Hidronefrose no bebê: dilatação do rim no ultrassom da gravidez e depois do nascimento

Ilustração em tons de verde-azulado de gestante com destaque para os rins e as vias urinárias do bebê avaliados pelo ultrassom

Hidronefrose no bebê é a dilatação da parte do rim que recolhe a urina, a pelve renal, vista no ultrassom. Quando aparece no ultrassom da gravidez, costuma ser chamada de pielectasia ou dilatação da pelve renal. É um achado frequente, presente em cerca de 1% a 2% das gestações, e na maioria dos casos é passageiro e sem importância clínica: a dilatação diminui ou desaparece antes ou logo depois do nascimento. Uma parte menor dos bebês, porém, tem uma causa que precisa de acompanhamento, como estreitamento da junção entre o rim e o ureter, refluxo de urina da bexiga para o rim ou válvula de uretra posterior. Por isso, o achado não é motivo de pânico, mas também não deve ser esquecido: o caminho é medir bem, classificar e repetir o ultrassom no momento certo.

Este guia explica, em linguagem simples, o que significa o resultado, como funciona a classificação UTD (urinary tract dilation), usada hoje por radiologistas, obstetras, nefrologistas e urologistas pediátricos, e quando o bebê precisa de exames depois do nascimento. No fim há uma seção curta para quem faz o exame.

O que é a pelve renal e por que ela dilata

O rim produz urina continuamente. Essa urina passa pelos cálices, que são pequenos “funis” dentro do rim, chega à pelve renal, uma espécie de reservatório central, e desce pelo ureter até a bexiga. O bebê começa a produzir urina ainda dentro do útero, e essa urina forma boa parte do líquido amniótico.

No ultrassom, a pelve com urina aparece como uma área escura (líquida) no centro do rim. Um pouco de líquido ali é normal. Fala-se em dilatação quando essa área passa de certos limites para a idade gestacional.

Os termos que você pode encontrar no laudo são parecidos:

  • Pielectasia ou pieloectasia: dilatação leve da pelve renal.
  • Hidronefrose: termo mais amplo, usado para dilatações maiores ou com envolvimento dos cálices.
  • Dilatação do trato urinário (DTU ou UTD): termo proposto pelo consenso UTD para unificar a linguagem, porque “hidronefrose” era usado de formas muito diferentes de um serviço para outro.

Isso é comum? O que acontece na maioria dos casos

O consenso UTD, publicado por Nguyen e colaboradores em 2014 no Journal of Pediatric Urology, estima que a dilatação do trato urinário seja detectada em 1% a 2% de todas as gestações. O mesmo documento destaca que, na maioria dos casos, o achado é transitório ou fisiológico e não tem significado clínico. Quando o DAP fica entre 4 mm e 7 a 8 mm no segundo trimestre, cerca de 80% dos casos se resolvem.

Na prática, isso quer dizer que a grande maioria dos bebês com pielectasia leve nasce com rins normais. O acompanhamento serve para encontrar, com segurança, os poucos casos que precisam de atenção.

Como a dilatação é medida

A medida principal é o diâmetro anteroposterior da pelve renal, abreviado como DAP ou, em inglês, APRPD. Ela é feita num corte transversal do rim, medindo a maior largura da pelve dentro do rim, da frente para trás.

Além do número, o exame avalia outros pontos que pesam muito na classificação:

  • se os cálices estão dilatados, e se a dilatação é só dos cálices centrais ou chega aos cálices periféricos;
  • a espessura e o aspecto do parênquima renal, que é o tecido do rim;
  • se o ureter aparece dilatado, já que normalmente ele não é visto;
  • o aspecto da bexiga;
  • na gravidez, a quantidade de líquido amniótico, porque oligoâmnio sem outra explicação pode indicar problema urinário.

Para entender em que momento da gestação os rins do bebê são avaliados, veja o nosso guia sobre o ultrassom morfológico do 1º, 2º e 3º trimestre.

A classificação UTD na gravidez: A1 e A2-3

A classificação UTD divide os achados da gestação em dois grupos de risco. O ponto de corte da pelve muda com a idade gestacional, porque a pelve normal cresce um pouco ao longo da gravidez.

Classificação pré-natal 16 a 27 semanas 28 semanas ou mais Outros achados
Normal DAP menor que 4 mm DAP menor que 7 mm Sem dilatação de cálices
UTD A1 (baixo risco) DAP de 4 a menos de 7 mm DAP de 7 a menos de 10 mm Pode haver dilatação só dos cálices centrais; parênquima, ureter, bexiga e líquido amniótico normais
UTD A2-3 (risco aumentado) DAP de 7 mm ou mais DAP de 10 mm ou mais Ou qualquer um destes: cálices periféricos dilatados, parênquima alterado, ureter dilatado, bexiga alterada, oligoâmnio sem outra causa

Um detalhe importante: basta um achado de risco para classificar como A2-3, mesmo que o DAP seja pequeno. Um rim com pelve de 6 mm, mas com parênquima fino ou ureter dilatado, não é baixo risco.

O que o consenso recomenda durante a gestação

  • UTD A1 diagnosticada antes de 32 semanas: repetir o ultrassom com cerca de 32 semanas. Se a dilatação sumiu, o consenso não exige outro acompanhamento. Se persistir, o bebê faz ultrassom depois do nascimento.
  • UTD A2-3: repetir o ultrassom em 4 a 6 semanas. O consenso também recomenda considerar consulta pré-natal com nefrologista ou urologista pediátrico, para planejar o nascimento e os primeiros exames.

Depois do nascimento: por que esperar 48 horas

O primeiro ultrassom do bebê, em geral, deve ser feito depois de 48 horas de vida. Nos primeiros dias, o recém-nascido produz relativamente pouca urina, e um exame muito precoce pode subestimar a dilatação e dar falsa tranquilidade.

O consenso UTD faz exceções em que o ultrassom deve ser feito antes: oligoâmnio na gestação, suspeita de obstrução da uretra (como válvula de uretra posterior), dilatação importante nos dois rins e situações em que há dúvida se a família conseguirá voltar para o acompanhamento.

O momento recomendado também depende do grupo pré-natal:

  • A1 persistente: dois ultrassons depois do nascimento, o primeiro entre 48 horas e 1 mês de vida, e o segundo de 1 a 6 meses depois.
  • A2-3: ultrassom depois de 48 horas de vida, mas antes de completar 1 mês.

Se quiser saber como é o ultrassom de rins e vias urinárias em geral, veja o nosso post sobre ultrassom de mama e de rins e vias urinárias.

A classificação UTD depois do nascimento: P1, P2 e P3

Depois de 48 horas de vida, o DAP normal é menor que 10 mm. Os achados são então divididos em três grupos:

Classificação pós-natal DAP da pelve Outros achados Acompanhamento sugerido pelo consenso
UTD P1 (baixo risco) 10 a menos de 15 mm Pode haver dilatação dos cálices centrais; parênquima, ureter e bexiga normais Ultrassom em 1 a 6 meses
UTD P2 (risco intermediário) 15 mm ou mais Ou cálices periféricos dilatados, ou ureter dilatado; parênquima e bexiga normais Ultrassom em 1 a 3 meses
UTD P3 (alto risco) 15 mm ou mais Como no P2, mas com parênquima alterado (fino, mais brilhante, com perda da diferenciação) ou bexiga alterada Ultrassom em até 1 mês

Assim como na gestação, o grupo é definido pelo achado mais preocupante. Um rim com DAP de 12 mm, mas com parênquima afinado, é P3.

Painel de imagens de ultrassom pediátrico mostrando rim com dilatação da pelve e dos cálices, rim multicístico, rim policístico, ureterocele, ureter duplo e bexiga espessada por válvula de uretra posterior
Figura 1. Ultrassom das vias urinárias em crianças: (a) dilatação da pelve e dos cálices centrais e periféricos com perda da diferenciação corticomedular, classificada como UTD P3; (b) rim displásico multicístico; (c) rim aumentado e ecogênico na doença policística autossômica recessiva; (d) ureterocele; (e) ureteres duplos junto à bexiga; (f) bexiga com parede espessada e trabeculada na válvula de uretra posterior. Fonte: Mohammad SA, Rawash LM, AbouZeid AA, Egypt J Radiol Nucl Med 2021, CC BY 4.0.

Quais causas o médico quer descartar

A maioria das dilatações é transitória. Quando ela persiste ou é mais intensa, as causas mais lembradas são:

  • Estenose da junção ureteropélvica (JUP): um estreitamento na saída da pelve para o ureter. Em geral, a pelve e os cálices ficam dilatados e o ureter não.
  • Refluxo vesicoureteral: a urina volta da bexiga para o ureter e o rim. A dilatação pode variar de um exame para outro, e o ultrassom normal não exclui refluxo.
  • Válvula de uretra posterior: uma membrana na uretra de meninos que dificulta a saída da urina. Costuma causar dilatação nos dois rins, bexiga espessada e, na gestação, pode reduzir o líquido amniótico. É uma das situações em que o ultrassom após o nascimento não deve esperar.
  • Megaureter, duplicidade com ureterocele e outras malformações do rim e das vias urinárias.

Para investigar essas causas, o pediatra, o nefrologista ou o urologista pode pedir exames além do ultrassom, como a uretrocistografia miccional, que mostra o refluxo e a uretra, e a cintilografia renal, que avalia a função e a drenagem de cada rim.

Antibiótico preventivo: quem decide

Alguns bebês recebem antibiótico em dose baixa, todos os dias, para prevenir infecção urinária enquanto a investigação acontece. Essa decisão não é automática e cabe ao pediatra, ao nefrologista ou ao urologista pediátrico.

No consenso UTD, a uretrocistografia e o antibiótico preventivo ficam a critério do médico nos grupos P1 e P2, e são recomendados no P3, conforme a causa suspeita. Outros fatores também pesam, como sexo, presença de fimose, dilatação do ureter e histórico de infecção. Não comece nem pare antibiótico por conta própria.

Fique atento a sinais de infecção urinária no bebê: febre sem causa aparente, irritabilidade, recusa alimentar, vômitos ou baixo ganho de peso. Nesses casos, procure atendimento e informe que o bebê tem dilatação renal.

O que descrever no laudo

Esta seção é para quem faz o exame. Para a leitura detalhada do consenso, com os critérios de cada grupo, veja o artigo comentado sobre a classificação UTD.

  • Idade gestacional ou idade do bebê em horas ou dias. Depois do nascimento, deixe claro se o exame foi feito antes ou depois de 48 horas.
  • DAP de cada rim, medido em corte transversal, na maior largura da pelve dentro do rim.
  • Cálices: sem dilatação, dilatação central ou dilatação periférica.
  • Parênquima: espessura, ecogenicidade, diferenciação corticomedular e presença de cistos.
  • Ureter: visível ou não; se visível, o calibre e o segmento.
  • Bexiga: espessura da parede, ureterocele, dilatação da uretra posterior e, quando possível, o aspecto após o esvaziamento.
  • Líquido amniótico nos exames pré-natais.
  • Classificação UTD final (A1, A2-3, P1, P2 ou P3), indicando qual achado definiu o grupo.
  • Comparação com o exame anterior: estável, maior ou menor.

Erros comuns

  • Medir a pelve fora do rim. A pelve extrarrenal pode parecer grande, mas o DAP do consenso é medido na porção dentro do rim.
  • Usar só o número. Um DAP pequeno não deixa o caso em baixo risco se houver cálices periféricos dilatados, parênquima alterado, ureter visível ou bexiga anormal.
  • Fazer o primeiro ultrassom pós-natal antes de 48 horas sem indicação. O resultado pode parecer melhor do que é.
  • Usar o corte de 10 mm na gestação de 20 semanas. No segundo trimestre, o limite de risco aumentado é 7 mm.
  • Não comparar os dois rins ou não registrar a bexiga, que é decisiva na suspeita de válvula de uretra posterior.
  • Chamar tudo de “hidronefrose”. O termo sozinho não diz o grau nem o risco; a classificação UTD dá mais clareza à equipe que acompanha o bebê.

Perguntas frequentes

Pielectasia no ultrassom da gravidez é grave?

Em geral, não. A maioria das dilatações leves desaparece antes ou logo depois do nascimento, e o bebê nasce com rins normais. O importante é fazer os exames de controle recomendados.

A dilatação do rim do bebê tem relação com síndromes?

A pielectasia leve pode ser considerada, junto com outros achados, na avaliação de risco de alterações cromossômicas. Quando ela aparece isolada e a triagem está normal, essa relação costuma ter pouco peso. Essa avaliação deve ser feita pelo obstetra ou pelo especialista em medicina fetal.

O que a mãe pode fazer para melhorar?

Não há alimento, medicamento ou posição que trate a dilatação. O que ajuda é seguir o calendário de ultrassons.

Meu bebê vai precisar de cirurgia?

A maioria não precisa. A cirurgia fica para casos selecionados, como estenose da junção ureteropélvica com piora da função ou da drenagem, ou válvula de uretra posterior. A decisão é do urologista pediátrico.

Se o ultrassom depois do nascimento for normal, acabou?

Depende do caso. Pelo consenso UTD, quando o achado da gestação persiste, em geral são feitos dois ultrassons após o nascimento. Se ambos forem normais, o acompanhamento costuma terminar, mas quem decide é o médico do bebê.

Conclusão

A dilatação da pelve renal no ultrassom da gravidez é comum e, na maior parte das vezes, some sozinha. A classificação UTD ajuda a separar os casos de baixo risco dos que pedem atenção, usando o DAP corrigido para a idade gestacional e, sobretudo, os achados associados: cálices, parênquima, ureter, bexiga e líquido amniótico. Depois do nascimento, o primeiro ultrassom costuma ser feito após 48 horas de vida, e exames como uretrocistografia, cintilografia e antibiótico preventivo são decididos pelo pediatra, nefrologista ou urologista pediátrico conforme o grupo P1, P2 ou P3.

Se você quer que DAP de cada rim, cálices, parênquima, ureter, bexiga e o grupo UTD tenham campo próprio no seu laudo, conheça o UltraLaudo, plataforma de laudos estruturados de ultrassonografia.


Referências

  • Nguyen HT, Benson CB, Bromley B, et al. Multidisciplinary consensus on the classification of prenatal and postnatal urinary tract dilation (UTD classification system). Journal of Pediatric Urology, 2014;10(6):982-998. doi:10.1016/j.jpurol.2014.10.002
  • Nguyen HT, Phelps A, Coley B, et al. 2021 update on the urinary tract dilation (UTD) classification system: clarifications, review of the literature, and practical suggestions. Pediatric Radiology, 2022;52(4):740-751.
  • Mohammad SA, Rawash LM, AbouZeid AA. Imaging of urinary tract in children in different clinical scenarios: a guide for general radiologists. Egyptian Journal of Radiology and Nuclear Medicine, 2021;52:205. doi:10.1186/s43055-021-00584-0

Este conteúdo tem finalidade educacional e não substitui a avaliação médica. A interpretação do ultrassom e as decisões sobre exames, antibiótico e cirurgia cabem ao obstetra, ao pediatra e aos especialistas que acompanham a gestação e o bebê.

Resposta

  1. Avatar de Hidronefrose no adulto no ultrassom: graus, Doppler e conduta – UltraLaudo Blog

    […] e o sistema UTD (Nguyen, 2014) foram criados para feto e criança, como discutido no post sobre hidronefrose no bebê. Não use “SFU grau 2” no laudo de um adulto: o leitor espera a escala leve, moderada e […]

    Curtir

Deixe um comentário