Fórmula de Hadlock para peso fetal estimado (AJOG 1985): artigo comentado

Ilustração de biometria fetal no ultrassom com medidas da cabeça, do abdome e do fêmur usadas na fórmula de Hadlock

Em 1985, Frank Hadlock e colaboradores, do Baylor College of Medicine, em Houston, publicaram no American Journal of Obstetrics and Gynecology o teste prospectivo das fórmulas de peso fetal que hoje estão em praticamente todos os aparelhos de ultrassom. O artigo mostrou que juntar a circunferência abdominal (CA) ao comprimento do fêmur (CF) e a uma medida da cabeça reduz o erro da estimativa em relação aos modelos que usavam só cabeça e abdome, e terminou recomendando a equação com circunferência cefálica (CC), CA e CF para uso geral. A mensagem prática cabe em uma frase: o peso fetal estimado (PFE) de Hadlock tem um desvio padrão de cerca de 7,5%, o que significa que, em geral, o peso real fica dentro de aproximadamente ±15% do estimado, e o laudo deve tratar esse número como uma faixa, não como uma pesagem.

Ficha do artigo

Referência: Hadlock FP, Harrist RB, Sharman RS, Deter RL, Park SK. Estimation of fetal weight with the use of head, body, and femur measurements: a prospective study. Am J Obstet Gynecol. 1985;151(3):333-337.

DOI: 10.1016/0002-9378(85)90298-4

Tipo de estudo: estudo prospectivo de validação de modelos de regressão desenvolvidos em estudo anterior do mesmo grupo (Radiology, 1984).

Amostra: 109 fetos no teste prospectivo; depois, 276 fetos (167 do estudo original mais os 109 novos) para reajustar as equações.

Contexto: gestantes predominantemente de classe média e brancas, em Houston (Texas, Estados Unidos), examinadas com aparelhos de tempo real; a maioria a até 3 dias do parto e todas a até 1 semana.

Por que este artigo importa

O peso fetal estimado, junto com o percentil, sustenta o diagnóstico de feto pequeno ou grande para a idade gestacional, a suspeita de restrição de crescimento e parte das discussões sobre via e momento do parto.

Antes de Hadlock, as fórmulas mais usadas combinavam apenas diâmetro biparietal (DBP) e CA, como a de Shepard e colaboradores, e falhavam quando cabeça e corpo tinham proporções fora do comum. O grupo de Houston acrescentou o fêmur, que se relaciona bem com o comprimento do feto.

A dor de quem lauda é conhecida: o aparelho entrega um número com precisão de grama, que é lido como exato. Para a visão geral voltada a pacientes e profissionais, veja nosso guia de peso fetal estimado, percentil e margem de erro.

O que os autores fizeram

Em 1984, o mesmo grupo havia publicado na Radiology um estudo com 167 fetos nascidos vivos, examinados até uma semana antes do parto, no qual criou equações de regressão combinando DBP, CC, CA e CF. Lá, o melhor resultado (desvio padrão de 7,5% do peso real) veio da combinação de cabeça, abdome e fêmur.

O artigo de 1985 foi o teste dessas equações em uma nova amostra prospectiva de 109 fetos. Pontos importantes do desenho:

  • População não selecionada: entraram fetos prematuros, de termo e pós-termo, além de fetos com restrição de crescimento e macrossômicos.
  • Intervalo curto até o parto: a maioria foi examinada até 3 dias antes do nascimento, e todos até 1 semana, para que o peso ao nascer servisse de padrão de referência.
  • Faixas de peso: os fetos foram divididos em sete grupos, de menos de 1.500 g até mais de 4.000 g, com 12 a 20 fetos em cada grupo.
  • Medidas de erro: para cada fórmula, os autores calcularam a diferença percentual entre o peso estimado e o peso ao nascer. A média dessa diferença é o erro sistemático (a tendência a superestimar ou subestimar). O desvio padrão é o erro aleatório (o quanto as estimativas se espalham em torno do valor real).
  • Reajuste: no fim, juntaram os 167 fetos originais com os 109 novos e recalcularam as equações em uma população de 276 fetos.

Olhar crítico: o artigo não descreve de novo a técnica de medida; remete aos trabalhos anteriores do grupo. A população é de uma única cidade, de maioria branca e de classe média, nos anos 1980, e cada grupo de peso tem poucos fetos, o que deixa os resultados dos extremos com intervalos de confiança largos.

Principais resultados

O resultado central é a tabela de erros na amostra prospectiva de 109 fetos:

Modelo Erro sistemático (média) Erro aleatório (1 desvio padrão)
DBP + CA (Shepard e colaboradores) 1,3% 10,1%
CC + CA (Hadlock) 1,5% 9,8%
CA + CF (Hadlock) 0,4% 7,7%
DBP + CA + CF (Hadlock) 1,4% 7,3%
CC + CA + CF (Hadlock) 2,3% 7,4%
DBP + CC + CA + CF (Hadlock) -0,7% 7,3%

Três leituras dessa tabela:

  1. O erro sistemático foi pequeno em todos os modelos, de no máximo 2,3% em média.
  2. O ganho veio no erro aleatório. Os modelos sem fêmur ficaram perto de 10% de desvio padrão; os modelos com fêmur ficaram entre 7,3% e 7,7%. No resumo, os autores descrevem a precisão dos modelos com cabeça, abdome e fêmur como 1 desvio padrão de 7,5%, significativamente melhor que a dos modelos só com cabeça e abdome.
  3. Duas, três ou quatro medidas com fêmur dão resultados parecidos, com diferença de décimos de ponto percentual.

Do desvio padrão ao “±15%”

Se o erro aleatório é de cerca de 7,5% (1 desvio padrão), cerca de 95% dos fetos terão peso real dentro de aproximadamente 2 desvios padrão, ou ±15%, do peso estimado. É daí que vem a “margem de erro de 15%” repetida nos laudos. Para a fórmula de Shepard, os próprios autores lembram que 2 desvios padrão chegam a ±20%. Esses números valem para as condições do estudo, com examinadores experientes e exame próximo do parto.

O caso que convence

Os autores relatam um feto microcefálico em que a fórmula baseada em DBP e CA errou o peso em 1.197 g (46,8%), enquanto o modelo com cabeça, abdome e fêmur errou 165 g (7,3%). Quando uma parte do corpo tem proporção anormal, as outras medidas “seguram” a estimativa.

A equação recomendada

Com os 276 fetos, os autores reajustaram as equações e recomendaram a de CC, CA e CF como o modelo ideal para uso geral:

log10(peso em g) = 1,326 – 0,00326 × CA × CF + 0,0107 × CC + 0,0438 × CA + 0,158 × CF (medidas em centímetros)

Eles próprios ressalvam que diferenças de população ou sutilezas de técnica de imagem e de medida podem mudar a forma da equação ideal em outros serviços.

Por que a circunferência abdominal pesa tanto

O artigo não traz uma frase explicando por que a CA domina, mas o desenho mostra: a CA está em todos os modelos testados, e o que muda entre eles é a medida que a acompanha. Biologicamente, a CA reflete o tamanho do fígado e a gordura subcutânea, que são os componentes que mais variam com o estado nutricional do feto.

Dá para ver o efeito na própria equação recomendada. Em um exemplo calculado por nós, com CC de 33 cm, CA de 33 cm e CF de 7 cm, o peso estimado é de cerca de 3.000 g. Um erro de 3% em cada medida isolada muda o resultado assim:

Medida com erro de +3% Variação aproximada no PFE
CC (cerca de 1 cm) +2,5%
CA (cerca de 1 cm) +4,9%
CF (cerca de 2 mm) +2,5%

Ou seja, o mesmo erro relativo na CA mexe no peso cerca de duas vezes mais que na CC ou no CF. Não por acaso, a INTERGROWTH-21st usa uma equação só com CA e CC, e o consenso de restrição de crescimento aceita a CA como critério ao lado do peso estimado.

O que veio depois: curvas de peso e novos padrões

O artigo de 1985 ensina a estimar o peso. Para dizer se ele é pequeno ou grande, é preciso uma curva de referência. Três aparecem com frequência nos aparelhos:

Curva Desenho Fórmula de peso usada
Hadlock, Harrist e Martinez-Poyer (Radiology, 1991) Transversal, 392 gestantes de Houston, 10 a 41 semanas Hadlock com DBP, CC, CA e CF
INTERGROWTH-21st (Stirnemann e colaboradores, UOG, 2017) Multinacional, padrão prescritivo, 22 a 40 semanas Equação própria com CA e CC
OMS (Kiserud e colaboradores, PLoS Med, 2017) Longitudinal, 1.387 gestantes em 10 países, 14 a 40 semanas Hadlock com CC, CA e CF

A curva de 1991 fornece os percentis 3, 10, 50, 90 e 97 e descreve uma variação de cerca de 12,7% (1 desvio padrão) em torno do peso esperado ao longo de toda a gestação. As curvas da OMS mostraram diferenças significativas de crescimento entre países, o que reforça que a escolha da curva muda o percentil.

O que muda na prática do ultrassonografista

1. A qualidade do PFE é a qualidade da CA. Plano transversal o mais redondo possível, estômago visível, veia umbilical no nível do seio portal, rins fora do plano e elipse na pele, medida entre movimentos respiratórios e sem comprimir o abdome com o transdutor.

2. Cabeça no plano transtalâmico. Corte axial simétrico com linha média, cavo do septo pelúcido e tálamos, sem cerebelo. A CC é medida com elipse no contorno externo do crânio; em cabeças alongadas ou achatadas (dolicocefalia ou braquicefalia), a CC é mais confiável que o DBP.

3. Fêmur inteiro e horizontal. As duas extremidades da diáfise ossificada visíveis, ângulo pequeno com a horizontal e calipers apenas na diáfise, sem epífise distal nem esporões.

4. Nos extremos, desconfie mais. No grupo abaixo de 1.500 g, o modelo com CC, CA e CF teve desvio médio de 4,6% e desvio padrão de 9,7%. Acima de 4.000 g, o desvio médio foi de 6,3%, em sentido oposto. A diretriz da ISUOG de 2019 lembra que os erros são relativamente maiores justamente nos fetos que mais interessam, os pequenos e os grandes para a idade gestacional. Em suspeita de macrossomia ou de feto muito pequeno, o número em gramas merece ainda mais cautela.

5. Siga o método da curva. A ISUOG recomenda medir com a mesma técnica usada nos estudos que geraram a curva de referência e, em geral, intervalo de pelo menos 3 semanas entre exames quando o objetivo é avaliar crescimento.

Como levar para o laudo

Exemplos de frases que deixam claro de onde veio o número e qual a sua incerteza:

Peso adequado

  • “Peso fetal estimado de 2.450 g (fórmula de Hadlock com CC, CA e CF), percentil 42 pela curva INTERGROWTH-21st para 34 semanas e 2 dias (idade gestacional pelo ultrassom de primeiro trimestre). A estimativa tem margem de erro de cerca de 15% para mais ou para menos.”

Feto pequeno

  • “Peso fetal estimado de 1.610 g (Hadlock, CC, CA e CF), abaixo do percentil 10 pela curva da OMS (2017). CA abaixo do percentil 10. Doppler da artéria umbilical e da artéria cerebral média descrito abaixo. Sugere-se correlação com os critérios de consenso para restrição de crescimento.”

Em um laudo estruturado, vale ter campos próprios para: DBP, CC, CA e CF com percentis, fórmula do PFE, curva de referência com nome e ano, idade gestacional de referência e sua origem, peso estimado com percentil, margem de erro, comparação com o exame anterior (percentil e intervalo em semanas) e limitações técnicas.

Feto pequeno: o que o consenso Delphi pede

Para não confundir pequeno com restrito, o consenso de Gordijn e colaboradores (UOG, 2016) definiu restrição de crescimento fetal, na ausência de anomalias congênitas:

Tipo Critério isolado Critérios combinados
Precoce (antes de 32 semanas) CA ou PFE abaixo do percentil 3, ou diástole ausente na artéria umbilical CA ou PFE abaixo do percentil 10 com IP da artéria uterina e/ou IP da artéria umbilical acima do percentil 95
Tardia (32 semanas ou mais) CA ou PFE abaixo do percentil 3 Pelo menos dois entre: CA ou PFE abaixo do percentil 10; queda de mais de dois quartis na curva; relação cerebroplacentária abaixo do percentil 5 ou IP da artéria umbilical acima do percentil 95

Note que a CA aparece ao lado do PFE em todos os critérios de tamanho. O Doppler necessário está no guia de ultrassom com Doppler na gravidez.

Limitações e críticas

  • População antiga e homogênea. Uma cidade, maioria branca e de classe média, aparelhos dos anos 1980. Os próprios autores admitem que outras populações e técnicas podem exigir outra equação.
  • Amostra pequena por faixa de peso. Com 12 a 20 fetos por grupo, os números dos extremos são pouco precisos.
  • Examinadores experientes e exame perto do parto. Na rotina, com exames feitos semanas antes e por profissionais com experiência variada, o erro tende a ser maior. A ISUOG fala em erros de 10% a 15% como comuns.
  • Mesma estimativa, fetos diferentes. Um mesmo PFE pode vir de fetos com proporções muito diferentes; por isso as medidas individuais devem aparecer no laudo. Se a CA não for confiável, registre a limitação em vez de forçar um peso.

Dúvidas frequentes de quem lauda

Qual fórmula de Hadlock devo escolher no aparelho?

O artigo recomendou a de CC, CA e CF para uso geral, e é a que a OMS usou em suas curvas. As combinações de três ou quatro medidas tiveram erro aleatório quase igual. O mais importante é informar no laudo qual foi usada e mantê-la nos exames seriados.

Qual curva devo citar?

A que o serviço adotou, com nome e ano, de preferência um padrão prescritivo como INTERGROWTH-21st ou OMS, ou a curva exigida localmente. A curva de Hadlock de 1991 ainda é muito usada, mas é uma referência descritiva de uma população única. Trocar de curva entre exames pode criar falsas quedas de percentil.

Percentil ou peso: o que vai na conclusão?

O percentil, com a curva. O peso em gramas é útil, mas a classificação (pequeno, adequado ou grande para a idade gestacional) e os critérios de restrição dependem do percentil do PFE e da CA.

Posso escrever “margem de erro de 15%”?

Sim, desde que fique claro que é uma aproximação baseada em 2 desvios padrão dos estudos de validação e que nos extremos de peso o erro pode ser maior. Algumas equipes preferem mostrar a faixa em gramas.

Conclusão

O artigo de Hadlock de 1985 consolidou a ideia de que cabeça, abdome e fêmur juntos estimam o peso fetal melhor que cabeça e abdome sozinhos, com desvio padrão de cerca de 7,5% e erro sistemático pequeno. Quatro décadas depois, as equações ainda estão nos aparelhos, e a lição continua atual: o peso estimado é uma faixa de aproximadamente ±15%, a CA é a medida que mais o influencia, e o percentil só faz sentido com uma curva nomeada e uma idade gestacional confiável.

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Referências

  • Hadlock FP, Harrist RB, Sharman RS, Deter RL, Park SK. Estimation of fetal weight with the use of head, body, and femur measurements: a prospective study. American Journal of Obstetrics and Gynecology, 1985;151(3):333-337. DOI: 10.1016/0002-9378(85)90298-4.
  • Hadlock FP, Harrist RB, Carpenter RJ, Deter RL, Park SK. Sonographic estimation of fetal weight. The value of femur length in addition to head and abdomen measurements. Radiology, 1984;150(2):535-540. DOI: 10.1148/radiology.150.2.6691115.
  • Hadlock FP, Harrist RB, Martinez-Poyer J. In utero analysis of fetal growth: a sonographic weight standard. Radiology, 1991;181(1):129-133. DOI: 10.1148/radiology.181.1.1887021.
  • Stirnemann J, Villar J, Salomon LJ, et al. International estimated fetal weight standards of the INTERGROWTH-21st Project. Ultrasound in Obstetrics & Gynecology, 2017;49(4):478-486. DOI: 10.1002/uog.17347.
  • Kiserud T, Piaggio G, Carroli G, et al. The World Health Organization Fetal Growth Charts: a multinational longitudinal study of ultrasound biometric measurements and estimated fetal weight. PLoS Medicine, 2017;14(1):e1002220. DOI: 10.1371/journal.pmed.1002220.
  • Gordijn SJ, Beune IM, Thilaganathan B, et al. Consensus definition of fetal growth restriction: a Delphi procedure. Ultrasound in Obstetrics & Gynecology, 2016;48(3):333-339. DOI: 10.1002/uog.15884.
  • Salomon LJ, Alfirevic Z, Da Silva Costa F, et al. ISUOG Practice Guidelines: ultrasound assessment of fetal biometry and growth. Ultrasound in Obstetrics & Gynecology, 2019;53(6):715-723. DOI: 10.1002/uog.20272.

Este conteúdo tem finalidade educacional e é voltado a profissionais e estudantes de ultrassonografia. Não substitui a avaliação médica individual nem a leitura das publicações originais. A interpretação do peso fetal estimado e a conduta cabem ao médico que acompanha a gestante.

Respostas

  1. Avatar de Peso fetal estimado no ultrassom: percentil, crescimento e margem de erro – UltraLaudo Blog

    […] A origem e os limites dessa fórmula estão no artigo comentado sobre a fórmula de Hadlock. […]

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  2. Avatar de Centralização fetal no Doppler e restrição de crescimento: protocolo de Barcelona (Figueras e Gratacós, 2014): artigo comentado – UltraLaudo Blog

    […] 6. RCP com curva nomeada. A RCP é calculada, não medida. Registre os dois IPs, o valor da relação e o percentil pela curva usada (por exemplo, as faixas da Fetal Medicine Foundation de Ciobanu e colaboradores, 2019). A ISUOG recomenda interpretar por faixas de referência por idade gestacional e não por um corte fixo único. Se a idade gestacional não for confiável, o percentil também não será. Para o lado da biometria, veja o guia de peso fetal estimado e percentil e o comentário da fórmula de Hadlock. […]

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