O ultrassom de punho consegue, sim, ajudar no diagnóstico da síndrome do túnel do carpo: ele mede a área do nervo mediano na entrada do túnel e mostra se o nervo está inchado, além de procurar causas como tenossinovite, cisto ou variações anatômicas. O mesmo exame avalia a tendinite de De Quervain (dor na base do polegar) e o cisto sinovial (o “caroço” no dorso ou na face palmar do punho). Ele não exige preparo, não usa radiação e permite comparar com o lado oposto. Porém, em geral, não substitui a eletroneuromiografia: o ultrassom mostra a forma do nervo, e a eletroneuromiografia mostra como ele está funcionando. Os dois exames se complementam.
Para quem faz o exame, o punho é uma região pequena e com muita variação anatômica. Medir o nervo no lugar errado ou esquecer de procurar um septo no primeiro compartimento extensor muda o laudo. Este guia responde às dúvidas dos pacientes e organiza os critérios usados na prática.
Dúvidas de quem vai fazer o exame
Ultrassom diagnostica túnel do carpo?
O diagnóstico da síndrome do túnel do carpo é clínico: formigamento e dormência no polegar, indicador e médio, piora à noite, sinais no exame físico. Os exames confirmam a suspeita, avaliam a gravidade e afastam outras causas. O ultrassom contribui mostrando um nervo mediano aumentado de área na entrada do túnel, o que é um achado bem estabelecido na síndrome. Uma revisão baseada em evidências da American Association of Neuromuscular & Electrodiagnostic Medicine (AANEM), publicada em 2012, concluiu que a medida da área do nervo mediano pelo ultrassom é precisa e pode ser usada como teste diagnóstico, e que o ultrassom deve ser considerado para procurar alterações estruturais no punho.
O ultrassom substitui a eletroneuromiografia?
Em geral, não. A eletroneuromiografia mede a condução elétrica do nervo, gradua a gravidade e ajuda a diferenciar o túnel do carpo de outras doenças, como compressão de raiz no pescoço ou polineuropatia. O ultrassom mostra a anatomia: o tamanho do nervo e o que pode estar comprimindo. Muitos médicos pedem os dois. Em alguns contextos o ultrassom pode ser usado como primeiro exame, mas essa decisão é de quem acompanha o paciente.
Precisa de preparo?
Não. Não há jejum nem bexiga cheia. Vale tirar anéis, pulseiras e relógio antes do exame e levar exames anteriores e a eletroneuromiografia, se houver. Para entender quando cada ultrassom pede preparo, veja o guia de preparo e jejum para ultrassom.
Como é feito e dói?
O paciente fica sentado, com o antebraço apoiado sobre uma mesa e a palma para cima ou para baixo, conforme a estrutura avaliada. Usa-se gel e um transdutor linear de alta frequência. O exame não dói, embora a pressão sobre um tendão inflamado possa incomodar. O médico pode pedir para mexer o polegar ou os dedos, porque algumas alterações aparecem melhor com o movimento.
Túnel do carpo: como medir o nervo mediano
Onde medir
A medida mais usada é a área de secção transversa (AST) do nervo mediano na entrada do túnel do carpo, no nível do osso pisiforme. É nessa altura, logo antes de o nervo passar sob o retináculo, que o aumento de volume costuma ser mais evidente. A medida é feita em corte transversal, traçando o contorno interno do epineuro (a borda hiperecogênica do nervo), sem incluí-la de forma exagerada.
Cuidados que tornam a medida reprodutível:
- Transdutor perpendicular ao nervo, para não criar um corte oblíquo que aumenta a área.
- Pressão mínima, com bastante gel.
- Punho em posição neutra e dedos relaxados.
- Medir os dois lados quando houver dúvida.
Qual é o valor de corte
Não existe um número único aceito por todos. Na literatura, os pontos de corte variam conforme o estudo, a população e a técnica. Um valor em torno de 10 mm² na entrada do túnel é citado com frequência como sugestivo de síndrome do túnel do carpo, e alguns serviços usam valores um pouco menores. Por isso, o mais seguro é informar no laudo o valor medido, o local da medida e o critério de referência adotado, em vez de apenas escrever “nervo aumentado”.
Relação punho/antebraço e outras comparações
Como o tamanho do nervo varia entre pessoas, alguns autores propõem comparar o nervo com ele mesmo:
- Relação punho/antebraço (WFR): área no pisiforme dividida pela área no antebraço distal, em geral no nível do músculo pronador quadrado. Um estudo de Hobson-Webb e colaboradores (2008) encontrou boa capacidade de identificar a síndrome com relação a partir de cerca de 1,4.
- Diferença de área (ΔAST): área na entrada do túnel menos a área no pronador quadrado. Klauser e colaboradores (2009) descreveram bom desempenho com diferença a partir de 2 mm².
Esses índices são úteis quando o valor absoluto fica na faixa limítrofe, mas também variam entre estudos. Use como apoio, não como regra isolada.
Outros achados no túnel do carpo
- Achatamento do nervo dentro do túnel e perda do padrão fascicular, com nervo mais hipoecoico.
- Aumento de fluxo no nervo ao Doppler, descrito em alguns estudos.
- Abaulamento do retináculo dos flexores.
- Causas de compressão: tenossinovite dos flexores, cisto sinovial, massa, músculos anômalos ou lumbricais que entram no túnel.
- Variações anatômicas: nervo mediano bífido e artéria mediana persistente. No nervo bífido, a área deve ser a soma dos dois feixes. A artéria mediana é importante para o cirurgião.
| Parâmetro | Onde medir | Como interpretar |
|---|---|---|
| Área do nervo mediano | Entrada do túnel (nível do pisiforme) | Valores em torno de 10 mm² ou mais são citados com frequência como sugestivos; o corte varia entre estudos |
| Relação punho/antebraço | Pisiforme dividido por pronador quadrado | Relação a partir de cerca de 1,4 sugeriu síndrome em um estudo (Hobson-Webb, 2008) |
| Diferença de área | Pisiforme menos pronador quadrado | Diferença a partir de 2 mm² em um estudo (Klauser, 2009) |
| Morfologia | Ao longo do túnel | Achatamento, perda de fascículos, abaulamento do retináculo |
| Causas estruturais | Todo o túnel | Tenossinovite, cisto, massa, músculo anômalo, nervo bífido, artéria mediana |
Tendinite de De Quervain
A tenossinovite de De Quervain acomete o primeiro compartimento extensor, onde passam os tendões abdutor longo do polegar e extensor curto do polegar, sobre o processo estiloide do rádio. É comum em mães de recém-nascidos, em quem faz movimentos repetitivos com o polegar e em quem usa muito o celular, embora possa ocorrer sem causa evidente.
O que o ultrassom mostra:
- Espessamento do retináculo do primeiro compartimento, hipoecoico.
- Espessamento dos tendões e líquido na bainha.
- Aumento de fluxo ao Doppler na bainha e no retináculo, sinal de atividade inflamatória.
- Dor à compressão com o transdutor no local.
Dois detalhes anatômicos fazem diferença:
- Septo intracompartimental: uma parede, às vezes completa, que divide o primeiro compartimento em dois túneis, um para cada tendão. A presença do septo pode explicar por que uma infiltração não funcionou, já que o medicamento pode ficar só em um dos lados, e é importante para o planejamento de cirurgia.
- Múltiplas faixas do abdutor longo: é comum que esse tendão tenha mais de uma faixa. Isso não deve ser confundido com ruptura longitudinal.
Um diagnóstico diferencial próximo é a síndrome da intersecção, alguns centímetros acima do punho, onde os tendões do primeiro compartimento cruzam os do segundo. Nela, o edema e o líquido ficam no ponto de cruzamento, não sobre o estiloide.
Cisto sinovial (ganglion)
O cisto sinovial é a causa mais comum de “caroço” no punho. Ele contém líquido espesso e costuma ter um pedículo, uma comunicação fina com a articulação ou com a bainha de um tendão. Os locais mais frequentes são:
- Dorsal: é o mais comum, em geral originado no ligamento escafolunar. Pode ser pequeno e não palpável (cisto oculto) e, ainda assim, causar dor.
- Volar (palmar): em geral ligado à articulação radiocárpica ou à articulação entre escafoide, trapézio e trapezoide, e frequentemente próximo da artéria radial, às vezes envolvendo-a parcialmente.
No ultrassom, o cisto é anecoico ou hipoecoico, bem delimitado, pode ter septos e lóbulos e não tem fluxo interno ao Doppler. O pedículo deve ser procurado, porque orienta a cirurgia e ajuda a explicar recidivas. No cisto volar, o Doppler é obrigatório: ele separa o cisto da artéria radial e de um eventual aneurisma, e mostra a relação com o vaso antes de uma punção.
Para nódulos em outras regiões, como lipomas e cistos de pele, veja o guia de ultrassom de partes moles.
Dedo em gatilho, em poucas palavras
No dedo em gatilho, o tendão flexor trava ao passar pela polia A1, na altura da cabeça do metacarpo, na face palmar. O ultrassom mostra a polia espessada e hipoecoica, às vezes com tenossinovite e aumento de fluxo ao Doppler. A avaliação dinâmica, pedindo para o paciente dobrar e esticar o dedo, pode mostrar o tendão travando. Sempre compare com o dedo vizinho e com o lado oposto, já que a espessura da polia varia entre pessoas.
Resumo dos principais achados
| Condição | Local | Achados principais |
|---|---|---|
| Túnel do carpo | Face palmar, entrada do túnel | Nervo mediano com área aumentada, achatamento distal, possíveis causas de compressão |
| De Quervain | Primeiro compartimento extensor, estiloide do rádio | Retináculo e tendões espessados, líquido, hiperemia, septo eventual |
| Cisto sinovial dorsal | Dorso, sobre o escafolunar | Lesão anecoica sem fluxo, com pedículo |
| Cisto sinovial volar | Face palmar radial | Lesão anecoica sem fluxo, relação com a artéria radial |
| Dedo em gatilho | Polia A1, cabeça do metacarpo | Polia espessada, tenossinovite, travamento dinâmico |
O que descrever no laudo
Túnel do carpo
- Área do nervo mediano na entrada do túnel, com local da medida e critério de referência.
- Relação punho/antebraço ou diferença de área, quando calculadas.
- Morfologia do nervo: achatamento, ecogenicidade, padrão fascicular, fluxo.
- Variações: nervo bífido (soma das áreas), artéria mediana persistente.
- Causas de compressão: tenossinovite dos flexores, cisto, massa, músculo anômalo.
- Comparação com o lado oposto, quando feita.
De Quervain
- Espessura do retináculo e dos tendões, presença de líquido.
- Doppler: presença ou ausência de hiperemia.
- Septo intracompartimental: presente, ausente ou não caracterizado.
- Faixas acessórias do abdutor longo.
Cisto sinovial
- Localização precisa e relação com tendões e com a artéria radial.
- Três medidas e aspecto (septos, lóbulos, conteúdo).
- Ausência de fluxo interno.
- Pedículo e sua origem provável (escafolunar, radiocárpica, bainha).
Dedo em gatilho
- Dedo acometido, espessura da polia A1, tenossinovite, achado dinâmico.
Erros comuns
Medir o nervo no lugar errado
Medir dentro do túnel, mais distal, ou no antebraço, em vez de na entrada do túnel, muda o valor e torna a comparação com os critérios inválida. O nível do pisiforme é a referência mais usada.
Corte oblíquo e compressão excessiva
Um corte inclinado aumenta a área aparente. Pressão demais achata o nervo. Os dois erros levam a falso-positivo ou falso-negativo.
Medir só um feixe do nervo bífido
No nervo bífido, a área de um feixe isolado subestima o valor total. Some as duas áreas e descreva a variação.
Usar um ponto de corte como verdade absoluta
O valor de corte varia entre estudos e populações. Um nervo limítrofe deve ser interpretado com a clínica, com a comparação com o antebraço e, quando disponível, com a eletroneuromiografia.
Não procurar o septo no De Quervain
O septo é fácil de perder se o compartimento não for varrido de ponta a ponta em corte transversal. Ele tem implicação direta para infiltração e cirurgia.
Confundir faixas acessórias com ruptura
Múltiplas faixas do abdutor longo do polegar são uma variação normal, não uma ruptura longitudinal.
Esquecer o Doppler no cisto volar
Sem Doppler, um aneurisma ou a própria artéria radial podem ser confundidos com cisto. Isso tem consequência grave se houver punção.
Não examinar de forma dinâmica
O travamento do dedo em gatilho e alguns cistos ocultos só aparecem com movimento ou com flexão do punho.
Perguntas frequentes
Ultrassom de punho mostra tendinite?
Sim. O ultrassom mostra espessamento de tendões e bainhas, líquido e aumento de fluxo, como na tendinite de De Quervain e na tenossinovite dos flexores.
Ultrassom ou ressonância para o punho?
Para túnel do carpo, De Quervain, cistos e tendões superficiais, o ultrassom costuma ser suficiente e permite avaliar o movimento. A ressonância é mais útil para ossos, cartilagem e alguns ligamentos e estruturas profundas. Quem escolhe é o médico que pede o exame.
O cisto sinovial pode sumir sozinho?
Pode. Muitos cistos diminuem ou desaparecem com o tempo. O tratamento depende dos sintomas e é definido pelo médico.
Se o ultrassom vier normal, posso ter túnel do carpo?
Sim. Um nervo de área normal não exclui a síndrome, principalmente nos casos leves. A clínica e a eletroneuromiografia continuam importantes.
Quanto tempo demora o exame?
Em geral, de 15 a 30 minutos, a depender de quantas estruturas e de quantos lados são avaliados. Veja mais em quanto tempo dura um ultrassom e o laudo.
Conclusão
O ultrassom de punho é um exame rápido, sem preparo e muito útil para as queixas mais frequentes da região: túnel do carpo, tendinite de De Quervain, cisto sinovial e dedo em gatilho. No túnel do carpo, ele mostra o nervo e as causas de compressão, mas em geral complementa, e não substitui, a eletroneuromiografia. Para o laudo ter valor, a técnica precisa ser consistente: medida no nível do pisiforme, corte perpendicular, pouca pressão, critério de referência explícito, busca ativa do septo no primeiro compartimento e Doppler em todo cisto volar.
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Referências
- Cartwright MS, Hobson-Webb LD, Boon AJ, et al. Evidence-based guideline: neuromuscular ultrasound for the diagnosis of carpal tunnel syndrome. Muscle & Nerve, 2012.
- Hobson-Webb LD, Massey JM, Juel VC, Sanders DB. The ultrasonographic wrist-to-forearm median nerve area ratio in carpal tunnel syndrome. Clinical Neurophysiology, 2008.
- Klauser AS, Halpern EJ, De Zordo T, et al. Carpal tunnel syndrome assessment with US: value of additional cross-sectional area measurements of the median nerve in patients versus healthy volunteers. Radiology, 2009.
- European Society of Musculoskeletal Radiology (ESSR). Musculoskeletal Ultrasound Technical Guidelines: Wrist.
- Bianchi S, Martinoli C. Ultrasound of the Musculoskeletal System. Springer, 2007.
Este conteúdo tem finalidade educacional e não substitui a avaliação médica. A indicação do exame, a interpretação do resultado e a escolha do tratamento cabem ao médico que acompanha o paciente.

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