Cálculo de volume no ultrassom: fórmula do elipsoide e valores normais

Ilustração de tela de ultrassom com órgão oval e três linhas de medida perpendiculares, representando o cálculo de volume pela fórmula do elipsoide

O cálculo de volume no ultrassom usa, para quase todos os órgãos, a fórmula do elipsoide: volume = comprimento × largura × anteroposterior × 0,523 (π/6), com as medidas em centímetros e o resultado em mL. Como referência prática em adultos: a tireoide tem limite superior de 18 mL em mulheres e 25 mL em homens (soma dos lobos), a próstata de um adulto jovem fica em torno de 20 g (≈ 20 mL), o ovário com 10 mL ou mais entra no critério de morfologia policística, o testículo tem limite inferior em torno de 12 mL e o resíduo pós-miccional abaixo de 50 mL é considerado esvaziamento adequado. Como o volume multiplica três medidas, um erro de 10% em cada eixo vira um erro de cerca de 33% no volume.

Resumo rápido

  • Fórmula do elipsoide: C × L × AP × 0,523. O fator varia por órgão e por publicação: 0,479 na tireoide (Brunn), 0,5 no ovário (consenso de Rotterdam), 0,71 no testículo (Lambert).
  • Os três diâmetros devem ser máximos e ortogonais, medidos em dois planos perpendiculares.
  • Erros pequenos se multiplicam: +10% em cada eixo dá cerca de +33% no volume; −10% dá cerca de −27%.
  • Na próstata, volume em mL ≈ peso em gramas, porque a densidade do tecido é próxima de 1 g/mL.
  • O laudo deve trazer as três medidas, o volume e, quando o fator não for o padrão, a fórmula usada.
  • Valor de corte só vale com a mesma técnica do estudo de referência: via, transdutor, fator e fase do ciclo.

A fórmula do elipsoide: de onde vem o 0,523

O volume de um elipsoide é (4/3) × π × a × b × c, em que a, b e c são os semieixos. Como no ultrassom medimos diâmetros (o dobro dos semieixos), a fórmula fica π/6 × D1 × D2 × D3, e π/6 vale 0,5236. Os fatores 0,52, 0,523 e 0,5233 são o mesmo número com arredondamentos diferentes.

O elipsoide é um modelo. Órgãos de forma irregular (bexiga pouco cheia, próstata com lobo mediano, útero com miomas) ficam mal representados, e alguns grupos calibraram fatores empíricos contra o volume real. Daí vêm o 0,479 da tireoide e o 0,71 do testículo.

Ultrassom do lobo direito da tireoide em quatro painéis: cortes transversais com medidas da largura e do anteroposterior e cortes longitudinais com medida do comprimento, em dois exames sucessivos
Figura 1. Medida do lobo direito da tireoide para o cálculo do volume em dois exames do mesmo paciente: no corte transversal (A e C) medem-se a largura e o anteroposterior; no longitudinal (B e D), o comprimento. Os autores relatam 1,72 × 1,19 × 3,56 cm (3,81 mL) no primeiro exame e 1,84 × 1,46 × 4,00 cm (5,62 mL) no segundo. Fonte: Fung MHM et al., PeerJ 2023, CC BY 4.0.

Como medir: técnica para um volume confiável

  1. Comprimento: varra o órgão inteiro e congele o corte longitudinal com o maior eixo.
  2. AP: no mesmo corte, perpendicular ao comprimento, no ponto de maior espessura.
  3. Largura: gire o transdutor 90° e meça no corte transversal de maior área.
  4. Calipers e pressão: borda externa a borda externa, incluindo a cápsula, sem comprimir (a compressão reduz o AP e alarga o órgão).
  5. Fator do aparelho: os pacotes de “tireoide”, “bexiga” ou “próstata” podem ter fatores próprios. Confira qual o seu equipamento usa.

Erros de medida: por que o volume é tão sensível

Como o volume é um produto de três medidas, os erros se multiplicam: 10% a mais em cada eixo dá 1,1³ = 1,33, ou 33% a mais; 10% a menos dá 0,9³ = 0,73, ou 27% a menos. Em um ovário de 9 mL, basta 1 a 2 mm de diferença em cada eixo para cruzar o corte de 10 mL.

Armadilhas frequentes:

  • Corte oblíquo ou eixos não perpendiculares: distorcem as três medidas de forma imprevisível.
  • Fator trocado entre exames: 0,52 em um exame e 0,71 no seguinte simula um aumento de cerca de 37%.
  • Corpo lúteo ou folículo dominante incluído no ovário: mede o ciclo, não o estroma.
  • Enchimento vesical e via diferentes entre exames: mudam a forma da bexiga e a medida da próstata por via abdominal.

Tabela de referência: fórmulas e volumes normais em adultos

Órgão Fórmula usual Referência em adultos Fonte
Tireoide (por lobo; total = soma dos lobos) C × L × AP × 0,479 (Brunn) ou × 0,523 Total: até 18 mL em mulheres e até 25 mL em homens Brunn 1981; Gutekunst 1988, citado por Ittermann 2025
Próstata C × L × AP × 0,52 Cerca de 20 ± 6 g entre 21 e 30 anos (≈ mL) Berry 1984
Ovário (pré-menopausa) C × L × AP × 0,5 a 0,523 Média de pico 7,7 mL aos 20 anos; cerca de 2,8 mL na menopausa Kelsey 2013
Ovário, critério de SOP 0,5 × C × L × AP 10 mL ou mais em pelo menos um ovário (2023); acima de 10 mL (Rotterdam 2003) Teede 2023; Rotterdam 2004; Balen 2003
Útero C × L × AP × 0,523 Média de cerca de 44 mL em nulíparas, 58 mL com 1 parto e 76 mL com 2 a 3 partos Mauad Filho 2001
Testículo C × L × AP × 0,71 (Lambert) ou × 0,52 Média de cerca de 17 mL; limite inferior de 12 mL (D) e 11 mL (E) Lotti 2022; Sakamoto 2007
Bexiga e resíduo pós-miccional C × L × AP × 0,52 RPM abaixo de 50 mL adequado; 50 a 100 mL é o limiar inferior de anormalidade; acima de 200 a 300 mL sugere disfunção importante Kelly 2004; Asimakopoulos 2016

Os valores vêm de populações específicas e dependem do fator usado.

Tireoide: volume por lobo e limite do bócio

Brunn e colaboradores (1981) compararam a medida ultrassonográfica de lobos de cadáver com o volume por imersão em água e chegaram ao fator 0,479 por lobo. Muitos serviços usam 0,523, o que dá volumes cerca de 9% maiores. O volume total é a soma dos dois lobos; em geral o istmo não entra no cálculo, mas sua espessura deve ser descrita.

Os limites superiores mais usados para adultos são 18 mL em mulheres e 25 mL em homens, definidos por Gutekunst e colaboradores em 1988 como média mais três desvios-padrão. Em 2025, Ittermann e colaboradores mostraram, em coortes alemãs, que o volume varia com idade, peso, altura e iodo, e que os limites fixos classificariam cerca de 34% da população como bócio, contra 7% com equações individualizadas. Os cortes de 18 e 25 mL seguem como referência de laudo, interpretados conforme o porte do paciente e a evolução.

Próstata: volume, peso e a conversão g ≈ mL

Como a densidade do tecido prostático é próxima de 1 g/mL, o volume em mL é usado como estimativa do peso em gramas. Por isso o laudo pode trazer “volume de 42 mL, peso estimado de 42 g”.

O dado clássico de normalidade vem da série de autópsias de Berry e colaboradores (1984): a próstata normal tem cerca de 20 ± 6 g entre 21 e 30 anos e se mantém estável com a idade se não houver hiperplasia. Na prática, volumes de até cerca de 25 a 30 mL costumam ser descritos como dentro do esperado, e o corte para “aumento de volume” varia entre serviços.

A via transretal mede melhor a glândula. Técnica, protrusão intravesical e resíduo estão no nosso guia de ultrassom de próstata.

Ovário: volume normal e o corte de 10 mL na SOP

O volume ovariano muda muito com a idade. O modelo normativo de Kelsey e colaboradores (2013), com dados de quase 60 mil mulheres, mostra média de 7,7 mL no pico, por volta dos 20 anos, caindo para cerca de 2,8 mL na menopausa.

Na síndrome dos ovários policísticos, o consenso de Rotterdam (2003, publicado em 2004) definiu morfologia policística como 12 ou mais folículos de 2 a 9 mm e/ou volume ovariano acima de 10 mL em pelo menos um ovário. O consenso técnico de Balen (2003) usa a fórmula simplificada 0,5 × C × L × AP.

A diretriz internacional de 2023 (Teede e colaboradores) atualizou o critério para transdutores transvaginais de 8 MHz ou mais: morfologia ovariana policística quando há contagem de folículos de 20 ou mais por ovário e/ou volume de 10 mL ou mais, em qualquer dos ovários. Com equipamento mais antigo ou via abdominal, o volume passa a ser o critério preferido, porque a contagem de folículos fica pouco confiável. O volume só vale sem corpo lúteo, cisto ou folículo dominante; se houver, repita no ciclo seguinte. Até 8 anos após a menarca, o ultrassom não é recomendado para diagnosticar SOP.

Veja também o nosso guia de ovário policístico e cistos ovarianos.

Útero: volume varia com paridade e idade

O volume uterino também é calculado pelo elipsoide, e o estudo de Platt e colaboradores (1990), com peças de histerectomia, mostrou boa correlação entre o volume calculado com fator 0,5233 e o volume real. O principal determinante do volume normal é a paridade. No estudo brasileiro de Mauad Filho e colaboradores (2001), com 480 exames sem doença uterina, as médias foram de cerca de 44 mL em nulíparas, 58 mL com um parto, 76 mL com dois ou três partos e 88 mL com quatro ou cinco partos.

Em úteros com miomas grandes e forma irregular, o elipsoide perde precisão e a ressonância é mais fiel.

Testículo: 0,52 ou 0,71?

O fator de Lambert (0,71) foi proposto para aproximar o volume real por deslocamento de água. Sakamoto e colaboradores (2007) compararam três fórmulas em 40 testículos de orquiectomia e encontraram a menor diferença com C × L × AP × 0,71 (superestimativa média de 7,4%), enquanto as fórmulas com 0,52 subestimaram o volume. Um estudo em Folia Morphologica (2021) chegou à conclusão oposta: Lambert se afastou 20 a 26% do deslocamento de água. A literatura diverge; o essencial é ser consistente e informar o fator.

Como referência de normalidade em adultos, o estudo da European Academy of Andrology (Lotti e colaboradores) em 248 homens saudáveis e férteis encontrou volume testicular médio de cerca de 17 mL, com limites inferiores para hipotrofia de 12 mL à direita e 11 mL à esquerda. Atenção: um testículo de 12 mL com 0,52 vira cerca de 16 mL com 0,71, sem mudança real. Varicocele e assimetria de volume estão no nosso guia de ultrassom de bolsa escrotal.

Bexiga e resíduo pós-miccional

O volume vesical usa, em geral, C × L × AP × 0,52. Em voluntários, Dicuio e colaboradores (2005) compararam cinco algoritmos, sem vantagem clara de nenhum, com erros de até 25%. O modelo é pior em bexigas pouco cheias e irregulares, justamente a situação do resíduo.

Para o resíduo pós-miccional (RPM), não há um corte universal. Kelly (2004) resume que a maioria dos urologistas considera 50 a 100 mL o limiar inferior de resíduo anormal, e que resíduos acima de 300 mL aumentam o risco de dilatação do trato urinário superior. O módulo de ensino da International Continence Society (Asimakopoulos, 2016) reforça que RPM acima de 200 a 300 mL pode indicar disfunção vesical importante. Na prática:

  • meça logo após a micção, nos primeiros minutos, porque a diurese continua;
  • confirme um RPM elevado com nova medida antes de considerar retenção.

O que descrever no laudo

Inclua as três medidas em centímetros, o volume em mL, o fator quando não for o padrão do serviço (sempre no testículo), a via e, no ovário, a presença ou não de corpo lúteo ou folículo dominante. Compare com o exame anterior quando houver.

Frases-modelo de laudo estruturado:

  • “Tireoide: lobo direito 4,8 × 1,6 × 1,5 cm (5,5 mL); lobo esquerdo 4,6 × 1,5 × 1,4 cm (4,6 mL). Volume total estimado de 10,2 mL (fator 0,479). Istmo com 0,3 cm.”
  • “Próstata com dimensões de 4,5 × 4,2 × 3,4 cm e volume estimado de 33,4 cm³ (peso estimado de cerca de 34 g).”
  • “Ovário direito: 3,8 × 2,4 × 2,2 cm, volume de 10,5 mL (fator 0,523), sem corpo lúteo ou folículo dominante, com 22 folículos de 2 a 9 mm.”
  • “Testículo direito: 4,2 × 2,6 × 2,1 cm, volume de 16,3 mL (fórmula de Lambert, 0,71).”
  • “Bexiga com volume pré-miccional de 310 mL. Resíduo pós-miccional de 35 mL, medido 2 minutos após a micção.”

Quando escalonar

  • Tireoide aumentada com sintomas compressivos ou extensão mergulhante: avaliação endocrinológica e tomografia para a porção retroesternal.
  • PSA elevado: a ressonância multiparamétrica, quando indicada, também mede o volume com mais precisão.
  • Ovário aumentado com lesão: classificar a lesão pelo O-RADS, não pelo volume.
  • Testículo abaixo do limite inferior ou assimétrico: urologia ou andrologia, sobretudo com varicocele ou infertilidade.
  • RPM acima de 200 a 300 mL ou hidronefrose: comunicar o médico assistente; retenção aguda é urgência.

Perguntas frequentes

Qual a fórmula do volume no ultrassom?

A fórmula do elipsoide: comprimento × largura × anteroposterior × 0,523 (π/6), com as medidas em centímetros e o resultado em mL. Alguns órgãos têm fatores próprios, como 0,479 na tireoide e 0,71 no testículo.

Qual o volume do ovário na SOP?

10 mL ou mais em pelo menos um ovário, pela diretriz internacional de 2023, desde que não haja corpo lúteo, cisto ou folículo dominante. Rotterdam usava “acima de 10 mL”.

Qual fórmula usar para o volume testicular?

O fator de Lambert (0,71) teve a melhor concordância com o volume real em parte dos estudos, mas há resultados contrários. Escolha uma, use sempre a mesma e informe no laudo.

Qual o resíduo pós-miccional normal?

Abaixo de 50 mL é considerado esvaziamento adequado. Valores de 50 a 100 mL são o limiar inferior de anormalidade, e acima de 200 a 300 mL sugerem disfunção importante.

Conclusão

A fórmula do elipsoide é simples, mas o volume só tem valor com três medidas máximas e ortogonais, fator conhecido e a mesma técnica do estudo que definiu o corte. Para o dia a dia: tireoide até 18 mL (mulheres) e 25 mL (homens), próstata do adulto jovem em torno de 20 mL, ovário de 10 mL ou mais no critério de SOP, testículo com limite inferior em torno de 12 mL e resíduo abaixo de 50 mL. Onde a literatura diverge, consistência entre exames vale mais que a escolha do fator.

Se você quer que o volume seja calculado automaticamente a partir das três medidas, com o fator certo para cada órgão e frases padronizadas no laudo, conheça o UltraLaudo, plataforma de laudos estruturados de ultrassonografia.


Referências

  • Brunn J, Block U, Ruf G, et al. Volumetrie der Schilddrüsenlappen mittels Real-time-Sonographie. Deutsche Medizinische Wochenschrift, 1981;106(41):1338-1340.
  • Ittermann T, Angelow A, Chenot JF, et al. Thyroid volume: new reference values for defining thyroid enlargement. European Journal of Endocrinology, 2025;192(6):728-736. DOI: 10.1093/ejendo/lvaf108.
  • Berry SJ, Coffey DS, Walsh PC, Ewing LL. The development of human benign prostatic hyperplasia with age. Journal of Urology, 1984;132(3):474-479. PMID: 6206240.
  • Kelsey TW, Dodwell SK, Wilkinson AG, et al. Ovarian volume throughout life: a validated normative model. PLoS ONE, 2013;8(9):e71465. DOI: 10.1371/journal.pone.0071465.
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  • Teede HJ, Tay CT, Laven JJE, et al. Recommendations from the 2023 international evidence-based guideline for the assessment and management of polycystic ovary syndrome. Human Reproduction, 2023;38(9):1655-1679. DOI: 10.1093/humrep/dead156.
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  • Mauad Filho F, et al. Avaliação ultra-sonográfica das variações do volume uterino. Revista Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia, 2001;23(3):175-179. DOI: 10.1590/S0100-72032001000300007.
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  • Kelly CE. Evaluation of voiding dysfunction and measurement of bladder volume. Reviews in Urology, 2004;6(Suppl 1):S32-S37.
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Conteúdo educativo destinado a profissionais de saúde. Os valores de referência variam conforme a população, o equipamento, a via e o fator de cálculo; a interpretação deve considerar o contexto clínico de cada paciente e as diretrizes locais.

Resposta

  1. Avatar de Microlitíase testicular: diretriz da ESUR (Richenberg, Eur Radiol 2015): artigo comentado – UltraLaudo Blog

    […] No estudo de Sakamoto e colaboradores, que comparou as fórmulas com o volume de peças de orquiectomia medido por deslocamento de água, o fator 0,71 teve a menor diferença em relação ao volume real (superestimativa média de 7,4%). O detalhe que pesa no laudo: o mesmo testículo dá cerca de 37% a mais com 0,71 do que com 0,52. Um testículo de 10,5 mL pelo elipsoide vira cerca de 14,3 mL por Lambert, e passa a ficar acima do corte de 12 mL. A diretriz não diz com qual fórmula o corte de 12 mL foi pensado, então informe sempre o fator e compare o volume entre os lados. Os detalhes dos fatores estão no nosso guia de cálculo de volume pela fórmula do elipsoide. […]

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