultrassom complementa, especialmente em mamas densas.
BI-RADS 3 é câncer?
Não. BI-RADS 3 indica achado provavelmente benigno, com chance de câncer de até 2%. A conduta habitual é o controle em intervalo curto.
BI-RADS 4 significa que vou ter câncer?
Não necessariamente. A categoria 4 indica que a lesão precisa de biópsia. Na subcategoria 4A, a maioria das biópsias tem resultado benigno.
Precisa de jejum para ultrassom de rins?
Em geral, não. O preparo principal é a bexiga cheia. O jejum costuma ser pedido quando o exame é feito junto com o abdome total.
O ultrassom de rins mostra pedra no rim?
Sim, mostra a maioria dos cálculos nos rins e na bexiga. Cálculos muito pequenos ou no meio do ureter podem não aparecer, e o médico pode pedir tomografia.
Conclusão
Na mama, o ultrassom é o primeiro exame em muitas situações, mas complementa e não substitui a mamografia no rastreamento, e o laudo ganha valor quando usa o léxico e as categorias BI-RADS. Nos rins, um exame com bexiga cheia, medidas reprodutíveis e graduação padronizada da dilatação responde à maioria das dúvidas clínicas, com cautela na classificação de cistos complexos.
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Referências
- D’Orsi CJ, Sickles EA, Mendelson EB, Morris EA, et al. ACR BI-RADS Atlas, Breast Imaging Reporting and Data System. 5ª edição. Reston, VA: American College of Radiology, 2013.
- Urban LABD, Chala LF, Paula IB, et al. Recomendações do Colégio Brasileiro de Radiologia e Diagnóstico por Imagem, da Sociedade Brasileira de Mastologia e da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia para o rastreamento do câncer de mama no Brasil. Radiologia Brasileira, 2023.
- American College of Radiology. ACR Appropriateness Criteria: Palpable Breast Masses. Journal of the American College of Radiology.
- American College of Radiology. ACR Appropriateness Criteria: Breast Imaging of Pregnant and Lactating Women. Journal of the American College of Radiology.
- American Institute of Ultrasound in Medicine. AIUM Practice Parameter for the Performance of an Ultrasound Examination of the Abdomen and/or Retroperitoneum. AIUM, em colaboração com ACR, SPR e SRU.
- Silverman SG, Pedrosa I, Ellis JH, et al. Bosniak Classification of Cystic Renal Masses, Version 2019: An Update Proposal and Needs Assessment. Radiology, 2019.
- Smith-Bindman R, Aubin C, Bailitz J, et al. Ultrasonography versus computed tomography for suspected nephrolithiasis. New England Journal of Medicine, 2014.
Este conteúdo tem finalidade educacional e não substitui a avaliação médica. A indicação dos exames e a interpretação do resultado cabem ao médico que acompanha o paciente.

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