A classificação de Bosniak versão 2019 (Silverman et al., Radiology 2019) divide as massas císticas renais em cinco classes pela TC ou RM com protocolo renal: I e II são benignas e não precisam de seguimento; IIF (parede ou septo liso de 3 mm, ou 4 ou mais septos finos) faz controle com imagem em 6 e 12 meses e depois anual até 5 anos; III (parede ou septo realçante com 4 mm ou mais, ou irregular) e IV (nódulo realçante) seguem para cirurgia ou vigilância ativa, decisão individual. O ultrassom convencional não aplica Bosniak formalmente: ele confirma o cisto simples (anecoico, parede fina, reforço posterior, sem fluxo) e identifica o cisto que deixou de ser simples, que pede TC, RM ou ultrassom com contraste (CEUS).
Resumo rápido
- Cisto simples típico no ultrassom (anecoico, parede fina e lisa, reforço acústico posterior, sem septos, sem conteúdo e sem fluxo) é benigno e não precisa de controle, em geral qualquer que seja o tamanho.
- Septos, parede espessa ou irregular, componente sólido, ecos internos ou fluxo ao Doppler tornam o cisto complexo e indicam caracterização por TC, RM ou CEUS.
- Bosniak 2019 tem critérios métricos: até 2 mm é fino, 3 mm é minimamente espessado, 4 mm ou mais é espesso; nódulo é protrusão de 4 mm ou mais com margens obtusas, ou de qualquer tamanho com margens agudas.
- IIF: controle em 6 e 12 meses, depois anual, total de 5 anos. III e IV: cirurgia ou vigilância ativa.
- A EFSUMB propôs em 2020 uma categorização Bosniak adaptada ao CEUS, útil quando o contraste iodado ou o gadolínio são contraindicados.
- No laudo de ultrassom, descreva os achados morfológicos e evite atribuir classe Bosniak definitiva sem método com contraste.
Cisto simples no ultrassom: critérios
No modo B, os critérios clássicos de cisto simples são:
- Conteúdo anecoico, sem ecos internos (descartados artefatos de reverberação e de espessura de corte).
- Parede fina e lisa, quase imperceptível, com contornos bem definidos.
- Formato redondo ou ovalado, com interface nítida com o parênquima.
- Reforço acústico posterior.
- Ausência de fluxo ao Doppler colorido ou de amplitude, inclusive na parede.
Quando todos estão presentes, a lesão corresponde ao que na TC seria um cisto Bosniak I, e o manejo é o mesmo: nenhum seguimento.

Achados que tornam o cisto renal complexo
Os achados que tiram o cisto da categoria “simples” são:
- Septos: poucos e finos costumam ser benignos, mas contagem, espessura e realce definem a classe.
- Espessamento de parede ou de septo: irregularidade e espessamento focal pesam mais que espessamento liso.
- Componente sólido ou nódulo mural: é o achado mais preocupante, sobretudo com margens agudas em relação à parede.
- Calcificação: na versão 2019, a calcificação deixou de ser critério de classe por si só; o problema é a sombra acústica, que pode esconder septo ou nódulo realçante atrás dela.
- Conteúdo ecogênico: ecos internos, nível líquido, debris, aspecto de cisto hemorrágico ou proteináceo.
- Fluxo ao Doppler em septo, parede ou componente sólido: indica tecido vascularizado e, em geral, justifica caracterização com contraste.
O Doppler ajuda quando é positivo; quando é negativo, não exclui realce, porque o Doppler colorido é pouco sensível a fluxo lento em septos finos. É justamente essa limitação que o CEUS resolve.
Classificação de Bosniak 2019: definições e conduta
A versão 2019 (Silverman SG et al., Radiology 2019) foi pensada para reduzir a variabilidade entre observadores da versão 2005. As principais mudanças foram a inclusão formal da RM, a definição métrica dos termos e a retirada da calcificação como critério. Ela se aplica a massas císticas, definidas como lesões com menos de cerca de 25% de tecido realçante; acima disso, a lesão é tratada como massa sólida.
Definições de termos usadas na classificação:
- Fino: até 2 mm. Minimamente espessado: 3 mm. Espesso: 4 mm ou mais.
- Poucos septos: 1 a 3. Muitos septos: 4 ou mais.
- Irregularidade: protrusão convexa de até 3 mm com margens obtusas.
- Nódulo: protrusão convexa realçante de 4 mm ou mais com margens obtusas, ou de qualquer tamanho com margens agudas. A protrusão é medida perpendicular à parede ou ao septo, sem incluir a espessura da própria parede.
| Classe | Critérios principais (TC/RM com contraste) | Conduta proposta |
|---|---|---|
| I | Parede fina (até 2 mm) e lisa; conteúdo de líquido simples homogêneo (−9 a 20 UH na TC; sinal semelhante ao do líquor na RM); sem septos nem calcificações | Benigna, sem seguimento |
| II | Seis tipos, todos de parede fina e lisa: poucos (1 a 3) septos finos, que podem realçar; calcificação de qualquer tipo; lesões homogêneas hiperatenuantes ou hiperintensas em T1 que não realçam; lesões homogêneas pequenas demais para caracterizar, entre outros | Benigna, sem seguimento |
| IIF | Parede lisa minimamente espessada (3 mm) e realçante, ou septo(s) liso(s) de 3 mm realçante(s), ou muitos (4 ou mais) septos finos e lisos realçantes; na RM, também lesão heterogeneamente hiperintensa em T1 com supressão de gordura | Imagem em 6 e 12 meses, depois anual, total de 5 anos |
| III | Parede ou septo realçante espesso (4 mm ou mais) ou irregular (protrusão de até 3 mm com margens obtusas) | Cirurgia ou vigilância ativa |
| IV | Um ou mais nódulos realçantes (4 mm ou mais com margens obtusas, ou qualquer tamanho com margens agudas) | Cirurgia ou vigilância ativa |
A conduta nas classes III e IV é cada vez mais individualizada. Em uma coorte de 532 pacientes com lesões IIF a IV, a vigilância ativa não aumentou o risco de metástase nem a mortalidade câncer-específica em relação à cirurgia inicial, e as taxas de cirurgia de entrada foram de 0,3% na IIF, 39% na III e 80% na IV (Scientific Reports, 2022). A taxa de malignidade varia bastante conforme a série: uma análise que agregou dados da literatura encontrou malignidade em 52% das lesões III e 82% das lesões IV (AJR, 2019). Em geral, a classe IV continua indo para cirurgia, e a III é discutida caso a caso com idade, comorbidades e preferência do paciente.
Há divergência entre diretrizes: as europeias e canadenses de 2022 adotam a versão 2019, e a diretriz americana de urologia de 2021 ainda referencia a versão 2005.
Bosniak no ultrassom: por que não aplicar direto
O Bosniak foi definido para TC e RM porque o critério central é o realce de parede, septo e nódulo, que o modo B não mostra. A própria versão 2019 não incorporou o ultrassom nem o CEUS ao algoritmo. Por isso, na prática:
- Cisto simples típico no ultrassom: pode ser laudado como cisto simples, sem seguimento. Muitos laudos acrescentam “aspecto compatível com Bosniak I”, o que é aceito como linguagem de equivalência.
- Cisto com poucos septos finos ou calcificação fina, sem fluxo e sem componente sólido: a tendência é de lesão benigna, mas atribuir “Bosniak II” pelo ultrassom é uma extrapolação. Descreva e, conforme o contexto, sugira caracterização.
- Qualquer achado de IIF para cima (septos múltiplos, espessamento, irregularidade, nódulo, fluxo): descrever com medidas e indicar TC ou RM com protocolo renal, ou CEUS.
O papel do CEUS
O contraste de microbolhas é puramente intravascular, não é nefrotóxico e permite avaliar realce em tempo real com resolução espacial alta. Uma revisão de 2015 encontrou sensibilidade de 89% a 100% e valor preditivo negativo de 86% a 100% do CEUS na caracterização de cistos renais indeterminados, comparáveis aos da TC e da RM (Urology, 2015). As diretrizes da EFSUMB para aplicações não hepáticas do CEUS (Sidhu et al., 2018) recomendam o método para caracterizar lesões císticas renais complexas, e a EFSUMB publicou em 2020 uma categorização Bosniak adaptada ao CEUS (Cantisani et al., Ultraschall Med 2021), com as mesmas cinco classes.
Pontos práticos do CEUS:
- É especialmente útil em insuficiência renal, alergia a contraste iodado e quando a TC deixa a lesão indeterminada (realce equívoco, pseudorrealce em lesão pequena).
- Por ser mais sensível ao realce de septos finos, o CEUS tende a reclassificar algumas lesões para cima em relação à TC. A literatura recente discute se isso exige ajuste dos limiares; uma coorte de seguimento de lesões IIF por CEUS mostrou que parte das lesões foi rebaixada quando reclassificada pelos critérios de 2020 (BMC Medical Imaging, 2025).
- Calcificação com sombra acústica pode impedir a avaliação do que está atrás dela, e nesse caso TC ou RM são preferíveis.
Para mais detalhes sobre o método, veja nosso artigo comentado da diretriz WFUMB/EFSUMB de CEUS no fígado, que discute técnica e segurança das microbolhas.
Cistos que não precisam de seguimento
Não precisam de controle por imagem, em geral:
- Cisto simples típico no ultrassom, de qualquer tamanho, em paciente assintomático.
- Bosniak I e II caracterizados por TC ou RM.
- Cisto parapiélico ou peripiélico de aspecto simples, desde que se confirme que não é hidronefrose (o cisto não se comunica com cálices nem com a pelve).
- Lesões homogêneas pequenas demais para caracterizar na TC, consideradas Bosniak II na versão 2019.
Pedir controle de cisto simples gera custo e ansiedade sem benefício; esse raciocínio está detalhado no nosso texto sobre achados incidentais no ultrassom.
Exceções em que o cisto merece outro olhar: múltiplos cistos bilaterais com rins aumentados (doença renal policística), cistos em paciente com síndrome hereditária (von Hippel-Lindau, por exemplo), cisto sintomático ou que comprime a via excretora.
Armadilhas e erros comuns
- Ganho alto ou artefato de reverberação criando “ecos internos” em cisto simples. Reduza o ganho, use harmônica e mude o ângulo antes de chamar o cisto de complexo.
- Confundir cisto parapiélico com hidronefrose e vice-versa. Siga a estrutura em vários planos e procure comunicação com os cálices.
- Doppler negativo interpretado como “sem realce”. Fluxo ausente ao Doppler não equivale a ausência de realce na TC, RM ou CEUS.
- Aplicar Bosniak como se o ultrassom fosse TC, com classe definitiva sem contraste. Use linguagem descritiva e de equivalência.
- Não comparar com exames anteriores. Crescimento isolado de cisto simples não é sinal de malignidade, mas o surgimento de septo, espessamento ou nódulo é.
O que descrever no laudo
Itens mínimos para cada cisto relevante:
- Rim e localização (polo, terço médio, cortical, exofítico, parapiélico).
- Maior diâmetro, idealmente em dois eixos.
- Conteúdo (anecoico, com ecos, nível líquido).
- Parede (fina, espessada lisa, irregular) e espessura em milímetros quando não for fina.
- Septos: número (1 a 3 ou 4 ou mais) e espessura.
- Componente sólido ou nódulo: tamanho e margens.
- Calcificação e se gera sombra que limita a avaliação.
- Doppler: presença ou ausência de fluxo e onde.
- Comparação com exame anterior, quando disponível.
- Conclusão com recomendação objetiva.
Frases-modelo de laudo
- Cisto simples: “Imagem cística cortical no terço médio do rim direito, anecoica, de paredes finas e regulares, com reforço acústico posterior, sem septos ou fluxo ao Doppler, medindo 3,2 x 2,8 cm. Impressão: cisto renal simples (aspecto compatível com Bosniak I). Não há indicação de seguimento por imagem.”
- Cisto com septo fino: “Imagem cística exofítica no polo superior do rim esquerdo, medindo 2,5 cm, com um septo fino (menor que 2 mm), sem espessamento parietal, sem componente sólido e sem fluxo ao Doppler. Impressão: cisto renal minimamente complexo, de aspecto provavelmente benigno. A critério clínico, a caracterização por TC ou RM com protocolo renal, ou por ultrassom com contraste, permite a classificação de Bosniak.”
- Cisto complexo: “Imagem cística no polo inferior do rim direito, medindo 4,1 cm, com múltiplos septos, um deles espessado (4 mm) e irregular, e fluxo ao Doppler no septo. Impressão: lesão cística renal complexa. Recomenda-se caracterização por TC ou RM com protocolo renal, ou ultrassom com contraste, e avaliação urológica.”
Para o contexto do exame renal como um todo, veja também nosso guia de ultrassom de mama e de rins e vias urinárias.
Quando escalonar
- TC ou RM com protocolo renal: qualquer cisto com septos múltiplos, espessamento, irregularidade, nódulo, conteúdo ecogênico indeterminado ou fluxo.
- CEUS: quando há contraindicação a contraste iodado ou gadolínio, lesão indeterminada na TC, ou para seguimento de IIF em centros com experiência.
- Urologia: lesões III e IV, ou qualquer lesão com componente sólido.
Perguntas frequentes
Cisto renal simples precisa de controle anual?
Não. O cisto simples típico, com todos os critérios ultrassonográficos, é benigno e não precisa de seguimento por imagem, em geral independentemente do tamanho, salvo se causar sintomas.
Posso classificar Bosniak pelo ultrassom convencional?
Formalmente, não. A versão 2019 foi definida para TC e RM com contraste. No ultrassom, use linguagem de equivalência para o cisto simples (“compatível com Bosniak I”) e descreva os demais achados, recomendando método com contraste quando houver complexidade.
Qual o seguimento do cisto Bosniak IIF?
Pela versão 2019, imagem em 6 e 12 meses e depois anual, até completar 5 anos. Surgimento de espessamento, irregularidade ou nódulo motiva reclassificação.
Fluxo ao Doppler em septo de cisto renal significa câncer?
Não necessariamente, mas indica tecido vascularizado e tira o cisto da categoria de simples. Indica caracterização por TC, RM ou CEUS.
Conclusão
O ultrassom resolve a maior parte dos cistos renais: o cisto simples típico é benigno e dispensa seguimento. A classificação de Bosniak 2019 tem critérios métricos claros (2, 3 e 4 mm; 1 a 3 ou 4 ou mais septos; nódulo de 4 mm ou de margens agudas) e condutas bem definidas, mas foi feita para TC e RM, e o CEUS ganha espaço com a categorização adaptada da EFSUMB.
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Referências
- Silverman SG, Pedrosa I, Ellis JH, et al. Bosniak Classification of Cystic Renal Masses, Version 2019: An Update Proposal and Needs Assessment. Radiology. 2019;292(2):475-488. doi:10.1148/radiol.2019182646
- Cantisani V, Bertolotto M, Clevert DA, et al. EFSUMB 2020 Proposal for a Contrast-Enhanced Ultrasound-Adapted Bosniak Cyst Categorization: Position Statement. Ultraschall Med. 2021;42(2):154-166. doi:10.1055/a-1300-1727
- Sidhu PS, Cantisani V, Dietrich CF, et al. The EFSUMB Guidelines and Recommendations for the Clinical Practice of Contrast-Enhanced Ultrasound (CEUS) in Non-Hepatic Applications: Update 2017 (Long Version). Ultraschall Med. 2018;39(2):e2-e44.
- Masino F, Eusebi L, Bertolotto M, et al. Contrast-enhanced ultrasound in renal cystic lesions: an update. J Med Ultrason. 2024;51:635-647. doi:10.1007/s10396-024-01489-x
- Active surveillance versus initial surgery in the long-term management of Bosniak IIF-IV cystic renal masses. Scientific Reports. 2022. doi:10.1038/s41598-022-14056-6
- Active Surveillance Versus Nephron-Sparing Surgery for a Bosniak IIF or III Renal Cyst: A Cost-Effectiveness Analysis. AJR Am J Roentgenol. 2019. doi:10.2214/AJR.18.20415
- Management of Indeterminate Cystic Kidney Lesions: Review of Contrast-enhanced Ultrasound as a Diagnostic Tool. Urology. 2015.
- The value of contrast-enhanced ultrasound in the follow-up of Bosniak IIF cystic renal lesions. BMC Medical Imaging. 2025. doi:10.1186/s12880-025-01905-9
Conteúdo educativo destinado a profissionais de saúde. Não substitui a avaliação individual de cada caso, as diretrizes institucionais nem o julgamento clínico do médico responsável.

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