O BI-RADS é a escala que o laudo de ultrassom de mama usa para dizer o quanto um achado é suspeito e o que fazer com ele. Vai de 0 a 6: 1 e 2 significam exame normal ou achado benigno (segue a rotina); 3 é “provavelmente benigno”, com chance de câncer de até 2%, e pede controle em curto prazo, em geral em cerca de 6 meses; 4 é suspeito e 5 é altamente suspeito, e nos dois a conduta é biópsia; 0 indica que falta um exame ou uma comparação; e 6 é para câncer já confirmado. Um nódulo BI-RADS 4 não é um diagnóstico de câncer: é uma indicação de biópsia, e boa parte dessas biópsias, principalmente na categoria 4A, tem resultado benigno.
Este guia aprofunda o que o resumo sobre ultrassom de mama e de rins apresentou. Aqui o foco é entender cada categoria, a diferença entre cisto e nódulo sólido, o que acontece na biópsia e o que mudou no BI-RADS com o manual v2025 do Colégio Americano de Radiologia (ACR), publicado em dezembro de 2025.
O que o ultrassom de mama avalia
O ultrassom examina a mama em cortes, com um transdutor de alta frequência, sem radiação. Em geral, ele avalia:
- Composição do tecido: quanto há de gordura e de tecido glandular, o que influencia a facilidade de ver lesões.
- Nódulos: cistos (com líquido) ou sólidos, vistos em dois planos.
- Lesões sem forma de nódulo, ductos dilatados, pele e subcutâneo.
- Linfonodos da axila e, quando indicado, de outras cadeias.
- Próteses e cicatrizes.
Não precisa de jejum. Levar exames anteriores é o que mais ajuda o examinador.
O léxico BI-RADS em palavras simples
O “léxico” é o vocabulário padronizado que o laudo usa para descrever um nódulo. Alguns termos são típicos de lesões benignas, outros chamam atenção para malignidade.
| Característica | Termos do BI-RADS | O que significa, de forma simples |
|---|---|---|
| Forma | Oval, lobulada, redonda, irregular | Oval tende a ser benigna; irregular é a forma mais suspeita |
| Orientação | Paralela ou não paralela à pele | Nódulo “deitado” (mais largo que alto) tende a ser benigno; “em pé” (mais alto que largo) é suspeito |
| Margem | Circunscrita ou não circunscrita (indistinta, angular, microlobulada, espiculada) | Contorno nítido em toda a volta favorece benignidade; contorno borrado, com ângulos ou espículas é suspeito |
| Padrão de ecos | Anecoico, hipoecoico, isoecoico, hiperecoico, heterogêneo, misto sólido e cístico | Anecoico é “preto”, em geral líquido; o componente sólido é o que preocupa num nódulo misto |
| Achados posteriores | Sem achados, reforço, sombra | Reforço é comum em cistos; sombra posterior pode indicar tecido fibroso ou tumor |
| Achados associados | Distorção, alterações de ductos e pele, edema, vascularização, elasticidade, halo ecogênico | Sinais de que o nódulo está alterando o tecido em volta |
Um nódulo com todos os aspectos “benignos” (oval, paralelo, circunscrito) recebe uma categoria baixa. Um único aspecto suspeito, como margem espiculada ou orientação não paralela, já costuma tirar o nódulo das categorias 2 e 3.
O que mudou no BI-RADS v2025 para o ultrassom
Para quem lauda, o manual v2025 é uma extensão da 5ª edição (2013), não uma ruptura. Segundo o formulário-resumo do ACR e revisões de 2026, as mudanças principais no ultrassom são:
- Forma “lobulada” (contorno ondulado) e “misto sólido e cístico” no lugar de “complexo cístico e sólido”.
- Achados posteriores em três opções no formulário: sem achados, reforço ou sombra.
- Lesão não nodular (non-mass lesion), descrita por distribuição, padrão de ecos e achados posteriores.
- Halo ecogênico espesso (echogenic rind), ligado a malignidade, e pseudocápsula ecogênica fina, ligada a benignidade.
- Vascularização (avascular, interna, hipervascularização periférica) e elasticidade (mole, intermediária, dura).
- Componente de tecido glandular (mínimo, leve, moderado, acentuado) junto à composição.
- Linfonodos em seção própria, por cadeia.
Categorias BI-RADS 0 a 6 e a conduta habitual
O laudo termina com uma categoria final por exame, que corresponde ao achado mais suspeito. As faixas de probabilidade abaixo são as do ACR.
| Categoria | Nome | Chance de câncer | Conduta habitual | Para a paciente |
|---|---|---|---|---|
| 0 | Incompleto | Não se aplica | Exame adicional ou comparação com exames anteriores | Ainda não há conclusão; falta uma etapa |
| 1 | Negativo | Essencialmente 0% | Rotina para idade e risco | Nada foi encontrado |
| 2 | Benigno | Essencialmente 0% | Rotina para idade e risco | Há um achado, mas ele é benigno |
| 3 | Provavelmente benigno | Mais de 0% até 2% | Controle em curto prazo, em geral 6 meses | Muito provavelmente benigno; o controle confirma |
| 4 | Suspeito | Mais de 2% e menos de 95% | Biópsia | Precisa de amostra para saber o que é |
| 5 | Altamente sugestivo de malignidade | 95% ou mais | Biópsia | Grande chance de câncer; a biópsia confirma e orienta o tratamento |
| 6 | Malignidade comprovada por biópsia | Não se aplica | Acompanhamento com cirurgião e oncologista | Usado em quem já tem o diagnóstico |
A 5ª edição do BI-RADS propôs uma subdivisão da categoria 4, que muitos serviços usam também no ultrassom: 4A (baixa suspeita, mais de 2% até 10%), 4B (suspeita moderada, mais de 10% até 50%) e 4C (alta suspeita, mais de 50% e menos de 95%). A conduta é a mesma, biópsia, mas a subcategoria ajuda a julgar se o resultado da biópsia “combina” com a imagem.
No v2025, a categoria 0 fica restrita a duas situações: precisa de exame de imagem adicional ou precisa de exames anteriores para comparar. A categoria 6 foi reescrita para reconhecer que o tratamento do câncer nem sempre começa pela cirurgia.
BI-RADS 3: quando usar e como acompanhar
A categoria 3 não é “dúvida”: é reservada para achados de aparência típica de benignidade, em que acompanhar é uma alternativa segura à biópsia. Os exemplos clássicos no ultrassom são:
- Nódulo sólido oval, circunscrito e paralelo à pele, sem achados suspeitos, compatível com fibroadenoma, que não seja palpável ou não tenha crescido.
- Cisto complicado isolado, com ecos finos dentro, sem parede espessa e sem parte sólida.
O acompanhamento mais usado é um controle em cerca de 6 meses e, se o achado estiver estável, vigilância que em geral completa 2 anos. Se o nódulo crescer de forma relevante ou ganhar aspecto suspeito, ele passa para a categoria 4 e vai para biópsia. A biópsia pode substituir o controle quando a paciente prefere ou tem dificuldade de retornar.
Cisto ou nódulo sólido: qual a diferença
Essa é uma das perguntas mais frequentes, e o ultrassom é o melhor exame para respondê-la.
| Tipo | Aspecto no ultrassom | Categoria habitual |
|---|---|---|
| Cisto simples | Anecoico, circunscrito, parede fina, reforço posterior | 2 (benigno) |
| Microcistos agrupados | Pequenos cistos juntos, com septos finos | Em geral 2 |
| Cisto complicado | Ecos internos finos ou nível líquido-debris, sem parte sólida | 2 se múltiplo e bilateral; 3 se isolado; pode ser aspirado |
| Nódulo misto sólido e cístico | Parede espessa, septos espessos ou componente sólido | Em geral 4, com biópsia da parte sólida |
| Nódulo sólido | Ecos internos, sem conteúdo líquido | De 2 a 5, conforme o léxico |
O cisto simples é benigno, não precisa de controle especial e só é puncionado se incomodar. O ponto crítico é não confundir um nódulo sólido muito escuro com um cisto: qualquer vascularização interna afasta o diagnóstico de cisto.
Qual o papel do ultrassom em relação à mamografia
A mamografia continua sendo o exame de rastreamento na mulher de risco habitual; as sociedades brasileiras (CBR, SBM e FEBRASGO) recomendam mamografia anual a partir dos 40 anos. Ela enxerga bem as microcalcificações, que o ultrassom vê mal. O ultrassom entra na investigação de queixas, como primeiro exame em jovens, gestantes e lactantes, para esclarecer achados da mamografia e guiar biópsias, e como complemento em mamas densas.
Mamas densas
Na mama densa, o tecido fibroglandular pode esconder um tumor na mamografia, e a densidade alta se associa a um risco um pouco maior de câncer. O ultrassom pode encontrar tumores pequenos que a mamografia não mostrou, como no estudo ACRIN 6666 em mulheres de risco elevado, ao custo de mais biópsias com resultado benigno.
Em mulheres de alto risco, a ressonância costuma ser o complemento preferido, e o ultrassom é uma alternativa quando ela não está disponível.

O que significa um nódulo BI-RADS 4 para a paciente
Receber um laudo “BI-RADS 4” assusta, mas o significado é preciso: o achado não pode ser chamado de benigno com segurança, e por isso precisa de biópsia. Na 4A, a chance de câncer é de até 10%, ou seja, a grande maioria dessas biópsias vem benigna, como fibroadenomas ou alterações fibrocísticas.
Depois vem a biópsia guiada por ultrassom, o patologista analisa os fragmentos, e radiologista e médico assistente conferem se o resultado combina com a imagem (concordância radiopatológica) antes de definir a conduta. Um nódulo suspeito pode ter poucos milímetros: o tamanho sozinho não define a categoria.

Como é a biópsia por agulha grossa (core biopsy)
A core biopsy retira pequenos cilindros de tecido com uma agulha mais calibrosa que a de punção comum, guiada em tempo real pelo ultrassom.
- É feita com anestesia local, e o médico retira mais de um fragmento de pontos diferentes da lesão.
- Muitas vezes se deixa um pequeno clipe metálico no local, para reencontrar a lesão depois.
- Dor leve e hematoma são as queixas mais comuns; complicações maiores são raras.
A punção aspirativa por agulha fina (PAAF) é usada para esvaziar cistos, mas para nódulos sólidos a core biopsy costuma ser preferida, porque mostra a arquitetura do tecido. Se o resultado for discordante da imagem, por exemplo benigno numa lesão 4C ou 5, a orientação costuma ser nova biópsia ou retirada da lesão.
O que descrever no laudo
Além do léxico, um laudo que orienta a conduta traz:
- Indicação clínica e lateralidade da queixa, inclusive se o achado corresponde à área palpável.
- Composição do tecido.
- Cada achado com endereço completo: mama, hora do relógio, distância do mamilo em centímetros e profundidade.
- Três medidas, com o plano de cada uma.
- Descritores do léxico em ordem fixa: forma, orientação, margem, padrão de ecos, achados posteriores, achados associados.
- Doppler e elastografia, quando feitos, e o tipo de cisto sem atalhos.
- Linfonodos por cadeia, com espessura e aspecto da cortical e presença do hilo gorduroso.
- Comparação com exames anteriores, com data, e correlação com a mamografia.
- Conclusão com uma categoria final, a subcategoria 4 quando usada, e a recomendação explícita: controle em quanto tempo, biópsia de qual lesão, ou rotina.
Erros comuns
Categoria sem recomendação
“BI-RADS 4” sem dizer qual lesão biopsiar, em caso de vários nódulos, atrasa a conduta. A recomendação deve apontar o achado pelo endereço.
Rebaixar por idade ou tamanho
Ser jovem ou ter nódulo pequeno não transforma margem angular ou orientação não paralela em achado provavelmente benigno. A categoria segue a pior característica.
Não conferir a concordância após a biópsia
O laudo da biópsia deve ser lido junto com a imagem. Resultado benigno numa lesão de alta suspeita não encerra o caso.
Classificar sem a mamografia quando ela é necessária
Na faixa de rastreamento, o ultrassom isolado pode deixar passar microcalcificações. O ideal é laudar com a mamografia em mãos.
Perguntas frequentes
BI-RADS 3 é câncer?
Não. É um achado provavelmente benigno, com chance de câncer de até 2%. O controle em curto prazo serve para confirmar a estabilidade.
BI-RADS 4 precisa operar?
Não necessariamente. O BI-RADS 4 indica biópsia. A cirurgia só é discutida se a biópsia mostrar câncer, uma lesão que precise ser retirada ou um resultado que não combine com a imagem.
Quanto tempo demora o resultado da biópsia?
Em geral, alguns dias, conforme o laboratório. Veja também quanto tempo costuma levar o laudo de um ultrassom.
Ultrassom substitui a mamografia em mama densa?
Não. Em mama densa, o ultrassom é um complemento da mamografia, não um substituto.
Cisto na mama vira câncer?
O cisto simples é benigno e não se transforma em câncer. O que precisa de atenção é o nódulo com componente sólido.
Conclusão
O BI-RADS traduz o ultrassom de mama numa linguagem comum: categorias 1 e 2 levam à rotina, a 3 a um controle bem definido, e 4 e 5 à biópsia, em geral por agulha grossa guiada por ultrassom. Entender que BI-RADS 4 significa “precisa de biópsia”, e não “é câncer”, reduz a ansiedade. Para quem lauda, o v2025 refina o vocabulário, mas a regra continua: descrever com o léxico, classificar pelo achado mais suspeito e escrever uma recomendação clara.
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Referências
- American College of Radiology. ACR BI-RADS® v2025 Manual e BI-RADS Ultrasound Summary Form (v2025). Reston, VA: ACR, 2025.
- D’Orsi CJ, Sickles EA, Mendelson EB, Morris EA, et al. ACR BI-RADS® Atlas, Breast Imaging Reporting and Data System. 5ª ed. Reston, VA: American College of Radiology, 2013.
- Kaplan E, Aydemir AB. How Does ACR BI-RADS® v2025 Change the Radiologist’s Approach? A Practical Guide Across Mammography, Ultrasound, and MRI: A Narrative Review. Diagnostics, 2026;16(13):2135.
- Chang JM, Ha SM, Yoen H. Breast Imaging Reporting and Data System v2025: Key Updates in US. Journal of the Korean Society of Radiology, 2026;87(3):460-472.
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- Catalano O, Fusco R, De Muzio F, et al. Recent Advances in Ultrasound Breast Imaging: From Industry to Clinical Practice. Diagnostics, 2023;13(5):980.
Este conteúdo tem finalidade educacional e não substitui a avaliação médica. A classificação BI-RADS, a indicação de biópsia e a conduta cabem ao médico que acompanha a paciente.

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