Ínguas e linfonodos no ultrassom: quando preocupam

Ilustração de exame de ultrassom do pescoço com destaque para um linfonodo

Íngua é o nome popular do linfonodo aumentado, e na grande maioria das vezes ela é uma reação benigna a uma infecção ou inflamação próxima, como dor de garganta, problema dentário, ferida na pele ou vacina recente. No ultrassom, o linfonodo que costuma tranquilizar é ovalado, com centro gorduroso (hilo) visível, córtex fino e fluxo de sangue entrando pelo hilo. Os sinais que preocupam e pedem investigação são forma arredondada, perda do hilo, córtex espesso ou irregular, microcalcificações, áreas císticas ou de necrose e vasos chegando pela periferia. Fora do ultrassom, merecem atenção a íngua que persiste por várias semanas, que cresce, que é endurecida e fixa, a que aparece acima da clavícula e a que vem acompanhada de febre prolongada, suor noturno ou perda de peso sem explicação.

Para quem faz o exame, “linfonodo de aspecto reativo” sem medida, sem nível e sem descrição do hilo ajuda pouco o médico assistente. Este guia reúne as dúvidas de pacientes, os critérios de linfonodo normal e suspeito, os níveis cervicais, os linfonodos axilares após vacina e o que não pode faltar no laudo.

O que é um linfonodo e por que ele aumenta

Os linfonodos são pequenos órgãos do sistema imune que funcionam como filtros no caminho da linfa. Os mais fáceis de palpar ficam no pescoço, nas axilas e nas virilhas. Quando chega um vírus, uma bactéria ou uma substância inflamatória da região que drenam, as células de defesa se multiplicam e o linfonodo aumenta. É isso que se chama de linfonodo reativo: ele está trabalhando, não doente.

Os motivos mais comuns de íngua são:

  • Pescoço: resfriados, amigdalite, faringite, infecções dentárias, mononucleose e outras viroses.
  • Axila: pequenas lesões na mão ou no braço, foliculite, depilação, vacinas aplicadas no braço e, menos comum, doenças da mama.
  • Virilha: feridas nos pés e nas pernas, micose, depilação e infecções da região genital. Linfonodos inguinais pequenos e palpáveis são muito comuns em adultos saudáveis.

Doenças como linfoma, metástase de câncer, tuberculose e doenças autoimunes também aumentam os linfonodos, e é por isso que o ultrassom ajuda: ele mostra a estrutura interna, algo que a palpação não consegue.

Íngua no pescoço, na axila ou na virilha: quando preocupa

A maioria das ínguas some sozinha em algumas semanas, depois que a causa passa. Em geral, procure avaliação médica quando a íngua:

  • persiste por mais de algumas semanas sem causa aparente, ou continua crescendo;
  • é endurecida, não se move ao toque ou parece “grudada” em outras;
  • aparece na região supraclavicular (acima da clavícula), local em que o aumento tem mais chance de ter causa importante;
  • vem com febre que não passa, suor noturno, perda de peso, cansaço intenso ou coceira no corpo inteiro;
  • surge em várias regiões ao mesmo tempo;
  • aparece em quem já teve câncer.

Uma íngua dolorosa, que surgiu junto com uma infecção, costuma ser reativa. Ainda assim, cabe ao médico decidir se é preciso acompanhar, tratar ou investigar.

Precisa de preparo para ultrassom de linfonodos?

Não. O ultrassom de pescoço, axila ou região inguinal não exige jejum nem bexiga cheia. Basta usar roupa que facilite expor a região e levar exames anteriores, que ajudam a comparar tamanho e aspecto ao longo do tempo. O exame não dói e não usa radiação.

Como é o linfonodo normal no ultrassom

O linfonodo normal tem três características principais:

  • Forma ovalada ou alongada, com o eixo longo bem maior que o eixo curto.
  • Hilo ecogênico: uma faixa central clara, formada por gordura e vasos, que lembra um “rim” em miniatura.
  • Córtex hipoecoico fino e regular, envolvendo o hilo de forma uniforme.

No Doppler, o fluxo normal entra pelo hilo e se ramifica de forma central e organizada. Linfonodos pequenos podem não mostrar fluxo nenhum, o que também é normal.

Há exceções conhecidas: linfonodos submandibulares e parotídeos normais costumam ser mais arredondados, e em pessoas magras ou jovens o hilo pode ser pouco visível. Por isso, um critério isolado raramente define o diagnóstico.

Critérios de linfonodo normal e suspeito

A tabela resume os achados mais usados na prática. Nenhum deles é perfeito sozinho; o que aumenta a confiança é a soma de critérios e o contexto clínico.

Característica Aspecto habitual de benignidade Aspecto suspeito
Forma (relação eixo curto/eixo longo) Ovalada, relação menor que 0,5 Arredondada, relação igual ou maior que 0,5
Hilo gorduroso Presente, central, ecogênico Ausente, deslocado ou comprimido
Córtex Fino, regular e simétrico Espessado, de forma difusa ou excêntrica (focal)
Ecogenicidade Hipoecoico em relação ao músculo Hiperecogênico (lembra tecido tireoidiano) ou muito hipoecoico, quase pseudocístico
Microcalcificações Ausentes Presentes, pontos ecogênicos finos
Áreas císticas Ausentes Presentes, total ou parcialmente císticas
Necrose Ausente Área focal hipoecoica ou ecogênica sem fluxo
Vascularização ao Doppler Hilar, central e organizada Periférica ou capsular, ou mista e desorganizada
Margens e relação com vizinhos Bem definidas, linfonodos separados Mal definidas, conglomerados, invasão de estruturas

Alguns detalhes que fazem diferença na interpretação:

  • Microcalcificações, áreas císticas e aspecto hiperecogênico são muito sugestivos de metástase de carcinoma papilífero de tireoide, mesmo em linfonodos pequenos. A diretriz da European Thyroid Association para o pós-operatório de câncer de tireoide trata esses achados, junto com a vascularização periférica, como suspeitos.
  • Áreas císticas em linfonodo cervical de adulto também podem corresponder a metástase de carcinoma epidermoide de orofaringe, especialmente relacionado ao HPV. Não devem ser chamadas de “cisto benigno” sem cuidado.
  • Necrose e conglomerados, com edema do tecido em volta, lembram tuberculose ganglionar, mas também ocorrem em metástases.
  • Linfoma tende a dar linfonodos arredondados, muito hipoecoicos, às vezes com aspecto reticulado ou pseudocístico, e com fluxo hilar e periférico ao mesmo tempo.
  • Tamanho isolado é um critério fraco. Linfonodos reativos podem ser grandes, e metástases podem ser pequenas. Os valores de corte para o eixo curto variam conforme a região e a referência usada; em geral, o eixo curto é mais útil que o eixo longo, e a morfologia pesa mais que o tamanho.

Níveis cervicais: como localizar o linfonodo no pescoço

Dizer apenas “linfonodo cervical à direita” não basta. Cirurgiões e oncologistas usam a classificação por níveis, padronizada pela American Academy of Otolaryngology e adaptada para imagem por Som e colaboradores. De forma simplificada:

Nível Região Referências práticas
IA Submentoniano Entre os ventres anteriores dos músculos digástricos
IB Submandibular Ao redor da glândula submandibular
IIA e IIB Jugular alto Da base do crânio ao osso hioide; IIB fica posterior à veia jugular interna, na região do nervo acessório
III Jugular médio Do hioide até a borda inferior da cartilagem cricoide
IV Jugular baixo Da cricoide até a clavícula
VA e VB Triângulo posterior Atrás do esternocleidomastoideo; divididos pela altura da cricoide
VI Compartimento central Entre as carótidas, do hioide até a fúrcula esternal
VII Mediastino superior Abaixo da fúrcula esternal

Os níveis importam porque cada região drena áreas diferentes. Linfonodos suspeitos nos níveis III, IV e VI são típicos de metástase de câncer de tireoide, enquanto o nível II recebe drenagem de orofaringe e cavidade oral. Linfonodos parotídeos, retroauriculares e occipitais ficam fora dessa numeração e devem ser descritos pelo nome da região.

Se o exame de pescoço faz parte da avaliação de nódulo de tireoide, vale ler também o guia sobre ultrassom de tireoide e TI-RADS, porque a pesquisa de linfonodos suspeitos é parte desse exame.

Linfonodos axilares e inguinais

Axila

Na axila, a avaliação tem peso especial por causa do câncer de mama. Os critérios morfológicos são os mesmos: hilo preservado, córtex fino e uniforme, forma ovalada. O achado mais citado é o espessamento cortical, principalmente quando é excêntrico ou faz o córtex “empurrar” o hilo. Muitos serviços usam o valor de cerca de 3 mm de espessura cortical como ponto de atenção, mas esse corte não é universal e deve ser interpretado com a morfologia e a história clínica. No sistema BI-RADS, linfonodos axilares são descritos como achado associado e entram na classificação final do exame de mama.

Linfonodos axilares após vacinação

Vacinas aplicadas no deltoide podem causar aumento transitório dos linfonodos axilares do mesmo lado, com córtex espesso e às vezes hilo comprimido. Isso ficou muito conhecido com as vacinas contra covid-19, mas pode ocorrer com outras vacinas.

As recomendações publicadas a partir de 2021, como as de Lehman e colaboradores e da Society of Breast Imaging, foram sendo revistas ao longo do tempo. Em geral, quando o aumento é apenas no lado vacinado, a vacina foi recente e não há outro achado suspeito nem história de câncer, a tendência atual é considerar o achado provavelmente reativo e decidir o seguimento pelo contexto clínico, sem biópsia de rotina. Em pacientes com câncer de mama conhecido, linfonodo do lado oposto à vacina ou achado palpável persistente, a conduta é individualizada. Por isso, é importante perguntar e registrar no laudo data da vacina e o braço em que foi aplicada.

Virilha

Linfonodos inguinais costumam ser maiores que os cervicais e axilares em adultos sem doença, e quase sempre têm aspecto reativo, porque drenam pernas e pés, que se machucam com frequência. Os mesmos critérios morfológicos valem. Ao avaliar uma massa inguinal, lembre-se do diagnóstico diferencial com hérnia, lipoma e cisto, abordados no guia de ultrassom de partes moles.

O que descrever no laudo

Para cada linfonodo relevante, ou para o mais representativo de cada grupo, o laudo deve informar:

  • Localização: lado, região e, no pescoço, o nível cervical.
  • Medidas: eixo longo e, principalmente, eixo curto, medidos no plano transversal ao maior eixo, com a relação entre eles quando útil.
  • Forma: ovalada ou arredondada.
  • Hilo: presente, comprimido ou ausente.
  • Córtex: espessura e se o espessamento é difuso ou excêntrico.
  • Ecogenicidade e conteúdo: microcalcificações, áreas císticas, necrose.
  • Doppler: padrão de vascularização (hilar, periférico, misto ou ausente).
  • Margens e relação com estruturas vizinhas: limites, conglomerados, compressão ou invasão de vasos.
  • Contexto: vacina recente (data e braço), infecção referida, cirurgia prévia, comparação com exame anterior.

Quando há muitos linfonodos de aspecto habitual, não é preciso medir todos: basta registrar que há linfonodos de morfologia preservada na região e medir o maior. Na conclusão, use termos graduados, como “aspecto reativo”, “aspecto indeterminado” ou “características suspeitas”, e deixe a indicação de punção ou seguimento a critério do médico assistente, salvo diretriz do serviço.

Erros comuns

Usar só o tamanho

Laudar pelo tamanho sem olhar hilo, córtex e Doppler é o erro mais frequente. Um linfonodo pequeno com microcalcificação é mais preocupante que um grande e ovalado com hilo preservado.

Medir no plano errado

O eixo curto deve ser medido perpendicular ao eixo longo, no maior plano transversal. Cortes oblíquos fazem o linfonodo parecer mais redondo ou mais fino do que é, e alteram a relação entre os eixos.

Chamar todo linfonodo sem hilo de suspeito

Linfonodos submandibulares e parotídeos podem ser arredondados normalmente, e o hilo pode não aparecer em linfonodos pequenos. Ausência de hilo isolada, sem outro achado, costuma ser tratada como achado indeterminado, não como malignidade.

Confundir linfonodo com outras estruturas

Glândula submandibular, cisto de ducto tireoglosso, cisto branquial, vasos tortuosos, lipoma e até a própria glândula paratireoide aumentada podem ser confundidos com linfonodo. Siga a estrutura em dois planos e use o Doppler.

Não localizar por nível

“Linfonodo cervical suspeito à esquerda” obriga o cirurgião a repetir o exame. Informe o nível e uma referência anatômica.

Ignorar a história de vacina

Linfonodo axilar com córtex espesso em paciente vacinada no mesmo braço há poucas semanas recebe conduta diferente. Sem essa informação no laudo, o risco é de exames e biópsias desnecessários.

Perguntas frequentes

O que significa linfonodo reativo no laudo?

Significa que o linfonodo tem aspecto de estar reagindo a uma infecção ou inflamação, geralmente com forma ovalada e hilo preservado. É um achado benigno na grande maioria dos casos.

Íngua no pescoço pode ser câncer?

Pode, mas é incomum. A maioria é reativa a infecções da garganta, dos dentes ou da pele. Íngua persistente, endurecida, fixa, acima da clavícula ou com sintomas como febre e perda de peso deve ser avaliada pelo médico.

Linfonodo de 1 cm é normal?

Depende da região e do aspecto. Em várias regiões, especialmente na virilha e no nível II do pescoço, linfonodos com cerca de 1 cm e morfologia preservada são comuns. A forma, o hilo e o córtex dizem mais do que o tamanho isolado.

Vacina pode causar íngua na axila?

Sim. Vacinas aplicadas no braço podem aumentar os linfonodos da axila do mesmo lado por algumas semanas. Informe a data e o braço da vacina antes de exames de mama ou de axila.

Quando é preciso fazer punção ou biópsia?

Quando o linfonodo tem características suspeitas ou o contexto clínico pede confirmação. A decisão é do médico assistente, que pode pedir punção aspirativa guiada por ultrassom, biópsia por agulha grossa ou retirada cirúrgica.

Conclusão

A íngua quase sempre é um sinal de defesa do corpo, e o ultrassom ajuda a separar o linfonodo reativo daquele que precisa de investigação. Para o paciente, os sinais de alerta são persistência, crescimento, consistência endurecida, localização acima da clavícula e sintomas gerais. Para quem faz o exame, o diagnóstico depende da soma de critérios: forma, hilo, córtex, conteúdo e padrão de fluxo, sempre com localização precisa e contexto clínico.

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Referências

  • Ahuja AT, Ying M. Sonographic evaluation of cervical lymph nodes. American Journal of Roentgenology, 2005.
  • Ying M, Ahuja A. Sonography of neck lymph nodes. Part I: normal lymph nodes. Clinical Radiology, 2003.
  • Leboulleux S, Girard E, Rose M, et al. European Thyroid Association guidelines for cervical ultrasound scanning and ultrasound-guided techniques in the postoperative management of patients with thyroid cancer. European Thyroid Journal, 2013.
  • Som PM, Curtin HD, Mancuso AA. Imaging-based nodal classification for evaluation of neck metastatic adenopathy. American Journal of Roentgenology, 2000.
  • Robbins KT, Shaha AR, Medina JE, et al. Consensus statement on the classification and terminology of neck dissection. Archives of Otolaryngology, Head and Neck Surgery, 2008.
  • Lehman CD, D’Alessandro HA, Mendoza DP, et al. Unilateral lymphadenopathy after COVID-19 vaccination: a practical management plan for radiologists across specialties. Journal of the American College of Radiology, 2021.
  • American College of Radiology. ACR BI-RADS Atlas: Breast Imaging Reporting and Data System. 5ª edição, 2013.

Este conteúdo tem finalidade educacional e não substitui a avaliação médica. A investigação de linfonodos aumentados e a decisão sobre punção ou biópsia cabem ao médico que acompanha o paciente.

Resposta

  1. Avatar de Hérnia inguinal no ultrassom e hérnias da parede abdominal: técnica dinâmica e laudo – UltraLaudo Blog

    […] Confundir hérnia femoral com linfonodo ou variz da safena. Linfonodo tem hilo e não muda com a manobra; a variz da safena enche com Valsalva, mas tem fluxo ao Doppler. Veja o guia de ínguas e linfonodos no ultrassom. […]

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