Pedra no rim no ultrassom: o exame mostra o cálculo? O que significa o laudo

Ilustração em tons de verde-azulado e branco de dois rins, um deles com uma pequena pedra, ao lado de um aparelho de ultrassom

Texto para pacientes e familiares. Este artigo foi escrito em linguagem simples para quem não é da área da saúde. Ele ajuda a entender o exame e o laudo, mas não substitui a consulta: só o seu médico, que conhece a sua história e os seus exames, pode interpretar o resultado no seu caso. Se você tem dor forte que não melhora, febre com dor nas costas, vômitos que impedem beber líquidos ou parou de urinar, procure o pronto atendimento, sem esperar.

Sim, o ultrassom costuma mostrar a pedra no rim, principalmente quando ela está dentro do rim ou perto da bexiga. Mas ele tem limites: pedras muito pequenas e as que estão no meio do ureter (o canal que leva a urina do rim até a bexiga) podem não aparecer. Por isso, um ultrassom “normal” não garante que não exista cálculo. Em compensação, o exame mostra muito bem se o rim está “inchado” de urina, o que o laudo chama de dilatação ou hidronefrose. Essa é uma das informações mais importantes para o seu médico.

Se você está com o laudo na mão e ficou preocupado com essas palavras, é normal. Vamos explicar cada uma com calma.

Pedra no rim, cálculo renal e cólica renal: qual a diferença?

São nomes ligados, mas não são a mesma coisa.

  • Cálculo renal é o nome técnico da pedra no rim. Ela se forma quando sais da urina se juntam e endurecem.
  • Litíase ou nefrolitíase é o nome da condição de ter cálculos.
  • Cólica renal é a dor. Ela acontece, em geral, quando a pedra sai do rim e desce pelo ureter, que é um canal fino. A pedra trava a passagem da urina, o rim fica sob pressão e a dor aparece, muitas vezes forte, nas costas ou na lateral da barriga, podendo descer para a virilha.

Muita gente tem pedra no rim e não sente nada. Parada dentro do rim, sem bloquear a urina, ela pode ficar anos sem dar sintomas, e é comum descobrir por acaso.

Como a pedra aparece no ultrassom?

No ultrassom, a pedra aparece como um ponto bem branco e brilhante. Atrás dela, costuma surgir uma faixa escura, como a sombra de um objeto contra a luz. No laudo, isso aparece como “imagem hiperecogênica com sombra acústica posterior”. Hiperecogênica quer dizer que a estrutura reflete muito o som e, por isso, aparece branca na tela.

Em alguns exames, o médico liga o Doppler colorido, que mostra cores na tela. Atrás da pedra pode surgir um mosaico de cores piscando, chamado de artefato de cintilação (ou twinkling). Ele ajuda a confirmar que aquele ponto branco é mesmo uma pedra.

Ultrassom de cálculo no ureter superior: à esquerda em modo B, imagem ecogênica mal delimitada; à direita, Doppler colorido com artefato de cintilação cobrindo o cálculo
Figura 1. Pedra no ureter, perto do rim, vista no ultrassom. À esquerda, em preto e branco, a pedra aparece como uma área clara de contorno pouco nítido. À direita, com o Doppler colorido, o “brilho” colorido (artefato de cintilação) cobre a pedra e ajuda a encontrá-la. Fonte: Liu N et al., World Journal of Urology 2020, CC BY 4.0.

Se quiser entender melhor como é o exame dos rins como um todo, temos um texto sobre ultrassom de rins e vias urinárias.

O ultrassom pode não ver a pedra?

Pode, e isso não é erro do exame nem de quem fez. É um limite do método.

  • Pedras pequenas podem não fazer sombra e se confundir com o tecido ao redor.
  • Pedras no meio do ureter ficam escondidas atrás dos gases do intestino. O ultrassom enxerga melhor o começo do ureter, perto do rim, e o final dele, perto da bexiga.
  • O tamanho pode vir um pouco maior. Estudos mostram que o ultrassom tende a medir pedras pequenas maiores do que elas são de verdade, quando comparado com a tomografia. Por isso, a medida do laudo é uma estimativa.

Quando o ultrassom não mostra a pedra, mas mostra o rim dilatado do lado da dor, o médico entende que provavelmente existe algo bloqueando a urina, mesmo sem ver a pedra.

Ultrassom ou tomografia: qual é melhor para pedra no rim?

Cada exame tem seu papel. A tomografia sem contraste é a que mais enxerga pedras, inclusive as pequenas e as do meio do ureter, e mede com precisão. Por isso, muitas diretrizes ainda a preferem quando há dúvida no diagnóstico ou para planejar um procedimento.

O ultrassom não usa radiação, é mais acessível e pode ser repetido sem problema. É o exame inicial na gravidez. Um grande estudo publicado em 2014 comparou começar pelo ultrassom ou pela tomografia em pessoas com suspeita de pedra no rim no pronto-socorro. Começar pelo ultrassom reduziu a radiação recebida e não aumentou as complicações graves. Parte dos pacientes fez tomografia depois, e tudo bem: a ideia é usá-la quando faz diferença. Contamos esse estudo em detalhes no texto ultrassom versus tomografia no cálculo renal, escrito para profissionais.

Ultrassom Tomografia sem contraste
Radiação Não usa Usa (há protocolos de dose baixa)
Pedras no rim Mostra a maioria Mostra quase todas
Pedras pequenas e no meio do ureter Pode não ver Mostra bem
Rim dilatado (hidronefrose) Mostra bem Mostra bem
Gravidez Exame inicial Evitada, em geral

O que é “dilatação” ou hidronefrose no laudo?

O rim tem, por dentro, um sistema de “funis” que recolhe a urina: os cálices e a pelve renal. Quando a urina não consegue descer, ela se acumula e esses funis se alargam. Isso é a hidronefrose, também escrita como “dilatação pielocalicinal” ou “ectasia”.

O laudo costuma dizer o grau:

  • Leve: um pouco de acúmulo. É frequente na cólica renal e muitas vezes melhora quando a pedra desce.
  • Moderada: acúmulo maior, com os funis mais arredondados.
  • Acentuada: acúmulo importante, com o rim bem distendido.

A dilatação mostra que há algum obstáculo, mas não diz sozinha a causa nem se o rim está sendo prejudicado. Uma dilatação muito discreta também pode aparecer com a bexiga muito cheia e diminuir depois que você urina. Se houver dilatação com febre, a situação muda: pode ser urina infectada parada atrás da pedra, e isso pede atendimento rápido.

Termos comuns no laudo de pedra no rim

O que está escrito O que quer dizer, em palavras simples
Cálculo renal / litíase renal Pedra dentro do rim
Cálculo ureteral Pedra no canal entre o rim e a bexiga, em geral a que causa a cólica
Junção ureterovesical (JUV) Final do ureter, onde ele entra na bexiga; local comum de a pedra travar
Imagem hiperecogênica com sombra acústica Ponto branco com “sombra” atrás, o jeito típico da pedra aparecer
Microcálculos Pedrinhas bem pequenas dentro do rim
Hidronefrose / ectasia / dilatação pielocalicinal Rim com urina acumulada por dentro
Sem dilatação do sistema coletor A urina está descendo, sem sinal de bloqueio importante
Jato ureteral presente A urina está chegando à bexiga por aquele lado

Microcálculos: preciso me preocupar?

“Microcálculos” é como o laudo costuma chamar pedrinhas de poucos milímetros dentro do rim. Não existe uma medida única e oficial para esse nome, e cada serviço usa de um jeito.

Em geral, microcálculos parados no rim não doem. Muitas vezes o médico apenas acompanha, orienta a beber mais água e, se for o caso, pede exames de sangue e urina para entender por que as pedras se formam. Se uma pedrinha se soltar e descer, pode aparecer uma cólica.

Vale saber que pontinhos brancos no rim nem sempre são pedras: podem ser pequenas calcificações. Na dúvida, o seu médico decide se vale outro exame.

Pedra pequena sai sozinha?

Muitas vezes, sim. Quanto menor a pedra, maior a chance de ela sair sozinha pela urina. Uma análise usada pelas sociedades americana e europeia de urologia mostrou que pedras no ureter de até 5 mm saíram sozinhas em cerca de 68% dos casos, e as de 5 a 10 mm, em cerca de 47%. A posição também conta: pedras já perto da bexiga costumam sair com mais facilidade.

Isso pode levar de dias a semanas. Nesse período, o médico pode receitar remédios para dor e, às vezes, um que relaxa o ureter. Se você notar a pedrinha sair ao urinar, guarde e leve ao médico: a análise dela ajuda a prevenir novas.

Quem decide se vale esperar ou fazer um procedimento é o urologista, olhando tamanho, posição, dor, dilatação e sinais de infecção.

Precisa de preparo para o ultrassom de rins?

Em geral, o preparo é simples: chegar com a bexiga cheia. Costuma-se pedir para beber água cerca de uma hora antes e não urinar até o exame. A bexiga cheia ajuda a ver o final do ureter, onde as pedras costumam travar. Jejum em geral só é necessário quando o exame é de abdome total, junto com a vesícula. Siga sempre a orientação da clínica. O passo a passo está no nosso guia de preparo para ultrassom.

No pronto-socorro, com cólica, não há preparo: o exame é feito como for possível.

Quando procurar o médico ou o pronto atendimento

Procure o pronto atendimento sem esperar se tiver:

  • dor forte que não melhora com o remédio receitado;
  • febre ou calafrios junto com dor nas costas ou na lateral da barriga;
  • vômitos que não deixam você beber líquidos ou tomar os remédios;
  • parou de urinar ou está urinando muito pouco;
  • dor de cólica e é gestante, tem um rim só ou tem transplante renal.

Marque uma consulta com seu médico se:

  • o laudo mostrou pedra ou dilatação, mesmo sem dor;
  • você tem sangue na urina, mesmo sem dor;
  • a pedra não saiu depois do prazo combinado com o médico.

Perguntas frequentes

Ultrassom normal descarta pedra no rim?

Não totalmente. O ultrassom pode não ver pedras pequenas ou no meio do ureter. Se a dor for típica e continuar, o médico pode pedir outro exame, como a tomografia.

Pedra no rim de 4 mm sai sozinha?

Muitas vezes sai. Pedras de até 5 mm saem sozinhas na maioria dos casos, em geral em dias ou semanas. Mas cada caso é avaliado pelo médico, principalmente se houver dor forte, febre ou dilatação importante.

Hidronefrose leve é grave?

Na maioria das vezes, a hidronefrose leve por pedra melhora quando a pedra desce. Ela precisa de acompanhamento, e com febre é motivo para atendimento rápido.

Qual o melhor exame para ver pedra no rim?

A tomografia sem contraste é a que mais enxerga pedras. O ultrassom é uma ótima primeira opção, sem radiação, e é o exame indicado na gravidez. O médico escolhe conforme o seu caso.

Beber água ajuda a pedra a sair?

Beber água ao longo do dia é uma das principais formas de evitar novas pedras. Na crise, porém, não há boa evidência de que beber grandes quantidades de uma vez faça a pedra sair mais rápido. Beba normalmente e siga a orientação do médico.

Conclusão

Descobrir uma pedra no rim assusta, mas na maioria das vezes ela tem tratamento simples, e muitas saem sozinhas. O ultrassom é um bom primeiro passo: mostra a maioria das pedras e, principalmente, se o rim está dilatado. Quando ele não responde tudo, outros exames completam a investigação. Leve o laudo ao seu médico, tire as suas dúvidas e fique atento aos sinais de alerta.

Se você é profissional de ultrassom, conheça o UltraLaudo, plataforma de laudos estruturados que ajuda a deixar o laudo mais claro para médicos e pacientes.


Referências

  • Smith-Bindman R, Aubin C, Bailitz J, et al. Ultrasonography versus computed tomography for suspected nephrolithiasis. New England Journal of Medicine, 2014;371(12):1100-1110. DOI: 10.1056/NEJMoa1404446.
  • Expert Panel on Urological Imaging: Gupta RT, Kalisz K, Khatri G, et al. ACR Appropriateness Criteria® Acute Onset Flank Pain-Suspicion of Stone Disease (Urolithiasis): 2023 Update. Journal of the American College of Radiology, 2023;20(11S):S315-S328. DOI: 10.1016/j.jacr.2023.08.020.
  • Moore CL, Carpenter CR, Heilbrun ME, et al. Imaging in suspected renal colic: systematic review of the literature and multispecialty consensus. Annals of Emergency Medicine, 2019;74(3):391-399. DOI: 10.1016/j.annemergmed.2019.04.021.
  • Preminger GM, Tiselius HG, Assimos DG, et al. 2007 Guideline for the management of ureteral calculi. Journal of Urology, 2007;178(6):2418-2434. DOI: 10.1016/j.juro.2007.09.107.
  • Ray AA, Ghiculete D, Pace KT, Honey RJ. Limitations to ultrasound in the detection and measurement of urinary tract calculi. Urology, 2010;76(2):295-300. DOI: 10.1016/j.urology.2009.12.015.
  • European Association of Urology. EAU Guidelines on Urolithiasis. Disponível em: uroweb.org/guidelines/urolithiasis.
  • Liu N, Zhang Y, Shan K, et al. Sonographic twinkling artifact for diagnosis of acute ureteral calculus. World Journal of Urology, 2020;38:489-495. DOI: 10.1007/s00345-019-02773-z.

Conteúdo educativo para leigos. Não substitui consulta, diagnóstico ou tratamento. Em caso de dúvida sobre o seu exame, converse com o médico que pediu o ultrassom.

Resposta

  1. Avatar de Hidronefrose no adulto no ultrassom: graus, Doppler e conduta – UltraLaudo Blog

    […] O ensaio de Smith-Bindman (NEJM, 2014) mostrou que começar pelo ultrassom na suspeita de cólica não piorou desfechos e reduziu radiação, como discutido no artigo comentado sobre ultrassom x TC na litíase. Para a semiologia do cálculo e os limites do ultrassom, veja pedra no rim no ultrassom. […]

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