O ultrassom de mama masculina serve principalmente para diferenciar três situações: a ginecomastia, que é o crescimento do tecido glandular da mama no homem; a lipomastia ou pseudoginecomastia, que é só acúmulo de gordura, sem glândula; e um nódulo de verdade, que precisa ser investigado. Na maioria dos casos, o aumento da mama no homem é benigno e o diagnóstico de ginecomastia é clínico, sem necessidade de exame de imagem. O exame passa a ser indicado quando o médico palpa um nódulo que não é típico, quando há um só lado endurecido e fora do centro, alterações no mamilo ou na pele, ou ínguas na axila. Nesses casos, o ultrassom e a mamografia se complementam, e a escolha do primeiro exame depende principalmente da idade.
Este guia foi pensado para homens que notaram um “caroço” atrás do mamilo, para pais de adolescentes preocupados com o aumento do peito durante a puberdade e, no final, para profissionais que fazem e laudam o exame.
Ginecomastia ou lipomastia: qual a diferença?
As duas fazem o peito parecer maior, mas são coisas diferentes.
- Ginecomastia verdadeira: crescimento do tecido glandular (ductos e estroma) logo atrás do mamilo. Ao toque, costuma ser um disco de consistência elástica ou firme, centralizado embaixo da aréola, às vezes dolorido. Pode ser de um lado só ou dos dois.
- Pseudoginecomastia ou lipomastia: aumento do volume da mama por gordura, sem crescimento de glândula. É comum em homens com sobrepeso ou obesidade. Ao toque, é macia e não há um disco firme atrás do mamilo.
A diferença importa porque muda a investigação e o tratamento. A lipomastia, em geral, não pede exames hormonais e tende a melhorar com perda de peso; quando o paciente quer correção cirúrgica, a lipoaspiração costuma bastar. Na ginecomastia, vale procurar a causa e, quando há indicação de cirurgia, muitas vezes é preciso retirar o tecido glandular.
| Característica | Ginecomastia | Lipomastia (pseudoginecomastia) | Suspeita de câncer |
|---|---|---|---|
| O que é | Tecido glandular aumentado | Só gordura | Tumor da mama |
| Posição | Centralizada atrás do mamilo | Difusa, sem disco central | Muitas vezes excêntrica, fora do centro |
| Lados | Frequentemente bilateral | Geralmente bilateral | Em geral unilateral |
| Consistência | Elástica ou firme, móvel | Macia | Dura, às vezes fixa |
| Dor | Comum na fase inicial | Rara | Em geral indolor |
| Mamilo e pele | Normais | Normais | Retração, ferida, secreção com sangue |
| No ultrassom | Tecido hipoecoico retroareolar | Lóbulos de gordura, sem tecido glandular | Nódulo irregular, hipoecoico, com margens mal definidas |
Quais são as causas da ginecomastia
A ginecomastia aparece quando há desequilíbrio entre o efeito dos estrogênios, que estimulam a glândula, e dos androgênios, como a testosterona. Ela é comum em três fases da vida: no recém-nascido, na puberdade e no homem mais velho. As causas mais frequentes são:
- Puberdade: muito comum em meninos adolescentes. A ginecomastia puberal costuma regredir sozinha em seis meses a dois anos. Quando persiste além de dois anos ou depois dos 17 anos, o médico costuma investigar mais.
- Medicamentos: é uma das causas mais comuns no adulto. Entre os exemplos estão alguns antipsicóticos, antirretrovirais, espironolactona e os tratamentos hormonais do câncer de próstata. Quando o remédio pode ser suspenso ou trocado, a mama tende a diminuir.
- Anabolizantes e hormônios: o uso de esteroides anabolizantes é causa frequente em praticantes de musculação e pode deixar ginecomastia que não regride depois que o uso é interrompido.
- Doença do fígado: a cirrose, principalmente a ligada ao álcool, altera o metabolismo dos hormônios e favorece a ginecomastia.
- Causas hormonais: hipogonadismo (testosterona baixa), como na síndrome de Klinefelter; hipertireoidismo; e tumores que produzem hormônios, como alguns tumores de testículo.
- Doença renal crônica, desnutrição e realimentação também podem causar o quadro.
Em parte dos homens, nenhuma causa é encontrada. O ultrassom não mostra a causa, mas confirma se o que existe é glândula, gordura ou um nódulo. Quando o médico suspeita de causa testicular, pode pedir um ultrassom da bolsa escrotal junto com os exames de sangue.
Ginecomastia em adolescentes: o que os pais precisam saber
Ver o filho com o peito aumentado assusta, mas na grande maioria das vezes é uma fase normal da puberdade. Um ou os dois lados podem crescer, e é comum o menino sentir dor ou sensibilidade quando algo encosta no mamilo.
Em geral, o pediatra examina, confirma o disco glandular atrás da aréola, avalia os testículos e o desenvolvimento puberal e orienta acompanhar. O ultrassom é útil quando o exame físico deixa dúvida, quando o aumento é muito grande, de crescimento rápido ou de um lado só com consistência diferente. Câncer de mama em adolescente é extremamente raro, e por isso nessa idade o ultrassom é o exame de escolha quando a imagem é necessária, sem mamografia de rotina.
O impacto emocional merece atenção. Muitos adolescentes evitam praia, piscina e educação física. Conversar sobre isso faz parte do acompanhamento.
Como o ultrassom vê a mama masculina
O exame é feito com o homem deitado, braço elevado atrás da cabeça, usando um transdutor linear de alta frequência, como no ultrassom de mama feminina. Não precisa de preparo. O examinador avalia a região atrás do mamilo, os quadrantes e a axila dos dois lados.
Na mama masculina normal, há pele, gordura subcutânea, músculo peitoral e, atrás do mamilo, quase nenhum tecido glandular.
Os três padrões da ginecomastia
A ginecomastia é descrita em três padrões, que acompanham o tempo de evolução. Eles foram descritos primeiro na mamografia e têm correspondência no ultrassom.
- Nodular (fase inicial ou florida): tecido hipoecoico, em forma de disco ou leque, logo atrás do mamilo. Pode ter fluxo ao Doppler. É a fase mais dolorosa e a que tem mais chance de regredir quando a causa é retirada. Em geral corresponde a menos de um ano de evolução.
- Dendrítico (fase tardia ou fibrosa): tecido retroareolar com prolongamentos finos que se estendem para a gordura, com aspecto de “estrela” ou “pernas de aranha”. Reflete fibrose e costuma ser irreversível. É o padrão que mais pode lembrar uma lesão suspeita, mas a posição central, atrás do mamilo, e o aspecto simétrico ajudam a diferenciar.
- Difuso: mama aumentada, com tecido fibroglandular espalhado e mais ecogênico, parecido com a mama feminina. Em geral está associado a uso de estrogênio em doses altas ou a terapia hormonal.
Na lipomastia, o ultrassom mostra apenas lóbulos de gordura, sem o tecido hipoecoico retroareolar da ginecomastia.

Quando se preocupar com câncer de mama no homem
O câncer de mama masculino é raro: segundo a Sociedade Americana de Câncer, menos de 1% dos casos de câncer de mama nos Estados Unidos ocorrem em homens. Mesmo assim, costuma ser diagnosticado em fase mais avançada do que na mulher, em parte porque muitos homens não imaginam que isso possa acontecer com eles. É mais comum em homens mais velhos e tem como fatores de risco história familiar, mutação no gene BRCA2, síndrome de Klinefelter, radioterapia prévia no tórax e doença hepática.
Procure avaliação médica sem demora se notar:
- Nódulo duro, de um lado só, principalmente se estiver fora do centro da aréola (excêntrico) ou preso aos planos profundos.
- Alterações no mamilo: retração recente, ferida que não cicatriza, crosta ou secreção, especialmente com sangue.
- Alterações na pele: espessamento, retração ou aspecto de casca de laranja.
- Íngua na axila do mesmo lado. Vale ler sobre quando um linfonodo aumentado preocupa.
- Crescimento rápido de uma área endurecida.
No ultrassom, o câncer costuma aparecer como nódulo hipoecoico, irregular, com margens não circunscritas, às vezes não paralelo à pele, com vascularização variável e frequentemente deslocado em relação ao mamilo. A ginecomastia, ao contrário, é central e muitas vezes bilateral.

Mamografia ou ultrassom? O que diz o ACR
O Colégio Americano de Radiologia (ACR) tem um documento específico, os ACR Appropriateness Criteria “Evaluation of the Symptomatic Male Breast”. Em resumo:
| Situação clínica | Exame inicial usualmente apropriado | Pode ser apropriado |
|---|---|---|
| Quadro clínico típico de ginecomastia ou pseudoginecomastia | Nenhum exame de imagem de rotina | |
| Nódulo palpável indeterminado, homem com menos de 25 anos | Ultrassom | Mamografia ou tomossíntese |
| Nódulo palpável indeterminado, homem com 25 anos ou mais | Mamografia ou tomossíntese | Ultrassom |
| Mamografia ou tomossíntese indeterminada ou suspeita (25 anos ou mais) | Ultrassom | |
| Achado clínico suspeito, qualquer idade | Mamografia, tomossíntese ou ultrassom |
A ressonância magnética não é indicada como exame inicial em nenhum desses cenários. A lógica é simples: em jovens, o câncer é muito improvável, então começa-se pelo ultrassom, que não usa radiação. A partir dos 25 anos, a mamografia ganha peso porque mostra bem a forma típica da ginecomastia e ajuda a evitar biópsias desnecessárias.
BI-RADS no homem
O sistema BI-RADS do ACR também é usado na mama masculina, com as mesmas categorias da mulher. Na prática:
- Ginecomastia típica e lipomastia costumam ser classificadas como BI-RADS 2 (achado benigno), sem necessidade de controle por imagem por causa do achado.
- Exame sem alterações: BI-RADS 1.
- Nódulo com características suspeitas: BI-RADS 4 ou 5, com indicação de biópsia, em geral por agulha grossa guiada por ultrassom.
- BI-RADS 3 existe, mas no homem é usado com mais cautela, e muitos serviços preferem esclarecer o achado em vez de acompanhar.
Se quiser entender cada categoria em detalhe, veja o guia sobre BI-RADS no ultrassom de mama e quando biopsiar.
Para profissionais: o que descrever no laudo
Um bom laudo de mama masculina responde à pergunta clínica: é glândula, gordura ou nódulo? Os itens essenciais são:
- Indicação: lado, sintoma (aumento, dor, nódulo palpável), uso de medicamentos ou anabolizantes, quando informado.
- Tecido retroareolar: presença ou ausência, lateralidade, padrão (nodular, dendrítico ou difuso), dimensões e vascularização ao Doppler.
- Relação com o mamilo: central ou excêntrico.
- Nódulos: descritores BI-RADS completos (forma, orientação, margens, padrão ecográfico, achados posteriores, calcificações e vascularização), localização em horário e distância do mamilo, medidas nos três eixos.
- Pele e mamilo: espessamento, retração.
- Axilas: linfonodos com espessura cortical, hilo e forma.
- Comparação com exames anteriores e correlação com o achado palpável.
- Categoria BI-RADS e recomendação coerentes com a descrição.
Frases de laudo
Exemplos com campos a preencher:
- Ginecomastia nodular: “Tecido hipoecoico retroareolar à [direita/esquerda/bilateral], de aspecto discoide, centrado no complexo areolopapilar, medindo [medida] x [medida] cm, com [ausência de/discreta] vascularização ao Doppler, compatível com ginecomastia de padrão nodular. BI-RADS 2.”
- Ginecomastia dendrítica: “Tecido fibroglandular retroareolar com prolongamentos digitiformes para o tecido adiposo adjacente, simétrico e centrado no mamilo, sem nódulo definido, compatível com ginecomastia de padrão dendrítico. BI-RADS 2.”
- Lipomastia: “Aumento do volume mamário às custas de tecido adiposo, sem tecido fibroglandular retroareolar identificável. Achado compatível com pseudoginecomastia (lipomastia). BI-RADS 2.”
- Nódulo suspeito: “Nódulo sólido hipoecoico, de forma irregular, margens [angulares/espiculadas/indistintas], orientação [não paralela/paralela], localizado às [hora] h, a [medida] cm do mamilo, excêntrico em relação ao complexo areolopapilar, medindo [medida] x [medida] x [medida] cm, com [padrão] de vascularização. Linfonodos axilares [descrição]. BI-RADS [4/5]. Sugere-se estudo histológico.”
- Axila: “Linfonodos axilares de morfologia preservada, com hilo ecogênico e cortical fina” ou “Linfonodo axilar com cortical espessada de [medida] cm e [redução/ausência] do hilo ecogênico.”
Erros comuns
- Chamar de “nódulo” o tecido de ginecomastia. O disco retroareolar é tecido glandular, não massa. Usar a palavra nódulo assusta o paciente e pode gerar biópsias desnecessárias.
- Laudar só o lado sintomático. A ginecomastia é muitas vezes bilateral, e a comparação ajuda a reconhecer o padrão benigno.
- Não descrever a relação com o mamilo. A localização central ou excêntrica é uma das informações mais úteis para diferenciar ginecomastia de câncer.
- Esquecer a axila quando há nódulo suspeito.
- Confundir padrão dendrítico com lesão espiculada. Simetria, posição central e ausência de massa definida favorecem ginecomastia; na dúvida, correlacionar com mamografia.
- Dar BI-RADS 3 por insegurança a um achado que é claramente ginecomastia, ou, ao contrário, tranquilizar diante de um nódulo excêntrico e firme.
- Pedir exame de imagem para todo adolescente com ginecomastia típica, quando o exame clínico basta.
Perguntas frequentes
Ginecomastia vira câncer?
Não há evidência de que a ginecomastia se transforme em câncer. Algumas condições, como a síndrome de Klinefelter, aumentam o risco das duas coisas, mas a ginecomastia comum não é uma lesão pré-maligna.
Meu filho de 13 anos tem um caroço atrás do mamilo. Precisa de ultrassom?
Em geral, não de imediato. O caroço atrás do mamilo na puberdade costuma ser ginecomastia e regride sozinho. O pediatra examina e decide. O ultrassom entra quando há dúvida, crescimento rápido ou características diferentes do habitual.
Ultrassom ou mamografia: qual é melhor para homem?
Depende da idade e do quadro. Pelos critérios do ACR, abaixo de 25 anos o ultrassom é o primeiro exame para nódulo indeterminado; a partir de 25 anos, a mamografia ou tomossíntese costuma vir primeiro, e o ultrassom complementa.
Anabolizante causa ginecomastia?
Sim. O uso de esteroides anabolizantes é causa conhecida, e a ginecomastia pode não regredir depois que o uso é interrompido, principalmente quando já há fibrose.
O exame dói ou precisa de preparo?
Não. É o mesmo ultrassom usado em outras partes do corpo, sem preparo e sem radiação.
Conclusão
O aumento da mama no homem quase sempre é benigno: ginecomastia, por puberdade, remédios, anabolizantes, doença do fígado ou causas hormonais, ou simplesmente gordura. O ultrassom ajuda a separar glândula de gordura e a identificar o raro nódulo que precisa de biópsia. Os sinais que pedem atenção são nódulo duro, de um lado só e fora do centro, alterações do mamilo e da pele e íngua na axila. Para quem lauda, descrever o padrão, a relação com o mamilo, a axila e a categoria BI-RADS é o que torna o laudo útil para o clínico.
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Referências
- Niell BL, Lourenco AP, Moy L, et al. ACR Appropriateness Criteria® Evaluation of the Symptomatic Male Breast. Journal of the American College of Radiology, 2018;15(11S):S313-S320.
- Önder Ö, Azizova A, Durhan G, et al. Imaging findings and classification of the common and uncommon male breast diseases. Insights into Imaging, 2020. doi:10.1186/s13244-019-0834-3.
- American Cancer Society. Key Statistics for Breast Cancer in Men. cancer.org, acesso em outubro de 2026.
- Dickson G. Gynecomastia. American Family Physician, 2012;85(7):716-722.
- Braunstein GD. Gynecomastia. New England Journal of Medicine, 2007;357(12):1229-1237.
- D’Orsi CJ, Sickles EA, Mendelson EB, Morris EA, et al. ACR BI-RADS® Atlas, Breast Imaging Reporting and Data System. 5ª edição. American College of Radiology, 2013.
Este conteúdo tem finalidade educacional e não substitui a avaliação médica. Qualquer nódulo ou alteração na mama, em homens ou mulheres, deve ser avaliado por um médico.

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